Os problemas da história desenhada “Uma estratégia para a libertação animal: a mudança necessária…”

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Editado em 12/04/2016 às 22h50

Li recentemente uma história desenhada chamada Uma estratégia para a libertação animal: a mudança necessária no movimento pelos Direitos Animais, num blog de uma postagem só chamado Pela abolição do veganismo, pela abolição da escravidão. Imaginei que fosse encontrar uma proposta consistente em prol do amadurecimento do movimento animalista, mas infelizmente o que encontrei foi uma história cheia de problemas que, no final das contas, desvaloriza injustamente a conscientização vegana e “propõe” algo que já está acontecendo.

O foco da historinha é criticar a defesa do veganismo como meio principal de promoção da libertação animal e recomendar a atuação política abolicionista para que os animais não humanos sejam libertados do especismo. Afinal, o simples boicote a determinados produtos não teria funcionado em causas humanas como a revogação da legalidade da escravidão – que aboliu a consideração de muitos seres humanos como coisas perante a lei, mas não extinguiu totalmente os trabalhos escravos. Mas o texto-imagem acaba falhando em trazer uma abordagem consistente sobre isso, por causa de suas falsas analogias e sua abordagem rasa sobre como se dá a divulgação do veganismo.

 

O problema de comparar de maneira imprudente a exploração animal com a escravidão humana

A história começa carimbando que os animais não humanos são escravizados pelos seres humanos. Dizer isso não é, objetivamente falando, um erro, já que a relação entre seres humanos e animais não humanos é necessariamente de escravagismo. Mas tem sido ressaltada, há algum tempo, a necessidade de se ter prudência em falar da exploração animal como um sistema escravista.

Ao tachar cruamente os animais não humanos de escravos dos humanos, o texto-imagem vira as costas para quem critica e pede parcimônia no uso do termo “escravidão” para os animais não humanos. Muitas dessas críticas se fundamentam nos fatos de que a animalização das populações negras e indígenas ainda está muito arraigada no inconsciente coletivo das sociedades ao redor do mundo e que, quando se compara animais não humanos explorados a seres humanos escravizados ao dizer crua e explicitamente que “os animais são nossos escravos”, está-se indiretamente dizendo que pessoas de minorias políticas historicamente animalizadas são animais.

Isso, por via de regra, não é incorreto – e inclusive é um princípio dos Direitos Animais considerar que a espécie humana é uma espécie animal tanto quanto cães, bovinos, porcos, galináceos, peixes etc. Mas dizer isso de maneira crua, sem um diálogo interétnico respeitoso, responsável e compreensivo, pode atrair a antipatia, por exemplo, de pessoas do movimento negro e de judeus descendentes de vítimas do Holocausto, ao invés de sensibilizá-las para a causa animal.

Elas estão fartas de ver seu povo sendo inferiorizado por meio da animalização – considerando-se que a animalização preconceituosa visa inferiorizar certas categorias de seres humanos, comparando-os de maneira pejorativa aos animais não humanos e colocando ambos no patamar da inferioridade moral, algo ao mesmo tempo racista e especista. E tudo o que tais pessoas não querem é ver um movimento que se diz igualitário e libertário promover uma abordagem que parece ressaltar de maneira irresponsável que eles “são iguais aos animais não humanos”, algo inaceitável para quem viveu a vida inteira sendo animalizado(a) e/ou teve antepassados seus vitimados por animalização e, não tendo sido introduzido(a) devidamente aos Direitos Animais, interpreta a mensagem como um atestado de inferiorização moral.

Precisamos ter a noção de que não se pode abordar todos os seres humanos sobre os Direitos Animais de maneira uniforme, que não respeite as memórias e particularidades históricas de cada categoria humana. Dizer a pessoas negras, judias e indígenas que sofrem até hoje com as consequências do escravismo racista do passado, o antissemitismo e o genocídio que elas “também são animais” e igualar a escravidão dos animais não humanos à sofrida pelos antepassados delas tem uma receptividade bem diferente em comparação a dizer a veganos brancos não judeus de classe média-alta, que não sofrem racismo nem são alvo de genocídios, que eles são parte do mundo animal da Terra.

 

As falsas analogias da história

A história em questão é repleta de falácias de falsa analogia. A primeira delas é comparar a conscientização pró-vegana à pregação religiosa.

Isso parte da premissa de que os veganos em geral divulgariam o veganismo como se fosse “a salvação dos indivíduos”, e não o mínimo necessário para se ter o compromisso pela abolição da exploração animal. E deixa a entender que os divulgadores do veganismo em geral acreditam que o veganismo sozinho seria o suficiente para abolir o especismo.

Tal falsa analogia se casa com a falácia de falsa premissa ao desconsiderar que muitos veganos conscientizadores têm total ciência de que sua ação se complementa a diversas outras formas de ativismo, como o acadêmico, o econômico (disseminar e comercializar produtos veganos a preços módicos, colocando a causa vegana acima do interesse pelo lucro), as ações diretas e a atuação política.

As duas falácias, além da do espantalho, também se fazem presentes na análise rasa sobre o que é divulgado nas mensagens de conscientização em prol do veganismo. Ela deixa subentendido que todo mundo do meio vegano fala a mesma coisa para os não veganos: mensagens demasiadamente subjetivas e apelativas sobre exploração animal, informes vagos sobre o impacto da pecuária e pesca no meio ambiente e alertas pouco consistentes sobre os maus efeitos dos produtos animais na saúde humana.

A seguir, faz comparações falaciosas entre a conscientização vegetariana pelo meio ambiente e o impacto ambiental do sangue de crianças e entre a conscientização focada na saúde e o alerta aos canibais dos males da carne humana. Aqui deixa de perceber que há muito mais facilidade de se falar de Direitos Humanos para quase todos (exceto talvez os fascistas, neonazistas e religiosos fundamentalistas) do que de Direitos Animais. Ao contrário dos Direitos Animais, não é necessário para os Direitos Humanos criar atalhos de conscientização por meio do meio ambiente e da saúde, já que se está falando de algo óbvio: não fazer leis tratando uns seres humanos como propriedade de outros.

É certo que continuam existindo muitas formas de escravidão e inferiorização moral de seres humanos de minorias políticas, mas é praticamente consensual que não devem mais existir leis separando os humanos entre sujeitos de direito e coisas, mesmo que muitos sejam hipócritas em sua posição. Já os Direitos Animais não contam com esse consenso, essa obviedade. Portanto muitos não irão entender e aceitar tão fácil e rapidamente que os animais não humanos devem ter direitos assegurados e respeitados. É por isso que muitos recorrem ao ambientalismo e à preocupação com a saúde como atalhos de conscientização e demolidores de barreiras psicológicas.

Falando em obstáculos psicológicos, ignora-se ali que a defesa do vegetarianismo (alimentação livre de todo e qualquer alimento de origem animal) por meio da saúde e do meio ambiente facilita a transição dos conscientizados para o veganismo. Afinal, eles não terão mais aquela resistência em continuar no prazer gustativo dos alimentos de origem animal, no medo da fragilização da saúde e da perda da diversidade culinária e no apego a anos de tradição no consumo não vegano. E sem esse obstáculo, estarão muito mais receptivos para diálogos e conteúdos sobre Direitos Animais. Vale lembrar que muitos dos mais engajados ativistas vegano-abolicionistas ao redor do mundo começaram no vegetarianismo pelo meio ambiente ou pela saúde para, em seguida, serem introduzidos à causa animal e, consequentemente, inseridos no veganismo.

Mais adiante, aparece outra falsa comparação: entre o veganismo e o “hooganismo”, uma imaginária ideologia que defenderia, no século 19, o boicote a produtos fabricados com trabalho escravo. Ao imaginar o “hooganismo”, comete um grave anacronismo, por comparar indevidamente o contexto econômico daquela época com o do século 21.

Naquela época, não havia uma ordem econômica na qual pessoas “hooganas” poderiam comprar produtos não procedentes de mão de obra escrava, ou abrir pequenas empresas que fabricassem produtos “hooganos”. Na maioria das colônias e países independentes do mundo, não se podia escapar de consumir produtos de origem escrava, como no caso do Brasil colonial e imperial, onde muitos produtos essenciais eram fabricados por negros escravizados ou outras pessoas submetidas a trabalho precário, como imigrantes europeus, e praticamente não havia opções feitas por mão de obra “livre” – nem sequer a possibilidade de abrir empresas assim, já que o próprio conceito de empresa no século 19 era diferente do de hoje.

Também não leva em conta que, ao contrário do escravismo, que era, na maioria das vezes, uma dominação também de classe – brancos ricos, com direito à propriedade privada, contra negros despossuídos, sem esse direito –, o especismo está presente em todas as classes, desde as pessoas em situação de rua ou moradoras de favelas até os mais poderosos multibilionários. É preciso entender que os ricos exploram os animais muito mais do que os pobres, mas não se pode negar a necessidade de as devidas mensagens veganas chegarem a todas as classes sociais, e a libertação animal ser um compromisso do máximo possível de pessoas.

Junte-se isso ao fato de que, ao contrário dos negros escravizados resistentes do passado, que lutavam por conta própria, por sua própria liberdade e dignidade, os animais não humanos não podem se defender sozinhos da exploração especista, e por isso precisam dos humanos. E como foi dito, é muito menos complicado entender a demanda de seres humanos por direitos fundamentais do que a necessidade de se reconhecer os animais não humanos como merecedores de direitos.

Outra analogia imprópria no texto é comparar o discurso de Martin Luther King contra o racismo e a hipotética conclamação “hooganista” ao boicote dos ônibus da cidade de Montgomery. Novamente vem à tona os fatos já mostrados de que, se os Direitos Humanos são hoje algo relativamente fácil de se compreender, os Direitos Animais não contam com essa obviedade, e que o ativismo vegano não atua de maneira isolada, mas sim apoiado por outras táticas de defesa dos Direitos Animais.

Vale notar, durante essa listagem de falsas analogias, que se repete a imprudência de desconsiderar memórias históricas traumáticas, ao se apelar para a comparação entre a exploração animal e os campos de concentração. Lembremo-nos que existiram campos de concentração não só na Alemanha nazista, mas também em diversos outros países, como o próprio Brasil (ler mais nos sites da ONG Repórter Brasil e da revista Superinteressante).

Portanto, sobreviventes de campos de concentração e seus descendentes são muito mais numerosos do que o senso comum crê. E comparar de maneira tão crua e irresponsável o que essas pessoas ou seus ascendentes viveram com a pecuária pode lhes causar repulsa, e não entendimento e empatia, pela causa animal.

Também vale relembrar a questão da animalização de minorias políticas. Não é de qualquer maneira, por discursos irresponsáveis e insensíveis, que pessoas que sofreram na pele as consequências da cultura de animalizar humanos tidos como “inferiores” serão convencidas de que os animais não humanos merecem tanto respeito quanto os seres humanos.

Além das falsas analogias, também estão presentes a falácia de falsa dicotomia e, talvez não intencionalmente, o apelo ao ridículo, ambas presentes simultaneamente ao se colocar como mutuamente excludentes ou incompatíveis a conscientização vegana e o ativismo abolicionista e se fazer pouco caso do conteúdo dos diálogos veganos.

A história desenhada não faz nenhuma crítica a algum conteúdo específico das mensagens de conscientização pró-vegana e pró-vegetariana, mas sim coloca todos os argumentos defensores do veganismo num só balaio de “maus argumentos”, desde o apelo ao amor aos animais até a apresentação de dados científicos sobre a senciência animal e estatísticas da destruição ambiental causada pela pecuária, pesca e aquicultura. Nessa abordagem de baixa qualidade, não propõe nenhuma melhoria nas mensagens pró-veganas e nas abordagens boca-a-boca, uma vez que é contra a divulgação vegana como meio principal de promover os Direitos Animais.

E no final das contas, desconsidera que já são promovidas pelo abolicionismo animal as estratégias de ativismo político de outros movimentos de justiça social: expressar exigências e reivindicações, torná-las visíveis por meio da comunicação de massa e criar amplos debates públicos. E isso não precisou da eliminação da conscientização vegana.

 

Em defesa da conscientização vegana

Ao contrário do que a história Uma estratégia para a libertação animal… alega, a conscientização em prol do veganismo, mesmo aquela que começa por temas como a saúde e o meio ambiente, tem uma importância indispensável para os Direitos Animais. É por ela que o número de pessoas conscientes da necessidade de libertar os animais não humanos do especismo – e, por tabela, de ativistas abolicionistas – está aumentando e vai continuar em expansão.

É graças à conscientização que as sociedades ao redor do planeta estão, aos poucos, percebendo que os animais não humanos têm sua dignidade própria e merecem direitos fundamentais. Sem esse crescimento da população vegana do planeta – ou seja, sem um trabalho de base em prol da ética vegano-abolicionista –, seria impossível a luta pela libertação animal conseguir qualquer sucesso no futuro.

Os animais não humanos dependem de todos nós, e não serão libertados da pecuária, dos rodeios e vaquejadas, da indústria de peles, da pesca etc. se a população abolicionista continuar sendo uma minoria muito pequena e politicamente influente de menos. Nesse contexto, divulgar o veganismo e os Direitos Animais é essencial para abrir portas e caminhos para um ativismo cada vez mais intenso e presente na sociedade e na política. E, é claro, de maneira responsável, prudente, que respeite as memórias históricas das minorias políticas e evite acionar traumas de opressão.

Por isso eu reitero que, ao contrário do que o texto-imagem argumenta, não devemos esnobar a necessidade de tornar cada vez mais pessoas veganas e defensoras convictas e coerentes dos Direitos Animais. E isso inclui, entre outros meios de ativismo conscientizador, apontar falácias e outros problemas argumentativos naquilo que dizem aqueles que se opõem ao veganismo – mesmo que intencionem não proteger a exploração animal, mas o contrário.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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6 Comments on “Os problemas da história desenhada “Uma estratégia para a libertação animal: a mudança necessária…”

  1. Robson, parabéns! Ótimo texto. “Ao contrário do que a história Uma estratégia para a libertação animal… alega, a conscientização em prol do veganismo, mesmo aquela que começa por temas como a saúde e o meio ambiente, tem uma importância indispensável para os Direitos Animais.” Em relação a essa parte, eu pensava como a autora das imagens sobre a utilização de argumentos ambientais e de saúde na hora de conscientizar, mas após ler o seu texto passei a me questionar. Vou refletir sobre o assunto.

  2. Realmente os argumentos comparando a escravidão animal à humana podem ser um tiro no pé, mas eu concordo com eles quando dizem que os motivos ambientais e de saúde não devem ser usados. Eu digo isto por uma única razão: o mel.
    O mel faz mal ao ambiente? Se a exploração apícola for feita numa área geográfica em que a apis mellifera é nativa, não. Um ambientalista pode ser vegetariano semiestrito (detesto este termo) e não pode ser chamado de hipócrita. Também já ouvi falar nas “agrotorres” (ou “skyfarming”), que hão-de fazer a própria pecuária ser benéfica ao ambiente.
    O mel faz mal à saúde? Pelo que eu tenho ouvido, ele faz bem. E se a dieta mediterrânica for provada como melhor que o vegetarianismo estrito, aí é que esse argumento já não poderá ser usado.

    • Sobre o skyfarming: http://www.gizmag.com/aprilli-design-studio-urban-skyfarm/32954/
      O meu livro de português: “a paisagem urbana irá transformar-se substancialmente, nas próximas décadas, com a presença de “agrotorres” que irão transferir hortas, >aves de capoeira, gado e mesmo viveiros de pisciculturaum regimento de mexilhões-zebra (Dreissena Polymorpha)<, autênticos purificadores naturais."
      Se alguém leu isto tudo, por favor pense antes de usar razões ambientais para divulgar o vegetarianismo.

      • Parece que o meu comentário foi cortado, eis o excerto que cortou:
        “… viveiros de piscicultura para os arranha-céus das cidades. […] O sistema […] permitirá cultivar os alimentos muito perto do local de consumo, o que irá reduzir […] as emissões dos veículos…”
        “Para fazer as plantas crescer, os produtores deverão recorrer à hidroponia, um método que utiliza soluções minerais em vez de solo e que permitirá reduzir o consumo mundial de água cerca de 70%. Otimizar a qualidade da rega ficará a cargo de um regimento…”

        • Ariana, pelo visto apenas pessoas que realmente consumissem alimentos de origem animal originados desse método de criação animal poderiam se defender.

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