10 problemas sociais humanos que antiveganos de esquerda estão contribuindo para que se perpetuem

Genocídio indígena e pecuária

Autoria desconhecida

Ser ao mesmo tempo de esquerda e contra o veganismo (o que, a saber, não é a mesma coisa que simplesmente não ser vegan) é, por natureza, uma imensa contradição.

Implica adotar posições polarmente opostas para membros da mesma comunidade moral de seres sencientes. É ser progressista ou mesmo revolucionário para com seres humanos e, paralelamente, radicalmente reacionário contra animais não humanos.

Aliás, será mesmo que alguém que se coloca como antivegano de esquerda é mesmo tão progressista e compassivo por seres humanos?

É o que veremos.

 

Quando ser contra o veganismo acaba sendo uma posição também contra os Direitos Humanos

Trabalho escravo e pecuária

Comissão Pastoral da Terra

O que muitos esquerdistas opositores do veganismo não percebem é que sua postura contra os animais não humanos, além de se contradizer gravemente com seus alegados princípios éticos, respinga, com graves consequências, em milhões ou mesmo bilhões de seres humanos.

Listo a seguir dez graves flagelos sociais que esses indivíduos, por meio tanto do seu hábito de consumo como de sua aversão ao modo de vida vegano, acabam permitindo que se perpetuem.

No final das contas, para muitos problemas de opressão, desigualdade e injustiça mesmo envolvendo humanos, acabam sendo tão conservadores e insensíveis quanto pessoas de direita veteranas em reacionarismo e defesa fanática do mercado.

 

1. Genocídio indígena

O consumo de carne e outros alimentos de origem animal tem relações diretas, causais até, com diversos crimes cometidos por latifundiários – em especial pecuaristas e sojicultores que produzem predominantemente para alimentar rebanhos – e seus capangas. Um deles é o assassinato ou expulsão de indígenas integrantes de povos como o Guarani-Kaiowá (leia aqui um exemplo de assassinato que tem pecuaristas por trás).

Não é à toa que a criação animal é a atividade mais avessa aos direitos indígenas e que ocupa mais terras ancestrais dos povos nativos no Brasil.

Fica claro por que interessa diretamente aos pecuaristas e sojicultores aliados que essas populações tenham seu direito de povoar sua terra natal negado ou revogado, e mesmo que, por meio do extermínio genocida, a história indígena brasileira se torne algo apenas do passado.

É esse setor da economia que os antiveganos estão favorecendo sem pudor, e defendendo em ocasiões como a repercussão da Operação Carne Fraca.

 

2. Assassinato de ambientalistas e camponeses

Não bastassem os indígenas, muitos proprietários e capangas de fazendas de gado também não hesitam em matar ambientalistas e camponeses que estejam no seu caminho de ocupação e expansão ilegais de suas terras (exemplo 1, exemplo 2, exemplo 3, exemplo 4).

 

3. Trabalho escravo e semiescravo

A pecuária é a atividade que mais escraviza seres humanos no Brasil de hoje, e uma das que mais sofrem ações de intervenção e resgate de trabalhadores submetidos a condições extremamente sub-humanas de trabalho.

É o que atestam os relatórios da Comissão Pastoral da Terra desde pelo menos 2011. Veja nos links correspondentes a cada ano a hegemonia da pecuária no escravismo contemporâneo brasileiro: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016.

Outra cruel faceta da superexploração de trabalhadores na agroindústria da carne é o trabalho degradante em frigoríficos e matadouros. Relatórios como o Moendo Gente e documentários como o Carne e Osso escancaram o quanto o setor frigorífico é um dos piores para se trabalhar como operário no capitalismo brasileiro.

A pesca também não fica muito atrás da produção de carnes de animais terrestres, em se tratando de trabalho degradante. Há muitos casos de exploração, inclusive escrava, de pescadores no Brasil e no mundo (exemplo 1, exemplo 2, exemplo 3).

 

4. Concentração e abuso de poder político por ruralistas

Os pecuaristas são muito bem representados na bancada ruralista brasileira, e bastante ativos em se tratando de obstruir, diminuir ou revogar políticas para o meio ambiente, os direitos indígenas e trabalhistas e a reforma agrária.

