Onde está a ilusão? Resposta à imagem “Produtos à base de gado”

Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Atualizado em 16/02/2015, escrito originalmente em fevereiro de 2012. Como o texto é originalmente de alguns anos atrás, alguns links podem “quebrar” com o tempo. Se você descobrir algum link quebrado no texto, por favor informe nos comentários deste texto. Informe também se encontrar alguma informação que eventualmente se descubra estar errada ou desatualizada.

Com a colaboração de Fabiu Buena Onda

Introdução

Há vários anos circula na internet, como um viral, uma imagem (posta em miniatura acima) que lista inúmeros produtos que seriam feitos à base de derivados de origem animal – especificamente derivados bovinos. Seu título é “Produtos à base de gado” e lista 75 tipos de produtos industrializados que possuem, ou possuíam, uma marca com restos de cadáver bovino e/ou leite. E encerra com duas variantes de mensagem ofensiva: “Resumindo: Sua vida é uma ilusão, seu vegetariano chato!/vegan chato do c…!”.

A figura se aproveita do pouco senso crítico de muitas pessoas, que não se empenham em confirmar a sua veracidade – até porque poucos aceitariam verificar a origem de tamanha variedade de produtos – e da relativa raridade do costume de se estudar e pesquisar sobre o que a internet mostra – o que dá brecha, inclusive, às tantas lendas virtuais que aparecem todos os anos.

E acaba tanto arrebanhando pessoas para o carnismo (ideologia que defende o consumo de produtos animais), segundo o qual nada adiantaria em ser vegano num mundo dominado pela exploração animal, como assustando vegans e vegetarianos em transição ao veganismo, que muitas vezes se veem sem argumentos suficientes para rebatê-lo ou mesmo põem em dúvida a própria lógica do seu veganismo.

Mas a imagem carece tanto de consistência lógica como de honestidade intelectual e respeito à verdade. Porque tanto apela a nada menos que cinco tipos diferentes de falácias como dá a falsa impressão de que todos os produtos da diversidade nele referida carecem de qualquer alternativa vegana.

 

A origem e as falácias da figura

Convém a todos saber a origem do argumento utilizado pela figura: tudo começou quando, em 2009, um ou mais defensores do consumo de animais extraíram tais informações de uma imagem do site do Serviço de Informação da Carne, entidade pró-carnista defensora dos interesses de bovinocultores e indústrias frigoríficas.

Então criaram essa figura, sabendo que muitas pessoas, diante de tamanha diversidade de produtos, aceitaria, sem qualquer questionamento incisivo ou pesquisa verificadora, que a pecuária bovina dominaria a indústria de tal forma que não haveria para onde correr no que tange ao consumo dos 75 itens citados.

A imagem assustou muita gente e continuará assustando por algum tempo, mas não resiste a uma análise cética. Tanto porque, conforme este artigo mostra mais adiante, há alternativas e/ou substitutos de todos os produtos listados como a própria imagem possui erros lógicos comprometedores.

São cinco as falácias existentes na linha de raciocínio transmitida pela figura:

a) Desqualificação à pessoa (Ad hominem): Consiste em ofender explicitamente o interlocutor ou tentar desqualificar seu argumento por alguma suposta característica da pessoa que em nada tem a ver com a consistência e validade da colocação dela. É a falácia mais visível ali, na ofensa final dirigida aos vegans e vegetarianos;

b) Falácia do espantalho: Faz uma interpretação errada da ideia opositora, atribuindo-lhe equivocada ou maliciosamente argumentos facilmente criticáveis ou refutáveis que na verdade ela não defende. Essa falácia se aplica ao fato da figura tentar imputar ao veganismo (e ao vegetarianismo) um falso ponto fraco, que seria a suposta falta de opções para a miríade de produtos industrializados nele citada.

c) Distorção de fato: Como o nome diz, distorce um fato na tentativa de desqualificar determinada ideia, crença ou comportamento. A figura faz a distorção ao transformar o fato de que “há ou havia variantes ou marcas dos 75 produtos listados contendo um ou mais ingredientes de origem bovina” na falsa colocação de que “todas as marcas ou variantes dos produtos referidos contêm algum ingrediente derivado de bovinos”;

d) Generalização apressada: Tenta aplicar ao todo uma regra que só se aplica a uma parte. A imagem passa a falsa (e assustadora) impressão de que todas as marcas ou variantes de cada produto possuem ingredientes bovinos, quando na verdade apenas parte delas o contêm – ou mesmo, em alguns casos, não se fabrica mais com ingredientes de origem animal.

e) Argumento desconexo (Non sequitur): Lança argumentos desconexos cuja conclusão não segue a premissa. A linha lógica seguida pela figura é a seguinte:
Premissa: Estes produtos contêm ou continham variantes ou marcas dotados de ingrediente(s) oriundo(s) de certa parte do corpo bovino.
Conclusão: Logo, todas as variantes ou marcas destes produtos contêm ingredientes oriundos de tais partes do corpo bovino.

Porém, conforme este artigo mostra, a conclusão acaba na realidade não seguindo a premissa.

 

Alternativas dos produtos listados na figura: onde está a ilusão?

a) Cérebro

– Creme contra envelhecimento:
Há opções de cremes (como os da Multivegetal), e mesmo as empresas de cosméticos que ainda utilizam ingredientes de origem animal estão cada vez menos utilizando ingredientes provindos de abate, conforme suas respostas a consumidores em SACs. E é possível inclusive retardar ou controlar o envelhecimento da pele com a própria alimentação, com refeições ricas em antioxidantes e também vegetais (em especial frutas) ricos em vitaminas A e C, licopeno e ômega-3 (linhaça), os quais aumentam a produção corporal de colágeno.

– Remédios:
A imagem não diz qual(is) ingrediente(s) é(são) extraído(s) do cérebro bovino. E não há evidências hoje de que uma quantidade significativa de remédios use derivados do cérebro bovino. Porém, há muitos casos de medicamentos que contêm gelatina animal ou lactose na composição – que podem ser evitados, no entanto, se você perguntar ao farmacêutico por medicamento alternativo sem esses ingredientes e alegar, mesmo que mentindo, que tem alergia a gelatina e intolerância a lactose. Vale lembrar, além disso, que uma alimentação vegana/vegetariana bem planejada diminui a probabilidade de ocorrência de diversas doenças, sendo um fator positivo de prevenção e diminuindo o consumo total de medicamentos ao longo da vida do indivíduo.

 

b) Sangue

– Massas:
É difícil encontrar uma massa à base de trigo que contenha um derivado do sangue bovino entre seus ingredientes. Geralmente os ingredientes listados do macarrão básico são: farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico; corantes naturais urucum, betacaroteno e cúrcuma; e estearoil-2-lactil-lactato de cálcio (que, apesar da presença do radical lact-, que lembra leite, não é de origem animal). Alguns poucos incluem ovos na composição, e há as marcas que utilizam outros ingredientes, mas é bastante difícil hoje em dia encontrar aqueles que tenham especificamente derivados que se descubram ser provenientes de sangue animal.

– Misturas para bolo:
Há opções sem ingredientes de origem animal, como as misturas para bolo da Fleischmann, DaBarra e Regina.

– Corantes:
A imagem não fala quais corantes possuem derivados de sangue. Porém, o único corante que realmente consta em listas de ingredientes de origem animal em sites pró-veganos não é de origem sanguínea, mas sim do inseto cochonilha (corante carmim, presente em alguns produtos rosados ou avermelhados). E há muitas alternativas não animais ao carmim sendo usadas hoje em dia na indústria, como o Vermelho 40, o Vermelho Crepúsculo, o corante de beterraba e a páprica.

– Tintas (e tinturas):
A imagem não especifica o que da tinta é de origem sanguínea, nem a origem elementar dos supostos ingredientes sanguíneos – se do plasma, das hemácias, dos leucócitos ou das plaquetas –, nem quais tipos de tinta o contêm. O ingrediente das tintas e tinturas que pode conter derivado sanguíneo é o fixador, mas existem fixadores de origem vegetal, como a resina acrílica, que é usada por marcas como a Suvinil. E no caso das tinturas, em especial no caso daquelas de cabelo, há alternativas como Phytocolor.

– Adesivos:
Conforme as páginas que falam de produtos de origem animal, como o blog da Superinteressante, os adesivos em questão são colas, e não, como passa pela imaginação do leitor da imagem, figurinhas colantes e etiquetas. Há colas sintéticas que atendem a indústrias que usam esse tipo de substância adesiva e também ao consumidor final. Assim, embora seja necessário recorrer aos SACs sobre se cada pasta adesiva é ou não sintética, não são todas as empresas que usam derivados de origem animal.

– Minerais:
Informação vaga demais. Não diz o que são esses minerais nem onde são usados. Por isso não dá para pôr em mente que “minerais usam ingredientes de origem animal”.

– Remédios:
A imagem dá a entender que todos os remédios usam excipientes ou princípios ativos originados do sangue bovino. Mas não fica claro quais ingredientes com essa origem são usados em remédios. Atualmente os ingredientes que mais preocupam são a lactose de alguns comprimidos e a gelatina animal de cápsulas.

– Material de pesquisas laboratoriais:
Não diz quais materiais (Produtos químicos? Recipientes de vidro? Materiais metálicos?) seriam esses. Não dá para inferir dessa imagem que “todo material de pesquisas laboratoriais tem ingredientes vindos do sangue bovino”, a informação é vaga demais.

 

c) Cascos e chifres

– Adesivos:
Vide b) Sangue.

– Plásticos:
A informação é duvidosa, visto que provavelmente se baseia no fato de que os primeiros materiais plásticos sintéticos eram produzidos de fato a partir de cascos, chifres e marfim de animais – mas tais ingredientes foram superados com o tempo, conforme a página 46 do livro “Plásticos: características, usos, produção e impactos ambientais”, publicado por Tania Piatti e Reinaldo Rodrigues por meio da UFAL.

– Alimentos para animais “de estimação”:
Este é um dos poucos produtos de que há real dificuldade de se encontrar alternativas veganas. Porém não é comum encontrar, entre os ingredientes da maioria das rações para animais domésticos, derivados como a farinha de ossos. Como alternativa desprovida de ingredientes extraídos de animais mortos, para os cães há como ração “vegetariana” a FriDog Vegetariana – porém, não é vegana, já que contém vitamina D derivada de lã de ovelha. Não há ração vegana para animais domésticos no Brasil ainda, sendo essa uma questão de aumento do número da população vegana a médio e longo prazos e, consequentemente, de crescimento da demanda vegana que atraia empresas estrangeiras que produzam rações veganas em seu país e/ou incentive as locais a começarem a produzir alternativas veganas.

– Alimento para plantas/fertilizantes:
Nem todo fertilizante é produzido com resíduos de matadouros ou esterco. Há alternativas vegetais para jardinagem e agricultura, incluindo folhas, frutas e flores – que irão se decompor e se converter em material orgânico ao dispor das plantas vivas – e serapilheira. Além de adubos exclusivamente minerais.

– Filme fotográfico:
Está cada vez mais caindo em desuso, com a adesão crescente dos cinemas ao uso de projetores digitais e à própria consolidação das câmeras digitais e celulares com câmera. Hoje quase não se usa mais câmeras analógicas, e as digitais já possuem um bom preço. E mesmo celulares básicos hoje em dia tiram fotos.

– Shampoos e condicionadores:
Há alternativas veganas muito conhecidas. Duas das mais notórias, até também por dispor em suas embalagens que não são testados em animais nem possuem ingredientes de origem animal, são a Phytoervas e a Farmaervas. Para alguns tipos de cabelo, há inclusive a opção de simplesmente passar sabonete vegetal (como Phebo, Granado e Phytoervas) no cabelo para ensaboá-lo. Isso sem contar em várias receitas caseiras divulgadas pela internet, alternativas mais ecológicas.

– Placas de esmeril (lixas de unha):
O ingrediente que levava a substância à base de cascos e chifres era o aglutinante, a cola que fixa a superfície áspera e torna coesos os seus grãos. Porém, esse aglutinante de origem animal vem sendo substituído por cola PVA (acetato de polivinila), obtida a partir da polimerização do acetato de vinila, que por sua vez se origina pela reação química entre dois ingredientes de origem não animal, o etileno e o ácido acético ou etanoico. O que significa que hoje nem toda lixa de unha à base de esmeril usa cola de origem animal, o que, no entanto, ainda faz vegans terem que consultar SACs para saber se usam PVA ou cola animal.

– Laminações:
Como usam adesivos (colas) para unir duas ou mais folhas de papel e/ou cartão, repete-se aqui a informação já dada antes. Conforme as páginas que falam de produtos de origem animal, como o blog da Superinteressante, os adesivos em questão são colas, e não, como passa pela imaginação do leitor da imagem, figurinhas colantes e etiquetas. Há colas sintéticas que atendem a indústrias que usam esse tipo de substância adesiva e também ao consumidor final. Assim, embora seja necessário recorrer aos SACs sobre se cada pasta adesiva é ou não sintética, não são todas as empresas que usam derivados de origem animal.

– Papéis de parede:
A mesma coisa das laminações: usa colas para aderência, portanto vale a informação já dada sobre adesivos.

– Compensados (chapas de madeira):
Idem, visto que compensados também podem vir com chapas coladas umas às outras.

 

d) Órgãos

– Cordas de instrumentos:
Há alternativas feitas à base de nylon, aço, carbono ou sintéticas com revestimento em metais – como alumínio, ouro e prata. Uma empresa que vende cordas do tipo é a Andamentto.

– Cordas de raquetes:
Há alternativas sintéticas, como cordas de poliéster e híbrido de copolímero, poliéster e teflon.

– Hormônios, enzimas, vitaminas e outros materiais médicos:
Há alternativas sintéticas no mercado, que podem ser obtidas à livre escolha do vegan. Porém, o problema para os vegans aparece quando tais produtos são fornecidos no hospital, onde a possibilidade de escolha é reduzida.

 

e) Leite

– Adesivos:
Vide b) Sangue.

– Plásticos:
Apenas alguns plásticos são produzidos a partir da caseína, como botões, cabos de segurar guarda-chuvas e punhos de talheres. Porém, mesmo para esses casos, há alternativas, como o polipropileno. Um exemplo de empresa que fabrica botões plásticos à base de polipropileno e sem caseína é a Jomar (consultada via SAC), sediada em São Paulo. Também há alternativas de polipropileno para cabos de guarda-chuva e cabos de talheres, assim como para outros produtos.

– Cosméticos:
Há alternativas cada vez mais numerosas, que não usam leite nem suas proteínas na composição. Como são muitas, dependendo do tipo de cosmético, e é fácil encontrá-las na internet e mesmo nas lojas, não é necessário listá-las aqui.

– Remédios:
Novamente retorna-se à grande diversidade de medicamentos existentes no mercado. É possível deduzir que apenas alguns possuem ingredientes derivados do leite em sua composição excipiente ou ativa. E há a possibilidade de você pedir remédios livres de lactose e gelatina, alegando, ainda que mentindo, ter intolerância a lactose e alergia a gelatina.

 

f) Esterco

– Fertilizantes, nitrogênio e fósforo:
Recapitule-se a descrição dos alimentos para plantas mencionados no item c) Cascos e chifres. Nem todo fertilizante é produzido com restos de matadouro ou esterco. Há alternativas vegetais para jardinagem e agricultura, incluindo folhas, frutas e flores – que irão se decompor e se converter em material orgânico ao dispor das plantas vivas – e serapilheira. Além de adubos exclusivamente minerais – de onde se extrai também o nitrogênio e o fósforo para uso agrícola, ornamental ou em jardins.

 

g) Gordura

– Chicletes:
O ingrediente derivado de gordura é a glicerina, que compõe a goma-base. Porém, existem no Brasil marcas que não usam glicerina animal, como o chiclete Buzzy (a Riclan, fabricante da Buzzy, nega usar ingredientes de origem animal na maioria das marcas).

– Velas:
É cada vez mais difícil encontrar gordura animal entre os ingredientes de vela. Hoje em dia são facilmente encontradas no mercado velas que usam apenas cera de parafina, derivada de petróleo. Já há inclusive velas de emulsão vegetal – à base de soja, arroz, palma ou girassol.

– Detergentes:
Há alternativa vegana no mercado: a Ypê. Também existem alternativas caseiras divulgadas pela internet.

– Amaciantes:
A Ypê (consultada via SAC) também é uma alternativa para amaciantes veganos. E é possível fazer amaciante artesanal, comprando-se glicerina vegetal para incluir na composição.

– Desodorantes:
Há muitas alternativas sem glicerina, como o Herbíssimo e, no Nordeste, o Leite Floral. Muitas pessoas também usam o líquido Leite de Rosas tradicional como desodorante. Uma alternativa que custa um pouco mais caro mas compensa o custo-benefício é o uso de pedras desodorantes, cujo uso tem efeito mais prolongado do que o de desodorantes líquidos ou pastosos.

– Cremes de barbear:
Também são compostos de glicerina – e alguns contêm lanolina. Nada impede que as empresas utilizem glicerina vegetal. Uma ótima alternativa é ensaboar a pele a ser barbeada com sabonete de glicerina vegetal ou manteiga vegetal (como de murumuru), como Phebo ou Granado. É possível usar também aparelhos de barbear elétricos, eles não requerem a aplicação prévia de creme.

