Pesquisa insinua relação entre vegetarianismo e transtornos mentais, mas revela diversas reservas

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Atualizado em 26/11/2013 às 13h52

Uma pesquisa publicada em junho de 2012 vem causando polêmica entre os veg(etari)anos e interpretações tendenciosas entre os carnistas, ao alegar que vegetarianos teriam mais chances de sofrer transtornos mentais, como síndrome do pânico, ansiedade generalizada e depressão. O estudo, intitulado Vegetarian diet and mental disorders: results from a representative community survey (Dieta vegetariana e transtornos mentais: resultados de um survey de comunidade  representativo), examinou os arquivos de um levantamento realizado na Alemanha no final da década de 90 e verificou uma ocorrência maior de alguns tipos de transtornos psiquiátricos entre pessoas que comem pouca ou nenhuma carne.

Prontamente alguns carnistas já estão propagando (exemplo) que o vegetarianismo seria literalmente uma alimentação deprimente que colocaria em risco a saúde mental das pessoas. Mas nem a própria pesquisa em si tira conclusões sobre a suposta relação positiva entre vegetarianismo e problemas de ordem psiquiátrica, segundo sua conclusão (tradução minha):

Importantemente, não encontramos nenhuma evidência de um papel causal da dieta vegetariana na etiologia dos transtornos mentais. Ao invés, nossos resultados são mais consistentes com a visão de que a experiência de um transtorno mental aumenta a probabilidade de escolher uma dieta vegetariana, ou que fatores psicológicos influenciam tanto a probabilidade de escolher uma dieta vegetariana como a de desenvolver um transtorno mental.

Além disso, três detalhes colocam em xeque a confiabilidade dessa suposta relação entre vegetarianismo e transtornos mentais:

a) Os dados do estudo foram obtidos de uma pesquisa amostral nacional realizada entre 1998 e 1999, questão de 14/15 anos atrás, o que pode significar a incompatibilidade entre o atual perfil de veg(etari)anos e a realidade daquela época, quando não havia toda a crescente abundância de conteúdo de conscientização online (documentários disponíveis online, blogs, sites, artigos etc.) e offline (DVDs audiovisuais, livros, panfletos, ações de conscientização nas ruas etc.) em prol da ética na alimentação.

Em outras palavras, se havia na Alemanha dos anos 90 uma tendência de algumas pessoas a se adotar o vegetarianismo para escapar de desordens psiquiátricas, ou mesmo o eventual descuido e falta de orientação profissional veg(etari)ana com a vitamina B12 causava naquele espaço e tempo uma maior suscetibilidade a transtornos de origem neuropática, hoje a ética tem se tornado cada vez mais importante do que a saúde física e mental como razão principal de se abraçar o vegetarianismo e o cuidado com a suplementação de B12 tem sido profissionalizado e massificado lá e no restante do mundo;

b) A amostra de vegetarianos é reduzida demais em comparação com o universo amostral total: apenas 54 pessoas cujos dados de alimentação e saúde foram acessados eram realmente vegetarianas. Além disso, só outras 190 tinham um consumo reduzido de carnes (“dietas predominantemente vegetarianas”), dentre um universo de 4.181 indivíduos (a parcela de indivíduos, dentre a amostra original de 7.124 pessoas que haviam participado do levantamento nacional, que havia respondido também a um questionário sobre saúde mental). Seria mais representativo e eficaz usar amostras bem maiores, inclusive usando amostras iguais de vegetarianos estritos/veganos, vegetarianos não estritos, comedores de pouca carne e comedores assíduos de carne, sob pena de se julgar centenas de milhões de pessoas por causa dos problemas de poucas dezenas;

c) O estudo se restringe ao território da Alemanha, o que torna o estudo suscetível à influência de um eventual contexto espaço-temporal de ocorrências de transtornos mentais e alcance da alimentação vegetariana. Em outras palavras, é duvidoso se realmente podemos aplicar generalizadamente às milhões de pessoas vegetarianas e veganas das sociedades ocidentais da década de 2010 o contexto de algumas poucas pessoas da Alemanha do final da década de 1990.

Com isso, não há o que se preocupar: não há nenhuma evidência conclusiva e confiável de que a alimentação vegetariana causa transtornos mentais nas pessoas.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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