Isso sem falar na corrupção, como tem atestado, por exemplo, a Operação Lava Jato, e em outras políticas de desmando e abuso de poder.

Exploração trabalhista em frigorífico

Trabalho degradante com pouco ou nenhum direito trabalhista é muito comum em frigoríficos e matadouros. Foto: autoria desconhecida

 

5. Violação sistemática de direitos trabalhistas

A exploração animal também explora seres humanos, tanto forçando-os a trabalhos degradantes como negando-lhes e violando-lhes direitos básicos.

É praticamente rotineiro que se condene empresas frigoríficas e fazendas de gado por crimes trabalhistas, como nesses exemplos:

 

6. Concentração de terras e renda nas mãos de pecuaristas e monocultores de soja e milho

O latifúndio de gado bovino é a atividade rural que mais concentra terras e renda no Brasil. Nada menos que 167 milhões de hectares de terra no país são ocupados por rebanhos de bois e vacas – a imensa maioria dessas terras nas mãos de grandes pecuaristas. E os latifúndios são os que mais recebem créditos rurais no país.

Além disso, a pecuária deteve 6,8% de todo o Produto Interno Bruto (soma das riquezas e bens produzidos em um ano) brasileiro em 2016, e 30% de todo o PIB do agronegócio brasileiro no mesmo ano.

Em outras palavras, o consumo de produtos animais e a oposição ao veganismo estão ajudando a perpetuar um dos mais conhecidos problemas do capitalismo brasileiro e mundial: as desigualdades sociais no campo e também nas cidades.

 

7. Má distribuição de recursos agrícolas

A criação animal concentra terras e também onera a produção de alimentos vegetais, desviando grande parte dela para alimentar rebanhos. Cerca de 80% de toda a soja no mundo e 70% do milho são destinados à alimentação animal.

Além disso, também se costuma desviar grande parte da produção de cevada, aveia, sorgo, trigo, arroz, gergelim, coco, palma, amendoim, girassol, colza, entre outros vegetais, para ser convertida em proteína animal.

Tem-se assim uma produção de calorias alimentícias altamente ineficiente, que reduz um imenso volume e peso de alimentos vegetais diversos, que poderia alimentar diretamente os seres humanos, a uma massa muito menor de carnes, leite e ovos. Isso torna a agricultura mundial muito menos produtiva do que poderia ser.

 

8. Machismo: “masculinidade carnívora”

Além de todos os problemas no meio rural, a exaltação dos alimentos de origem animal também fomenta flagelos como o machismo. O livro de Carol Adams A política sexual da carne é exemplar ao mostrar como a apologia ao consumo de carne é diretamente ligada à inferiorização e objetificação da mulher.

Além de constatarmos isso no livro dela, podemos ver e ouvir no dia-a-dia misóginos comparando mulheres a pedaços de carne para se “comer”, e também a carne bovina sendo usada como símbolo de virilidade: seu consumo é visto como uma forma de os homens demonstrarem sua “macheza”.

Quando se esboça oposição ao veganismo e apoia a pecuária e a indústria de carne, está-se preservando e defendendo um dos meios mais tradicionais de manifestação de machismo e masculinidade tóxica nas tradições ocidentais.

Comercial machista de carne

Comercial machista de carne compara sanduíches de hambúrguer com seios de mulheres

 

9. Consumismo

O fetiche em torno dos alimentos de origem animal, em especial as carnes e os laticínios, é uma das mais fortes manifestações do consumismo no capitalismo contemporâneo, senão a mais forte.

É incentivado a todo segundo por meio de um intensivo bombardeio de propagandas de hambúrgueres, salsichas, linguiças, nuggets, carnes in natura, presuntos, mortadelas, pizzas, lasanhas, queijos, iogurtes, churrascarias, chocolates, margarinas e manteigas, doces lácteos, leite em caixa ou saquinho etc.

Não é à toa que a indústria alimentícia centrada em produtos animais é uma das mais poderosas do mundo, e dita políticas, estudos medicinais, comportamentos, valores morais e tradições culturais no mundo inteiro. Lembremo-nos do emblemático exemplo das multinacionais de fast-food, que são um dos símbolos mais poderosos da globalização capitalista ao lado de indústrias como a automobilística e a computacional.

A defesa do consumo de alimentos de origem animal, pelo menos nos padrões modernos, é, por essência, uma apologia ao mais descontrolado capitalismo.

 

10. Publicidade abusiva

O consumismo pró-alimentos de origem animal defendido pelos antiveganos anda de mãos dadas com o consentimento das mais abusivas formas de publicidade direta e indireta encomendada pela pecuária e pela indústria alimentícia.

Defender os alimentos de origem animal é estar do lado de dois setores econômicos responsáveis por:

  • Instigar o consumismo infantil;
  • Subornar profissionais de saúde e pesquisadores para que defendam o consumo de carne e leite e promovam preconceito contra o vegetarianismo;
  • Colocar o consumo de carne e laticínios como sustentáculos da felicidade humana;
  • Promover machismo em suas propagandas;
  • Incitar discriminação contra vegetarianos e vegans;
  • entre outros abusos.
Compre Baton: publicidade abusiva

“Compre Baton”, conhecido comercial abusivo de chocolate ao leite

 

Bônus: Reprodução e legitimação das piores crenças morais da direita anti-humanista

Quem se coloca contra o veganismo e os Direitos Animais está necessariamente aderindo, mesmo que não perceba, a algumas das crenças mais insensíveis e antiéticas da direita conservadora, neoliberal e autoritária, diversas delas próximas até do fascismo. Alguns exemplos são as de que:

  • Desigualdades morais e sociais são algo natural e necessário para a humanidade, tal como o nascer do sol;
  • O mundo é dividido entre os que mandam e os que obedecem em submissão, e é bom que seja assim;
  • A Natureza (ou Deus) determinou que os mais fortes têm o direito de dominar os mais fracos, ou mesmo matá-los quando lhes convier;
  • Alguns merecem a liberdade mais do que outros;
  • As hierarquias, a dominação e a violência são partes necessárias da ordem social;
  • Defender direitos fundamentais e igualdade para todos é inaceitável, coisa da mais extremista esquerda;
  • Os interesses individuais da categoria dominante devem prevalecer sobre as necessidades das dominadas;
  • A natureza humana é egoísta, cruel e violenta;
  • O consumo como valor moral é superior à empatia e à igualdade;
  • Defender a preservação do meio ambiente é tomar partido em favor de uma conspiração global para desmoralizar e minar a civilização ocidental;
  • Não há mal em crer que a liberdade do consumidor de consumir e a do empresário de lucrar são superiores ao direito do trabalhador de desfrutar de lazer, ter boa remuneração e trabalhar com dignidade e boas condições;
  • O consumo traz felicidade;
  • Ideias consideradas de esquerda devem ser ridicularizadas, ou então combatidas.

 

Considerações finais

Direitos Animais são Direitos Humanos

Direitos Animais são Direitos Humanos

São muitas as razões de se considerar que antiveganos que se consideram de esquerda jogam todos os seus desejos progressistas e revolucionários no lixo quando vão defender seus alimentos de origem animal e declarar sua aversão ao veganismo.

Nessa postura, estão do lado dos mais predatórios e antiéticos capitalistas, dos latifundiários, da bancada ruralista, do capitalismo como sistema, do neoliberalismo e seus valores morais, do consumismo e suas ilusões, do machismo, da publicidade sem ética, das desigualdades sociais, dos privilégios de poucos, da pobreza e miséria da maioria, da exploração trabalhista, da destruição ambiental e da mais radical e destrutiva direita.

Esse é o preço que muitos aceitam pagar para continuarem tendo o privilégio de consumir produtos animais com a frequência típica da classe média apoiadora do capitalismo e cheia de sonhos de consumo.

Divulguemos essa verdade inconveniente sobre a seletividade de quem defende ética, justiça e igualdade para os seres humanos e, ao mesmo tempo, o exato contrário para seres tão sencientes e merecedores de direitos quanto nós. Algum dia irão acordar para a grave contradição na qual estão incidindo.

Afinal, da mesma forma que é impossível haver libertação animal sem libertação humana, não haverá libertação humana sem libertação animal.

 

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Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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