Latifúndio de soja, um dos problemas da má produção e distribuição de alimentos no mundo. O veganismo sozinho não vai eliminar esse problema
Latifúndio de soja, um dos problemas da má produção e distribuição de alimentos no mundo. O veganismo sozinho não vai eliminar esse problema

Atualizado em 05/09/2018

Muitas pessoas divulgam que, se a grande maioria da população mundial aderir ao veganismo,  será possível alimentar bilhões de seres humanos a mais, para além da população mundial já existente.

Afinal, uma imensa parte da produção de alimentos vegetais é hoje destinada a rebanhos, o que diminui a eficiência da agricultura no mundo.

E a eliminação da demanda animal irá aliviar muito a agricultura. Muitos dizem que essa desoneração poderá acabar com a fome no mundo.

Mas será que basta a população humana vegana crescer para que isso aconteça?

Por que é preciso mais do que o crescimento do veganismo para a fome ser banida do planeta

Sinto em dizer, mas é reducionista acreditar que basta o veganismo se expandir o suficiente para a fome ser erradicada do planeta.

Ao contrário do que essa hipótese parece afirmar, o combate a esse flagelo não é apenas questão do quanto se produz de alimentos no mundo.

Mas também de desigualdades sociais, problemas de produção e distribuição ineficientes e interesses políticos e econômicos escusos.

Considere-se, ao pensar nisso, que hoje já há produção agrícola suficiente para alimentar todos os seres humanos.

Poderia estar sendo produzido muito mais se não fosse a conversão de insumos agrícolas em produtos de origem animal.

Mas a pecuária e a aquicultura isoladamente não têm onerado a agricultura o bastante para tornar sua produção abaixo da necessária para a humanidade.

Por outro lado, porém, não há interesses econômicos, por parte dos latifundiários, favoráveis ao combate à fome.

Não é à toa que, por exemplo, os proprietários de grandes plantações de soja e milho não investem na diversificação de sua produção.

Nem comercializam seu produto a preços baixos para as populações pobres do seu país, nem forçam o mercado interno a baixar o preço dos alimentos.

Mas sim preferem exportar seus grãos para alimentar rebanhos de outros países ou comerciá-los a grandes pecuaristas e granjeiros em seu país.

Essa política encontra a legitimação de muitos governos, como o brasileiro, que investe nos latifúndios monocultores 6,5 vezes mais do que nas pequenas propriedades.

Além disso, para uma grande população comprar alimentos suficientemente, é preciso tanto que grande parte dela produza o que sua comunidade vai comer como que todos tenham renda suficiente.

E isso passa por políticas de redistribuição de renda e terras, diminuição das desigualdades sociais, consolidação da soberania alimentar da população e investimentos na economia popular.

A triste realidade

Mas não é o que vem acontecendo, por exemplo, no Brasil.

Por aqui a reforma agrária praticamente parou desde o governo Dilma, e as políticas de redistribuição de renda não diminuem a porcentagem da renda dos mais ricos em comparação à dos mais pobres.

Assim não tem combate à fome que prospere por muito tempo.

E no contexto de interesses políticos, o Deutsche Welle avisou, em reportagem de 2009:

“A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) já tinha reconhecido há 20 anos que “o problema não é tanto a falta de alimentos, mas a falta de vontade política”. Como a pobreza é o principal causador da fome, esta diminui em países que empreendem políticas capazes de gerar empregos e renda. Em contrapartida, onde há ditaduras e despotismo, há fome e morte por inanição.”

E também tem os muito relatados problemas de produção e distribuição dos alimentos. Questões como essas impedem que a humanidade seja toda beneficiada pela produção agrícola atual:

  • O imenso desperdício de comida no armazenamento, transporte e comercialização;
  • A perda de solos férteis e o gasto exorbitante de água e terras por causa de métodos insustentáveis de agricultura em larga escala;
  • E a insuficiência de políticas que barateiem os alimentos e os tornem acessíveis para todos.

E é aqui que entra o desperdício de terras e alimentos que poderiam ser destinados para consumo humano com os gastos da pecuária. Mas é apenas um dos fatores, não o único.

Considerações finais

Quando levamos em questão todos os problemas de concentração agrária, economia rural e a produção e distribuição de alimentos no mundo, percebemos que a erradicação da fome no planeta vai bem além de um número suficiente de pessoas aderir ao veganismo.

Passa pela promoção de ativismos e práticas políticas, como a economia solidária, a permacultura e agroecologia, a promoção da soberania alimentar, a construção de hortas urbanas, o enfrentamento aos interesses econômicos e políticos do agronegócio e a construção de um mundo mais igualitário.

Defender apenas o veganismo, isolado dessas medidas, é carecer de consciência política e acreditar em soluções fáceis para problemas complexos.

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