plantas

Estão aparecendo cada vez mais pesquisas científicas que mostram que, mesmo sem senciência, há nas plantas uma complexidade orgânica bem maior do que o senso comum acredita. Pelas constatações desses estudos, acredito não ser absurdo acreditar que, um dia, começará a ser debatida de verdade a possibilidade de haver consideração moral objetiva para com vegetais, ainda que com parâmetros diferentes dos que sustentam a ética animal. Mas a divulgação da parte de carnistas, por ignorância ou má fé, da falsa “certeza” de uma sensibilidade vegetal semelhante à animal não humana atrapalha muito e adia por tempo indeterminado o início desse debate sério.

O artigo da Wikipedia em inglês Plant perception (physiology) (que contém fontes; tradução minha) alega algumas das habilidades que seres multicelulares sem senciência, como as plantas, são ou seriam capazes de ter:

Plantas não têm um cérebro nem uma rede de neurônios, mas reações com vias de sinalização podem prover uma base bioquímica para aprendizado e memória. Controversamente, o cérebro é usado como uma metáfora para “inteligência vegetal” para prover uma visão integrada de sinalizações.

Plantas não são entidades passivas meramente sujeitas a forças ambientais, nem são organismos autômatos baseados apenas em reflexos e otimizados unicamente pela acumulação de fotossintato. Elas respondem sensitivamente a estímulos ambientais por movimento e mudanças na morfologia. Elas transmitem sinais e comunicam-se entre si, uma vez que competem ativamente por recursos limitados, tanto sobre como sob o solo. Além disso, as plantas computam apuradamente suas circunstâncias, usam sofisticadas análises de custo-benefício e tomam ações estritamente controladas para mitigar e controlar diversas fontes de estresse ambiental.

Elas também são capazes de discriminar entre experiências positivas e negativas e “aprender” (registrar memórias) de suas experiências passadas. Usam essa informação para atualizar seu comportamento de modo a sobreviver a atuais e futuros desafios de seu ambiente. Também são capazes de reconhecimento refinado de si mesmas e de outros organismos, e têm comportamento territorialista.

[…] As plantas, segundo alguns fisiologistas, são tão sofisticadas em comportamento quanto animais, mas essa sofisticação acaba mascarada pela escala de tempo das respostas vegetais a estímulos, muitas ordens de magnitude mais lentas do que as dos animais.

Essas características não implicam que plantas têm senciência, plena consciência de estarem vivas e interesse expresso de continuarem vivas e fisicamente íntegras como os animais. Mas nos convida a pensar que não são organismos “estúpidos”, meros autômatos comparáveis a máquinas.

E deixa no ar o convite a debates sobre a possibilidade de, no futuro, conceder-se alguma consideração moral e até direitos – provavelmente limitados e condicionais, dada a impossibilidade do ser humano de parar de se alimentar de seres vivos – aos seres vegetais. Talvez seja decidido existir um ou mais parâmetros morais possíveis de se dar às plantas, diretrizes diferentes daquelas dos Direitos Animais. E com isso é possível que alguns costumes humanos precisem ser ajustados, ainda não se sabe como.

Ou seja, se os animais são dignos de direitos por sua senciência e seu consequente interesse de continuarem vivos e íntegros e serem livres, as plantas adquiririam um ou mais direitos por alguma outra razão, inerente a suas próprias características complexas peculiares, a ser debatida e deliberada com os anos.

Mesmo que seja para deliberar que “não há nenhuma razão” para reconhecê-las como um tipo diferente de sujeitos morais, é imprudente descartar que cedo ou tarde tais discussões aconteçam. Perceba-se inclusive que este artigo coloca tudo no “talvez”, no campo das possibilidades incertas, sem trazer nenhuma certeza sobre o possível merecimento de consideração moral por parte das plantas.

Mas hoje não há as plenas condições de se estabelecer esse debate, que exige muita seriedade, ausência de interesses particulares – como o lucro e o paladar – e refinada honestidade intelectual. Porque os carnistas “defensores” da “certeza” de que “plantas sentem dor e têm emoções” estão impedindo que tal diálogo aconteça.

Eles vivem tentando colocar como “certa”, uma “verdade” praticamente absoluta, algo “comprovado pelos cientistas”, que plantas seriam sencientemente semelhantes aos animais, com direito a gritos de dor, emoções antropomórficas e sofrimento. Mas nunca falam isso na intenção de colocar na mesa uma discussão madura sobre a possibilidade de considerá-las sujeitos de direitos. Mas sim para tentar descartar a senciência e os interesses próprios do ser como parâmetros morais. Ou seja, nivelar para baixo animais não humanos e plantas como seres que não mereceriam nenhum direito e, assim, poderiam ser livremente explorados e abatidos.

Essa argumentação é desonesta e elimina qualquer boa vontade, por parte dos dois lados, de se debater seriamente se realmente h(aver)á ou não algum motivo legítimo e comprovado para que plantas mereçam algum tipo de consideração moral. De um lado, os carnistas distorcem tudo e tentam se apropriar do argumento dos “direitos vegetais” para negar direitos igualmente a animais e plantas. Do outro, os vegano-abolicionistas ficam obrigados a boicotar a discussão ou a se manter constantemente na defensiva, mostrando por que plantas não são moralmente semelhantes aos animais e os carnistas estão sendo desonestos e falaciosos.

Se plantas merecem realmente algum tipo de respeito ético que transcenda a consciência ambiental, hoje não sabemos, e provavelmente demoraremos a saber. E essa demora se deve, em parte, aos baldes de água gelada que os carnistas têm jogado em cima do tema da percepção vegetal.

Não gosto dos argumentos do tipo “vamos resolver isso primeiro para pensarmos nesses outros problemas depois”. Mas me vejo obrigado a argumentar que só será possível falarmos seriamente de direitos básicos para vegetais depois que todas as sociedades veganizáveis reconhecerem que os animais não humanos merecem o pleno respeito. Ou seja, só quando o carnismo e o especismo forem definitivamente derrotados.

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