argumento do vegetarianismo biológico

Atualizado em 09/02/2018 às 23h55

Há anos é usado um controverso argumento contra o consumo de alimentos de origem animal, principalmente de carne.

Muitos veganos alegam que o vegetarianismo teria base num suposto herbivorismo biológico humano. Um famoso ativista que argumenta isso é Gary Yourofsky, em sua palestra de 2010.

Mas será mesmo que essa informação é verdadeira? E aliás, ela também é tão importante assim para a conscientização de quem ainda consome produtos de origem animal?

 

O que diz o “argumento biológico”

Exemplo do argumento biológico
Um exemplo do argumento biológico

O “argumento biológico” – que eu abrevio como AB neste artigo – reza que o ser humano seria naturalmente herbívoro – ou mesmo frugívoro -, portanto naturalmente intolerante ao consumo de carne, tanto em anatomia e fisiologia como em comportamentos instintivos.

Os órgãos e funcionamento do sistema digestivo, a dentição, o não condicionamento à predação sem armas e outras características fariam do ser humano um animal desprovido da capacidade biológica de ingerir e digerir carnes.

Seria assim muito mais próximo dos animais herbívoros e frugívoros do que dos carnívoros e onívoros.

Mas isso é verdade? Vejamos.

 

Um argumento que parece interessante, mas é uma furada

yourofsky-argumento-biologico

Muita gente considera o AB como algo verdadeiro, um determinante de que o ser humano deve se tornar vegetariano. Mas alguns detalhes mostram que não é bem assim.

Como podemos tomar conhecimento, por exemplo, pelo vídeo do biólogo Pirula – vídeo esse que, a saber, não é antivegano -, o organismo humano tem sim capacidade de digerir quantidades moderadas de carne.

Afinal, nosso corpo posui diversas características que nos permitem isso, tais como:

  • A presença da enzima pepsina;
  • O ácido clorídrico contido no estômago;
  • Nossos intestinos, que não são tão longos quanto os dos herbívoros, nem tão curtos quanto os dos carnívoros;
  • A carência de bactérias decompositoras de celulose no tubo digestório, o que obriga os humanos a obter energia de alimentos que não sejam folhas e ervas;
  • E a capacidade de, através do uso de armas – mesmo rudimentares – e da inteligência estratégica, que acabam substituindo a força bruta, a agilidade corporal e a presença de garras e dentes afiados.

Isso nos permite concluir que somos biologicamente onívoros, ainda que isso não nos imponha uma obrigação de consumir alimentos de origem animal.

Além disso, o argumento falha em questionar a existência de milhares de sociedades que, milênios ou séculos antes do advento do vegetarianismo como conhecemos hoje, dependiam da pecuária, da pesca e da caça e, até onde se sabe, não tiveram problemas de transtornos alimentares ligados a essa imaginada intolerância biológica às carnes.

Aliás, em relação a isso, não confunda transtornos alimentares desse tipo com doenças causadas pela ingestão de carnes contaminadas com micro-organismos e/ou vermes.

A mesma falha é percebida quando notamos que o AB não consegue argumentar por que bilhões de seres humanos são saudáveis mesmo comendo, por exemplo, uma porção de carne por dia e não estão doentes por conta de intolerância fisiológica a esse tipo de alimento.

Encontra seus limites na ausência de estudos científicos confiáveis que apontem para uma recorrência global de doenças devidas a alguma inadaptabilidade física à ingestão moderada de carne parecida, por exemplo, com a intolerância à lactose. Alega preconceituosamente, sem respaldo da ciência, que “não existem humanos comedores de carne saudáveis”.

Portanto, o ser humano não tem impedimentos biológicos para o consumo de carnes – mesmo cruas em algumas situações.

Mas é importante ressaltar: isso não significa que humanos sejam incapazes de se libertar do consumo de alimentos de origem animal. Nem aponta para uma inofensividade ética, para os animais não humanos, na produção, comercialização e ingestão desses produtos.

 

Por que, além de falso, o AB também é irrelevante para se falar de Direitos Animais e consumo ético

O herbivorismo humano é falso
Argumento biológico do ser humano “herbívoro”: além de falso, atrapalha a conscientização das pessoas

O argumento biológico não é só falso. Ele também atrapalha a conscientização sobre os Direitos Animais.

Isso se dá porque, além de trazer uma inverdade sobre a biologia humana, a alegação desvia uma conversa que deveria ser sobre ética e Direitos Animais para um assunto que não tem nada a ver com a moralidade da alimentação humana ou as reais consequências do consumo de produtos animais à saúde de quem os ingere.

Ela transforma o argumento de que podemos viver saudavelmente sem produtos animais e que não é ético consumi-los em algo distorcido: a crença de que o ser humano “não pode” ingeri-los por motivos que dizem respeito apenas ou principalmente a uma suposta natureza orgânica da qual seria impossível escapar.

Assim o AB comete o mesmo vício de fuga ao tema cometido por quem defende que a “dieta vegana” é boa por ser saudável e favorável à “boa forma”.

Nesse contexto, uma pessoa que adere ao vegetarianismo por ter acreditado no AB não vivenciou essa mudança por uma preocupação ética pelos animais. Mas sim por achar que “seres humanos não podem digerir carne, e é por isso que comer carne faz mal”. Não é tão bem informada sobre os Direitos Animais quanto alguém que aboliu os alimentos animais de suas refeições por consciência ética.

Daí o indivíduo tem chances elevadas de voltar a ingerir produtos animais caso descubra uma refutação suficientemente confiável que conteste a suposta intolerância do corpo humano à carne. Afinal, era vegetariano por uma crença falsa, e não pelos princípios e fatos nunca refutados da ética animal.

Sendo um argumento desconectado dos Direitos Animais, o AB não nos revela em momento nenhum o problema ético de consumir produtos animais. Pelo contrário, a ideia que transmite é que o problema de comer carne é meramente biológico. E está apenas na carne, não na ingestão de leite, ovos e mel ou no uso de itens não alimentícios que contêm componentes de origem animal.

 

Considerações finais

evite argumentos falsos

Se “aprendemos” que o ser humano “é herbívoro e não pode digerir bem carne”, nada concluímos disso sobre por que os animais merecem direitos e como a pecuária e a pesca exploram e destroem incontáveis seres sencientes e devastam a biosfera.

Somos induzidos à confusão mental, já que com o AB não conseguimos refletir sobre as raízes históricas multimilenares da exploração animal, nem nos capacitamos a responder convincentemente por que o mesmo ser humano que “não pode” consumir alimentos de origem violenta consome há milênios esses mesmos frutos de exploração animal.

Em outras palavras, o AB responde à pergunta “Por que não deveríamos consumir alimentos de origem animal?” com a resposta “Porque nosso corpo, biologicamente, não nos permite”, ao invés de “Porque eles vêm da violência de tratar os animais como coisas sob propriedade humana”.

Então, se você ainda tenta defender o vegetarianismo usando o famigerado AB, recomendo que deixe-o para trás e enfoque as alegações voltadas à ética, ao bem-querer do outro, do não humano, do humano e da biosfera, que são boas e convincentes o bastante.

1 comment

  1. Perfeita observação.

    Ressalto que veganismo não é dieta, é uma postura ética em relação aos animais. Dessa forma, dizer “seja vegano pela sua saúde” não promove uma verdadeira libertação dos animais, já que prestigiar circos com animais, pescar, ir a rodeios e touradas, usar couro e demais peles de animais, comprar animais domésticos, manter passarinhos em gaiolas, caçar… nada disso faz mal à saúde dos humanos.

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