Por que pessoas (que se dizem) de esquerda cumprimentam a extrema-direita quando defendem a exploração animal

Qual ideologia aceita que seres sencientes sejam oprimidos e mortos por não serem "desejáveis" perante a ordem vigente? a) o fascismo, capitaneado nos anos 30 e 40 por Mussolini (foto); b) o especismo; c) ambos

Qual ideologia aceita que seres sencientes sejam oprimidos e mortos por não serem “desejáveis” perante a ordem vigente? a) o fascismo, capitaneado nos anos 30 e 40 por Mussolini (foto); b) o especismo; c) ambos

Obs.: O artigo não diz, em momento nenhum, que pessoas de esquerda cumprimentam a extrema-direita por consumir produtos animais. Leia o artigo e saiba diferenciar o consumo desses produtos da defesa ativa especista (e/ou carnista) desse consumo.

Algo um tanto inconveniente precisa ser dito: pessoas que se dizem de esquerda mas não aceitam o veganismo abolicionista cumprimentam a extrema-direita com um abraço quando defendem a perpetuação da exploração animal para fins como o consumo e o entretenimento. Por mais que tentem negar, é uma ideologia supremacista, preconceituosa, violenta em sua essência, hierarquista, opressora, negadora de direitos e defensora de extermínios em massa –o especismo – que estão defendendo, quando tentam justificar como “correto” e “aceitável” o financiamento e apoio a atividades baseadas em explorar e matar animais.

Pressupõe-se que uma pessoa é de esquerda no contexto do século 21 caso defenda bandeiras como a extinção ou a máxima redução das desigualdades sociais, a igualdade moral entre todos os seres humanos, o combate às hierarquias onde dominantes oprimem dominadas(os), a sustentabilidade socioambiental, uma economia democrática e não capitalista, o aprofundamento radical da democracia, revoluções ou reformas profundas que quebrem as injustiças, entre outras.

Racionalmente falando e descartando-se os argumentos falaciosos contrários, nada impede que essas reivindicações beneficiem todos os sujeitos de direitos. E entre estes, incluem-se os animais não humanos e, segundo algumas correntes políticas ambientalistas, também a Natureza como entidade.

Por outro lado, o especismo recorre a argumentos morais como a “ordem natural das coisas” – impositora de uma hierarquia “natural” que põe seres humanos no topo e os autoriza a “governar” opressivamente os não humanos –, o apelo à tradição, a determinação divina ou “filosófica” secular de quem domina e quem “deve ser” dominado, o preconceito – e às vezes a oposição reacionária violenta – contra quem se opõe a essa ordem, entre outros.

É impossível identificar qualquer um desses argumentos como sendo coerentes com a esquerda. Quando são aplicados a seres humanos, não há o mínimo de dúvida e hesitação em identificá-los como de direita. E quando se nota que essas crenças conduzem causalmente a opressões violentas e até extermínios em massa, essa identificação muda para a extrema-direita, onde residem o nazi-fascismo e o fundamentalismo religioso teocrático, ideologias que rejeitam o respeito ético-moral à vida de quem quer continuar vivo.

E absolutamente nada nos livros de Filosofia (e) Política determina que ideologias supremacistas que impõem hierarquias morais opressoras, ordens “naturais” de dominação, preconceitos e discriminações a serem moralmente aceitos e políticas de extermínio de seres “inferiores” deixem de se localizar no extremo direito do espectro político caso lidem com seres além da espécie humana. Uma ideologia que manda matar milhões de animais não humanos não é menos opressora, injusta e ultra-hierarquista do que uma que exorta o assassinato de milhões de seres humanos, já que ambas pretendem aniquilar violentamente seres que queriam continuar vivos e fisicamente íntegros.

Assim sendo, quando se defende que a ordem das coisas deve continuar sendo especista em nome dos interesses humanos, está-se defendendo uma posição não menos ultraconservadora e sangrenta que a de quem advoga a favor, por exemplo, do ultranacionalismo fascista ou do fundamentalismo cristão. Em outras palavras, defender atividades essencialmente sustentadas na exploração e matança de animais não humanos é uma posição de extrema-direita. E nada nas teorias políticas humanistas e emancipacionistas nega isso.

Ou seja, quando uma pessoa de esquerda “justifica”, por exemplo, seu consumo de produtos de origem animal com base em argumentos especistas, como os apelos à hierarquização dos seres sencientes e à “ordem natural” onde o ser humano é quem manda, está abraçando uma argumentação ideológica ultradireitista. Portanto, se você se identifica como de esquerda mas defende a continuação da existência da pecuária, da pesca, do rodeio, do comércio de animais e de outras atividades de exploração animal, é hora de soltar a mão desse despercebido supremacismo extremista e rever o que faz você tentar justificar tal posição.

 

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *