diabo-verde

Paula Pardillos, colaboradora do blog Camaleão, escreveu esse interessante texto sobre como deveríamos encarar o capitalismo enquanto veganos, e sobre o perigo de ser um defensor do veganismo capitalista, atrelado ao status quo e à exploração humana. Vale a pena ler.

 

O vegano capitalista, e o que o movimento animalista tem a ver com isso
por Paula Pardillos

Assim como o vegetarianismo-por-qualquer-motivo, o veganismo-de-consumo é uma campanha que se encerra em si mesma; elas se baseiam na ilusão de que todo o mundo será convencido de assumir certas posturas, e assim a libertação animal simplesmente ocorrerá, sem nenhum empecilho – como uma carne de proveta que usa insumos animais – para plantar exceções nas cabeças das pessoas, que não têm clareza do que estão assumindo.

Temos visto cada vez mais ‘veganos’ por aí, e cada vez mais ‘veganos’ que não lutam pelos direitos animais, apenas retiraram os produtos de origem animal de seu leque de consumo e vestem camisetas estilizadas; E lojas ‘veganas’, bares, restaurantes… o que isso quer dizer? A campanha pela adesão ao veganismo esta funcionando?

Criamos um publico de consumo dito vegano e as empresas estão se ajustando, e não são mais apenas empreendedores e pequenas empresas de dentro do movimento, e sim grandes empresas que não têm nenhuma preocupação ética – seja com animais humanos ou não-humanos. Já estamos sendo testemunhas do Mercado se adaptando, e qual pode ser o resultado disso? Um mundo vegano capitalista no qual, se dermos muita sorte, os animais não-humanos não serão mais explorados, mas apenas os seres humanos e a natureza.

Esse termo, portanto, tem alguma coerência? Se o veganismo dita o respeito aos seres sencientes, poderia ele ser capitalista? (e aqui lemos capitalista sem nenhuma outra possível interpretação além de sistema exploratório na configuração em que vivemos). A resposta é não.

Devemos questionar a falsa liberdade oferecida pelo capitalismo meritista, dentro do qual estamos sujeitos a ser apenas parte da engrenagem que sustenta a Cidade, enquanto realidade particionada onde cada um realiza sua pequena tarefa, de modo que não podemos nos auto-provir e auto-gestionar, e mantemo-nos afastado da exploração que cada um sofre para que poucos esbanjem o luxo (dentro dos valores inventados). E é esse o mesmo sistema que mantém o sofrimento animal longe dos olhos de todos, e enquanto defendermos a abolição do uso de animais dentro do sistema, enquanto não combatermos o sistema, ele continuara a escravizar, a nos alienar e controlar.

Se estamos de acordo, então, que o veganismo não é coerente com o sistema atual, com que justificativa estamos defendendo mudanças de posturas menos radicais do que as necessárias? Com que justificativa estamos pulando de alegria e distribuindo selos ‘vegano’ para cada iniciativa vegetal de um produto fútil como um cosmético? Alguns me respondem que a existência desses produtos é necessária porque só assim as pessoas vão perceber como um mundo vegano é possível. Um mundo vegano, nessa concepção, é um mundo onde podemos nos manter distanciados do processo de produção e descarte dos nossos utensílios, no qual podemos ir ao supermercado ou ao shopping e adquirir cintos, bonés, maquiagem, enlatados com selos ‘cruelty-free’?

Pode ser que o Mercado procure se adaptar de qualquer forma, e também que muitas pessoas apegadas a seus valores não queiram sonhar um mundo livre, de modo que essa fase vegana-capitalista se faz inevitável; mas porque nós, do movimento, a defendemos como fim?

Não é novidade para ninguém, inclusive, incoerências mais gritantes dentro do movimento de defesa animal, como a incitação de ódio a seres humanos – temos aqui o exemplo daquela pavorosa faixa “troque os testes em animais por pedófilos e assassinos” ou ainda “a nossa luta é contra os carroceiros”;  raciocínio esse que, ao contrário do que muitos pensam, não se resume apenas ao movimento dos protetores-não-veganos-nem-vegetarianos, o que demonstra a urgência de estudarmos e discutirmos a abrangência do veganismo.

É imperativo que saiamos da lógica do consumo, e comecemos a propor a reflexão ética de fato, se esperamos um dia alcançar a tão almejada libertação pois, se não o fizermos, estamos esperando que quem o faça?

2 comments

  1. Seu texto me fez lembrar essa passagem do filme Matrix

    https://www.youtube.com/watch?v=bCZd_60Rwcc

    A humanidade sobreviveria em um mundo perfeito? Sem misérias, ganância, propriedades, explorações, sofrimento? Um sistema socialista e paternalista deixaria nossas mentes tranquilas e livres para sermos mais compassivos? Estamos preparados para uma mudança de modelo?

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