novos-termos-prodan

Aviso: Artigo obsoleto. Assim como o “carnismo”, o termo “prodanismo” e seus derivados também foram abandonados, em favor do termo antiveganismo. O Veganagente estende a definição corrente de veganismo neste artigo.

Este artigo tem como objetivo introduzir no universo vegano-abolicionista alguns novos termos, cujo radical é prodan-. Me refiro às palavras prodan, prodanismo, prodanista e prodanívoro, de minha criação, que eu quero popularizar de modo a facilitar nossas abordagens sobre o consumo de produtos alimentícios e não alimentícios de origem animal e nossa oposição à defesa desse consumo.

O que é um prodan?

O prodan, que também pode ser referido como prodã, prodão ou prodano, significa produto, alimentício ou não, parcial ou totalmente de origem animal. Sua etimologia está nas iniciais de PRODuto ANimal, mas não é uma sigla, e sim um substantivo comum propriamente dito, um neologismo. É uma palavra que acredito ser mais simples e fácil de aceitar do que viria a ser uma que juntasse termos de origem greco-latina.

Há uma semelhança proposital entre prodan e pró-dano, uma vez que a fabricação do prodan é inexoravelmente fundamentada em causar danos aos animais não humanos, por meio da exploração e morte violenta, e, por tabela, ao meio ambiente e aos próprios seres humanos (pela saúde ou por condições de trabalho degradantes). Por isso mesmo um termo alternativo ao prodan é prodano.

Os plurais desses novos substantivos, dos quais as pessoas poderão optar livremente por um ou mais no seu uso cotidiano, são prodans, prodãs e prodanos.

Como exemplos de prodans, temos a carne, os ovos, o leite, o mel, a própolis, a geleia real, o couro animal, a lã, a seda, o xampu que contém glicerina de origem animal, o sabonete com base de sebo bovino, o creme de barbear que contém lanolina, o casaco de lã, o cinto de couro animal, o comprimido com lactose, o creme para pentear que contém componentes do ovo e a roupa cujo tecido ou malha “contém ingredientes não têxteis de origem animal”.

 

O que é o prodanismo, e quem são os prodanistas?

O prodanismo é a ideologia moral e política que defende o consumo de prodans. O termo prodanismo é o novo nome para aquilo que eu, até o início de 2016, chamava de “carnismo”, palavra esta à qual eu tentei dar esse significado alternativo, mas me senti obrigado a abandonar por causa dos irreparáveis problemas no seu uso devido à sua gênese na teoria de Melanie Joy, dos quais eu falarei mais adiante.

Já o/a prodanista é a pessoa que promove o prodanismo, ou seja, o indivíduo que defende o consumo de prodans, seja legitimando as formas tradicionais de exploração animal com crueldades visíveis, seja defendendo o consumo de prodans originados em fazendas, granjas e tanques bem-estaristas. Prodanistas eram, até pouco tempo atrás, chamados por mim de “carnistas”.

 

Quem são os prodanívoros?

Já os prodanívoros são as pessoas que consomem prodans, mesmo que não defendam ativamente seu consumo. Ressalto que prodanívoro é diferente de prodanista, uma vez que há muitos prodanívoros que não fazem apologia ao consumo de prodans, e também um número relevante de vegetarianos (que não consomem nenhum alimento de origem animal) que, por não o serem pelos animais, advogam para que outras pessoas consumam prodans.

Onívoros, flexitarianos, protovegetarianos e vegetarianos que ainda consomem produtos não alimentícios de origem animal são todos prodanívoros.

A necessidade das palavras com radical prodan- no movimento vegano-abolicionista

Sinto que há uma necessidade, no meio vegano-abolicionista lusófono, de haver palavras fáceis e curtas que abreviem coisas como “produto com ingredientes de origem animal” e ideias como “defesa do consumo de produtos de origem animal”. Até o momento não havia palavras com tais aplicações específicas.

Tentei, entre 2012 e o início de 2016, utilizar o termo carnismo, criado por Melanie Joy, modificando seu conceito para a “defesa do consumo de produtos de origem animal, alimentícios ou não” – quando originalmente, na concepção de Joy, significava “ideologia que defende o consumo de carne de alguns animais”. Mas percebi que havia muitos problemas incontornáveis que tornavam vã a minha tentativa de reciclar essa palavra.

Como foi mostrado em minha resenha crítica do livro Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo, a palavra carnismo tem uma forte carga:
– carnocêntrica, por ser centrada na carne, desde o seu radical carn-, secundarizando ou negligenciando outros produtos de origem animal;
– especista, por tratar fêmeas produtoras de leite, ovos e mel e seus filhotes como moralmente inferiores aos animais de criações “de corte” e, por tabela, aos seres humanos;
– e bem-estarista, por causa da abordagem de Joy focada em crueldades explícitas, sem nenhuma menção ao especismo, com abordagem marginal e não abolicionista da cultura de tratamento dos animais como coisas e sem problematizar as formas “humanitárias” de explorar e abater animais não humanos.

Por causa desses problemas, o termo “carnismo” ficou demasiadamente estigmatizado. Qualquer tentativa de convertê-lo em outro significado tenderia a fracassar. Da mesma maneira, o substantivo “carnista”, por responsabilidade da própria Joy, acabou significando “consumidor de carne” no senso comum, indistintamente de o indivíduo “carnista” defender ou não o consumo desse tipo de alimento.

Já o prodanismo vem livre desse estigma, uma vez que a criação do radical prodan- tem propósitos claramente abolicionistas e abrange todo e qualquer produto com ingredientes de origem animal.

Nesse momento, talvez você esteja se perguntando sobre outras palavras, como especismo, antiveganismo, alfacismo e carnivorismo. Vou mostrar por que o termo prodanismo se aplica melhor à defesa do consumo de prodans do que cada uma delas.

  1. a) Especismo: Essa palavra é abrangente demais em se tratando de conceituar a discriminação moral que coloca os animais não humanos como inferiores aos humanos e põe alguns animais não humanos como “menos inferiores” que outros. Abrange o consumo de prodans, a ida a entretenimentos de exploração animal, o apoio a testes industriais e científicos em animais, a comercialização e proprietarização de animais domésticos, entre tantas outras formas de promover, patrocinar ou defender a exploração animal.

Além disso, conceitualmente não abrange diretamente crenças e atitudes que não são diretamente ligadas aos animais não humanos, como as hostilizações contra vegans e vegetarianos, a crença de que vegans são pessoas fanáticas e de saúde fraca, a suposta necessidade nutricional dos alimentos de origem animal e a descrença nos pesados impactos ambientais da pecuária e da pesca. Com isso, posso afirmar que o especismo tem muitos elos com o prodanismo, mas ambos não são a mesma coisa.

  1. b) Antiveganismo: O antiveganismo tende a definir mais uma posição contra o veganismo do que necessariamente em prol do consumo de alimentos de origem animal. Além disso, não tem os mesmos elos com o especismo que o prodanismo tem. Pode soar estranho chamar de “antivegana” uma reportagem que faz apologia e incitação ao consumo de carne ou leite e não promove ataques diretos aos veganos e vegetarianos. Nesse caso, o termo prodanismo/prodanista convém mais.
  2. c) Alfacismo ou alfascismo: Essa foi uma palavra usada entre meados da década de 2000 e o início da de 2010 para denominar os antiveganos com discurso mais odiento, violento e intolerante. Caiu em desuso com a popularização do termo carnismo/carnista. Suas apologias ao consumo de carne não eram argumentativas, mas sim meramente provocativas. O termo alfacismo ou alfascismo, assim, não tem a mesma abrangência do prodanismo, que pode ser tanto a defesa argumentativa do consumo de prodans como o ataque antivegano dotado da tentativa de proteger o mesmo.
  3. d) Carnivorismo: É um termo biologicamente inadequado para denominar seres humanos que comem carne, já que é uma referência a animais que comem apenas ou quase somente carne. E é tão carnocêntrico quanto o carnismo, enquanto o prodanismo engloba todo e qualquer produto de origem animal.

 

Prodanismo e especismo

O prodanismo tem elos fundamentais com o especismo. É uma ideologia que tem muitas crenças especistas, baseadas na inferiorização moral e coisificação dos animais não humanos – embora nem toda crença prodanista seja especista, como foi mostrado anteriormente. Em outras palavras, o especismo é um dos pilares do prodanismo e, sem especismo, não existiria a ideologia prodanista.

 

A carga política do prodanismo

O prodanismo é uma ideologia de cunho conservador e reacionário, que visa manter uma ordem de desigualdade moral – a especista – e justificar tradições violentas e prejudiciais, tal como o conservadorismo político e as manifestações de ódio reacionário contra movimentos sociais.

No século 20, as incitações publicitárias e de profissionais de saúde tinham uma função de doutrinação ideológica, tal como a Educação Moral e Cívica, que existiu nas escolas brasileiras durante a ditadura militar de 1964-1985, para manter a ordem das coisas, na qual animais eram explorados e mortos para consumo e os setores da economia apoiados na exploração animal lucravam impunes cada vez mais. A partir da década de 2000, o prodanismo passou a se manifestar como um backlash, uma reação conservadora que visava impedir as mudanças sociais iminentes a serem proporcionadas pela expansão do veganismo e do vegetarianismo.

É com a consciência do caráter reacionário do prodanismo que o veganismo vem atuar como um poder transformador, libertário, que visa acabar com a exploração animal e, por tabela, o consumo de prodans.

 

Considerações finais

Acredito que não vai ser fácil popularizar os termos de radical prodan- no meio vegano-abolicionista lusófono. Mas vale o esforço de promover essa difusão, de modo a tornar mais versátil a abordagem da problemática ética do consumo de produtos total ou parcialmente de origem animal e, assim, potencializar as ações de conscientização e expansão do veganismo.

Pretendo escrever, este ano ou em algum dos próximos, um livro que trará muito mais informações sobre o prodanismo e a importância de tratá-lo como um problema específico ligado aos Direitos Animais, algo que não pode ser simplesmente diluído no termo especismo.

Neste momento inicial, acredito que você que me lê talvez resista em utilizar os termos relacionados aos prodans. Mas isso é normal, e até eu próprio achei esquisito no início usar frequentemente as palavras prodan, prodanismo, prodanista e prodanívoro. Convém fazer, neste momento de introdução a termos até então inéditos, um esforço para se acostumar em utilizá-los, vislumbrando os benefícios em praticidade de seu uso para a causa vegano-abolicionista, à medida que vão se popularizando.

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