mitos-desmontados

Índice dos mitos antiveg(etari)anos desmontados

Mitos gastronômicos

1. O vegetarianismo quase não tem diversidade culinária. Que graça tem em ficar comendo salada/alface/soja direto?

A estereotipação dos vegetarianos como pessoas que só comem alface, soja ou salada é parte das crenças do carnismo. Transmite a crença equivocada de que a culinária vegetariana é muito restrita, pouco diversificada e sem graça. Mas a verdade é muito diferente disso.

A culinária vegetariana, mesmo sem laticínios, ovos e mel, é muito diversificada, abrangendo milhões de combinações das mais diversas frutas, legumes, verduras, grãos, castanhas, temperos, folhas, sementes, oleaginosas… Entre essas combinações, incluem-se versões veganas de iguarias onívoras: feijoada, bolo, pizza, hambúrguer, pudim, chocolate, coxinha, sorvete… Tudo sem usar carne, leite, ovos nem mel.

Tem-se a ideia errada de que a culinária vegetariana seria diminuta porque muitos carnistas são conformados com as relativamente poucas combinações alimentícias que comem, sendo aversos a experimentar novos pratos. Uma boa parte desses muitos, do tanto que são apegados, de maneira quase viciada, a pratos com carnes, laticínios e/ou ovos, sequer aceitam experimentar pratos vegetarianos, tampouco imaginam que é possível criar grandes variedades de pratos usando “apenas” vegetais, fungos, algas e minerais, preferindo continuar com seu preconceito contra a culinária vegetariana. Um outro motivo possível para esse preconceito é o fato de a esmagadora maioria dos restaurantes, lanchonetes, pizzarias, sorveterias, bares, hotéis e pousadas ignorar a existência da culinária vegetariana, oferecerendo como opções de prato sem carne apenas saladas e/ou massas compostas de ovos e laticínios, ou mesmo não oferecendo nenhuma comida sem carne.

 

2. O vegetarianismo (no Brasil) se baseia predominantemente em pratos de culinárias exóticas e estrangeiras.

Não faltam na gastronomia vegetariana elementos e pratos da culinária típica brasileira, incluindo inúmeros de culinárias regionais. Tapioca, feijoada, maniçoba, vatapá, bobó, pão-de-queijo, acarajé… até churrasco – sobram versões veganas de inúmeros pratos famosos da culinária brasileira.

 

3. Como o vegetarianismo é uma dieta saudável, vou ter que abandonar qualquer guloseima, incluindo refrigerantes, fast-food, bolos e biscoitos. Isso eu não quero!

É verdade que o vegetarianismo é uma dieta bem mais saudável do que a onívora. Mas nunca censurou o consumo de refrigerantes, fast-food, bolos, frituras e outros alimentos junk food. Desde que não contenham ingredientes de origem animal, tudo isso pode ser consumido à vontade, por conta e risco do veg(etari)ano. Uma curiosidade do junk food vegetariano, aliás, é que costuma ser menos junk, menos nocivo para a saúde, do que o junk food onívoro.

 

4. Os veganos são muito regrados com a saúde. Não fumam, não bebem, evitam açúcar branco, temperos fortes e alimentos industrializados em geral, entre outras regras de disciplina dietética.

O veganismo não abrange nada disso por definição. Sua prática consiste simplesmente em não consumir produtos, alimentícios ou não, com ingredientes de origem animal e evitar ao máximo comprar de empresas envolvidas com testes em animais. Não há nada no veganismo em si que regre os hábitos da pessoa referentes à saúde (tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas, consumo de alimentos como açúcar branco e temperos fortes etc.), ainda mais quando são hábitos e alimentos não necessariamente relacionados com a exploração animal.

 

5. Eventos que só disponibilizam comida e bebida veganas excluem os onívoros.

Não há por que onívoros não poderem nem deverem consumir alimentos veganos, a não ser por motivos de restrição alimentar – como diabetes, doença celíaca, hipertensão etc. -, que ainda assim vedam o consumo de apenas alguns alimentos veganos. Ao contrário da relação de impedimento ético entre os veganos e os alimentos de origem animal, não existe nenhum impedimento ético que faça os onívoros não deverem consumir alimentos livres de ingredientes de origem animal.