– Perfumes:
Há muitas alternativas industriais sem derivados de origem animal, como os da L’acqua de Fiori e da Contém 1g. Isso sem contar nos milhares de perfumes artesanais extraídos de flores.

– Alimentos para animais “de estimação”:
Vide c) Cascos e chifres.

– Cremes e loções:
Algumas marcas de cremes e loções contêm glicerina animal. Mas uma variedade cada vez maior de empresas vem utilizando glicerina vegetal ou mesmo não usando mais a substância. Dependendo da função do creme ou loção, é relativamente fácil encontrar opções veganas no mercado.

– Giz de cera:
Está cada vez mais difícil de encontrar gizes de cera com gordura animal. Hoje utiliza-se muito mais o óleo da cera de parafina no lugar.

– Tintas:
Algumas empresas, como a Acrilex e a Gato Preto, ambas de tintas artísticas, não usam ingredientes de origem animal. Há também alternativas para tintas de outras categorias (de pintar paredes, metais, madeiras, tecidos etc.), destacando-se as tintas minerais naturais da Ecocasa.

– Óleos e lubrificantes:
Há opções de óleos lubrificantes, inclusive em forma de graxa, que contêm compostos de gordura vegetal – conforme descrito aqui –, mas nesse caso é exigida dos veganos a consulta aos SACs e rótulos.

– Biodiesel:
O biodiesel também pode e é feito sem usar animais, porém as monoculturas para produção da alta demanda por combustível acabam com a diversidade da fauna. Um dos poucos produtos que realmente dão dor de cabeça aos veganos, visto que é usado em ônibus no transporte coletivo. E, aliás, mesmo seu eventual uso em carros é desencorajado por razões socioambientais.

– Plásticos:
Nesse caso, plásticos como as sacolas comuns – o que não inclui muitas sacolas biodegradáveis – usam gordura animal para diminuir o efeito estático do material. Mas, como nem todo supermercado, mercearia e mercado usam sacos plásticos biodegradáveis, há três alternativas para se lidar com esses locais: ecobags, carrinhos de feira – que não demandam embrulhar os produtos comprados no supermercado – e sacolas biodegradáveis compradas em quantidade pelo próprio consumidor. Para produtos plásticos além das sacolas comuns, estão se multiplicando os plásticos biodegradáveis, que não contêm gordura animal. Além disso, é questão de tempo para que sacos plásticos não biodegradáveis deixem de ser usados, inclusive por força de lei.

– Impermeabilizantes:
Há opções que não utilizam ingredientes de origem animal, como alguns da Impergeo – e, fácil de deduzir, de outras empresas. O vegano pode consultar cada uma delas – inclusive via SAC – para perguntar sobre impermeabilizantes livres de restos de animais.

– Cimento:
Muitas marcas de cimento não contam com gordura animal, conforme lemos aqui.

– Giz:
O giz é basicamente feito de gipsita, água, corante (no caso do giz colorido) e, em muitas marcas, plastificante. Provavelmente algumas marcas utilizam gordura animal como ingrediente do plastificante. Há marcas sem plastificante, bom para uso não escolar – mas é necessário verificar rótulos ao comprar. Além disso, o giz como ferramenta de trabalho constante está sendo cada vez menos usado – nas escolas, já são raras aquelas que não usam lápis-pilotos e quadros-brancos.

– Explosivos:
Esta categoria de produtos virtualmente não é utilizada por consumidores comuns. Geralmente apenas empresas e o governo são interessados em utilizar explosivos. E mesmo assim é um único explosivo específico que utiliza derivado de glicerina animal: a nitroglicerina, ingrediente principal da dinamite. Pólvora, TNT e C4 não contam com ingredientes de origem animal.

– Fogos de artifício: 
Contêm ácido esteárico
, que pode ser de origem animal ou vegetal. Porém, vegans tendem a não usá-los, já que o uso de fogos tem consequências catastróficas, às vezes fatais, para pássaros e animais domésticos. Cães têm muito medo de fogos, e podem se desesperar a ponto de fugir de casa ou mesmo sofrer ataque cardíaco, e pássaros podem ser mortos na explosão aérea dos fogos.

– Palitos de fósforo:
O misterioso aglutinante que consta entre os ingredientes do palito de fósforo é um derivado de gordura animal. Mas há alternativas, pelo menos na produção de alimentos: o acendedor elétrico dos fogões modernos, bastões produtores de faísca e isqueiros. Há churrasqueiras elétricas para o caso de “sojascos” (churrascos com ingredientes vegetais, como bolinhos de soja, arroz ou glúten; tofu e vegetais in natura). Obs.: Caso você descubra palitos de fósforo com aglutinante vegano ou alguma informação que desminta a presença de ingredientes animais no aglutinante do palito de fósforo, peço que informe nos comentários deste texto.

– Fertilizantes:
Vide c) Cascos e chifres.

– Anticongelantes:
Há anticongelantes que não contêm gordura animal: dependendo do produto, utiliza-se metanol, etilenoglicol ou propilenoglicol.

– Isoladores:
O óleo mineral é o isolador elétrico que usa gordura, podendo ela ser de origem animal. Mas há alternativas de isolantes líquidos que não usam gordura: askarel*, óleos de silicone, parafina (pastoso), pasta de silicone e resina Kopal.
*Há controvérsias sobre o impacto ambiental do askarel. Caso você possa evitá-lo em favor de isolantes que contenham ingredientes alternativo, evite.

– Linóleo:
Provavelmente foi incluído na lista porque continha gordura animal antigamente. Mas hoje o linóleo conta com óleo de linhaça, não mais com gordura animal, como o ingrediente gorduroso.

– Borracha:
Provavelmente foi incluída na lista pelos pneus, que são borracha vulcanizada e contêm ácido esteárico, que pode ou não ter origem na gordura animal. Mas há opção vegana no mercado: a Michelin usa ácido esteárico de origem vegetal.

– Tecidos:
Desonestamente a imagem não afirma quais tecidos. Os tecidos mais comuns – que inclui virtualmente todos aqueles usados pelos veganos – não contam com gordura entre seus ingredientes, visto que são compostos apenas por fibras naturais (algodão, sisal etc.) ou sintéticas (poliéster, poliamida etc.).

– Remédios:
Poucos contam com gordura animal no excipiente. Porém, há muitos remédios com cápsula com base de gelatina animal ou comprimidos com lactose. Peça ao médico que faça a receita com algum remédio que não contenha lactose nem gelatina. E sugiro dizer ao farmacêutico, ao comprar o medicamento, que tem alergia a gelatina e intolerância a lactose – mesmo que seja mentira. Ele irá procurar por alguma alternativa que esteja disponível no estoque da farmácia.

 

h) Pele

– Gelatinas:
Vegans consomem apenas gelatinas 100% vegetais ou algais, como o ágar-ágar. O sagu também é uma alternativa similar, feito de fécula de mandioca.

– Aromatizantes:
Há na internet inúmeras listas com ingredientes de origem animal mostrando quais aromatizantes a serem evitados. Não é problema nenhum para vegans.

– Papéis-de-parede:
Provavelmente se refere a papéis-de-parede feitos com couro. Mas há inúmeras alternativas ao couro, muitas delas de papel, em se tratando desse tipo de produto.

– Adesivos:
Vide b) Sangue.

– Remédios:
Apenas os remédios de cápsula contam com colágeno, oriundo de gelatina animal – alternativas com cápsulas vegetais ou que sejam comprimidos (sem lactose) podem ser encomendadas em farmácias de manipulação.

– Doces e confeitos:
Não faltam doces veganos no Brasil e no mundo. E os confeitos provavelmente foram incluídos pela presença de colágeno em algumas marcas. Mas não são todos os confeitos que possuem colágeno na composição.

 

i) Pelo

– Filtros de ar:
Já há um tempo, não são mais utilizados pelos de animais nos filtros de ar modernos. Também os condicionadores de ar de hoje usam filtros com chapas e telas de alumínio e de nylon.

– Pincéis:
Apenas alguns poucos pincéis possuem pelos bovinos, geralmente extraídos das orelhas dos bois e vacas. Existe uma boa diversidade de alternativas de cerdas sintéticas no mercado, como na Tigre Pincéis.

– Feltro:
É evitado pelos vegans, que usam outros tecidos para todos os fins a que o feltro serve.

– Isoladores:
Provavelmente foram incluídos pela existência de isoladores elétricos feitos com feltro. Há inúmeras opções de isoladores sem nada de origem animal, como já foi citado em relação aos isoladores líquidos.

– Gesso: 
Apenas antigamente
 eram usados pelos de animais para deixar a massa do gesso mais consistente.

– Tecidos:
A mesma coisa do feltro. Vegans usam tecidos vegetais ou sintéticos.

 

h) Ossos

– Açúcar refinado:
Já é bastante evitado entre os veganos por causa de seus propalados maus efeitos à saúde, e hoje em dia no processo de fabricação é utilizada cal no lugar do carvão de ossos pela maioria das empresas.

– Carvão:
Entrou na lista provavelmente por causa da existência do carvão de ossos. Como alternativas há o carvão mineral e o vegetal.

– Fertilizantes:
Vide c) Cascos e chifres.

– Vidro:
Antigamente obtinha-se o óxido de cálcio que compõe os vidros a partir de ossos de animais. Hoje esse mineral é obtido do calcário.

 

Considerações finais

Com tudo o que foi mostrado – tanto as falácias como as alternativas ou substitutos dos produtos listados – podemos ver que a vida dos vegans e vegetarianos não é uma ilusão, ao contrário da crença carnista de que haveria enormes dificuldades na obtenção de produtos industrializados sem ingredientes de origem animal e isso faria o veganismo não ter sentido.

Mesmo que em algum desses produtos realmente não houvesse saída para os vegans, não lhes haveria problema. Porque, como estão crescendo cada vez mais em números e, em sua grande parte, fazem militância pela preferência das indústrias pela produção de alternativas livres de restos ou secreções de animais, já se caracterizam como uma força a demandar uma postura de não compactuação com a escravidão animal intrínseca à pecuária, organizando boicotes, formando demanda de mercado e, dependendo do caso, criando alternativas extraindustriais.

E há também outra questão: é ingenuidade acreditar que, por não existirem pessoas 100% veganas, as pessoas não poderiam ser nem mesmo 1% veganas.

 

Afinal de contas, onde está a ilusão?

A imagem abaixo mostra os pesados custos da pecuária, que são camuflados por pessoas como os autores da figura “Produtos à base de gado”, os quais, por sua vez, insistem em não aceitar essa realidade e se refugiar na ilusão de que não haveria nada de ruim em consumir animais.

Imagem e levantamento de dados por Fabiü Buena Onda, Rodrigo da Silva Guerra e Helena Vitalina Selbach. Clique para vê-la em tamanho completo

Imagem e levantamento de dados por Fabiü Buena Onda, Rodrigo da Silva Guerra e Helena Vitalina Selbach. Clique para vê-la em tamanho completo

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

37 Comments on “Onde está a ilusão? Resposta à imagem “Produtos à base de gado”

  1. Você não entendeu nada, não há crítica dizendo que não existem alternativas. A crítica é que os vegetarianos, pelo menos a maioria deles, não procuram as alternativas que você citou, se preocupam apenas em cortar animais da comida. A crítica é que a maioria sequer sabe que animais são usados pra outras coisas que não seja alimentação.

  2. Gostei e vou pesquisar mais sobre isso! No entanto acredito que existam muitas coisas em que são empregados insumos animais. Além disso haver alternativa não quer dizer que o produto usando animal não seja produzido e usado por muitos. Esse terreno é escorregadio mesmo. Temos que tomar cuidado.

  3. Amei por D+ as alternativas sem exploração animais, pois sou vegan e repudio quaisquer exploração c os indefesos, vamos juntos defende-los pelos direitos dos nossos irmãos de outras espécies.

  4. Sou arquiteta e vegan à pouco tempo e estou a pesquisar sobre materiais de construção sem ingredientes de origem animal.e Vim parar ao seu blog e acho bastante boas as explicações. Como poderei aprofundar esta pesquisa?Eu estou com alguma dificuldade em conseguir informações fiáveis,pelo menos fico na dúvida se as empresas estão a ser sinceras.Como é que conseguiu Robinson?
    E muito obrigada porque este artigo já é uma boa ajuda.

    • Olá, Liliana. A pesquisa foi feita em sites de indústrias (fabricantes de algumas das categorias de produtos listadas pela imagem carnista) e em páginas que informam sobre a procedência de determinados ingredientes e a composição de alguns produtos. Foi no Google mesmo, procurando pela composição desses produtos. E em algumas ocasiões tive que ligar pra algumas dessas indústrias – não sem levar alguma recusa de se revelar ingredientes, como no caso dos palitos de fósforo, cujo aglutinante não quiseram me revelar de que era feito.

      Abs

      • Muito obrigada Robinson. Vou então continuar a fazer a pesquisa que por estranho que pareça não existe muita informação, nem nas instituições veganas. Como fui mãe pela segunda vez à pouco tempo,tenho pouca disponibilidade mas assim que tiver matéria para partilhar também farei aqui no seu blog.

        ABS

  5. Os filmes fotográficos são um problema. Não são substituídos pela fotografia digital,como se pensa. Por enquanto ainda possuem a melhor resolução de imagem e efeitos/resultados próprios. Além disso, tem utilidade artística muito grande, pois se trata de uma técnica diferente da digital – a imagem não é feita por pixels. Enfim, não é um produto que será substituído integralmente pelo digital.

  6. Robson, não sei quantas vezes já encaminhei esse link para pessoas que vinham com a história da “minha vida ser uma ilusão”… Todas as vezes te agradeço mentalmente por você ser essa pessoa incrível que empenha tanto tempo em prol do veganismo. Hoje resolvi deixar por escrito! Parabéns pelo trabalho maravilhoso que você faz! Desde 2011 te acompanho e você sempre será inspiração para minhas atividades infoativistas. Agradecida! :)

  7. Olá, confesso que qdo vi esse cartaz, dias atrás, fiquei bem desapontada. Sou vegetariana e tento ao máximo não consumir nada animal, mas nesse cartaz há coisas que eu nunca tinha pensado, como o açúcar, por exemplo. Já é difícil ser vegetariana em uma família que não quer nem ouvir falar do assunto… As suas explicações foram ótimas, mas acho que com tamanha dificuldade para encontrarmos inúmeros produtos, o sonho de um mundo vegan esteja muito longe ainda. Infelizmente! Mas continuarei tentando fazer pelo menos a minha parte. Obrigada, abs

  8. Cara tem uma quantidade razoável de sites que mostram uma imagem semelhante a essa com os processos. Como você citou, há produtos que tem substitutos e outros que não tem, porém algumas empresas ganham selo de ‘organic beef’ se a meta for 90% de aproveitamento da carcaça. Quando eu tenho dúvidas eu vou no órgão responsável ou na empresa me informar. Um abraço !

    http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/espaco-aberto/pecuaria-a-base-da-cadeia-produtiva-da-carne-49812/
    http://eaibeleza.com/wp-content/uploads/2013/09/superinteressante.jpg

  9. Como aquilo que você deseja. Dificilmente você vai mudar os hábitos alimentares milenares de 7 bilhões de habitantes.

  10. Pra tudo se tem alternativa ou quase tudo, mas espero estejam cientes que qualquer remédio que utilizarem antes de chegar ao ser humano já foi testado em animais, todo procedimento médico usando substâncias, antes são testados em animais. Se você não precisar da Medicina para nada, ai então darei mais credibilidade a esse texto. E não se esqueça, quando você era criança sua mãe te vacinou e muitas dessas vacinas tem alguma origem animal, bjs bom dia.

    • Carolina, os veganos sabem disso. E entendem que o veganismo admite exceções em situações de preservação da integridade física e psicológica, como o uso de vacinas e medicamentos e situações extremas em que sobreviventes de naufrágios e outros acidentes precisam caçar e comer animais pra não morrer.

  11. Post tendencioso não?
    A imagem mostra algumas coisas que se produzem de origem animal que sequer passa pelo conhecimento da maioria.
    Falácia = falso
    Não existe nada de falso na figura.
    Não é pq não foram exibidas informações da “quantidade de medicamentos” produzidos que o post pode argumentar como falso.
    O post ainda brinca com “vegetarianos”… sabemos que alguns ou a maioria de vegetarianos come ovo, bebe leite, usa sapatos de couro e etc.
    Os veganos sim são mais radicais e não consomem nada que possa ter origem animal… (difícil).
    Na verdade apenas negam seus caninos…
    A natureza está repleta de presas e predadores… todos somos alimento de “algo”.
    Nada se cria, tudo se transforma.
    Filosófico mas verdadeiro.
    Se a consciência dos veganos fica melhor por não consumirem nada de origem animal, muito que bem.
    Eu não tenho problemas em consumir carne ou derivados de animais.

