Por que achar que a fome no mundo pode acabar “se você se tornar vegan” é uma crença ingênua

Latifúndio de soja, um dos problemas da má produção e distribuição de alimentos no mundo. O veganismo sozinho não vai eliminar esse problema

Latifúndio de soja, um dos problemas da má produção e distribuição de alimentos no mundo. O veganismo sozinho não vai eliminar esse problema

É necessário abandonar crenças em soluções fáceis para problemas complexos, entre elas a de que o veganismo sozinho pode erradicar a fome no planeta

Divulga-se muito que, se a grande maioria da população mundial aderir ao veganismo, haverá um alívio tão grande na produção agrícola global que será possível alimentar bilhões de seres humanos a mais além da população mundial já existente. Afinal, uma imensa parte da produção de alimentos vegetais é hoje destinada a rebanhos, o que diminui a eficiência da agricultura no mundo. Muitos dizem que essa desoneração poderá acabar com a fome no mundo. Mas será que basta a população humana vegana crescer para que isso aconteça?

Sinto em dizer, mas é ingênuo acreditar que basta o veganismo se expandir o suficiente para a fome ser erradicada do planeta. Ao contrário do que essa hipótese parece afirmar, o combate a esse flagelo não é apenas questão do quanto se produz de alimentos no mundo, mas também de desigualdades sociais, problemas de produção e distribuição ineficientes e interesses políticos e econômicos escusos.

Considere-se, ao pensar nisso, que hoje já há produção agrícola suficiente para alimentar todos os seres humanos. Poderia estar sendo produzido muito mais se não fosse a conversão de insumos agrícolas em produtos de origem animal, mas a pecuária e a aquicultura isoladamente não têm onerado a agricultura o bastante para tornar sua produção abaixo da necessária para a humanidade.

Por outro lado, porém, não há interesses econômicos, por parte dos latifundiários, favoráveis ao combate à fome. Não é à toa que, por exemplo, os proprietários de grandes plantações de soja e milho, ao invés de investir na diversificação de sua produção, comercializar seu produto a preços baixos para as populações pobres do seu país e forçar o mercado interno a baixar o preço dos alimentos, preferem exportar seus grãos para alimentar rebanhos de outros países ou de grandes pecuaristas e granjeiros em seu país. Essa política encontra a legitimação de muitos governos, como o brasileiro, que investe nos latifúndios monocultores 6,5 vezes mais do que nas pequenas propriedades.

Além disso, para uma grande população comprar alimentos suficientemente, é preciso tanto que grande parte dela produza o que sua comunidade vai comer como que todos tenham renda suficiente. E isso passa por políticas de redistribuição de renda e terras, diminuição das desigualdades sociais e investimentos na economia popular.

Mas não é o que vem acontecendo, por exemplo, no Brasil. Por aqui a reforma agrária praticamente parou desde o governo Dilma, e as políticas de redistribuição de renda não diminuem a porcentagem da renda dos mais ricos em comparação à dos mais pobres. Assim não tem combate à fome que prospere por muito tempo.

E no contexto de interesses políticos, o Deutsche Welle avisou, em reportagem de 2009:

“A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) já tinha reconhecido há 20 anos que “o problema não é tanto a falta de alimentos, mas a falta de vontade política”. Como a pobreza é o principal causador da fome, esta diminui em países que empreendem políticas capazes de gerar empregos e renda. Em contrapartida, onde há ditaduras e despotismo, há fome e morte por inanição.”

E também tem os muito relatados problemas de produção e distribuição dos alimentos. Questões como o imenso desperdício de comida no armazenamento, transporte e comercialização; a perda de solos férteis e o gasto exorbitante de água e terras por causa de métodos insustentáveis de agricultura em larga escala; e a insuficiência de políticas que barateiem os alimentos e os tornem acessíveis para todos impedem que a humanidade seja toda beneficiada pela produção agrícola atual. E é aqui que entra o desperdício de terras e alimentos que poderiam ser destinados para consumo humano com os gastos da pecuária, sendo apenas um dos fatores, não o único.

Quando levamos em questão todos os problemas de concentração agrária, economia rural e produção e distribuição de alimentos no mundo, percebemos que a erradicação da fome no planeta vai bem além de um número suficiente de pessoas aderir ao veganismo. Passa pela promoção de ativismos e práticas políticas, como a economia solidária, a permacultura e agroecologia, a construção de hortas urbanas, o enfrentamento aos interesses econômicos e políticos do agronegócio e a construção de um mundo mais igualitário. Defender apenas o veganismo, isolado dessas medidas, é carecer de consciência política e acreditar em soluções fáceis para problemas complexos.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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