O que acontece na verdade é o contrário: eventos que só disponibilizam alimentos que contenham um ou mais ingredientes de origem animal excluem os veganos, enquanto a recíproca não é verdadeira.

 

Outros mitos

1. O vegetarianismo é uma moda surgida na década de 1960.

Essa afirmação absurda foi encontrada num artigo na internet, e demonstra patente desconhecimento sobre a própria história humana. O vegetarianismo como costume social surgiu em meados do primeiro milênio antes da era cristã, ora na Índia antiga, ora entre os orfistas na Grécia. Há evidências também de que, antes ainda daquela época, sacerdotes egípcios já se abstinham de carnes. E mesmo o termo vegetarianismo surgiu em meados do século 19, com o surgimento da British Vegetarian Society – antes de tal época, chamava-se o vegetarianismo de “dieta pitagórica”.

Embora algumas pessoas hoje em dia achem que a dieta vegetariana é uma “moda” ligada à saúde e ao bem-estar humano ou a um “ambientalismo fashion” um pouco parecido com o uso de ecobags caras, a existência e crescimento do vegetarianismo adotado por ética desmentem essa impressão.

 

2. O consumo de carne e outros alimentos de origem animal deve continuar porque é uma tradição muito antiga. Não faz sentido pararmos de comê-los depois de décadas de nossas vidas e milênios de história humana.

Esse argumento é o caso mais clássico de falácia de apelo à tradição do carnismo. É refutado pelo fato de que, a exemplo da escravidão humana e das guerras, tradição e antiguidade não têm nada a ver com ética. Não é porque a pecuária e pesca e o consumo de alimentos de origem animal possuem milênios de história mundial e décadas de história individual que são imunes a críticas e reflexões filosóficas.

 

3. Se o veganismo crescer muito, haverá desemprego em massa entre peões, pescadores, vaqueiros, pequenos criadores, açougueiros, apicultores etc.

Esse argumento só se sustentaria se a pecuária e a pesca entrassem em colapso por uma veganização generalizada e extremamente rápida da população mundial, algo que sabemos que jamais vai acontecer. O que poderá acontecer é o lento declínio da pecuária, da pesca e da apicultura por queda gradual de demanda, uma vez que o vegetarianismo continuará crescendo indefinidamente. Com tal declínio, deverá haver um desencorajamento econômico gradual de profissões como peão, pescador, apicultor e pecuarista, que deixarão aos poucos de ser rentáveis, ao longo de diversas gerações.

Demissões nas indústrias de carne, laticínios e granjeiros são esperadas, se considerarmos que as empresas de nome irrecuperavelmente atrelado à exploração animal fecharão as portas. Mas provavelmente não serão abruptas e sistemáticas como numa crise econômica. E os trabalhadores de atividades que explora(va)m animais acabarão recorrendo a capacitações para outros ramos e encontrando outros empregos – muitos deles possivelmente fomentados por veganos -, sendo esperado que o setor agrícola, a indústria de alimentos veganos industrializados e outras atividades econômicas os empreguem ao longo dos anos.

 

4. O vegetarianismo é caro demais. Não é acessível para o bolso da maioria das pessoas.

Esse mito se origina nos fatos de que muitos vegetarianos consomem alimentos relativamente caros, como certos queijos vegetais, chia, granola, quinoa, castanhas-do-pará e variedades integrais e/ou orgânicas de alimentos vegetais, e a substituição proteica da carne é recomendavelmente feita com a diversificação alimentar do prato. Mas esses alimentos integrais, orgânicos e/ou relativamente caros, embora deem à alimentação uma qualidade ainda melhor, não são indispensáveis numa dieta vegetariana.

É possível recorrer a uma alimentação vegetariana saudável com itens tradicionais e baratos, como folhas, legumes, verduras, grãos e frutas populares, todos muito vendidos em feiras de rua, mercados populares e mercearias hortifruti. A proteína texturizada de soja também é uma opção atualmente barata, com algumas cidades vendendo o quilo por menos de seis reais. Até mesmo suplementos de vitamina B12 (ou complexo B contendo B12) podem ser adquiridos a preços baixos – um suplemento de vitamina B12 ou de complexo B que dura 100 dias pode ser comprado sem receita por menos de 30 reais em certas farmácias e lojas de produtos naturais.

Em contrapartida, o consumo de carne, pelo menos bovina, vem sendo algo cada vez mais caro. Periodicamente tomamos conhecimento de que os preços das mais diferentes carnes estão em trajetória de alta, tornando-se inviável para muitas pessoas das classes econômicas D e E. E em discurso no Congresso Mundial da Carne de 2011, o presidente da Associação Brasileiras das Indústrias Exportadoras de Carne confessou que a carne (presumivelmente bovina) é um item que requer algum poder aquisitivo para ser consumida regularmente, ao dizer que “à medida que a renda [das] pessoas aumenta, elas vão poder ter acesso à carne” e “as pessoas comem carne porque quando elas ganham mais dinheiro, elas entendem que elas precisam colocar a carne no prato das famílias delas”.

 

5. Os animais que recebem antibióticos não podem voltar para a linha de produção da criação.

Pelo contrário. Em inúmeros casos, os animais recebem antibióticos também com fins preventivos, não só para tratamento.. E mesmo aqueles que adoecem e são tratados com medicação veterinária voltam para a linha de produção depois de curados. Se animais medicados não pudessem voltar para o plantel de criação, eles seriam sacrificados pelo criador, e não tratados, porque criar animais economicamente “inúteis” é visto pelos pecuaristas como uma perda de tempo – o único valor que a vida dos animais que criam tem para essas pessoas é o seu sentido de funcionamento biológico, que permite ao corpo produzir carne, leite ou ovos.

 

6. Vegetarianismo e veganismo são coisas para poucos.

Essa informação tem como premissas o preconceito em relação ao preço da alimentação vegetariana e à necessidade de força de vontade e convicção ética. Mas não condiz com a verdade. Financeiramente este mito foi desmentido na resposta à afirmação “O vegetarianismo é caro demais. Não é acessível para o bolso da maioria das pessoas”, neste post. Em termos de convicção ética e força de vontade, esses dois dons não são algo próprio de poucas pessoas. Psicologicamente qualquer pessoa pode se preparar para a mudança de alimentação e a adoção do hábito de consultar rótulos e registros de SACs, não havendo aqueles que “não podem” fazê-lo.

 

7. Virar/ser vegano não vai adiantar de nada. Uma andorinha sozinha não faz verão. A pecuária, a indústria pesqueira e a indústria da carne e dos laticínios vão continuar usando e matando animais sempre, são poderosas demais. Não há o que fazer para detê-las.

Pensar assim, seja em relação ao veganismo ou a qualquer outra causa de bem comum, é que não leva a nenhuma mudança positiva no status quo de opressão. É pensando assim que o indivíduo autoriza, ao negar qualquer oposição de sua parte, que a pecuária e a pesca continuem escravizando e matando animais a torto e a direito e também superexplorando seres humanos e devastando o meio ambiente.

E, ao contrário do que o pensamento em questão prega, o veganismo, mesmo quando visto de forma individualista, adianta sim de algo, porque poupa muitas vidas animais de nascer e morrer em miséria em propriedades humanas (estima-se que em média 94 animais deixam de ser dados à luz e abatidos por ano para cada pessoa que se torna vegetariana).

Por tabela, evita também inúmeros impactos ambientais. Economiza milhares de litros de água para cada quilo de carne não comido (15 mil no caso do quilo de carne bovina) – mais do que a soma de todas as providências domésticas tradicionalmente aconselhadas em prol da economia de água, como a moderação do uso do chuveiro e a evitação de goteiras nas torneiras. Previne a emissão à atmosfera de 335 quilos de equivalentes de gás carbônico, quantidade emitida por uma viagem de carro de 1.600km, também para cada quilo de carne bovina evitado. Evita, também para cada quilo de carne não comido, a destruição de inúmeros metros quadrados de ecossistemas e a emissão à Natureza de diversos quilos/litros de excrementos extremamente poluentes (em especial quando se evita comer carne de porco). Em outras palavras, não comer pelo menos carne é algo que supera em muito todas as demais ações pró-sustentabilidade que se costuma ensinar na mídia e nas escolas – embora isso não signifique uma autorização para os vegetarianos negligenciarem ações individuais não alimentares de diminuição da pegada ecológica.

A afirmação em questão também é provada inválida quando observamos não só as consequências da vegetarianização de um único indivíduo, mas sim o ininterrupto crescimento nacional e global do número de vegetarianos e veganos. O indivíduo que se torna vegano não é apenas um indivíduo isolado, mas sim um integrante que se soma a um número de milhões de outras pessoas que se tornaram vegetarianas ou veganas nos últimos anos ao redor do mundo. Esse crescimento não deve ser subestimado em seu poder, até porque vem de fato começando a ameaçar os negócios da pecuária e da indústria da carne.

A ascensão do veg(etari)anismo motivou a criação, em 2009 nos Estados Unidos, do MBA “Masters of Beef Advocacy” (mestres da defesa da carne bovina), que, segundo o Pecuária.com.br mostrou em reportagem de 10/03/2011, foi uma iniciativa para pecuaristas tentarem barrar o crescimento do vegetarianismo e do ativismo pró-veg(etari)ano. Da mesma forma, o AviSite, portal especializado em avicultura, publicou em 09/11/2009 uma notícia em que se reconhecia que a defesa dos Direitos Animais já vinha, pelo menos nos EUA, ameaçando a reputação e lucro da indústria da carne.

Outro aspecto muito importante do crescimento do veg(etari)anismo é a ascensão do veganismo enquanto movimento forçador de mudanças na linha produtiva das indústrias. Um estudo da Ernst & Young, feito em 2008, já colocava o veganismo como uma das maiores ameaças aos lucros de empresas comerciais, mostrando a relevância do veganismo como forte exigente de mudanças substanciais na fabricação e teste de produtos industrializados. Em outras palavras, se as empresas não se adequarem às exigências éticas dos veganos, terão prejuízos, tanto por perderem clientes recém-tornados veganos como por serem denunciadas a público como empresas antiéticas.

E deve-se lembrar também que a militância carnista, enquanto movimento reacionário de oposição ao veganismo, só existe porque se enxerga patentemente num futuro próximo a possibilidade de a população veg(etari)ana crescer tanto que o consumo de carne irá se tornar algo culturalmente repudiado, tal como já acontece hoje, cada vez mais, com o uso de casacos de pele e a apreciação à distância de touradas por brasileiros.

Além disso, todo aquele movimento de progressão ética da sociedade, como os movimentos de direitos civis, direitos femininos, defesa do sufrágio universal, abolição da escravidão humana, equalização dos direitos de negros e brancos etc., nasceu a partir de minorias pensantes, que desenvolveram ideias que conquistaram as massas por via da conscientização e da atuação política e terminaram se tornando ideias dominantes. Por exemplo, hoje são raras as pessoas que acreditam que negros deveriam ter menos direitos que brancos, que a escravidão humana deveria ser descriminalizada ou que a democracia parlamentar deveria ser preterida em favor de um regime monárquico absolutista.

E a tendência é que o movimento defensor do veganismo e dos Direitos Animais tenha o mesmo destino: tornar-se a ideia dominante nas sociedades modernas e ganhar o amparo jurídico dos Estados ao redor do mundo. Portanto, o fato de vegetarianos e veganos hoje serem minoria não evita nem limita que eles se tornem a maioria dominante no futuro e assim tornem a ética das sociedades modernas ainda mais avançada nesse tempo.

Por tudo isso, falar que “não adianta nada” ser veg(etari)ano é não apenas ignorar o poder dos movimento progressistas defensores de direitos, mas também desconhecer a própria história da humanidade e a capacidade desta de mudar e avançar em sua ética.

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