Os surpreendentes efeitos da misantropia na defesa do veganismo

Misantropia, um veneno para o veganismo e a causa animal

Misantropia: um generalizado detestamento, desconfiança, desgosto, aversão ou ódio pela espécie humana, pela natureza humana ou pela sociedade

Reescrito em 02/05/2017 às 08h47

Um dos grandes fatores que atrapalham e inibem o crescimento e profissionalização do movimento defensor dos Direitos Animais não vem de fora dele. Não é autoria dos antiveganos formadores de opinião, nem dos lobistas e apologistas da pecuária e da indústria lacto-frigorífica.

Mas sim de dentro. Dos que se dizem veganos mas literalmente odeiam uma dada espécie de animais – os humanos – ou a maioria dos indivíduos a ela pertencente – incluindo mesmo os que mudarão de consciência no futuro.

Trata-se da misantropia, o ódio por outros seres humanos ou pela maioria deles – e talvez até por si mesmo por sua caracterização como ser humano.

Convido você a descobrir por que esse comportamento é um veneno para o veganismo, a prevalência de seus princípios éticos e seu sucesso.

 

O ódio misantrópico

A misantropia no meio vegano-animalista vem de pessoas que tomaram um caminho corrompido em termos de assimilação dos Direitos Animais e compreensão da necessidade de se abolir o especismo.

Ao invés de terem percebido que é necessário educar e conscientizar, com paciência, respeito e diplomacia, aquelas pessoas que ainda compactuam, mesmo sem se dar conta, com os sistemas de exploração animal, passaram a crer que a espécie humana é “irreversivelmente corrupta” e “merece ser varrida do planeta” pelo “bem” dos demais animais.

Em vez de dialogar ou mostrar conteúdo didático que denuncie a exploração animal ou traga perguntas inquietantes que tematizem uma eventual reflexão por parte dos leitores ou telespectadores, preferem, como eu já presenciei, “mandar” os onívoros comerem fezes, xingá-los de outras maneiras, declarar-lhes ódio e manifestar um sádico desejo de que sofram horrivelmente por não pensarem como os veganos.

Irracionalmente creem que estão construindo um mundo melhor ao ofender e odiar ao invés de educar. Ainda que admirem grupos como a ALF e a 269life e digam defender a causa vegano-abolicionista, contrariam todos os princípios éticos que movimentam essa bandeira – que sempre incluem considerar moralmente os seres humanos e não lhes fazer qualquer mal.

Além do mais, quando odeiam todo aquele ser humano que compactue de alguma forma com a exploração animal – seja comendo alimentos de origem animal, seja pescando ou caçando, seja indo a rodeios e vaquejadas etc. –, curiosamente negam seu passado.

Muitos dos veganos misantropos de hoje, antes de aderirem ao veganismo, gostavam de rodeios, frequentavam zoológicos e comeram carne por muitos anos. Graças à conscientização de quem preferiu a solidariedade e o ensinamento pacífico, tiveram e aproveitaram a oportunidade de abandonar esse gosto por conscientização.

E um outro detalhe é que essa atitude desvaloriza o trabalho de quem promove educação vegana. O misantropo se recusa a relembrar e aceitar que pessoas podem mudar em sua consciência no futuro, por mais violentas e desigualitárias que sejam suas crenças atuais. Prefere crer numa “natureza humana cruel e egoísta” – o que, aliás, diz muito sobre ele próprio.

 

Como a misantropia sabota a causa vegana

A “consciência” misantrópica é, juntamente com as brigas internas e sectárias, uma das duas grandes pedras no sapato do movimento defensor dos Direitos Animais.

Em primeiro lugar, os misantropos na prática acabam deixando a entender que não querem libertar os animais não humanos. Afinal, não aceitam as providências racionais – todas as quais envolvem a educação vegano-abolicionista e a difusão e consolidação dos princípios da ética vegana – para que o objetivo de conquistar a libertação animal seja viabilizado. Preferem apenas se revoltar impotentemente com a violência especista.

Em segundo, queimam o filme dos defensores dos Direitos Animais. “Confirmam” a crença do senso comum de que nós seríamos extremistas, terroristas, odiadores da humanidade, desejadores do mal aos não veganos. E propagam, num doloroso tiro no pé, a falsa impressão de que o veganismo é um absurdo indutor de práticas violentas.

Em terceiro, os misantropos, ao fazerem suas ceninhas de manifestação de ódio, por exemplo, mandando os onívoros comerem cocô, declarando sua injustificável repulsa pela maioria dos seres humanos ou desejando-lhes agonia, cruéis violências e mortes dolorosas, despertam nos não veganos não o interesse em conhecer o veganismo e a ética animal, mas sim a repulsa por quem defende os animais e a crença de que considerar moralmente os animais não humanos induziria a diminuir o respeito por seres humanos.

Em outras palavras, afastam, ao invés de atrair, as pessoas da compreensão dos Direitos Animais. Tornam-nas ainda mais resistentes do que já são aos diálogos que os defensores dos animais tentam semear.

 

Encarando a misantropia como um mal que precisa ser desencorajado

Todo e qualquer empecilho que iniba o crescimento e amadurecimento do veganismo deve ser tratado com a devida seriedade.

Isso inclui deixar evidente que o veganismo em momento nenhum, nem em sua definição central, aceita a desconsideração moral pelos seres humanos.

Libertar os animais não humanos implica necessariamente promover também a libertação dos animais humanos. Isso inclui ajudar a parcela não vegana da humanidade a compreender, ainda que pouco a pouco, os porquês de se respeitar verdadeiramente os animais não humanos e considerar o veganismo.

Essa iniciativa implica emancipar os seres humanos do condicionamento moral especista que tanto lhes faz mal. Afinal, o especismo promove e conserva diversas violências, relações de poder cruéis e valores morais tóxicos contra os próprios humanos e, por meio dos alimentos de origem animal, lhes traz danos à saúde.

 

Lembremo-nos que nada disso será conseguido desejando que essas pessoas sofram por não terem assimilado o veganismo, ou que um meteoro, um holocausto nuclear ou um raio-gama cósmico extermine a humanidade.

Além disso, tenhamos em mente que os seres humanos merecem respeito ético, tanto quanto os demais animais. Os Direitos Animais implicam nivelar por cima a consideração moral de seres sencientes humanos e não humanos, não colocar um abaixo do outro.

Portanto, na Ética Animal e na luta por igualdade não há espaço para dicotomias. Não é possível libertar os animais sem considerar a libertação humana, nem o contrário.

 

Considerações finais

Por mais que seja “justificada” pela crueldade de muitos humanos contra os animais não humanos, a misantropia é algo fortemente prejudicial para a causa vegana. Portanto, precisa ser desconstruída dentro do movimento vegano-abolicionista o quanto antes.

Precisamos tratar cada ato de violência contra os animais não humanos como um motivo a mais para que a humanidade seja conscientizada e libertada desse embrutecimento – o qual faz mal para todos, independente de espécie. Não mais com desejos de vingança, ódio generalizado e olho-por-olho-dente-por-dente.

Portanto, se você tem o costume de dar declarações misantrópicas e crer que “a humanidade é um câncer no planeta”, peço que reveja essa postura. Porque ela está envenenando o veganismo, anulando dentro de você o cuidado com os princípios éticos dos Direitos Animais e, por tabela, colocando uma grande pedra no caminho rumo ao ideal da libertação animal.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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6 Comments on “Os surpreendentes efeitos da misantropia na defesa do veganismo

  1. Gosto muito deste texto, pois ajudou-me a abrir os olhos.
    Não faz muito tempo, eu havia me tornado minsantrópica, especialmente ao ver inúmeras notícias de maus-tratos aos animais e ao conversar com onívoros que debocharam e fizeram pouco caso do veganismo. Recentemente eu percebi o quanto isso prejudica o movimento pelos direitos dos animais e quanto eu mesma estava sendo especista.
    Além do que, eu estava nutrindo tanto ódio pelo ser humano que estava me fazendo mal. Mas eu sabia que precisava mudar e queria que essa mudança ocorresse. Ver os equívocos internos, do “nosso” pessoal foi o que me fez refletir, bem como seus textos, Robson. Foi então que mudei minha postura para com os onívoros e já vi os resultados aparecendo. Realmente é uma mudança enorme e que de fato ajuda o ativismo, pois você se torna mais receptivo e os onívoros, percebendo isso em você, eles mesmos lhe procuram para saber mais. É aí que se estimula a reflexão e a mudança por parte deles – sua evolução para o veganismo.
    Este debate interno, penso eu, é muito importante e deve ser realizado mais vezes, deve ser tema de mais encontros, eventos etc., pois este comportamento misantrópico realmente prejudica um movimento que vem sendo construído a duras penas ao longo de todos estes anos que é o dos direitos dos animais. Não é justo colocar tudo em xeque por conta de irresponsabilidades individuais.

  2. Isso me lembra o caso da farra do boi no sul do país. Propaganda contra que começou com um politico “coronel” daqui, devido mais ao fato de que o rito servia-se de terras comunitárias que depois foram vendidas para empreiteiras, as mesmas que depois começaram a construir em areas de presevarção. O ÚNICO GRUPO QUE NÂO QUIZ DIÁLOGO NEM COM OS ANTROPOLOGOS foi do dos defensores dos animais que estavam atuando lá. Alegaram não querer conversar com caipiras e selvagens, enquanto o outro grupo estava aberto à dialogo. Agora temos a farra do boi, só que sob um viés ilegal mas não temos mais as reservas e terrenos comuns, ou seja, só um grupo que sai ganhando, não foi o boi, nem o povo e nem os defensores de animais. Mas eles acham isso justo, então…

  3. A proposta da população nativa era abrir uma discussão de como manter a prática de modo que agradasse a todos. Mas foi negado afinal, com nativo selvagem não se dialoga, se oprime.

  4. Muito bom o texto, parabéns!

    Eu sou vegano por amor aos animais, o que inclui todos, e até o mais complexo deles: o ser humano. E tenho muita dificuldade em encontrar pessoas com a mesma ideologia.
    Tornar-se vegan para ter o “direito” de acusar o outro é hipocrisia e atraso!

    Minha esperança é para que os veganos mostrem cada vez mais, que o nosso modo de vida nos leva a uma outra nuance de amor, de tal forma que as outras pessoas se sintam tão motivadas que também queiram se tornar!

    Um abraço a todos =)

  5. Concordo que a melhor maneira de conscientizar as pessoas seja “comendo pelas beiradas”. Mesmo que por dentro eu esteja muito indignada com a violência contra os animais. E acho que perder essa indignação, essa revolta contra a exploração animal não é uma coisa positiva.
    Se ao ver um leitão assado em cima de um mesa eu conseguir ficar ok com a situação então ao ver um bebê humano nas mesmas condições também preciso manter calma e tentar ganhar na conversa.

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