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Talvez um dos grandes motivos de eu ter a enorme paciência que tenho para printar e comentar pérolas reacionárias de carnistas e alfacistas, inclusive textos inteiros, seja eu não me dispor a abrir debates com esses autores. Porque, ao longo desses quase cinco anos escrevendo artigos e formando opiniões e defendendo o veg(etari)anismo, pude aprender lições muito valiosas sobre a arte da dialética e sobre o que ela não é.

Ao longo desses anos eu percebi que há, por parte de muitas pessoas, o interesse de debater para “derrotar” o outro lado, desmoralizá-lo argumentativamente, ir até os limites em que um dos lados, recusante a reconhecer o equívoco de suas crenças, parta para o baixo nível e assim o “vencedor” seja anunciado. E eu infelizmente fui desses. Mas vi que não é assim que se conscientiza.

Com o tempo, a leitura de debates entre outras pessoas e a leitura de alguns livros, percebi que a dialética deve se pautar no diálogo, em que os dois lados aceitem aprender um com o outro – uma vez que mesmo o lado argumentativamente mais fraco acaba trazendo algo de que o outro ainda não sabe – e saiam ambos vencedores graças ao aprendizado. E, claro, ser pautado na linguagem cordial, não descambando para o enfrentamento verbal ou para qualquer forma de desrespeito.

A dialética como forma de transmitir e obter aprendizado não funciona se um interlocutor ou os dois agem querendo “vencer” e fazer o outro “perder”. Conscientização não se faz com derrota, com diálogo conflituoso. Por isso eu deixei de debater diretamente sem que fosse para responder, para defender o lado veg(etari)ano. Porque eu próprio tinha a intenção de “vencer” os carnistas e, ingenuamente, achava que poderia mudar suas crenças em torno da alimentação e da ética animal apenas refutando suas afirmações e apontando falácias no que me respondiam.

E eu sinceramente gostaria de que todos os veg(etari)anos que costumam debater Ética e alimentação passassem a ver o diálogo com carnistas da mesma forma. Que não intencionassem mais o enfrentamento, a “guerra” verbal. Que abrissem debates em meios carnistas apenas se fossem usar o método socrático de fazer perguntas atrás de perguntas como se nada soubessem sobre o assunto e assim fazer o outro lado “parir” sua própria nova consciência. Aliás, eu próprio gostaria de aprender esse método de dialética.

O domínio da arte do diálogo cordial, simultaneamente à superação da inócua tática do “combate” verbal, é uma das maneiras que a militância veg(etari)ana tem de amadurecer e fortalecer seu poder de conscientização. Penso assim, por isso hoje em dia não abro mais debates em torno desses temas e de nenhum outro. Só voltarei a abrir, creio, quando aprender a arte socrática de dialogar.

1 comment

  1. Está certo, Robson.
    Eu também penso que os debates “virtuais” propiciam ainda mais a falta de respeito e baixaria entre as pessoas, pois muitos se sentem protegidos pelo anonimato por trás da tela do seu computador e jogam a ética e respeito pela janela. Lamentável. Debates deste tipo realmente só nos fazem perder tempo e nos deixam nervosos à toa.
    Espero que todos nós, veg(etari)anos, nos qualifiquemos mais para os debates.

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