É verdade que uma pesquisa sobre agricultura e suprimento de alimentos nos EUA está criticando o veganismo?

Postagem de página "cética" distorcendo pesquisa para criticar o veganismo, tratando-a como se fosse antivegana

Postagem de página “cética” distorcendo pesquisa para criticar o veganismo, tratando-a como se fosse antivegana

Pesquisa afirma que as terras dos EUA poderiam alimentar hoje menos vegetarianos e veganos do que, por exemplo, ovolactovegetarianos. Mas será que isso é uma crítica ao veganismo?

Você vegan soube da novidade dos antiveganos?

Diversos sites (como esse) e páginas sociais (como essa) estão acusando que o veganismo não seria “tão bom assim” para o meio ambiente e a humanidade.

Afinal, segundo a pesquisa intitulada Carrying capacity of U.S. agricultural lands: Ten diet scenarios (Capacidade de carregamento das terras agrícolas dos Estados Unidos: dez cenários dietéticos), o vegetarianismo (que defino como alimentação livre de qualquer componente de origem animal e é chamado pela pesquisa de vegan diet) poderia alimentar menos pessoas do que dietas flexitarianas (com laticínios, ovos e/ou quantias reduzidas de carne) ou cenários populacionais com pouco consumo de carnes.

Mas será que esse estudo realmente está criticando o veganismo e considerando-o “não tão benéfico” para o mundo?

 

O que a pesquisa em questão descobriu

Variados alimentos de origem vegetal e animal: o universo alimentar da pesquisa sobre a agropecuária dos EUA

Variados alimentos de origem vegetal e animal: o universo alimentar da pesquisa sobre a agropecuária dos EUA

A pesquisa analisou variáveis como o uso das terras estadunidenses (divididas em pastagens, terras cultivadas e terras de cultivo perenes), o impacto de cada tipo alimentar (fontes de proteína, oleaginosas, vegetais, frutas etc.) nesse uso e como cada dieta atende às necessidades alimentares do estadunidense médio.

Foram delimitadas as dez dietas seguintes:

  • Dieta base: aquela alimentação que hoje é muito comum nos EUA, repleta de proteína animal, açúcar e gordura;
  • Dieta positiva: similar à dieta base, só que com menos gordura e açúcares;
  • Dieta “100% onívora saudável”: 100% dos estadunidenses consumindo alimentos de origem animal e vegetal em quantidades consideradas saudáveis;
  • Dieta “80% onívora saudável”: 80% consumindo a dieta “onívora saudável” e 20% tendo uma dieta ovolactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta “60% onívora saudável”: 60% consumindo a dieta “onívora saudável” e 40% tendo uma dieta ovolactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta “40% onívora saudável”: 40% consumindo a dieta “onívora saudável” e 60% tendo uma dieta ovolactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta “20% onívora saudável”: 20% consumindo a dieta “onívora saudável” e 80% tendo uma dieta ovolactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta ovolactovegetariana: 100% dos estadunidenses se abstendo de carne e consumindo uma dieta ovolactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta lactovegetariana: 100% dos estadunidenses se abstendo de carne e ovos e consumindo uma dieta lactovegetariana considerada saudável;
  • Dieta vegetariana (vegan diet): 100% dos estadunidenses se abstendo de todo e qualquer alimento de origem animal e consumindo uma dieta vegetariana considerada saudável.

A conclusão, de acordo com a Tabela 4, foi que os solos dos EUA poderiam alimentar hoje 735 milhões de estadunidenses, e essa população seria menor do que nos cenários dietéticos de “40% onívoros saudávei” (752 mi), “20% onívoros saudáveis” (769 mi), ovolactovegetarianos (787 mi) e lactovegetarianos (807 mi).

Isso foi o suficiente para muitos antiveganos em vários países se acharem “com razão” em suas crenças de que o vegetarianismo e o veganismo não seriam “tão bons assim” para a alimentação humana e o meio ambiente.

Afinal, segundo observaram, muitas das terras dos EUA usadas pela agropecuária são utilizáveis exclusivamente como pastagem ou plantações de forragem e não podem ser convertidas em terras propriamente agrícolas. E com isso alguns dos padrões de dieta não vegetariana seriam “superiores” ao vegetariano por aproveitarem uma parte desse solo não destinado a vegetais de consumo humano.

Vejamos se a pesquisa realmente critica o veganismo e o vegetarianismo.

 

O que a pesquisa concluiu realmente sobre o vegetarianismo e a agricultura nos EUA

Tabela 4 da pesquisa, que determina quantas pessoas em cada cenário dietético a agropecuária dos EUA pode alimentar hoje

Tabela 4 da pesquisa, que determina quantas pessoas em cada cenário dietético a agropecuária dos EUA pode alimentar hoje

Uma leitura dedicada no texto do estudo vai nos revelar o que ele realmente fala sobre as capacidades da agricultura estadunidense de alimentar veganos e vegetarianos. E que, ao contrário do que os antiveganos interpretaram, nada ali fala mal do vegetarianismo.

Em primeiro lugar, tomou-se como base um padrão único de alimentações onívora, ovolactovegetariana, lactovegetariana e vegetariana consideradas saudáveis, com determinadas distribuições que, para os fins da pesquisa, foram consideradas uma média de todos os estadunidenses em cada padrão.

Por exemplo, nessa alimentação média, “todos” os estadunidenses vegetarianos e veganos consumiriam tofu e leite de soja, e “todos” os lactovegetarianos consumiriam uma porção igual de laticínios. Alternativas como leite de arroz ou de aveia não foram consideradas.

Em segundo, e o mais importante, a pesquisa foca nas capacidades agrícolas de hoje dos solos estadunidenses. Ou seja, quantas pessoas cada dieta poderia alimentar baseando-se no que a agricultura dos EUA pode fornecer atualmente.

Não foram feitas estimativas sobre se essa capacidade será a mesma daqui a, por exemplo, 20 anos. Aliás, a própria pesquisa faz essa ressalva nos resultados:

[…] it is essential to recognize that shifts toward plant-based diets may need to be accompanied by changes in agronomic and horticultural research, extension, farm operator knowledge, infrastructure, livestock management, farm and food policy, and international trade.

Tradução (grifo meu):

[…] é essencial reconhecer que mudanças para dietas vegetais podem precisar ser acompanhadas por mudanças em pesquisas agronômicas e horticulturais, extensão, conhecimento dos funcionários das fazendas, infraestrutura, gerenciamento de rebanhos, políticas de fazendas e alimentos e comércio internacional.

Ou seja, a agricultura nacional nuns Estados Unidos em que o veganismo tenha se tornado dominante será muito diferente da que existe hoje naquele país. E aliás, mesmo hoje a agricultura estadunidense já poderia alimentar uma população nacional total 100% vegana 83% maior do que o número de habitantes dos EUA em 2010.

E é importante considerar também que a pesquisa é referente exclusivamente ao cenário agrícola atual dos EUA. É leviano considerá-lo igual ou equivalente ao brasileiro ou ao global. A agricultura brasileira pode nutrir uma população nacional 100% vegetariana ou maior ou menor do que a estadunidense pode alimentar os locais, e isso precisará ser estudado por uma pesquisa própria da realidade do Brasil.

 

Ou seja…

Uma agricultura diferente da atual é necessária para otimizar a produção agrícola nos EUA e aumentar ainda mais o número de pessoas que podem ser alimentadas pelas terras cultiváveis daquele país

Uma agricultura diferente da atual é necessária para otimizar a produção agrícola nos EUA e aumentar ainda mais o número de pessoas que podem ser alimentadas pelas terras cultiváveis daquele país

Mais uma vez os antiveganos estão usando de manipulação e distorção, para atribuir oposição contra o veganismo a uma pesquisa que em nada depõe contra a alimentação vegetariana e o consumo vegano.

Converteram falsamente um estudo que revela a necessidade de mudanças na agricultura dos EUA, à medida que a população vegana daquele país aumente e a não vegana diminua, em uma peça “denunciante” de supostas desvantagens e problemas “irremediáveis” do veganismo.

E isso mais uma vez não resistiu a uma análise cética, que revele o que a pesquisa realmente fala acerca do veganismo e do vegetarianismo.

Assim como em todas as demais tentativas de difamar o veganismo com base em pesquisas mal interpretadas ou mesmo malfeitas (leia também os exemplos da famigerada pesquisa austríaca de 2014, de uma outra que revelava supostas relações entre vegetarianismo e transtornos mentais e de uma reportagem de 2014 que distorce outro estudo), não foi dessa vez que o antiveganismo conseguiu deixar o veganismo e sua ética em xeque.

E esse momento de êxito dos antiveganos tende a nunca chegar. Não é nada fácil, nem viável, inferiorizar objetiva e cientificamente um modo de vida baseado em ética, respeito, empatia, compaixão e igualdade moral – e com consequências ambientais muito positivas – em favor de um hábito de consumo baseado em violência, injustiça e insustentabilidade socioambiental.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “É verdade que uma pesquisa sobre agricultura e suprimento de alimentos nos EUA está criticando o veganismo?

  1. Texto muito bom Robson, você está escrevendo cada vez melhor.
    Realmente o que veicularam por aí é uma clara interpretação anti-vegana.
    O estudo simula os limites produtivos da terra daquele país, quanta gente ela poderia alimentar usando todos os seus recursos, para uma população muitas vezes maior do que a que existe hoje, o que não acredito que deva ser uma boa ideia já que as pessoas não apenas comem, elas gastam muitos outros recursos naturais em outras atividades, apenas concluir que dá para alimentar mais gente não é concluir que isso é ecologicamente melhor.
    Daqui a pouco farão um estudo sobre a possibilidade de alimentação com as terras do Polo Norte e vão concluir que todo mundo deve se alimentar como os esquimós.

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