    • Sobre o que é uma falácia:

      “A falácia é um argumento que aparenta ser válido à primeira vista, mas, usando de métodos logicamente inconsistentes ou irracionais de “defesa” de seu ponto de vista, leva a conclusões errôneas e/ou inválidas. Há diversos tipos de falácias, com inconsistências lógicas diferentes – quando, por exemplo, diz-se que uma afirmação está certa apenas porque foi uma pessoa célebre que a falou, ou que uma ideia está errada apenas por ser considerada radical.”
      http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-organizado-de-falacias-antiveganas/

      Sobre a informação falsa, ela se trata não de haver produtos desses tipos com ingredientes de origem bovina, mas sim da ideia passada de não existir alternativas veganas aos mesmos e, portanto, a vida dos veganos e vegetarianos ser “uma ilusão”.

      Sobre os demais argumentos:

      “Os veganos sim são mais radicais e não consomem nada que possa ter origem animal… (difícil).”

      Quem se familiariza com o veganismo descobre que não há grandes dificuldades em continuar sendo vegano, como mostram as postagens dessa categoria:
      http://veganagente.consciencia.blog.br/categorias/guias-e-dicas/dicas-para-transicao-para-o-veganismo/

      “Na verdade apenas negam seus caninos…”

      Caninos pequenos e desamolados que nos fariam passar vergonha diante de animais realmente carnívoros?

      “A natureza está repleta de presas e predadores… todos somos alimento de “algo”.”
      Nada se cria, tudo se transforma.
      Filosófico mas verdadeiro.”

      Isso pra você significa termos o direito de tratarmos animais como coisas sob nossa propriedade e manter atividades econômicas baseadas nessa objetificação e em impactos ambientais demasiadamente pesados?

      “Se a consciência dos veganos fica melhor por não consumirem nada de origem animal, muito que bem.
      Eu não tenho problemas em consumir carne ou derivados de animais.”

      Os animais ditos “de consumo” têm todos os problemas.

  12. [Comentários fundidos em um só, pra evitar flood nos comentários. RFS]

    Prezado, creio que o Denis tem alguma razão, ao dizer que, talvez, o ponto principal da imagem seja indicar que cortar alimentos de origem animal da alimentação não faz de uma pessoa vegana. Para ser vegano mesmo, teríamos de substituir não apenas alimentos, mas uma imensa variedade de produtos. Se esses produtos são substituíveis, ótimo para o vegano, mas, quando eles não são, essencialmente ou atualmente, substituíveis, vem à tona um problema terrível. Suponha que certos remédios para Alzheimer tenham como matéria prima essencial algo de origem animal, talvez o cérebro de bovinos. Se esse for o caso, então precisaremos matar bovinos para tirar seu cérebro. O problema é o seguinte: o que fazer com o resto dos corpos dos bovinos dos quais tiramos os cérebros? Ou dizemos que devemos parar de produzir tal medicamento, ou diremos que devemos jogar as outras partes do bovino fora, ou diremos que temos de aproveitar tais partes. A primeira opção é uma opção tremendamente egoísta, que não leva em consideração às próprias pessoas com a doença, tomando os animais não humanos como mais importantes do que seres humanos. A segunda opção é um desperdício, pois há inúmeras pessoas desnutridas e com fome. E a terceira opção parece a única aceitável, já que não é desperdício e nem egoísta. É claro que a terceira opção não implica que devemos manter um sistema de pecuária tão grande quanto o nosso. Implica, no máximo, que os restos dos corpos de animais não humanos que foram mortos para obtermos algo essencial para a nossa vida devem ser utilizados. A indústria da carne faz justamente o oposto: ela mata quantos animais são necessários para satisfazer os nossos caprichos de alimentação (já que a carne, na alimentação, pode ser substituída sem perdas nutricionais, mas com muitas perdas econômicas) e utiliza o resto para evitar o desperdício.

    É claro que eu sei que as perdas econômicas que citei em parênteses se devem, principalmente, ao fato de a produção vegana ser escassa, que advém da nossa pouca demanda por ela e pelo fetichismo em torno do veganismo – tal como ocorre com os orgânicos.

    De todo modo, algo que ainda temos de nos perguntar é: seria possível, economicamente, para toda a população mundial, viver exclusivamente de produtos veganos? Há meios alternativos baratos para substituir TODOS os produtos de origem animal (mesmo que suponhamos uma alta demanda por eles)? Sei que essas perguntas não são diretamente relacionadas à imagem, mas é uma pergunta que todo vegano se deve fazer, já que, se isso não for possível, a luta pelo veganismo mundial perderá muito do seu sentido, pois implicará que muitas pessoas não terão condições de pagar por produtos (alimentos e outros) veganos e, consequentemente, reduzirão significativamente sua qualidade de vida (desnutrição seria apenas uma dessas reduções).

    Sobre o enriquecimento com ferro e ácido fólico, que muitos produtos possuem, o ponto seria que o ferro para o enriquecimento é extraído do sangue de animais. Não sei se isso é verdade para todos os produtos enriquecidos com ferro, e nem sei se isso ainda é assim, mas isso me foi contado por um trabalhador de empresa de laticínios (leite enriquecido).

    O que acha das minhas observações e questões?

    ——————–

    Exemplo de uso essencial de animais para aspectos importantes da vida humana: cérebros de coelhos são utilizados para a produção de tromboplastina, substância necessária ao exame pré-operatório para verificar a capacidade de coagulação do corpo humano.

    ——————-

    Eu tenho uma outra pergunta: aonde o veganismo traça a fronteira entre seres permissíveis de serem mortos e seres que não o são? Geralmente, a resposta tem a ver com a consciência ou com senciência. Mas quais são os critérios para medirmos essas capacidades nos diversos seres? O argumento vegano é que não podemos tratar seres que sentem dor como coisas. Mas quais seres sentem dor? Como saber? Poderíamos dizer que seria pelo comportamento. Dois problemas aqui: não sabemos se todos os seres se comportam da mesma forma que o reino animalia quando falamos sobre dor. Pode ser que sim. Pode ser que não. Se você procurar um vídeo de uma ameba, na internet, sendo espetada por uma agulha de micromanipulador, você verá que a ameba se direciona para o lado oposto ao qual ela foi espetada. Seria isso um indício de dor? Será que os microorganismos dos quais se remove o b12 orgânico sentem dor? Não sabemos, pois não temos experimentos o suficiente. Mas minha questão se baseia na suposição de que eles sentem. Se eles sentirem dor e não houver outra forma de obter b12, o que devemos fazer? Matar os microorganismos, para satisfazer nossas necessidades nutricionais, ou aceitarmos a desnutrição (de b12) e salvar os microorganismos? Isso nos leva a uma importante pergunta: no caso de impossibilidade de termos o melhor dos dois mundos (termos b12 e microorganismos sem dor), a quem devemos privilegiar? Os humanos ou os microorganismos?

    Voltando à questão sobre a qualidade de vida, queria falar sobre dinheiro. Sempre que decidimos comprar um produto vegano, geralmente mais caro (mesmo que seja pela pouca demanda), como temos recursos econômicos limitados (a maioria da população terrestre), teremos de trabalhar mais para manter a nossa qualidade de vida intacta. Tal excesso de trabalho reduziria a nossa qualidade de vida. Estaríamos, assim, reduzindo a nossa qualidade de vida, a fim de aumentar a qualidade de vida de seres de outra espécie. Isso não seria dar um tratamento igualitário a todas as espécies do planeta, mas seria um especismo contra o ser humano e a favor dos seres vivos não humanos. Como justificar essa aparente injustiça para com relação aos seres humanos? Como justificar que a vida de seres vivos não humanos teria mais importância do que a vida de seres humanos? Podemos supor que, no futuro, não precisaremos reduzir a vida de seres humanos para salvar a vida de seres vivos não humanos; mas, e agora, no presente, o que fazer?

    Outra questão interessante são as árvores. Elas podem parece que não têm consciência ou senciência, mas se descobrirmos que elas o tem, qual seria a solução do vegano? Deixar de usar papel, deixar de usar palmito? Isso voltaria ao ponto do especismo contra o ser humano, pois manteríamos a qualidade de vida das árvores em detrimento da redução da qualidade de vida dos humanos, Haveria justificativa para esse tratamento desigual?

    Agradeço desde já pelas suas observações com relação à imagem, mas ainda tenho muitas dúvidas quanto a isso. Eu era vegano (ou achava que era), por pena dos animais, mas quando vi o vídeo da ameba fugindo da agulha de micromanipulador, senti-me inconsistente com a minha falta de critério (com relação à pena) na separação dos seres vivos consumíveis e daqueles que não são consumíveis. Acabei voltando a ser onívoro, dado que estava disposto a matar ácaros e açaizeiros (para palmito), mas não vacas. Você teria uma resposta para isso?

    ——————

    Obs.: Não é uma resposta possível dizermos que os seres conscientes/sencientes são apenas aqueles que têm cérebros. Não é uma resposta, pois embora todo ser com cérebro em funcionamento tenha consciência ou, ao menos, senciência, isso não implica que seres sem cérebro não tenham consciência ou senciência. Pode haver muitas organizações fisiológicas diferentes que geram consciência ou senciência (lembre-se do problema da realizabilidade múltipla). Além disso, o critério comportamental é por demais antropocêntrico. Acabamos aceitando que apenas os seres que têm comportamentos, de algum modo, semelhantes aos nossos têm consciência ou senciência. Isso é de fato falacioso. O problema de não sabermos o que se passa na introspecção de outros seres e de não sabermos se eles possuem os mesmos comportamentos dos seres de fora do reino animalia traz um grande desafio filosófico…

    ————–

    “Não é uma resposta, pois embora todo ser com cérebro em funcionamento tenha consciência ou, ao menos, senciência, isso não implica que seres sem cérebro não tenham consciência ou senciência.”

    Essa seria a falácia da inversão do condicional.

    O que eu quis dizer foi que, se aceitarmos que “se seres vivos têm cérebro, então eles são conscientes” implica logicamente que “se seres vivos são conscientes, então eles têm cérebro”, estaríamos cometendo a falácia da inversão do condicional,

    ——————-

    Gostaria também de saber a sua opinião com relação a dois textos que publiquei em periódicos não acadêmicos sobre o extermínio de predadores, um deles trata do dilema do extermínio e o outro propõe uma solução para ele.

    O Dilema do Extermínio I: Problemas
    http://refutacoes.com/blog/o-dilema-do-exterminio-i-problema/

    O Dilema do Extermínio II: Solução
    http://refutacoes.com/blog/o-dilema-do-exterminio-ii-solucao/

    ——————

    E uma última pergunta, se formos capazes de produzir carne (ou outros órgãos e tecidos de origem animal) artificialmente, sem matar nenhum animal, seria moralmente permissível utilizar esses tecidos artificiais para o consumo e para a produção de outros produtos?

    ———————

    Caso o site não avise, por email, da sua resposta, você poderia me avisar diretamente por email? Estou profundamente curioso para saber o que você pensa.

    • Olá, Rodrigo. Respondendo aos seus comentários:

      “Prezado, creio que o Denis tem alguma razão, ao dizer que, talvez, o ponto principal da imagem seja indicar que cortar alimentos de origem animal da alimentação não faz de uma pessoa vegana. Para ser vegano mesmo, teríamos de substituir não apenas alimentos, mas uma imensa variedade de produtos. Se esses produtos são substituíveis, ótimo para o vegano, mas, quando eles não são, essencialmente ou atualmente, substituíveis, vem à tona um problema terrível.”

      O veganismo é praticado na medida do possível e praticável. Se um produto não vegano não pode ser boicotado, como o caso de medicamentos e tratamentos de saúde, ele não é, e isso não faz da pessoa “menos vegana” ou “não vegana”.

      “Suponha que certos remédios para Alzheimer tenham como matéria prima essencial algo de origem animal, talvez o cérebro de bovinos. Se esse for o caso, então precisaremos matar bovinos para tirar seu cérebro. O problema é o seguinte: o que fazer com o resto dos corpos dos bovinos dos quais tiramos os cérebros? Ou dizemos que devemos parar de produzir tal medicamento, ou diremos que devemos jogar as outras partes do bovino fora, ou diremos que temos de aproveitar tais partes.”

      Nesse caso, vc esqueceu uma outra opção: pesquisar e desenvolver ingredientes substitutos, que é o que já está acontecendo em muitos casos.

      “De todo modo, algo que ainda temos de nos perguntar é: seria possível, economicamente, para toda a população mundial, viver exclusivamente de produtos veganos? Há meios alternativos baratos para substituir TODOS os produtos de origem animal (mesmo que suponhamos uma alta demanda por eles)?”

      Não só é perfeitamente possível a humanidade inteira viver veganamente, como é fato que ela não irá durar mais muito tempo se continuar dependendo de produtos de origem animal (exceto, nesse caso, povos indígenas que subsistem com caça, pesca e pecuária de pequena escala, como os Inuit e os Maasai). Se não há hoje substitutos perfeitos pra alguns ingredientes de origem animal, haverá num futuro muito próximo, e essa é uma das lutas inerentes ao veganismo.

      “Eu tenho uma outra pergunta: aonde o veganismo traça a fronteira entre seres permissíveis de serem mortos e seres que não o são? Geralmente, a resposta tem a ver com a consciência ou com senciência.”

      É essa mesma a resposta. A senciência (sensibilidade + consciência), ao possibilitar ao indivíduo sentir dor, manifestar sofrimento e ter consciência de que existe, lhe proporciona o interesse de continuar vivo, lutar pela vida e integridade física e psicológica e de desfrutar de liberdade.

      “Mas quais seres sentem dor? Como saber?”

      Se eles possuem um sistema nervoso central complexo o suficiente, o que já foi atestado em vertebrados e em moluscos cefalópodes, e não está muito longe de ser confirmado em insetos, equinodermos e outros moluscos.

      “Será que os microorganismos dos quais se remove o b12 orgânico sentem dor? Não sabemos, pois não temos experimentos o suficiente.”

      Nós obtemos B12 de colônias de bactérias em laboratórios e, por motivos óbvios, seres unicelulares não possuem sistema nervoso.

      “Sobre o enriquecimento com ferro e ácido fólico, que muitos produtos possuem, o ponto seria que o ferro para o enriquecimento é extraído do sangue de animais. Não sei se isso é verdade para todos os produtos enriquecidos com ferro, e nem sei se isso ainda é assim, mas isso me foi contado por um trabalhador de empresa de laticínios (leite enriquecido).”

      Vc pode provar que produtos vegetais enriquecidos com ferro contêm ferro de origem animal?

      “Sempre que decidimos comprar um produto vegano, geralmente mais caro (mesmo que seja pela pouca demanda), como temos recursos econômicos limitados (a maioria da população terrestre), teremos de trabalhar mais para manter a nossa qualidade de vida intacta”

      1. Os vegetais da feira já são produtos veganos.
      2. Os recursos hoje são limitados por causa das nada inteligentes demandas capitalistas, entre elas a de matéria-prima de origem animal, que prejudica severamente a de vegetais pra consumo humano.

      “Tal excesso de trabalho reduziria a nossa qualidade de vida. Estaríamos, assim, reduzindo a nossa qualidade de vida, a fim de aumentar a qualidade de vida de seres de outra espécie. Isso não seria dar um tratamento igualitário a todas as espécies do planeta, mas seria um especismo contra o ser humano e a favor dos seres vivos não humanos. Como justificar essa aparente injustiça para com relação aos seres humanos? Como justificar que a vida de seres vivos não humanos teria mais importância do que a vida de seres humanos? Podemos supor que, no futuro, não precisaremos reduzir a vida de seres humanos para salvar a vida de seres vivos não humanos; mas, e agora, no presente, o que fazer?”

      Como se baseiam numa falsa premissa (já rebatidas acima), essas perguntas não têm validade.

      “Outra questão interessante são as árvores. Elas podem parece que não têm consciência ou senciência, mas se descobrirmos que elas o tem, qual seria a solução do vegano? Deixar de usar papel, deixar de usar palmito? Isso voltaria ao ponto do especismo contra o ser humano, pois manteríamos a qualidade de vida das árvores em detrimento da redução da qualidade de vida dos humanos, Haveria justificativa para esse tratamento desigual?”

      Nenhum vegetal é senciente. Eventuais casos de complexidade orgânica e intercomunicação, como alguns botânicos têm atestado existir em plantas, não implicam senciência e presença do interesse individual de continuarem vivas e se manterem fisicamente íntegras.

      “Eu era vegano (ou achava que era), por pena dos animais, mas quando vi o vídeo da ameba fugindo da agulha de micromanipulador, senti-me inconsistente com a minha falta de critério (com relação à pena) na separação dos seres vivos consumíveis e daqueles que não são consumíveis.”

      Eu acho que você não compreendia muito bem a essência do veganismo e a diferença entre senciência e reação a estímulos.

      “Gostaria também de saber a sua opinião com relação a dois textos que publiquei em periódicos não acadêmicos sobre o extermínio de predadores, um deles trata do dilema do extermínio e o outro propõe uma solução para ele.”

      Sobre esses textos, desculpe, mas estou de férias e não estou tendo tempo de ler textos longos.

      “E uma última pergunta, se formos capazes de produzir carne (ou outros órgãos e tecidos de origem animal) artificialmente, sem matar nenhum animal, seria moralmente permissível utilizar esses tecidos artificiais para o consumo e para a produção de outros produtos?”

      Isso infelizmente não vai ser possível. Mais informações:
      http://animalrights.about.com/od/animalsusedforfood/a/LaboratoryMeat.htm

      • O veganismo “na medida do possível” não é realmente veganismo; é apenas vegetarianismo com algumas restrições. Veganos não usam nada de origem animal. Se usam 1 coisa que seja, isso não é veganismo. Não existem porcentagens de veganismo. Pois, se existissem, uma pessoa que come carne moderadamente poderia se dizer 50% vegano. Isso não faz o menor sentido. Agora, se não é possível ser vegano, isso não significa que não seja possível evitar produtos de origem animal o máximo que se pode. Mas, conforme eu disse, se há o uso de 1 produto de origem animal que seja, haverá o problema de saber o que fazer com o resto do corpo do animal sacrificado para a produção de tal produto. Não comer seria desperdício.

        Sobre os remédios com origem animal, a ideia de pesquisar outra fonte para o remédio é bem interessante. Mas SUPONHA que não há outra fonte (afinal, é possível que não haja fontes alternativas para TODOS os produtos; acreditar que há é simplesmente um desejo de acreditar, e não evidência).

        Você disse que é perfeitamente possível toda a humanidade viver veganamente. No entanto, esse não é o caso para a maioria das domésticas, por exemplo, que não têm recursos para pagar mais caro em TODOS os produtos que usam.

        Você disse que é fato que a humanidade não vai continuar por muito tempo existindo, se continuar com produtos de origem animal. Mas você não apresentou nenhuma evidência. Há milhares de anos a humanidade vem existindo e consumindo animais. Por que o futuro seria diferente? Por que a continuação do consumo de produtos de base animal exterminará a humanidade? Sua asserção parece um tanto alarmista, mas sem fornecer evidência alguma para o alarme. Veja que há uma grande diferença entre consumir produtos de origem animal e consumir produtos de origem animal na proporção que o fazemos. Não estou defendendo a indústria da carne e o alto consumo de produtos de origem animal, mas que o consumo moderado de produtos de origem animal sempre fez parte da nossa vida e mesmo que continue fazendo parte, não há indícios de que isso nos exterminaria. Se você aceita a caça em pequena escala, deve, por obrigação lógica, aceitar também o nosso consumo de produtos de origem animal, se for em pequena escala.

        Você disse também que, num futuro muito próximo, haverá substitutos para todos os produtos de origem animal. Gostaria que você apresentasse provas dessas afirmações. São afirmações fortes. Por exemplo, em 1990, eu poderia ter dito que tenho absoluta convicção de que a cura do câncer seria descoberta num futuro muito próximo. Mas apenas dizer isso, sem fornecer provas, não significa nada. Não sabemos os limites das ciências. Pode ser o caso que haja produtos de origem animal que sejam insubstituíveis, não importando o quanto tentamos produzi-lo de outras maneiras. Se você acha que TODOS serão substituíveis, você tem o fardo da prova.

        Conforme já disse, não há razões para pensarmos que apenas um sistema nervoso central complexo gere consciência/senciência. Eu falei antes de um problema de filosofia da mente, chamado de “múltipla realizabilidade”. Esse é o problema de que muitas bases fisiológicas diferentes podem gerar os mesmos efeitos mentais. Por exemplo, embora haja diferenças nos nossos dois cérebros, nós dois podemos pensar na MESMA frase. O mesmo pensamento pode ser causado por bases físicas diferentes. Não temos como saber se outros seres não têm pensamento também, mesmo não tendo um sistema nervoso central complexo semelhante ao nosso. Se amebas têm senciência (por fugirem de objetos que tentam perfurar seu corpo: comportamento de dor), isso não se deve a nenhum sistema nervoso central complexo.

        Se você quiser interpretar o comportamento da ameba como mera reação ao meio, posso também interpretar o comportamento de galinhas ou peixes como meras reações ao meio. Por que devemos pensar que o sistema nervoso deles gera qualquer pensamento ou senciência? O peixe se debate quando removido da água, pois seu corpo entra em colapso por causa de reações ao ambiente externo (fora da água) – eu poderia dizer. O texto “How is like to be a bat” coloca realmente em questão se temos como saber o que se passa internamente em seres de outras espécies.

        Seres unicelulares não possuem sistema nervoso, mas possuem organização interna. Não sabemos se a organização dentro de sua única célula não gera senciência. Você está supondo que não gera, pois parece aceitar uma visão antropocêntrica de quais são as bases aceitáveis para geração de sensações. Não há provas disso.

        Por que não há provas? Veja só: como sabemos que um outro ser tem mente? Simples: observamos seu comportamento e comparamos com o nosso comportamento. Sabíamos que tínhamos (os humanos) mentes muito antes de descobrirmos que temos um sistema nervoso central. Como notamos que falhas no nosso sistema nervoso central estão correlacionados com falhas em nossa mente, pensamos que o sistema nervoso central é a causa da mente, e que tudo que tem sistema nervoso central deve ter mente também. Mas daí não temos o direito de concluir que tudo que não tem sistema nervoso central não tem mente. Poderíamos ainda utilizar apenas o comportamento dos seres e verificar se parecem com o nosso, mas isso só daria certo com seres que, de algum modo, se assemelham a nós, como seres de tamanho visível a olho nu. Para colônias de bactérias, não as conseguimos observar individualmente e, mesmo que conseguíssemos, a sua vida tem outros tipos de interesses e elas estabelecem outros tipos de relações, que praticamente não têm semelhança alguma conosco. Conforme disse, dizer que elas não têm mente é um preconceito antropocêntrico.
        Você me perguntou: “Vc pode provar que produtos vegetais enriquecidos com ferro contêm ferro de origem animal?”

        Pelo que eu disse, é óbvio que eu não posso provar isso; eu apenas te forneci uma indicação de testemunho de um trabalhador de empresa de laticínios, e testemunhos não são provas. Mas aqui está um artigo acadêmico da UEFS, que fala sobre o enriquecimento de ferro em biscoitos e outros produtos a partir do sangue bovino: http://www2.uefs.br/semic/upload/2011/2011XV-010BRU860-140.pdf

        Quando eu falei sobre o custo dos produtos veganos, não me referia apenas aos alimentos. Conforme vc mostrou na imagem, há inúmeros produtos produzidos com partes de animais. Substituí-los TODOS seria realmente muito caro. Não adianta falar sobre o sistema capitalista é o culpado; temos de obter a solução. Vivemos num sistema capitalista, e nele não é possível substituir TODOS os produtos de origem animal por produtos veganos, sem aumentar significativamente o custo da pessoa que está fazendo a substituição. Nem todos têm dinheiro para isso. Talvez, se vivêssemos em outro mundo ou em outro tempo, pudéssemos ser todos veganos. Mas não somos indígenas em pequenas aldeias e nada na atualidade indica que seremos em algum tempo no futuro próximo ou médio. O problema, então, persiste: como lidar com o aumento dos gastos para todas as pessoas no mundo em que, de fato, vivemos?

        Obs.: os recursos são limitados, pois vivemos num mundo de recursos limitados. Os recursos não são infinitos. Se fossem, não precisaríamos de dinheiro. Além disso, você tem de levar em conta que nem todos os países têm a abundância de recursos que temos no Brasil. Temos um país bastante grande, no qual é possível tanto ter gado quanto ter plantações. O que prejudica o barateamento dos vegetais não é a existência do consumo da carne, mas antes a existência de uma indústria da soja e de uma indústria da pecuária. Conforme eu disse, não estou defendendo a continuação da existência de uma enorme indústria de produção de carne, mas apenas que não é necessário ser vegano para melhorar a situação. Só precisamos consumir menos carne; afinal, animais e vegetais habitam juntos o planeta por muitos milhões de anos, e um nunca atrapalhou o outro. Se é uma preocupação realmente com a produção de alimentos, temos de reduzir também a monocultura exacerbada de soja, que toma muitos dos nossos campos do centro-oeste.

        Eu disse: “Tal excesso de trabalho reduziria a nossa qualidade de vida. Estaríamos, assim, reduzindo a nossa qualidade de vida, a fim de aumentar a qualidade de vida de seres de outra espécie. Isso não seria dar um tratamento igualitário a todas as espécies do planeta, mas seria um especismo contra o ser humano e a favor dos seres vivos não humanos. Como justificar essa aparente injustiça para com relação aos seres humanos? Como justificar que a vida de seres vivos não humanos teria mais importância do que a vida de seres humanos? Podemos supor que, no futuro, não precisaremos reduzir a vida de seres humanos para salvar a vida de seres vivos não humanos; mas, e agora, no presente, o que fazer?”
        Você disse: “Como se baseiam numa falsa premissa (já rebatidas acima), essas perguntas não têm validade”.
        Eu respondo: qual é a premissa falsa? E outra coisa: perguntas não são coisas que têm validade. A validade é uma propriedade de argumentos, e não de perguntas – logicamente falando (desculpe-me por ser específico, mas sou doutor em lógica e metafísica).

