O que faz você ter medo ou relutância em aderir ao veganismo?

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Há uma versão melhorada e atualizada deste artigo no livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética

Muitas pessoas têm um notável receio, ou mesmo medo, de se tornarem veganas. São bem diversos os motivos, aos quais é necessário elaborar respostas consistentes, que as tranquilizem e lhes mostrem um caminho seguro para uma vida mais ética e mais respeitosa para com os animais. Este artigo visa fazer isso, respondendo a doze temores comuns entre pessoas não veganas sobre o que poderia acontecer depois de sua veganização.

1. Tenho medo de contrair algum problema de subnutrição, como deficiência nutricional e magreza excessiva.

Não há o que temer quando uma dieta vegetariana (sem nenhum alimento de origem animal) é bem balanceada e vem suplementada com vitamina B12. Essa alimentação pode prover todos os nutrientes, sem problemas, e costuma ser ainda mais saudável do que a média das dietas não vegetarianas.

Diversas instituições de saúde e nutrição do mundo, como a Academia Americana de Nutrição e Dietética, o Ministério da Saúde brasileiro (p. 84), o também brasileiro Conselho Regional de Nutrição da 3ª Região, o Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha e o Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália, reconhecem que uma alimentação livre de componentes animais pode sim ser muito saudável e satisfazer a todas as necessidades do corpo humano.

Se você tem dúvidas sobre como montar refeições vegetarianas deliciosas e nutritivas, consulte um(a) nutricionista. Está cada vez mais fácil encontrar profissionais desse ramo que respeitam e orientam vegans e vegetarianos, e cada vez menos insistem em forçar seus pacientes a voltar a consumir produtos animais.

 

2. Reluto em contrariar os ciclos da vida ao subverter minha natureza onívora.

A exploração animal não respeita nada que possa ser considerado ciclo da vida e da Natureza. Isso se deve aos fatos de que ora a pecuária e a pesca são formas extremamente antinaturais e nocivas, com impactos ambientais colossais e consequências éticas fortemente destrutivas, de obtenção de “alimentos”, ora tratar seres sencientes como coisas não é parte de nenhuma forma natural de se conseguir e ingerir alimentos.

Além disso, ao contrário dos animais carnívoros e onívoros do meio selvagem, o ser humano não precisa ingerir carne e outros itens de origem animal – a não ser o leite materno de sua mãe ou outra doadora humana – para sobreviver. Nem há nenhuma ordem natural que obrigue os humanos a explorar e matar animais para se alimentar – exceto em se tratando de parte dos povos indígenas, muitos dos quais precisam caçar e pescar para sobreviver.

Além disso, ser vegan não quebra nenhum ciclo natural. Pelo contrário, reforça os laços entre os seres humanos e a Natureza não humana. Explorar animais e ameaçar, por meio da pecuária e da pesca, o meio ambiente, isso sim são graves violações de inúmeros ciclos naturais e vitais.

 

3. Temo ser alvo de preconceito, chacotas e bullying se virar vegan.

A adesão ao veganismo requer também coragem e preparo para lidar com gente sem caráter, como bullies e pessoas que insistem em posições preconceituosas e ofensivas. Aliás, pensemos, essa coragem e preparo é requerida de todo ser humano a qualquer momento da vida. Basta termos algum pensamento ou crença divergente do que a maioria acredita, para sermos alvos em potencial de preconceito e hostilidade.

Para pelo menos minimizar as investidas de preconceituosos contra você, dedique sua transição ao veganismo a obter mais e mais conhecimento sobre a ética animal e os fundamentos vegano-abolicionistas. E procure se preparar também para responder às provocações mais babacas. Com o devido preparo psicológico e argumentativo, provavelmente você saberá calar os antiveganos mais inconvenientes e chatos.

Quanto ao bullying, se você vier a sofrê-lo na escola, denuncie os bullies à coordenação ou diretoria/gestão. Se for na internet, você pode denunciá-los em alguma delegacia de crimes virtuais.

 

4. Estou com medo de perder uma imensa diversidade culinária, que contém ingredientes de origem animal, e contar apenas com um número reduzido e pouco diversificado de receitas.

É exatamente o contrário que aguarda você: uma imensa diversidade de pratos vegetarianos (sem nenhum ingrediente de origem animal) deliciosos, nutritivos e bem mais saudáveis do que os pratos com alimentos de origem animal. E o melhor é que não precisam de nenhuma ingrediente central universal, tal como a maioria dos não vegetarianos precisam de carne, leite/laticínio e/ou ovos como componente principal.

Uma pesquisa rápida sobre “receitas veganas”, como as divulgadas pelo Veganagente, irá lhe apresentar um universo de milhares de delícias, ou mesmo milhões de combinações gastronômicas possíveis. Você sentirá liberdade de preparar uma grande diversidade de pratos, nunca uma sensação de estar preso(a) numa diversidade pequena.

 

5. Tenho medo de não ter mais onde comer fora de casa, seja porque trabalho e/ou estudo e não posso almoçar ou jantar em casa, seja porque minha vida terá menos graça se não tiver um bom restaurante para almoçar e jantar fora de vez em quando.

Estão surgindo cada vez mais restaurantes vegetarianos no Brasil. E mesmo os restaurantes com carne ou protovegetarianos (sem carne, mas que ainda oferecem opções com laticínios, mel ou ovos) estão aprendendo a oferecer pratos vegetarianos nutritivos e saborosos. Com isso, grande parte dos estabelecimentos do tipo, desde os self-service até os que oferecem pratos feitos, já oferecem pratos sem nada de origem animal, tanto sob demanda do cliente como permitindo-lhe escolher o que vai colocar no prato.

Isso sem falar nas universidades. Pelo menos no caso de muitas públicas, elas já contam com restaurantes vegetarianos ou protovegetarianos (com opções vegetarianas) nas redondezas, assim como lanchonetes e cantinas que oferecem opções sem derivados de origem animal.

Assim sendo, é cada vez mais provável você ter opções naquele restaurante ou lanchonete perto de onde você trabalha ou estuda, mesmo que ele não seja vegetariano. Se ainda não tem, não desanime.

Você comporá, depois que se tornar vegan, uma população crescente de pessoas que não consomem nenhum alimento oriundo de exploração animal, ou seja, uma demanda crescente por estabelecimentos que no mínimo ofereçam opções vegetarianas. Mesmo que sua cidade ainda não trate bem vegetarianos e vegans, ela começará a tratar a partir dos próximos anos, e sua adesão e permanência no veganismo será essencial para que isso aconteça. Você, mesmo sem perceber, é parte da demanda pelo respeito a quem não consome alimentos de origem animal.

 

6. Temo não ter onde comer em minhas viagens. Costumo viajar com alguma regularidade, e será um desastre se eu perder as opções onde tomar café-da-manhã, almoçar e jantar nos lugares que visito.

Esse temor está cada vez mais perdendo a razão de existir. Um arauto do crescimento das opções vegetarianas em locais turísticos é o site Vegetariando Por Aí, que mostra onde comer em diversos destinos nacionais e internacionais aonde você vai para fins de turismo, diversão ou trabalho.

Além disso, restaurantes que, até alguns anos atrás, jamais haviam pensado em atender vegans e vegetarianos estão tendo cada vez mais contato com esse público. Passaram então, na medida do possível, a buscar satisfazer a fome dessas pessoas, com pratos personalizados – mesmo que atualmente, em alguns lugares, o prato em questão ainda seja, por exemplo, arroz, feijão sem carne e salada, porém saciando a fome do indivíduo.

 

7. Receio não contar mais com opções boas, baratas e acessíveis no mercado para xampus, sabonetes, cremes de pentear, cremes hidratantes de cabelo, sabões em pó etc.

Aderindo ao veganismo e realizando uma busca por empresas que não testam em animais e produtos delas que não usam ingredientes de origem animal, você descobrirá uma boa variedade de opções, grande parte delas baratas, acessíveis e de qualidade, desses produtos.

Mesmo se você, por exemplo, achar o sabonete Phebo (opção vegana de sabonete mais acessível no mercado atualmente) caro e pouco durável, você pode optar, por exemplo, por sabão de coco ou receitas caseiras de sabonetes artesanais (muitas das quais usam glicerina vegetal), que sairão mais barato do que se comprasse no mercado. Ou se estiver difícil de encontrar xampus e condicionadores em conta, experimente receitas alternativas low-poo ou no-poo, que consistem em substituir parcial ou totalmente produtos de cabelo por opções caseiras e naturais que são ainda melhores para os cabelos.

 

8. Meu receio é de sofrer com um estouro do meu orçamento, por causa de comida vegetariana cara e opções veganas idem de produtos não alimentícios.

O que pode acontecer é justamente o contrário. Com a substituição das carnes e queijos, que têm custado dois dígitos de real o quilo, por opções vegetais – mesmo aquelas que servem para fazer imitações vegetais de carne e queijo em casa –, seu orçamento pode até diminuir. Compare, por exemplo, o preço de dez quilos de carne e queijo com o de vinte quilos de vegetais baratos diversos da feira (frutas, verduras, legumes, grãos etc.). Sairá muito mais em conta comprar os vegetais.

Se os produtos de higiene da pele ou capilar (sabonetes, xampus, cremes de pentear etc.) veganos poderão custar caro para você, optar por opções caseiras e naturais (como as receitas no poo e os sabonetes artesanais com glicerina vegana) pode baratear muito esse tipo de item de consumo.

E lembre-se: você não tem nenhuma obrigação nutricional de consumir, por exemplo, mortadela vegetal, queijo vegetal ou qualquer outro produto industrializado que (ainda) custa caro.

 

9. Meu medo é perder o respeito de minha família e de meus amigos. Todos eles são “carnívoros” convictos e não costumam tolerar quem adota outras opções alimentares, exceto por motivos de restrição médica ou religião.

Como foi dito anteriormente, aderir ao veganismo é uma postura de coragem e resiliência. E mesmo essa coragem já é requerida de nós no dia-a-dia, para lidarmos com a boçalidade de quem nos desrespeita por pensarmos diferente do status quo seja no que for.

Assim sendo, com a devida coragem e determinação, você poderá, por exemplo, conversar com seus familiares e amigos para respeitarem você e mostrar-lhes que o veganismo faz sentido e merece consideração ou, no mínimo, tolerância.

De quem insistir em não tolerar seu veganismo, só restará se afastar, já que essas pessoas, pela postura de desrespeito da parte delas, não estão sendo verdadeiramente suas amigas.

 

10. Tenho uma grande relutância em aderir a uma alimentação que vai diminuir minha masculinidade, me fazer parecer “menos homem” perante meu pai, meus amigos e a sociedade.

A cultura da masculinidade é uma prisão que, além de discriminar e violentar as mulheres, confina os próprios homens numa pequena gaiola e os ata a fios de marionete. Obriga-os a se comportar de acordo com um estrito e totalmente desnecessário código de conduta. E força o homem a realimentar um constante ódio por aquilo que é considerado “feminino” ou ligado à homossexualidade – ou seja, misoginia e homofobia –, além de torná-lo incapaz de aceitar e se adaptar às mudanças sociais e culturais. É incompatível com a liberdade de você ser você mesmo.

Reflita, antes de pensar que o veganismo e o vegetarianismo podem “comprometer sua masculinidade”: que benefícios a “masculinidade” traz para você? Os eventuais benefícios de ser “macho” compensam os malefícios, como a falta de liberdade e a coação para você ser violento e insensível o tempo todo? E o que compensa mais, objetivamente falando: ser vegano e dizer não a uma cultura violenta, discriminatória, cheia de ódio e contrária às liberdades individuais de seres humanos e não humanos, ou continuar atado a uma “virilidade” tóxica que tem feito muito mais mal do que bem para você?

Pense sobre isso, até porque veganismo requer senso crítico e capacidade de questionar a ordem das coisas e os sistemas de dominação e poder.

 

11. Estou com um bom medo de levar uma reprimenda de minha nutricionista e de outros médicos com quem me consulto, depois de abandonar os alimentos de origem animal.

Não tenha medo de gente preconceituosa contra seu veganismo e vegetarianismo. Se eles estão orientando você erradamente, induzindo você à crença equivocada de que vegans não podem ser saudáveis, troque a(o) nutricionista e cada um dos demais profissionais de saúde que estão tentando fomentar em você o preconceito.

Há cada vez mais profissionais da nutrição e de outras áreas de saúde humana que estão se preparando ou já estão preparados para orientar vegans e vegetarianos com aceitação e respeito. Se você tem plano de saúde ou pode pagar por consultas particulares, tente um a um entre as(os) nutricionistas até encontrar algum(a) que respeite sua opção alimentar e saiba orientar você a uma alimentação saudável livre de componentes de origem animal. E denuncie à operadora do plano de saúde qualquer especialista que venha desrespeitar e coagir você.

 

12. Meu temor é de que, depois de aderir ao veganismo, vou me sentir obrigado(a) a dar mais e mais passos rumo a um consumo cada vez mais radical: alimentação orgânica local, consumo obrigatoriamente de pequenos fabricantes, pegada ecológica mínima, boicote a empresas que exploram seus funcionários etc.

Não precisa se encucar com isso. Aderir ao veganismo fará parte de sua evolução individual, e essa evolução respeitará seu ritmo de assimilar e aderir a novas ideias e práticas.

Não há relações diretas e óbvias que obriguem terminantemente vegans a aderir à alimentação orgânica, ao consumo exclusivo de fabricantes pequenos e locais, ao esforço por uma vida maximamente sustentável etc.

Há ligações que fazem todas essas causas, do veganismo e ambientalismo aos Direitos Humanos, se complementarem. Mas nada aqui é estritamente obrigatório de se aderir. Portanto, você pode aderir, por exemplo, à pegada ecológica individual mínima, à alimentação orgânica, ao consumo local e desindustrializado, ao boicote aos shoppings etc. apenas quando se sentir preparado(a) para isso. Não tome isso como uma imposição ou uma urgência a sacrificar seu bem-estar.

Além disso, o veganismo já é um bom avanço, um passo necessário para um consumo cada vez mais ético.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “O que faz você ter medo ou relutância em aderir ao veganismo?

  1. No começo do veganismo tive muito medo de ir parar no hospital… e a família ficou muito preocupada com essa minha decisão, mas tudo não passava de desinformação e maus hábitos, sem conhecer o estilo de vida. Pude saborear muitos alimentos do mundo vegetal e a quantidade é tão grande que até hoje não pude conhecer outros vegetais, é muito divertido quando descobrimos algo novo que nunca tínhamos experimentado no mundo dos vegetais, me sinto super bem e não tive nenhum problema de saúde até hoje, já fazem 3 anos que sou vegano. Superar o medo me ajudou a encarar um problema pessoal e admitir a mim mesmo encarar a própria realidade e enfrentar a opinião da sociedade, como mencionado no texto, tem que ter coragem e ser determinado para bancar o seu posicionamento e não ser influenciado por comportamentos que causam sofrimento e dor, crueldade e humilhação aos animais de outras espécies, já que não desejamos o mesmo a nós. Aprendi que com o veganismo, nos tornamos muito mais conscientes do que consumimos e de como tratamos os animais… e que é possível ajudarmos a melhorar todo esse cenário, se deixarmos o comodismo de lado e fazermos a nossa parte, reconstruindo essa realidade. Ter medo de mudanças acredito ser comum, mas é preciso superar isso para que o caminho seja positivo tanto para nós humanos quanto para o meio ambiente e principalmente para os animais.

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