Os obstáculos à universalização da frase de Francione “O mundo é vegano, se você quiser”

Frase "Tem certeza, Francione?" adicionada por mim

Frase “Tem certeza, Francione?” adicionada por mim

Reescrito em 05/04/2017 às 00h43

Uma das frases mais conhecidas de Gary Francione, o mais conhecido teórico do abolicionismo animal da atualidade, é “O mundo é vegano, se você quiser”.

Muitos realmente acreditam que todo ser humano poderia, neste exato momento, independentemente de como está sua vida, entrar numa reflexão filosófica e decidir tornar-se vegano.

Mas será a frase de Francione realmente faz sentido independente do que as pessoas estão vivenciando no momento? Ela é universal e tende a ser infalível, como muitos sonhadores acreditam?

 

Privações e violências: obstáculos que impedem que o mundo se torne vegano só a partir da vontade de quem já é vegan

Uma observação da realidade social coletiva e individual em países como o Brasil vai desafiar a frase de Francione.

Perceberemos que, antes que o mundo se torne vegano a partir de nossa vontade individual, será preciso um longo esforço para ajudar bilhões de seres humanos a se libertarem da situação de dominação, violências e privações à qual estão submetidos.

No Brasil e na grande maioria dos demais países, a maioria das pessoas está submersa numa vida tão repleta de sofrimento que não terão qualquer tempo, condição e oportunidade a curto prazo para começar a refletir sobre veganismo e Direitos Animais.

Mulheres dominadas pelo medo de apanhar de maridos abusivos, sem-tetos preocupados em achar um novo lugar da selva de concreto para se alojar e em ter as três refeições no dia seguinte, adolescentes com medo de apanhar de pais alcoólatras ou serem expulsos de casa, entre outros casos de pessoas em estado de extrema vulnerabilidade, não têm, enquanto tão vulneráveis, condições psicológicas e materiais de dividir suas preocupações em acordarem vivos e inteiros no dia seguinte com os animais explorados pela pecuária ou asfixiados pela pesca.

Algo parecido acontece com incontáveis indivíduos submissos à ordem capitalista. A máxima de Francione se torna ingênua quando pensamos nas pessoas que:

  • Se estressam no trânsito engarrafado;
  • Pegam ônibus e/ou trens lotados;
  • Trabalham exaustivamente entre 8 e 14 horas num dia;
  • Também trabalham nos fins de semana;
  • Voltam para casa exaustas com o simples desejo de comer, descansar e se preparar para o dia seguinte;
  • Ganham um salário muito baixo ou estão submetidas a subempregos de renda muito baixa;
  • Têm como única ou principal diversão a televisão e as redes sociais do celular, com toda a distorção da realidade e manipulação de opiniões públicas no jornalismo tradicional e nos boatos de WhatsApp.

A grande maioria das pessoas que vivem assim estão física e mentalmente aprisionadas numa ordem que não lhes dá dignidade. Vivem apenas para ganhar um pouquinho de dinheiro que seja para pagar as contas e ir sobrevivendo.

Nessa situação, acabam não tendo nem sequer alguns minutos livres para filosofar ou pesquisar sobre os efeitos perniciosos da pecuária, da pesca e de outras formas de exploração animal para os seres sencientes e o meio ambiente.

Muitas dessas pessoas, tamanho o estresse e o cansaço a que vivem submetidas e a parca educação familiar e escolar que receberam, nem mesmo têm as plenas condições para manter uma postura de respeito ético a outros seres humanos.

Com isso, vemos reproduzirem-se preconceitos como o machismo, o racismo, a transfobia e a homofobia e condutas mal-educadas, como tumultos em trens e ônibus lotados, negligência à necessidade moral de responder aos cumprimentos na rua, lixo jogado no chão, uso de cigarro perto de outras pessoas etc.

Não tendo dado sequer o passo do domínio da ética de respeito ao próximo humano, pessoas com uma vida nesse estado não terão qualquer disposição para dar o passo posterior a esse, o do respeito aos demais animais.

Aliás, muitas delas mal têm condições de cuidar de si mesmas, de sua própria saúde física e mental. Muitas vezes não conseguem planejar o que vão comprar na feira, nem montar um planejamento alimentar, nem dedicar meia hora do dia a atividades físicas livres.

Há aqueles nesse meio, inclusive, que não conseguem se concentrar o suficiente para abandonar a dependência do álcool e do cigarro. Até porque ambos lhes servem como únicos atenuantes, com os quais podem contar todos os dias, do sofrimento cotidiano, do estresse de todos os dias, da angústia que é não ter dinheiro para se divertir nem tempo para realizar o que sempre sonhou em fazer.

Pessoas nessas situações até poderão experimentar uma refeição vegana na casa de um parente ou amigo vegano ou vegetariano, ou, no caso dos sem-teto, receber um almoço vegano de um grupo de filantropia. Mas isso dificilmente irá fazê-los começar a ler artigos e livros sobre os Direitos Animais e começar um esforço para selecionar disciplinadamente produtos sem ingredientes de origem animal fabricados por empresas não (mais) envolvidas com testes em animais.

 

Quem, na realidade atual, tem mais probabilidade de se tornar vegan

Considerando-se todos esses obstáculos para os trabalhadores mais aprisionados na ordem ao menos começarem a pensar no sofrimento animal, é presumível que a grande maioria dos veganos de hoje, quando aderiram ao veganismo, já contavam com alguma flexibilidade de horários e o privilégio de ter horas realmente livres no seu dia-a-dia.

Ou só estudavam, ou tinham um emprego com o suficiente de direitos e horas realmente livres assegurado, ou obtinham alguma renda de bolsas acadêmicas (Pibic, Pibid, PET, bolsas de pós-graduação, manutenção acadêmica etc.), ou contavam, por alguma outra maneira, com a possibilidade de administrar seu tempo.

Presumivelmente são poucos os que, não contando com essas facilidades, conseguem espremer seu dia-a-dia já saturado e sofrido para aderir ao veganismo ou à alimentação vegetariana (livre de componentes de origem animal).

 

Um alerta muito importante

Pensando nessa realidade e como muitos hoje em dia acabam privados da oportunidade de considerar o veganismo, preciso dar um alerta.

Não estou dando razão aos antiveganos que justificam seu próprio não veganismo com base na pobreza alheia, os adeptos da lamentável atitude do cosplay de pobre. A abordagem que faço neste artigo é substancialmente diferente e discordante do que eles acreditam.

A diferença essencial é que a minha posição, como revelo adiante, é de mostrar como o meio vegano pode reencontrar a importância política do veganismo e dos Direitos Animais, encontrar um jeito para juntar forças com os movimentos sociais e políticos de esquerda e ajudar a demolir uma ordem tão injusta que confina tantos seres humanos numa situação de privação social e infelicidade perpétua.

Já a dos cosplayers de pobre é de conformismo com esse estado de coisas. Para eles, os pobres que se virem com comida de péssimo valor nutricional e definhem em suas privações e sofrimentos. O que importa a esses antiveganos é defender os alimentos de origem animal muitas vezes gourmet que eles consomem, não importa o mal que a produção destes cause aos animais não humanos, ao meio ambiente e aos próprios seres humanos.

Só quando quiserem é que irão tomar alguma posição a favor da justiça social, desde que esta não lhes mexa nos privilégios de consumo.

Agora que você sabe que eu não estou abordando os obstáculos à frase de Francione de maneira fatalista e conformista, conheça o que eu proponho, a seguir, para os veganos tomarem partido na luta por igualdade e equidade sociais.

 

A necessidade urgente da politização do veganismo e da sua interligação com os movimentos sociais

Tendo em vista o dia-a-dia sobrevivencialista de inúmeros seres humanos num mundo tão cheio de desigualdades, quero chamar você para refletir: como os veganos podem atuar nessa realidade, de modo a tornar possível a universalização do veganismo que Gary Francione tanto preconiza?

A palavra-chave para isso é politização. É reconhecer que o veganismo, até por seus princípios éticos, tem tudo a ver com a construção de um mundo melhor para todos os seres sencientes, sejam eles animais não humanos ou humanos.

Negar a importância política humana da ética vegana é rebaixar o veganismo a um mero hábito de consumo vegetariano. É virar as costas para o objetivo desse modo de vida de libertar os animais não humanos dos costumes especistas.

Em relação a esse objetivo, deixo claro que ele só poderá se concretizar quando o veganismo se tornar realmente acessível a todos os seres humanos – ou, pelo menos, os das sociedades não indígenas. E isso só será possível quando as bilhões de pessoas que vivem as privações e violências que mencionei mais acima sentirem o delicioso sabor da libertação.

Ou seja, quando:

  • As mulheres não mais serem assaltadas pelo machismo e pela misoginia;
  • Os negros deixarem de ser violentados pelo racismo e pelas desigualdades raciais;
  • A população pobre se livrar das cruéis desigualdades sociais do capitalismo e construir uma vida à altura de sua dignidade;
  • O capacitismo der lugar à total inclusão e aceitação das diversidades e deficiências;
  • As barreiras físicas, políticas e legais entre nações, incluindo todos os muros da vergonha, forem derrubadas em favor de uma grande comunidade humana internacional;
  • Os motivos sociais que levam pais de crianças e adolescentes a se alcoolizarem deixarem de existir etc.

Na luta para que esses objetivos sejam alcançados, o engajamento dos veganos será essencial. Se queremos difundir nosso modo de vida e nossos princípios éticos entre a maioria da humanidade, saberemos o quanto é lógico que lutemos para que essa propagação se torne plenamente viável e livre de obstáculos sociais, econômicos e políticos.

Com isso, poderemos fazer nossa parte à maneira de cada um, por meios como:

  • Acolher mulheres e meninas vítimas de relacionamentos abusivos;
  • Ajudar adolescentes expulsos de casa por motivos como homo-lesbofobia, transfobia, intolerância religiosa ou ódio político;
  • Aderir a movimentos sociais e, dentro deles, na medida do possível, dialogar sobre como o veganismo e os Direitos Animais podem se aliar às bandeiras dos mesmos;
  • Criar cooperativas que empreguem moradores de rua;
  • Encorajar outros veganos a tomarem atitudes de politização e ajuda ativa ao próximo;
  • Reforçar nas universidades e por meio de livros a teoria vegana interseccional etc.

Essas intervenções ajudarão cada vez mais pessoas a se libertarem das privações que as impediam de ter oportunidades para conhecer e abraçar o veganismo. E então será gostoso dizer para o mundo que o veganismo está ao alcance de todos e não é mais cercado por privilégios de classe.

 

 

Considerações finais

Hoje em dia a frase de Gary Francione ainda é ingênua ou mesmo socialmente insensível, por desconsiderar que muitos seres humanos se encontram incapazes de pensar um pouco que seja nos Direitos Animais. Em outras palavras, o mundo hoje não se tornará vegano a curto prazo partir de nós simplesmente querermos.

Mas é possível reverter essa realidade e torná-la cada vez mais realista. Por meio da atuação política – o que, para muitos, implicará também responder e desmontar argumentos reacionários de vegans de direita e de antiveganos de qualquer vertente ideológica -, poderemos ajudar a minar as desigualdades sociais impostas pelo capitalismo e quebrar muitas correntes e muros que impedem seres humanos de desfrutarem de uma vida digna e livre e, por tabela, pensar em outras questões além de suas próprias vidas.

Então, é possível transformarmos a frase original de Francione numa versão politizada e coletivizada:

“O mundo é vegano, se nós quisermos quebrar os obstáculos a isso.”

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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