        Você disse que nenhum vegetal é senciente. Mas vc tem alguma prova disso? Poderia me enviar um artigo acadêmico que prove tal coisa? Eu não tenho provas de que os vegetais são sencientes, mas não afirmei que eles o são. Afirmei que eles podem ser, e que, se o forem, isso lança um terrível problema para aquele que está tentando ser vegano. Não é porque uma árvore não se move e não foge do perigo que ela não tem senciência. Qualquer ser humano com escafandrismo também não se move e nem foge do perigo, mas isso não significa que ele não tem senciência e consciência.

        Eu entendo perfeitamente a diferença que geralmente é traçada entre reação a estímulos e senciência (afinal, estudei bastante filosofia da mente e ciência cognitiva). O que eu estou dizendo é que amebas fogem de o que tenta violar o seu corpo, ou seja, elas têm interesse em continuar vivas, e isso indica senciência.

        Sobre os textos que eu indiquei, eles não são longos. Cada um tem três páginas de word. Mas vc não precisa ler. Dei como uma indicação de um dilema filosoficamente interessante sobre o direitos dos animais.

        Eu disse: “E uma última pergunta, se formos capazes de produzir carne (ou outros órgãos e tecidos de origem animal) artificialmente, sem matar nenhum animal, seria moralmente permissível utilizar esses tecidos artificiais para o consumo e para a produção de outros produtos?”

        Você disse: “Isso infelizmente não vai ser possível. Mais informações:”
        http://animalrights.about.com/od/animalsusedforfood/a/LaboratoryM

        Se você reparar a minha frase, eu usei um operador lógico conhecido com o nome de “condicional”, que se utiliza do termo “SE”, que implica uma suposição. Se será ou não possível produzir carne artificialmente, isso não importa para a minha questão. Eu te pedi para SUPOR que é possível produzir carne artificialmente. Se isso fosse possível, seria moralmente permissível utilizá-la para alimentos e outros produtos?

        De todo modo, o link que vc enviou não leva a lugar nenhum…

        Sobre possibilidades, indico que estudo exatamente isso. Meu mestrado e meu doutorado foram em lógica e metafísica das leis da natureza e dos operadores modais de necessidade e de possibilidade. Indicar que não temos como produzi-la atualmente ou num futuro próximo não significa que não seja possível produzi-la. Mesmo que não seja, a minha pergunta ainda precisa de uma resposta. Seria ou não moralmente permissível utilizar carne artificial? Caso seja, o veganismo perderia o sentido?

        Saudações cordiais.

        • Obs.: é inconsistente defender o veganismo com a motivação de que não podemos violar o direito à vida de seres que têm interesses e, ao mesmo tempo, defender que a caça que pequenos grupos indígenas fazem é aceitável. A caça, por menor que seja, viola o direito à vida de animais com interesses. (se é que queremos falar de interesses a la Peter Singer)

        • Rodrigo, você fez muitas colocações, mais do que eu posso me dispor a responder em plenas férias. E percebo que você está ignorando minhas justificativas e detalhamentos e caindo em inversão do ônus da prova.

          Sinto muito, mas não poderei responder isso tudo a curto prazo, já que só volto às minhas atividades plenas em novembro. E pelo pouco que vi, não será muito frutífero responder mesmo depois da volta à ativa.

  13. Olá, Robson.

    Obrigado pela sua resposta, mas ela não levou em conta muitos dos argumentos os quais apresentei. Não sabemos se bactérias sentem dor. Dizer que elas não sentem, baseado em elas não terem sistema nervoso central é uma falácia da inversão do condicional, tal como expliquei.

    E fiz SUPOSIÇÕES de produtos importantes para a nossa vida que são essenciais o uso de animais. SE houver tais produtos, como lidar com isso? Como lidar com as carcaças dos animais utilizados para tais produtos?

    Você parece bastante otimista com a substituição completa dos produtos de origem animal por produtos de origem não animal, mas esperança não é prova, Gostaria que você me indicasse evidências de que TODOS os produtos podem ser substituídos.

    Uma pessoa que consome 1 produto que seja de base animal terá de lidar com a questão de o que fazer com a carcaça dos seres utilizados naquele produto, e esse é um problema difícil.

    Gostaria que você me explicasse qual a diferença entre reação a estímulos, como fugir de algo que machuca o corpo, e dor. Não vejo diferença. Claro que a reação de uma árvore ao estímulo do sol é muito diferente do que a fuga de uma ameba de um corpo que está tentando invadir o seu próprio corpo.

    Nenhum vegetal é senciente? Como você sabe? Por que eles não se movem quando machucados? Como saber o que se passa internamente em outros seres? Além disso, se uma pessoa tivesse uma doença e não sentisse dor, seria aceitável matá-la?

    E não está claro como pode ser consistente a sua permissibilidade com a caça dos indígenas e a impermissibilidade da nossa produção – digamos orgânica e humanitária – de carne bovina.

    Vou voltar aqui, para responder mais posteriormente (agora estou indo trabalhar).

  14. Robson tenho uma dúvida sobre: ” Filme fotográfico:
    Está cada vez mais caindo em desuso, com a adesão crescente dos cinemas ao uso de projetores digitais e à própria consolidação das câmeras digitais e celulares com câmera. Hoje quase não se usa mais câmeras analógicas, e as digitais já possuem um bom preço. E mesmo celulares básicos hoje em dia tiram fotos.”

    O problema está apenas no filme ou existe origem animal no sistema de revelação de fotografias? Papéis, tintas, etc?

    • Oi, Françoise. O problema aqui são o filme fotográfico (de câmeras e projetores analógicos) e o revestimento do papel fotográfico, ambos com gelatina. Abs

  15. E que tal dar um pouco de crédito para um órgão competente como por exemplo a Embrapa?
    Lá encontra-se diversos subprodutos do boi, mas certamente não vai encontrar todos desta figura, mas também não é de se duvidar que possa haver a grande maioria dos que ai estão.
    A sociedade humana ergueu-se graças ao gado e aos cavalos.
    A imagem tenta enfatizar (exageradamente, e de forma generalizada devo admitir), a ilusão que muitos veganos tem de que deixando de comer carne, estão evitando algum tipo de sofrimento, o que não é correto, de qualquer forma o simples fato de não ter uma alimentação de origem animal não quer dizer que animais não sofram, e de muitas maneiras para garantir o bolinho de soja.
    Se é para ser vegano, que o seja pelo simples fato de não gostar de carne, ou por motivo de alguma doença que não metabolize células animais, qualquer outro motivo é hipocrisia.

    • E que tal dar um pouco de crédito para um órgão competente como por exemplo a Embrapa?
      Lá encontra-se diversos subprodutos do boi, mas certamente não vai encontrar todos desta figura, mas também não é de se duvidar que possa haver a grande maioria dos que ai estão.

      Aqui vc cometeu apelo à autoridade e falácia do espantalho. A resposta não diz que não existem produtos desses tipos com ingredientes de origem bovina, mas sim desmente a crença de que eles não têm alternativas veganas. E ser da Embrapa não significa muita coisa no sentido de legitimar eticamente esses usos.

      A sociedade humana ergueu-se graças ao gado e aos cavalos.

      Apelo à tradição. Também houve contribuições importante das guerras, do autoritarismo, dos genocídios, da escravidão humana e da destruição ambiental pra humanidade ser o que é hoje. Nem por isso vemos pessoas defendendo abertamente essas coisas em nome da tradição e do passado humano.

      A imagem tenta enfatizar (exageradamente, e de forma generalizada devo admitir), a ilusão que muitos veganos tem de que deixando de comer carne, estão evitando algum tipo de sofrimento, o que não é correto, de qualquer forma o simples fato de não ter uma alimentação de origem animal não quer dizer que animais não sofram, e de muitas maneiras para garantir o bolinho de soja.

      Se você ignora os argumentos veganos e não quis compreender a postagem acima, não posso fazer nada a respeito.
      Sobre o “bolinho de soja”, recomendo: http://veganagente.com.br/pense-por-que-voce-critica-a-soja-dos-vegetarianos/

      Se é para ser vegano, que o seja pelo simples fato de não gostar de carne, ou por motivo de alguma doença que não metabolize células animais, qualquer outro motivo é hipocrisia.

      Se você não se importa com os animais e quase os odeia, faça o favor de não imputar essa falta de consciência pros veganos, ok?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *