Por que ser (ou se dizer) vegan e defender ditadura são posturas mutuamente excludentes

Defender ditadura é ir contra todos os princípios dos Direitos Animais, e de quebra demandar que o veganismo seja criminalizado e punido com tortura e morte

Defender ditadura é ir contra todos os princípios dos Direitos Animais, e de quebra demandar que o veganismo seja criminalizado e punido com tortura e morte

Nesses dias de turbulência política no Brasil e ameaças de impeachment e prisão contra respectivamente Dilma Rousseff e Lula, muitas pessoas do meio vegano têm declarado posições absurdas contra a democracia. Não tem faltado pessoas que dizem respeitar os animais mas compartilham conteúdo de apologia à ditadura militar e/ou defendem políticos reconhecidamente antidemocratas e contrários aos Direitos Humanos. É necessário reafirmar, em horas como essa, que quem assim age está violando todos os princípios éticos dos Direitos Animais e, por tabela, assumindo um veganismo vazio de sentido.

Os Direitos Animais, em sua essência filosófica, jamais excluíram os seres humanos dentre os protegidos pelos direitos fundamentais à vida, à liberdade, à integridade física, a não ser propriedade alheia etc. Afinal, os seres humanos também são sencientes, assim como grande parte dos animais não humanos (vertebrados, artrópodes, moluscos, crustáceos etc.). Também desejam permanecer vivos, manter a integridade física e mental, preservar sua sociabilidade, buscar a liberdade e lutar contra a possibilidade de serem escravizados por outrem.

Ou seja, absolutamente nada torna os seres humanos alheios aos direitos defendidos pelo abolicionismo animal. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), em seus nove primeiros artigos, consolidam os Direitos Animais para os seres humanos.

Defender ou consentir ditaduras é necessariamente jogar os Direitos Humanos no lixo. Sendo direitos de seres sencientes, essa postura necessariamente implica dizer que alguns seres sencientes merecem direitos e outros não. É ser tão seletivo e moralmente excludente quanto os especistas, que também defendem ou acreditam despercebidamente que só alguns sencientes merecem ter direitos assegurados e respeitados.

Além disso, defender um regime “mão de ferro” deságua em demandar que o veganismo fracasse e até mesmo seja criminalizado. Sem um sistema político democrático, seja ele de Direito ou anarquista, nenhum direito fundamental é assegurado. Todos os seres sencientes ficam à mercê de serem privados de condições mínimas de vida, explorados e assassinados por quem se interessa política ou economicamente em sua servidão, aprisionamento e morte.

Ninguém poderá recorrer à lei ou à solidariedade coletiva para que cães, gatos, bovinos, frangos e galinhas, peixes, mamíferos aquáticos etc. sejam protegidos ou libertados. Pelo contrário, defensores de direitos serão presos, torturados e mesmo assassinados pelo regime, por “esquerdismo” e subversão ao status quo. Em outras palavras, “Direitos Animais” será uma expressão proibida pela lei a vigorar numa ditadura.

Com isso, quando alguém compartilha apoio a ditadores do passado e/ou declarações como “Bandido bom é bandido morto”, “Intervenção militar já”, “Morte a Lula e Dilma”, “Petistas, comunistas e esquerdistas são vagabundos” e “Direitos Humanos só para humanos direitos”, está jogando no lixo os princípios centrais do animalismo abolicionista e defendendo um sistema opressor e assassino tal como os sistemas de exploração animal.

Além do mais, diversos outros princípios do abolicionismo animal são rasgados quando se defende a dominação e violência contra seres humanos por meio da política autoritária, como ficou claro no artigo Por que se importar com causas humanas, ou pelo menos respeitá-las, é levar a libertação animal a sério:
– a oposição a hierarquias morais que dividam os seres sencientes em dominantes privilegiados e dominados sem direitos;
– o fomento de uma cultura de paz e igualdade moral;
– o combate a preconceitos que “justificam” desigualdades morais, entre eles o especismo;
– a oposição à manutenção de uma ordem desigual e injusta por meio da violência e de ideologias conservadoras;
– o ativismo por justiça, por direitos fundamentais iguais a todos os seres sencientes na medida do que cada um deles pode desfrutar;
– a rejeição a uma ordem baseada em dominar, aprisionar, explorar e assassinar;
– a oposição explícita a preconceitos “justificados” por arbitrariedades;
– a adoção da ética do respeito aos seres sencientes e aos seu interesses individuais vitais como princípio de vida.

Reacionarismo antidemocrático não combina nem um pouco com libertação animal, até por ser, por natureza, contrário a ideologias de libertação. Assim sendo, se você sente falta de um “governo mão de ferro” que “controle a corrupção à força” e “dê um jeito nos vagabundos e comunistas”, repense se você realmente é vegan. Se você acredita ser vegan enquanto defende autoritarismo e desrespeito a direitos, sinto em dizer, mas seu “veganismo” não faz nenhum sentido e é, em termos de consistência ética, vazio e nulo.

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

6 Comments on “Por que ser (ou se dizer) vegan e defender ditadura são posturas mutuamente excludentes

  1. Robson Fernando de Souza, senti um pouco de falta de contextualização na sua postagem – talvez por eu não acompanhar tanto as discussões sobre direitos animais nas redes sociais. Há registros, ou ao menos evidências anedóticas, de veganos que tenham dito qualquer coisa minimamente similar a “Bandido bom é bandido morto”, “Intervenção militar já”, “Morte a Lula e Dilma”, “Petistas, comunistas e esquerdistas são vagabundos” e “Direitos Humanos só para humanos direitos”? Se for o caso, acho que seria interessante dar as devidas referências.

    • David, eu não peguei registros, e evito citar nomes em minhas postagens. Acredito que baste saber dos relatos sobre pessoas que têm dito esse tipo de barbaridades.

      • Olá Robson, sim, bastaria conhecer relatos sobre veganos que têm dito barbaridades como “Bandido bom é bandido morto”, “Intervenção militar já”, “Morte a Lula e Dilma”, “Petistas, comunistas e esquerdistas são vagabundos” e “Direitos Humanos só para humanos direitos”. Onde estão tais relatos? Se aceita uma sugestão: se você tem provas mas prefere não citar nomes (por que motivo não sei), pode citar a fala, e chamar de Sr. X, por exemplo. Agora, se você não tem nem os registros de tais comentários, sugiro que atente para a consequente e indesejada perda de credibilidade do seu artigo. O que poderia ser uma crítica pungente e efetiva acaba virando um texto vago sobre coisas que seus leitores não necessariamente tiveram a mesma “sorte” de presenciar. E, claro, a possibilidade do contraditório em cima dos fatos narrados também fica em muito prejudicada. Abs

        • David, o texto pressupõe que muitos leitores já presenciaram “vegans” defendendo esse tipo de barbaridade. Ele não foca exemplos específicos, mas sim uma situação possível.

  2. Olá, de antemão já deixo claro que não sou defensora de partido algum, muito menos do militarismo, nem de político específico algum, da ditadura muito menos, rs. Mas acredito ser bem complicado generalizar que um vegano que diz, por exemplo, “Direitos Humanos só para humanos direitos”, é um mal vegano, ou que tenha que ser taxado e caracterizado como vegano entre aspas, ou a colocação mais depreciativa, um vegano nulo. Desculpe, mas conheço muito vegano de direita que dá a vida pelos animais todos os dias, há anos, que faz muito mais que eu e você juntos pelos animais não humanos, pq foi essa luta que ele escolheu. E que não merece ser diminuído como vegano pq tem pensamentos sociais diferentes do seu do meu… Cada um com sua luta, uns pelos animais não humanos, outros pela saúde e educação, outros pelos idosos, etc, e assim, o mundo seria outro.
    Até porque também é bem perigoso, no mínimo, tentar unir veganismo a assuntos sociais (humanos), política, entre outros, pois é bem claro, segundo a raiz, segundo os criadores do termo vegan (no português vegano), que ser vegano está absolutamente ligado aos animais NÃO humanos, o que é bem diferente de relacionar com os Direitos dos Animais (onde você faz a relação entre seres sencientes humanos e não humanos). Sobre o termo em si do que é ser vegano:

    “Vegano – palavra adequada ao português, com origem do inglês – vegan – termo que foi cunhado em 1944 por Donald Watson quando ele co-fundou, na Inglaterra, a Vegan Society. Foram alguns anos de discussões na Sociedade Vegetariana sobre o modo como os animais não humanos eram tratados e usados pelos animais humanos, quando enfim em 1951 ficou definido que ser vegano/ vegan é basicamente:
    “Viver sem explorar animais, por questões éticas, não de saúde”.

    Não explorar animais, ou seja:
    *não comer seus corpos
    *não usar nada proveniente de seus corpos
    *não usá-los em testes de espécie alguma
    *não usá-los como roupas, sapatos e adornos feitos de suas peles
    *não frequentar ambientes onde haja exploração e/ou exposição de suas vidas
    *não fazer uso de produtos onde haja “ingredientes” tirados de seus corpos.

    Enfim, o vegano segue um ideal pela libertação dos animais, lutando para mudar essa visão primitiva que a humanidade ainda sustenta de que animais são alimentos, coisas, objetos, trazendo á realidade de que eles são vidas, e como tal merecem igualdade, respeito e liberdade de ser.”

    Ou seja, entendo bem Robson a relação que fez com o “facismo” em oposição aos Direitos Humanos e Direito dos Animais, mesmo acreditando que os Direitos dos Animais foram criados para os animais NÃO humanos, cunhado em 1978, por tal motivo os humanos têm seus próprios direitos, os Direitos Humanos, adotado em 1948… Mas como ia dizendo, entendo sua colocação e em quase todos os aspectos até concordo com a relação que dá para fazer, no entanto, dizer que pessoas que dizem tal e tal frase são veganos vazios de sentido? Soa pesado, soa como pré conceito, um julgamento de pessoas que nem ao menos conhece. Eu conheço uma moça que apoia o Bolsonaro, e ela vive pelos animais, tem um santuário com porcos, vacas, galinhas, cabras, etc, tudo resgatado de caminhões, abatedouros, acolhidos por pedidos de outros ativistas. É vegana há mais de 18 anos, faz trabalho informativo, eventos para divulgar o veganismo… enfim… é certo apontar o dedo pra ela e dizer que é uma vegana vazia de sentido? O sentido da vida dela são os animais não humanos, e que tem suas escolhas sociais, políticas, religiosas, amorosas e profissionais que em NADA têm a ver com o amor, nada vazio de sentido, que ela tem pelos animais!

    Então, repito, entendo sua matéria e a colocação que fez, mas não poderia deixar de apontar essa visão, de que julgar é complicado, julgar também é oprimir, julgar também é uma ditadura, onde o que está sendo ditado e imposto é o próprio modo de ver, sem que o outro tenha direito de ser o que é sem ter um dedo na cara dizendo que é menos vegano porque escolheu tal político, porque é de esquerda ou de direita, porque gosta do Papa em vez do Buda, porque prefere comida (vegan) industrializada ao invés de só orgânicos naturais.

    Ser vegano é pelos animais NÃO humanos, pela definição pura e simples. O que vem depois, é depois, a pessoa pode ser vegana e esquerdista, pode ser vegana e católica, ser vegana e gostar de funk, ser vegana e lutar pela segurança e educação do páis, sei lá, mil facetas, o ser humano é complexo. Já vi sim vegano falar “bandido bom é bandido morto”, porque essa é sua crença social, por ‘n’ motivos que não nos cabe julgar, nem por isso o julgo menos vegano que eu, ou um vegano vazio de sentido, ou nulo (julgamento pesadíssimo esse), porque ele pode até apoiar um sistema opressor que está oprimindo HUMANOS (o bandido no caso da frase), ninguém é perfeito nem 100% razão, nem eu, nem você, mas nem por isso ele apoia a opressão que os animais sofrem, pelo contrário, ele luta, e muito, pela abolição, libertação e respeito que os animais tanto merecem.

    Finalizando, espero que não sinta minha declaração como agressiva (palavras escritas são complicadas rsrs), pq vim falar de coração aberto, respeitando muito, e até entendendo e concordando com seu ponto de vista em quase tudo. Esse é o caminho, respeitar a diversidade sem julgar se esse ou aquele é mais ou menos vegano por conta das escolhas sociais e políticas que faz.

    Abraços.
    Parabéns pelas matérias :)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *