Título de matéria da PETA sobre investigação de crueldades em fazendas fornecedoras de empresa alimentícia que dizia ter adotado "carne feliz". Saiba por que não é uma boa ideia usar denúncias como essa como "provas" de que o bem-estarismo é uma farsa para os animais
Título de matéria da PETA sobre investigação de crueldades em fazendas fornecedoras de empresa alimentícia que dizia ter adotado “carne feliz”. Saiba por que não é uma boa ideia usar denúncias como essa como “provas” de que o bem-estarismo é uma farsa para os animais

Nesse mês de janeiro, a PETA denunciou, com filmagens de câmera escondida, crueldades ocorridas em fazendas fornecedoras de uma empresa estadunidense que dizia ter adotado fornecedores de “carne feliz”, o que comprovaria que não há nada de bem-estar no próprio bem-estarismo, ou seja, o “bem-estar animal” é uma farsa. Isso foi utilizado por alguns sites de Direitos Animais ao redor do mundo como prova de como o bem-estarismo não serve para proteger os animais de exploração e, portanto, não é uma alternativa válida ao vegano-abolicionismo. Mas há problemas no uso de investigações como essa da PETA como provas de que o bem-estarismo é uma balela, uma falsa “proteção animal”.

Esse tipo de denúncia foca apenas uma parte do problema ético do bem-estarismo: a deficiência na fiscalização e a suscetibilidade à mentira, o que garante que algumas criações possam se dizer bem-estaristas sem de fato sê-lo. E, empreendidas por entidades como a PETA, essas investigações não visam defender o fim de todo e qualquer uso de animais, mas sim alertar para a necessidade de se fiscalizar e vigiar fazendas e granjas que dizem ter abraçado o “bem-estar animal”.

Digo isso porque, se as fazendas denunciadas tivessem adotado verdadeiramente reformas bem-estaristas e essa postura fosse comprovada mediante fiscalização, PETA, WAP, Humane Society e outras entidades do tipo jamais iriam denunciá-las como violadoras dos animais. Afinal, o que defendem é o “bem-estar animal”, não os Direitos Animais propriamente ditos.

Partindo-se desse pressuposto, perceba-se que usar investigações levadas a cabo por PETA e congêneres como a prova de que o bem-estarismo é uma mentira pode induzir os leitores ao erro. Eles podem pensar que ele é uma balela simplesmente por não ser verdadeiramente defensor e promotor do “bem-estar animal”, e que passaria a ser eticamente aceitável se houvesse uma fiscalização bem-feita que aprovasse as fazendas denunciadas depois que elas ajustassem sua conduta.

Não perceberão que a verdadeira farsa do bem-estarismo como corrente de “defesa animal” está nos seus fundamentos morais, na forma como vê os animais não humanos e o seu uso como seres submissos e objetificados por seres humanos, não em fazendas e granjas que mentem.

O bem-estarismo é um atraso para os animais porque não condena que eles sejam usados como recursos, como seres submissos sob propriedade humana. Aceita o uso e o assassinato (abate) de animais quando causam “pouco ou nenhum sofrimento”.

Admite e até defende que sejam considerados seres moralmente inferiores aos humanos, já que isso é necessário para que tenham sua carne, seu leite, seus ovos, suas peles etc. apropriados pelos seus exploradores. Sua única objeção é que essa exploração seja feita de modo que o animal viva sob condições ambientais confortáveis e não seja submetido a nenhum sofrimento “desnecessário”. Até porque, no credo bem-estarista, submeter animais a sofrimentos “desnecessários” prejudica a própria produtividade e a imagem institucional das criações.

Com isso, é de se reiterar a necessidade de se denunciar o bem-estarismo pelos motivos certos, munindo-nos com razões abolicionistas. Dizer que ele é uma “farsa” por não funcionar como garantidor de “bem-estar” aos animais é fazer o jogo dos próprios bem-estaristas que dizem defender os animais não humanos. Acaba sendo uma maneira pela qual os próprios abolicionistas caem na cilada de compor demanda para que haja reformas verdadeiras e fiscalização que façam a criação animal bem-estarista produzir alimentos e outros itens “felizes de verdade”. Em outras palavras, é desastroso para os animais, que continuarão sendo explorados, só que dessa vez sob os olhares rigorosos da fiscalização sonhada pela PETA e outras organizações de “bem-estar animal”.

3 comments

  1. Eu defendo o bem-estarismo, afinal sem ele nada será feito pelos animais que serão abatidos. Afinal, até o dia que todo mundo for vegano (se esse dia chegar), é necessário que o sofrimento deles seja minimizado o máximo possível.

    1. O bem-estarismo não soluciona o problema da exploração animal, pois ainda mantém a visão dos animais como meras fontes de produtos e não como um fim em si. Então porque defender o bem-estarismo ao invés de defender o abolicionismo, que resolveria o problema por completo? Você afirma que sem o bem-estarismo nada será feito pelos animais que serão abatidos, mas isso é um equívoco. Adotando uma posição ética vegano-abolicionista, estaremos fazendo muito mais pelos animais do que adotando uma postura bem-estarista. Pois o abolicionismo propõe que animais e os animais e os seus interesses sejam respeitados e não que simplesmente continuem a ser explorados em condições melhores. E como chegaríamos nesse mundo onde todos são veganos sendo a favor do bem-estarismo, onde os animais ainda são enxergados como servos humanos? O sofrimento deles não tem que ser só minimizado, tem que deixar de existir.

  2. Fazendo uma analogia com a conquista de direitos de grupos humanos (negros, mulheres, etc.), na maior parte dos casos essa conquista foi paulatina. Além de ser muito mais factível, é muito mais provável de ser aceita se for feita por etapas, até mesmo por pessoas mais conservadoras.

    Mas alguns defensores dos direitos animais — como o autor deste blog ­— têm adotado uma postura muito binária, considerando quase como inimigos os defensores do “bem estar animal”, bem como os ovo-lacto-vegetarianos. Por meio de vários textos, aponta um “dedo na cara” de não veganos.

    Não que seja suficiente defender “carne feliz”, “bem estar animal”, ou mesmo o fim do consumo de carne de animais, pois os direitos animais vão muito além disso, como diz muito bem o Robson. O problema é que não tem considerado essas mudanças como um avanço (chegando a considerá-las um retrocesso). O teor de muitos de seus textos sugere algo como: “você pode até ter se preocupado em escolher carne de fornecedores que supostamente não maltratam [tanto] os animais; você pode até ter parado de frequentar eventos que dependem [diretamente] da exploração animal; você até pode ter abolido completamente o consumo de carne de animais; mas tudo isso não significa nada, e enquanto você não aderir ao veganismo, continua fazendo parte do problema”. Essa postura pode repelir muitos potenciais simpatizantes da causa que possivelmente se tornariam veganos no futuro. (Acredito não ser a intenção do autor, o qual pode discordar de meu ponto de vista, bem como outros leitores também podem não concordar comigo; estou apenas mostrando a impressão que tenho ao ler vários de seus textos.) Seria muito melhor se, em vez disso, dissesse algo como “as mudanças que você fez são um bom progresso, e apesar de não serem suficientes e haver um longo caminho pela frente, está de parabéns pela preocupação em mudar seus hábitos e ideais por motivos éticos”.

    Concordando com o comentário do Alex, ainda que fornecedores de carne passem a adotar medidas “bem-estaristas” visando apenas a melhorar a qualidade do “produto”, aumentar o lucro e obter uma boa imagem frente aos consumidores, para os animais em questão já é uma mudança significativa. A pecuária não será abolida de um dia para o outro, e os animais “de consumo” que estão vivos hoje e serão abatidos de qualquer forma certamente prefeririam o “bem estar” se pudessem escolher entre essa mudança ou continuar como estão. É óbvio que ainda assim estão sendo utilizados como propriedade humana e vistos como inferiores, porém é uma falsa dicotomia supor que só se pode causar muito sofrimento explícito aos animais OU abolir completamente a exploração de animais. Um meio-termo (o “bem-estarismo”) não pode se tornar o objetivo final, mas é um avanço gradual em rumo ao abolicionismo.

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