12 perguntas e respostas sobre a Operação Carne Fraca e sua repercussão

Operação Carne Fraca

Reprodução/Jornal GGN/Montagem

Você tem acompanhado o desenrolar da Operação Carne Fraca (OCF)?

Maior operação da história da Polícia Federal, ela descobriu o envolvimento de megacorporações de carnes com corrupção de fiscais de vigilância sanitária e venda de carnes apodrecidas, com validade vencida, com aditivos cancerígenos e com resíduos de papelão misturados, entre outras fraudes.

Mais informações você pode ler aqui nessa matéria do site da revista Época, e as novidades sobre o caso você pode acompanhar por aqui no R7.

Neste momento, muitas perguntas têm aparecido, principalmente no meio vegano, vegetariano e protovegetariano. Eu selecionei doze das que eu creio serem as mais divulgadas para responder neste artigo.

Se você tem uma ou mais destas dúvidas, vai gostar de ler a(s) resposta(s) a seguir – ou talvez se decepcione com algumas delas.

 

1. É verdade que o nome “Carne Fraca” da operação foi inspirado no documentário A Carne É Fraca?

Infelizmente não foi. Segundo o iG/Último Segundo:

O nome da operação faz referência à expressão popular “a carne é fraca” a fim de demonstrar a fragilidade moral dos agentes públicos envolvidos nas fraudes e que “deveriam zelar e fiscalizar pela qualidade dos alimentos fornecidos à sociedade”, diz a nota da PF.

Não foi inspirado no documentário, até porque, se fosse, a operação seria interpretada como uma tentativa proposital do poder público de sabotar a indústria frigorífica brasileira. E infelizmente estamos astronomicamente longe de um Estado comprometido em reconhecer e proteger os Direitos Animais.

 

2. A operação tinha a defesa animal entre suas causas?

Também não. Repare que, nos relatos da operação, até o momento em que este artigo foi escrito, não foi mencionada nenhuma denúncia de acobertamento de crueldades explícitas em matadouros por parte dos fiscais corrompidos.

E mesmo que tivesse algo a ver com defesa animal, a operação se limitaria a “coibir os maus tratos”, ou seja, teria um foco meramente bem-estarista. Nunca investiria na libertação dos animais explorados pelos pecuaristas.

 

3. A operação vai beneficiar os animais?

Não necessariamente. Se a OCF tivesse alguma consequência nesse sentido, seria apenas no âmbito de consertar a fiscalização de “bem-estar animal”, e nós vegans sabemos que bem-estarismo não beneficia verdadeiramente os animais.

Os únicos benefícios verdadeiros que vejo nisso tudo é que:

  • Algumas páginas e sites veganos, como a página do Veganagente no Facebook, estão aproveitando a repercussão do escândalo da carne para divulgar com mais frequência conteúdos vegano-abolicionistas;
  • Considerando que, paralelamente à OCF, o veganismo e o vegetarianismo têm se expandido com rapidez no Brasil e no restante do mundo, um número significativo de onívoros têm manifestado interesse, nesses últimos dias, de conhecer a alimentação vegetariana (livre de componentes de origem animal) e entender melhor o que o veganismo defende e como ter uma transição saudável e uma boa vida vegana.

 

4. Será que a operação é o começo do fim para a indústria frigorífica e a pecuária no Brasil?

Tudo indica que não. Algumas empresas podem até falir ou sofrer uma séria, embora temporária, crise, mas nada aponta para o começo de uma postura estatal de repressão à pecuária e a disseminação generalizada, entre a população, do nojo e medo de comer carne. Tanto é que, no dia seguinte à deflagração da Carne Fraca, os açougues continuavam cheios de gente.

Considerando que a operação não tem entre seus objetivos o combate ao especismo, as empresas que eventualmente quebrarem serão substituídas por outras no mercado de carnes.

E apesar de o veganismo estar num crescimento rápido no Brasil, pelo menos nas classes médias e altas, hoje ainda não estamos numa época de campanhas vegano-abolicionistas de grande escala, que tenham um alcance de milhões de pessoas.

Além disso, lembremo-nos do escândalo do leite de vaca com água oxigenada, soda cáustica e urina, em 2015. Não foi reportada, desde então, nenhuma tendência de queda permanente no consumo de laticínios no Brasil.

Ou seja, ainda haverá muitos escândalos envolvendo a pecuária e os produtos animais pela frente antes de a exploração animal começar a realmente decair.

 

5. A mídia está do nosso lado dessa vez? Ela tem falado muito sobre o caso, e alguns programas estão inclusive mostrando receitas vegetarianas paralelamente.

Esta é a quinta pergunta consecutiva respondida com um não. Se a mídia tem trazido a exploração animal para o debate ao longo da operação (leia aqui um exemplo), é sempre sob a ótica bem-estarista de mostrar o quanto são absurdos os maus tratos em algumas fazendas e matadouros. De jeito nenhum problematizam o costume de usar os animais como coisas e tirar-lhes a vida violentamente.

Lembre-se, inclusive, que o veganismo sempre é mostrado pela mídia como um “estilo de vida” elitista, individualista, despolitizado e justificado por meras crenças semirreligiosas subjetivas. Nunca é abordado como aquilo que realmente é: um modo de vida dotado de uma essência ética – a oposição ao especismo – e política – o objetivo de abolir a exploração animal e, por tabela, seus impactos secundários para o meio ambiente e os seres humanos.

 

6. É certo rir de quem come carne, por meio das piadas envolvendo papelão, num momento como esse?

Essa questão tem sido uma imensa polêmica, para a qual não há uma resposta simples e rápida.

De um lado, há os veganos que riem dizem estar devolvendo anos e anos de piadinhas antiveganas. Do outro, há aqueles que têm um pé atrás em achar graça nas piadinhas de carne de papelão, já que estas estariam atingindo todo mundo que come carne, inclusive quem não conhece o veganismo e tem um dia-a-dia atribulado demais para dar alguma atenção aos Direitos Animais.

Eu pessoalmente interpreto que quem ri, está caçoando não das pessoas pobres que compram carne por não conhecerem a causa vegana, mas sim dos próprios antiveganos que, por sua vez, têm todas as condições de aderir ao veganismo mas não querem por capricho e falta de compaixão pelos animais.

Afinal, quem faz piadinhas depreciativas contra vegans e vegetarianos não são as primeiras, que muitas vezes sequer sabem que existem pessoas saudáveis que não consomem produtos animais, mas sim sempre os últimos.

Sob essa interpretação, não dá para tachar como objetivamente “errado” compartilhar piadinhas de carne de papelão para se vingar dos antiveganos chatos. Mas também é preciso cuidado para que uma ou outra piada ou meme do tipo não acabe realmente sendo uma provocação generalizada a todo mundo que come carne, seja por alienação moral ou por desconhecimento sobre o veganismo.

 

7. Como responder aos antiveganos que têm citado o agrotóxico dos vegetais como a versão vegetal da contaminação das carnes?

Em primeiro lugar, se comemos plantas com agrotóxicos, é por total falta de opção – quando a pessoa não tem uma feira orgânica barata perto de casa. Além disso, os onívoros que nos criticam consomem vegetais agrotoxicados mais carnes, laticínios e ovos com elevada probabilidade de contaminação. No mais, comer “só” vegetais com pesticidas ainda é menos ruim do que ingerir dois tipos de alimentos contaminados.

Em segundo, muitos veganos também lutam contra os latifúndios e o uso de agrotóxicos. Afinal, ambos, por meios como desmatamento, poluição e envenenamento, causam em animais selvagens um sofrimento que pode e deve ser combatido e abolido.

Nessa luta, esses mesmos veganos defendem a luta dos camponeses e indígenas, a reforma agrária, a agricultura orgânica, a agroecologia, a permacultura, a criação de ecovilas veganas e outras alternativas para que os latifúndios se tornem coisa do passado.

E em terceiro lugar, enquanto muitos de nós lutam ativamente contra a agricultura envenenada e latifundiária, a maioria dos que nos criticam por comer vegetais com agrotóxicos não mexem um dedo para combater o comércio de produtos animais contaminados.

Resumindo tudo numa resposta rápida: Quem nos critica com esse motivo ignora que comemos plantas nessa condição por falta de opção e mesmo assim nos contaminamos menos que os não veganos, desvaloriza a luta de muitos de nós por uma agricultura mais justa, sustentável e saudável e não mexe um dedo para lutar contra a produção de alimentos animais e vegetais contaminados.

 

8. Como responder ao argumento de que “o problema nisso não é a carne, mas sim o capitalismo”?

As duas coisas é que são o problema. A carne é problema porque, para ser produzida, demanda exploração e morte de animais e seu consumo é totalmente desnecessário. O capitalismo, por sua vez, por tornar a já essencialmente violenta pecuária uma atividade ainda mais brutal contra os animais, o meio ambiente e os próprios seres humanos e induzir os empresários e executivos a atitudes corruptas.

Uma pecuária não capitalista, mesmo sob a forma de criações bem-estaristas e comunitária de pequeno porte, não deixaria de estar tratando animais como objetos sob propriedade de uma família ou comunidade de seres humanos, violando sua vontade de continuarem vivos e fisicamente íntegros e descartando suas vidas com violência.

Portanto é essencial que, além do capitalismo, o especismo também seja combatido e abolido.

 

9. Numa realidade capitalista em que o veganismo conquiste o mercado e os produtos animais caiam no desprestígio, isso não vai acontecer com produtos veganos não, vai?

Um escândalo do tipo tem uma chance altíssima de acontecer num futuro de disseminação ainda maior de produtos vegetarianos. Afinal, lembremo-nos que a motivação de muitos empreendedores no mercado vegetariano é o puro lucro sem responsabilidade, ao invés do respeito pleno aos animais e aos consumidores.

Com isso, não duvidemos que se descubra, algum dia nos próximos anos, que, por exemplo, algumas marcas de queijo vegano estejam secretamente misturadas com caseína, uma proteína do leite, ou com glicerina animal, em quantidades muito maiores do que meros traços. Ou que alguma coxinha de jaca ou de proteína de soja venha com respectivamente carne de frango ou carne bovina moída misturadas no recheio.

Nessas horas percebemos que a mentalidade capitalista de “fazer o bem” motivado por lucro, ambição e sonhos de enriquecimento é algo extremamente falível. Para reforçar essa constatação, lembremo-nos de quem defende ideias de direita a partir da crença de que “o ser humano é cruel,  egoísta e capitalista por natureza”.

 

10. O que você acha de algumas pessoas, que se dizem de esquerda, que estão achando que a operação é uma conspiração dos Estados Unidos para enfraquecer e subjugar a economia brasileira?

Eu acho essa atitude risível e venenosamente contrária aos ideais da esquerda. Essas pessoas estão, na prática, mesmo que neguem ou tentem relativizar, defendendo latifundiários, corporações privadas, o mais podre e antiético capitalismo, a não fiscalização do mercado pelo Estado e, sobretudo, a exploração animal e o envenenamento de seres humanos onívoros.

Essa é a típica “esquerda que a direita gosta”.

 

11. O que você acha daqueles que estão preocupados com os funcionários de frigoríficos que provavelmente irão perder seus empregos por causa do impacto da operação na reputação e produção dessas empresas?

Elas estão sendo coniventes com a semiescravização de trabalhadores nos frigoríficos e, por tabela, também com a literal escravidão nas fazendas. Estão usando os trabalhadores como token para ficar ao lado do opressor ao invés daqueles que precisam ser libertados o quanto antes do trabalho extremamente degradante, insalubre e perigoso na indústria da carne.

É necessário fazer com esses trabalhadores o mesmo que se faz, ou se deveria fazer, com aqueles resgatados da escravidão em fazendas: libertá-los, processar as corporações frigoríficas por violação de Direitos Humanos, dar aos resgatados bolsas de capacitação, prover-lhes formação educacional e prepará-los para trabalhos realmente dignos, que paguem bem e tenham algum valor a mais além do salário. E, é claro, conscientizá-los para tomarem parte na luta contra essa ordem escravocrata.

 

12. Qual atitude você me sugere a tomar neste momento?

Estamos num momento extremamente oportuno para divulgar os podres da indústria frigorífica e também da produção de outros alimentos de origem animal. Aproveitemos a ocasião da Operação Carne Fraca para bombardearmos a internet, com a devida noção de estratégia e muito respeito por quem queremos conscientizar, com conteúdo pró-vegano e pró-vegetariano.

Denuncie o quanto a pecuária depende, por definição, da violência contra animais e hoje precisa escravizar seres humanos, destruir o meio ambiente, comer dinheiro dos nossos impostos, corromper os órgãos de fiscalização e nos vender “alimentos” contaminados para ser tão lucrativa. Mostre que ninguém é obrigado a comprar e consumir de uma agroindústria tão cruel e antiética, e que o veganismo está de braços abertos para tornar a vida de todos mais ética, sustentável, saudável e de qualidade.

A hora é essa de atrairmos a curiosidade de muitas pessoas, que estão com pé atrás para comprar carne, e mostrar-lhes que existe uma alternativa muito melhor de vida para elas, e que respeitar genuinamente os animais é bom para estes e os próprios seres humanos.

 

Este artigo esclareceu uma ou mais dúvidas suas sobre a Operação Carne Fraca? Comente logo abaixo. Se quer mostrar esse esclarecimento para outras pessoas que ainda sabem pouco sobre a operação, compartilhe-o.

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

One Comment on “12 perguntas e respostas sobre a Operação Carne Fraca e sua repercussão

  1. Pingback: #SegundaSemCarne Uma reflexão sobre a surpreendente reação de parte da esquerda brasileira à Operação Carne Fraca – Psicóloga + Doutoranda

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *