Pesquisa austríaca alega saúde mais frágil entre vegetarianos(?), mas diversos detalhes revelam que não é bem assim

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Editado em 07/09/15 às 21h48

Aviso: Antes de achar que a interrogação do título deste post é uma falácia do escocês, leia o post para saber por que eu coloquei essa interrogação.

Uma pesquisa publicada em fevereiro e só agora divulgada na mídia internacional está causando estranhamento entre veg(etari)anos e uma (ilusória) alegria nos carnistas. Trata-se de um artigo científico da Universidade Médica Graz, da Áustria, que alegou que “vegetarianos” teriam uma propensão maior a doenças crônicas e precários hábitos de vida diretamente ligados à saúde.

Dado o que foi alegado no abstract (o resumo de artigo científico), é perfeitamente compreensível por que o estudo está causando furor e confusão na internet neste momento. Mas uma análise concentrada e fria nos revela diversos detalhes que nos fazem concluir que, ao contrário do que se pensa tanto entre veg(etari)anos como entre carnistas, não foi revelada nenhuma relação causal entre o não consumo de alimentos de origem animal e a fragilização da saúde.

Pelo contrário, há evidências muito relevantes de que, na verdade, o não consumo de (algumas ou todas as) carnes é consequência, e não causa, do panorama de saúde frágil inferido. Aliás, sequer a pesquisa se refere necessariamente a vegetarianos propriamente ditos, pessoas não consumidoras de alimentos de origem animal, como mostro abaixo.

Há diversos detalhes na pesquisa que devem ser levados em consideração antes que qualquer conclusão precipitada, ou mesmo uma postura defensiva, seja adotada:

1. 76,4% das pessoas pesquisadas eram mulheres a partir de 15 anos (meninas abaixo dessa idade não foram pesquisadas);
2. A pesquisa usou dados de 2006 e 2007, o que revela um contexto histórico de saúde “vegetariana” diferente do atual;
3. A pesquisa, assim como o survey de onde ela extraiu os dados, incluiu piscitarianos (comedores de peixes, crustáceos e/ou moluscos, que na verdade não são vegetarianos) entre os indivíduos rotulados como “vegetarianos”;
4. O artigo tem um erro: fala de “vegetarianos” “consumindo peixe e/ou leite e ovos”, ao invés de “vegetarianos” “consumindo peixe”, o que causa uma grande confusão na leitura, deixando margem para se entender e acreditar que essa categoria incluiria ao mesmo tempo protovegetarianos (lacto e ovolactovegetarianos) e abstêmios apenas de carnes terrestres e, portanto, duas categorias simultaneamente estariam incluindo ovolactos. O Veganagente pressupõe então que todos os “vegetarianos” que consumiam “peixe e/ou leite e ovos” eram piscitarianos;
5. Considerando a pressuposição acima, nada menos que 54,5% dos “vegetarianos” incluídos na amostra do estudo eram na verdade piscitarianos, ou seja, apenas uma minoria era de pessoas que não comiam nenhuma carne;
6. Do survey de origem, apenas 31 pessoas eram verdadeiramente vegetarianas (estritas) ou veganas, das quais se deduz que 29 ou 30 (em torno de 96,2%, considerando que essa porcentagem das pessoas “vegetarianas” do survey original foi selecionada pelo estudo) foram incluídas entre as 330 pessoas “vegetarianas” selecionadas pelo estudo. Correspondem assim a apenas cerca de 9% de todos os indivíduos “vegetarianos” selecionados pela pesquisa. Por tabela, mais de 90% deles consumiam algum alimento de origem animal;
7. A pesquisa não distinguiu entre vegetarianos estritos, protovegetarianos e piscitarianos;
8. Ela não levou em conta há quanto tempo cada uma das pessoas “vegetarianas” da amostra selecionada parou de consumir um ou mais alimentos de origem animal (incluídos carnes terrestres, carnes aquáticas, laticínios e ovos);
9. Ela não incluiu nutricionistas entre as especialidades da medicina preventiva, nem entre as de profissionais de saúde tratadores de distúrbios e doenças já existentes.

Considerando-se essas constatações e uma análise posterior do artigo, percebe-se que há uma probabilidade generosa de que muitos dos “vegetarianos” eram, até pouco tempo antes do survey original lhes ser dado, pessoas de um perfil de risco em termos de saúde, adeptas de estilos de vida física e mentalmente nocivos e alimentação desequilibrada – o que incluria consumo exagerado de laticínios, consumo de alimentos gordurosos (incluindo frituras e talvez carnes gordas) a níveis perigosos e/ou ingestão imoderada de bebidas prejudiciais, como refrigerantes e bebidas alcoólicas – e ignorantes sobre a importância da medicina preventiva à saúde e ao bem-estar.

Essas pessoas teriam, diante da ocorrência recente (pouco antes da época do survey) de um ou mais problemas sérios de saúde – o que muito provavelmente inclui uma ou mais das doenças crônicas listadas na pesquisa -, procurado tratamento médico e, perante ordens médicas, parado o consumo de um ou mais tipos de carnes (entre terrestres e aquáticas) e começado a consultar diversos outros profissionais de saúde para fins de remediação.

Portanto, é forte a probabilidade de que a maioria das pessoas “vegetarianas” ali haviam parado de comer carnes vermelhas e/ou brancas menos de um ano antes, e que a desordem de sua saúde foi a causa da adoção de uma alimentação desprovida de carnes terrestres, e não o contrário, assim como o abandono do consumo de carnes figurou hipoteticamente como uma solução recorrente de melhorar a saúde.

Esse perfil encontra fortes evidências pelo fato de que mais de 90% dos “vegetarianos” incluídos na pesquisa eram ou piscitarianos ou protovegetarianos, o que evidencia um perfil de pessoas que pararam de comer uma ou mais carnes por orientação médica, destoando do perfil de pessoas que abandonaram os alimentos de origem animal por ética e/ou compaixão. Isso pode falar muito sobre o contexto histórico da pesquisa, no qual, em 2006 e 2007, o protovegetarianismo pela saúde era muito mais adotado do que o vegetarianismo de motivação ética na Áustria, considerando-se também que a divulgação de conteúdos de conscientização pró-Direitos Animais era bem menos intensiva e difundida do que hoje.

Tal perfil também é evidenciado pela afirmação do próprio artigo, que, na seção de discussão, assume (tradução livre):

Nossos resultados mostraram que vegetarianos (sic) alegaram condições crônicas e saúde subjetiva precária mais frequentemente. Isso pode indicar que os vegetarianos (sic) em nosso estudo consomem essa forma de dieta como consequência de suas desordens, uma vez que uma dieta vegetariana geralmente é recomendada como um método de gerenciar o peso corporal e a saúde. Infelizmente a ingestão alimentar não foi mensurada em mais detalhes – por exemplo, a ingestão calórica não foi incluída. Portanto, estudos futuros serão necessários para analisar a saúde e suas relações com as diferentes formas de hábitos alimentares em mais detalhes.

A hipótese contrária, tão acreditada pelos carnistas que tomaram conhecimento dessa pesquisa, a de que o “vegetarianismo” dessas pessoas teria aumentado os riscos de doenças e de maus estilos de vida e a necessidade de assistência médica remediativa, não encontra confirmação no artigo. Ele próprio assume que mais estudos precisam ser feitos de modo a analisar, por exemplo, a ingestão de nutrientes e calorias e a veterania do protovegetarianismo (ou do não consumo de carnes terrestres) de cada pessoa.

Além disso, nenhum dado específico sobre os vegetarianos estritos foi revelado, sem contar que a amostra dessas pessoas, estimadamente de 29 ou 30 indivíduos, era muito pequena e elas foram misturadas com um perfil muito diferente de opção alimentar, o dos piscitarianos. Também fica clara a necessidade de se fazer pesquisa com amostras numericamente suficientes de vegetarianos estritos e veganos, assim como a de separar vegetarianos estritos/veganos, protovegetarianos e piscitarianos em categorias distintas, assim como usar amostras com tamanhos iguais dessas três categorias, o que muitas pesquisas pelo mundo sobre alimentação vegetariana estrita e não estrita já fazem.

Além de tudo isso, existe uma possibilidade também de haver uma relação, ainda obscura, entre o perfil precário de saúde e estilo de vida da amostra “vegetariana” e questões socioculturais de opressão de gênero na Áustria, já que 76,4% do total de pessoas desse perfil são mulheres. Suspeita-se que a saúde delas antes da abolição do consumo de carnes terrestres tenha sido degradada por estarem sofrendo muito com o machismo de familiares, parentes, namorados/noivos/maridos e/ou colegas de trabalho, escola ou faculdade. Isso também precisa ser pesquisado de agora em diante, em estudos interdisciplinares.

Portanto, ao contrário do que os carnistas acreditam, não foi dessa vez que enfim apareceu uma pesquisa (com)provando por A + B que o vegetarianismo ou o protovegetarianismo fragilizariam, ao invés de fortalecer e proteger, a saúde das pessoas. Fica a lição tanto aos veg(etari)anos como aos carnistas: toda pesquisa deve ser friamente analisada antes de se confirmar que ela depõe verdadeiramente a favor ou contra a alimentação veg(etari)ana, e não devemos tirar nenhuma conclusão a partir apenas do que a mídia diz, uma vez que todos os dias ela demonstra ser uma divulgadora muito incompetente de pesquisas científicas.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “Pesquisa austríaca alega saúde mais frágil entre vegetarianos(?), mas diversos detalhes revelam que não é bem assim

  1. Eu vi essa notícia no Twitter @helpplaneta, e não acreditei claro!
    Essa “pesquisa” deve ter mesmo ligação com a indústria da carne – que agora parece que resolvou atacar a nós vegetarianos! –
    Mas eu acredito que nenhum vegetariano em sã consciência se renderá a essa afirmação mentirosa, dessa indústria assina de animais indefesos!

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