Lisa Simpson está deixando de ser considerada vegetariana, por ainda insistir no consumo de alguns alimentos de origem animal. Ela está sendo cada vez mais considerada uma protovegetariana.
Lisa Simpson está deixando de ser considerada vegetariana, por ainda insistir no consumo de laticínios, ovos e mel. Ela está sendo cada vez mais considerada uma protovegetariana.

Tem havido uma tendência crescente a se aceitar a redefinição do termo “vegetarianismo”. De “dieta caracterizada, no mínimo, pela abstenção de carnes”, o conceito da palavra está se convertendo a “dieta desprovida de qualquer alimento com ingredientes de origem animal”. E para se referir às opções alimentares de quem não come carne mas ainda consome outros alimentos de origem animal, tem sido usado cada vez mais o termo “protovegetarianismo”. Essa conversão do conceito de vegetarianismo pode ter vindo para ficar, e também para dar um empurrão a mais aos agora chamados protovegetarianos no avanço ético rumo ao veganismo abolicionista.

A estritização do vegetarianismo e o uso da palavra “protovegetarianismo” traz nas entrelinhas um recado dos veganos e dos vegetarianos propriamente ditos (os estritos) aos protovegetarianos. Significa que estes ainda têm muito para caminhar rumo a um hábito de consumo realmente ético para com os animais, já que a produção e consumo de leite, ovos e mel têm implicações éticas tão ou ainda mais perversas do que de carne.

Também há aí o evidenciamento de que a crença na inofensividade da produção de leite, dos ovos e do mel foi refutada e perdeu sua credibilidade, até mesmo para muitos onívoros. Daí traz-se a ideia de que quem abandonou a carne mas ainda permanece nos outros derivados animais ainda está, em termos de ética de consumo, mais próximo dos onívoros do que dos vegetarianos propriamente ditos.

Essa transformação conceitual, no entanto, não abole o reconhecimento de que o banimento da carne do prato é um avanço em comparação a quem, por exemplo, só parou ou diminuiu a ingestão de carne vermelha. Por isso o status de protovegetariano é reconhecido como estando à frente dos de onívoro, flexitariano e piscitariano, mas atrás do de vegetariano e distante do de vegano. Daí os protovegetarianos estão deixando de ser reconhecidos como vegetarianos e, com isso, sendo moralmente impelidos a não se satisfazerem com a retirada das carnes do prato.

Há ainda aquelas pessoas, entre protovegetarianas, vegetarianas e veganas, que resistem à tendência, e ainda se apegam ao conceito tradicional de vegetarianismo como abstenção especificamente de carnes. Muitas delas acreditam que isso seria uma tentativa de negar que a abstenção de carne também pode ser uma posição pautada em compaixão e/ou respeito pelos animais. Mas essa preocupação, quando bem analisada, não faz sentido.

Isso porque esse argumento pode ser manipulado de modo a deixar a entender que pessoas que abandonaram a carne vermelha por acreditarem que apenas mamíferos (e, no máximo, aves) têm vontades próprias reconhecíveis também estariam sendo “respeitadoras dos animais”, mesmo não tendo incluído não mamíferos em seu círculo de consideração moral. E ignora que a discriminação moral das fêmeas “produtoras” de leite, ovos e mel e dos seus filhotes, promovida pelo protovegetarianismo, não é menos arbitrária e injustificável do que a exclusão dos animais “de carne branca” intrínseca ao flexitarianismo e ao piscitarianismo.

Sustentando-se em argumentos frágeis e facilmente rebatíveis, a conservação do antigo conceito de vegetarianismo, como simples não consumo de carnes, está cada vez mais difícil. E com isso a nova definição de vegetarianismo, acompanhada do uso do termo “protovegetarianismo”, vai se popularizando. E cresce junto a consciência de que ser lacto, api ou ovolactovegetariano está longe de ser o bastante para se poupar animais não humanos de nascerem condenados a servir vivos ou mortos aos humanos. Mas deve-se deixar claro que, mesmo evoluindo para o abandono completo dos alimentos de origem animal, o vegetarianismo não deixa de ser um marco apenas intermediário do caminho rumo a uma meta ainda mais ética, que é o veganismo. Ser vegetariano não passou a implicar uma nova linha de chegada.

8 comments

  1. Belo texto Robson.

    Importante sua percepção sobre essa situação do movimento.
    Publicações desse tipo servem como um perfeito alerta para quem ainda não se atentou sobre a importância do uso correto das terminologias e também para impulsionar o uso do termo vegetarianismo, em seu sentido real e estrito, bem como histórico e do uso do termo protovegetarianismo também.

    Só vale ressaltar que, particularmente (por razões lógicas e históricas), não considero o vegetarianismo “antigo” como o tradicional e sim como o vegetarianismo do senso comum, que a maioria das pessoas acham que ele seja.
    Tradicional mesmo é o vegetarianismo que não inclui nada de origem animal.
    VEGETArianismo de VEGETAIS.

    E sua analise sobre a relação entre flexitarianismo e ovolactovegetarianismo também foi muito boa.

    Que o movimento desperte para isso, principalmente, aqueles ainda apegados a terminologias errôneas.

    Belo texto, abraços.

  2. Sabe que por esses dias eu andei pensando exatamente nisso!
    Me tornei vegetariana estrita recentemente, desde o dia 2 de junho.
    Eu sou completamente a favor desse conceito, que faz com que fique mais fácil a distinção entre vegetarianos estritos e não estritos.
    O termo vegetarianismo deveria estar estritamente ligado apenas a alimentação apenas com vegetais -como o próprio termo poderia evidenciar- sem nada de origem animal.

  3. Robson,

    Eu tenho que discordar contigo sobre isso. Eu acho que esse termo ainda está confinado nos círculos mais vanguardistas do abolicionismo animal. Me recordo até de sua “gênese” e tentativa (frustrada) de se tornar normal em 2010, no Encontro Nacional dos Direitos Animais. Hoje em dia, vejo poucas pessoas se referindo àqueles que consomem produtos animais com exclusão da carne como protovegetarianos. De fato, o que mais vejo é gente se queixando da “usurpação” do “monopólio” do uso do termo “vegetarianismo” como “vegetarianismo estrito/restrito”, que pese a definição contida nos dicionários.

    1. Sam, eu pessoalmente tenho visto cada vez mais menções ao vegetarianismo enquanto dieta 0% animal, e também tenho observado o uso da palavra “protovegetarianismo” mais vezes do que em outros tempos.
      Não é em todos os círculos sociais veg(etari)anos – como vc diz, vc não viu isso por aí -, mas alguns têm passado a usar esses termos.

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