Esta imagem exemplifica o uso do inadequado argumento do apelo à inteligência animal
Esta imagem exemplifica o uso do inadequado argumento do apelo à inteligência animal

Editado em 07/01/2016 às 17h52

Muitos defensores dos Direitos Animais têm um costume bastante controverso.

Para defender por que os animais não humanos merecem respeito, ocasionalmente apelam para a inteligência dos animais cuja espécie é costumeiramente submetida a exploração. Afinal, acreditam que as pessoas terão mais compaixão e empatia por esses animais, ou pelo menos alguns deles, serem tão inteligentes.

Por exemplo, argumenta-se muito que porcos são carinhosos e sociáveis e podem ser mais espertos do que cães, e isso seria um grande motivo para não comer mais carne suína.

Mas será que essa estratégia é uma boa sacada mesmo? Ela contribui positivamente para a conscientização vegano-abolicionista?

Os poréns de se promover o apelo à inteligência animal

Muitos pensam que essa é uma estratégia excelente e sensibilizadora. Mas ela tem numerosos problemas, que, no final das contas, acabam mais prejudicando do que ajudando na conscientização antiespecista:

 

1. A conservação do costume de hierarquizar moralmente os animais

O primeiro dos problemas em promover o apelo à inteligência animal é que esse método conserva, e não abole, a tradicional hierarquia especista de consideração moral, que considera, entre outros pretextos, que, quanto mais inteligente, mais digno de respeito e consideração moral o animal é.

Afinal, se porcos não devem ser comidos por serem muito inteligentes, isso acaba implicando que seria menos inaceitável comer um camarão, um escargot ou uma tilápia, que se acredita que têm capacidades cognitivas bem menos avançadas.

Nessa hierarquia, o ser humano não deixa de estar no topo, já que é o animal mais inteligente da biosfera terráquea. É seguido pelos mais inteligentes e “mais respeitáveis”, como primatas, cães e porcos. E quanto menos dotado de inteligências semelhantes às humanas, mais abaixo o animal estará nessa pirâmide.

 

2. Reproduzindo a crença de que, quanto mais semelhantes aos humanos, menos exploráveis são

É em se falando de inteligência humana que vem o segundo motivo.

Atribuir respeitabilidade e consideração moral a animais mais inteligentes é necessariamente respeitar mais ou menos um animal por ter características mais ou menos parecidas com as dos humanos. É colocar o ser humano como referencial de animal a ser respeitado.

Isso se dá porque, no apelo à inteligência, é a presença de característica humanas no animal, ao invés dos interesses próprios dele ligados à senciência, que é o grande determinante do merecimento de respeito moral de um animal. Afinal, quanto mais inteligente seja e mais capacidades quase-sapientes tenha, mais parecido é com o ser humano.

Isso favorece, como já foi mencionado, que animais com inteligências “inferiores” sejam considerados menos dignos da empatia humana e mais “exploráveis”.

 

3. Viés capacitista

O terceiro motivo da inadequação do apelo à inteligência é o seu caráter capacitista, ou seja, preconceituoso contra seres humanos com deficiências, entre elas a intelectual. Pois falar de inteligência como motivo de reconhecer os direitos de um animal implica não só uma hierarquia especista, como também a hierarquização dentro da própria espécie humana.

Se seguirmos a lógica desse apelo e considerarmos a presença de capacidades intelectuais avançadas um grande motivo de se respeitar um ser, então seres humanos com limitações dessas capacidades tornam-se “menos respeitáveis”. Isso implica que pessoas com deficiência mental e/ou limitação intelectual são “inferiores” àquelas com capacidades ditas “normais”.

E também, como agravante, pode ser usado para argumentar em favor da “superioridade moral” daqueles que usam mais suas capacidades mentais-intelectuais para trabalhar.

Ou seja, poderia ser argumentado, graças à hierarquização por inteligência, que engenheiros, filósofos e cientistas, por terem um domínio intelectual maior de suas áreas de conhecimento do que outras pessoas, seriam “superiores” a pessoas que, por exemplo, vivem de trabalhos braçais simples e não têm o mesmo domínio da linguagem científica e da Filosofia.

 

4. Elitismo intelectual

É pensando nessa questão que o quarto problema é realçado: a tendência do, uso da inteligência como parâmetro moral, de promover elitismo intelectual e, portanto, discriminação.

Esse elitismo se dá quando se pensa que um filósofo com pós-doutorado merece mais consideração e respeito do que um trabalhador braçal que parou de estudar no Ensino Fundamental I. Ou que seria preferível salvar de um incêndio um engenheiro espacial da NASA, cuja biografia é repleta de diplomas e prêmios, a uma moradora de rua que trabalha com bicos e é semianalfabeta.

Há a diferença de que, enquanto a desigualdade intelectual de cunho educacional possui razões de cunho social, psicológico, econômico, familiar etc., o contrastre entre uma espécie animal muito inteligente e uma de capacidades cognitivas rudimentares é biológico, inato. Porém, no final das contas, nos dois casos o mais inteligente é favorecido e mais valorizado e o menos inteligente é discriminado e pouco respeitado.

 

5. Favorecimento do etarismo

O último porquê é que falar de inteligência do outro como razão de considerá-lo um sujeito moral implica também o etarismo, preconceito por faixa etária.

Poderia-se argumentar, por exemplo, que, já que um adulto é mais inteligente do que uma criança de um ano e meio, seria mais digno de respeito e direitos do que ela.

E mais, se a criança pequena, por exemplo, não aprendeu ainda a falar palavras simples, identificar cada ser humano ou não humano pelo nome ou manusear instrumentos de coleta de frutas, poderia ser considerada “inferior” a um porco ou a um chimpanzé adulto, já que não é tão esperta quanto estes.

 

Considerações finais

Sendo o apelo à inteligência animal uma maneira especista e capacitista de se defender o respeito aos animais, ele deve ser repensado e quiçá abandonado o quanto antes.

Ao invés dele, precisamos usar os argumentos mais apropriados, como a presença de interesses próprios inerentes à senciência do animal – como os de continuar vivo, preservar sua integridade física e usufruir ao máximo seu território.

Independentemente de suas capacidades inteligentes, o animal, se tem esses desejos individuais, deve ser respeitado, deixado em paz, nunca tratado como um objeto. E seres humanos também não devem ser discriminados em função de capacidades intelectuais. Portanto, é um equívoco sério considerar intelecto um parâmetro moral de respeitabilidade.

1 comment

  1. Todo o animal limpo podemos comer.Deus nos adverte,a não comer o sangue que e a vida mas sim a carne “Gn 9;3.” Quanto a punição ao povo de Israel no deserto,quado pediram carne e o Senhor mandou o codornísmo e muita gente morreu,foi pela desobediência.Sl 78;18-20. Não sou tão carnívoro,nem sou vegetariano,mas leiam Dt 14;3-21. É a palavra do Senhor o nosso Deus.Amém?.

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