Racismo, xenofobia, misantropia e reacionarismo: os “quatro cavaleiros do apocalipse” que tentam sabotar e imobilizar o veganismo

Brigitte Bardot, "símbolo" de uma defesa animal manchada pelos "quatro cavaleiros do apocalipse"

Brigitte Bardot, “símbolo” de uma defesa animal manchada pelos “quatro cavaleiros do apocalipse”

Editado em 20/04/2015 às 17h45

Têm “bombado” ultimamente, ao mesmo tempo, notícias sobre projetos de lei estaduais relativos ao sacrifício animal em rituais afrorreligiosos, denúncias de uso de carne de cachorro por chineses em pastelaria carioca, divulgações do malfeito de caçadores ao redor do mundo e discussões sobre os protestos de direita “contra a corrupção” e pelo impeachment ilegal da presidenta Dilma Rousseff. O cruzamento entre esses quatro assuntos está invocando os “quatro cavaleiros do apocalipse” do anti-humanismo de parte da defesa animal: racismo, xenofobia, misantropia e reacionarismo. E nos inspira a pensar sobre as perniciosas consequências desses ódios para o veganismo e a necessidade de politizar e estender a luta abolicionista para que ela inclua todos os animais, incluindo os humanos.

Discussões em alguns grupos do Facebook sobre veganismo têm exibido fortemente essa tendência desses “cavaleiros” de invadir, sabotar e imobilizar o veganismo enquanto corrente ética de respeito à vida senciente. Não é que só estejam começando hoje a existir os quatro mencionados ódios nos corações de muitos vegans. O que ocorre é que neste momento eles estão encontrando oportunidades mais amplas do que havia antes de serem expressados, propagar-se sob a forma de ideologia e investir na crença na “meia libertação” – com animais não humanos sendo libertados mas humanos permanecendo submissos e discriminados.

 

A questão das tendências racistas na militância contra os sacrifícios animais em rituais afrorreligiosos

Os debates sobre projetos de lei estaduais que visam proibir sacrifícios de animais por religiões de matriz africana têm feito pessoas que dizem defender os animais baterem de frente com o movimento negro. Sob o pretexto da proteção animal, muitos brancos têm dirigido discursos discriminatórios e criminalizadores contra religiões de matriz africana.

O racismo fica evidenciado aí quando muitos opositores do sacrifício animal, entre eles uma boa quantidade de vegans, consideram muito mais chocante e menos aceitável a morte de um animal numa rua ou praça nas mãos de pessoas negras atendendo a um ritual de candomblé do que a de um nas mãos de brancos num abatedouro para um banquete de festividade cristã. Enquanto se abomina a moral interespécie de candomblecistas que sacrificam galinhas numa encruzilhada, a de cristãos que abatem perus e porcos para as ceias de Natal e pescam peixes para as refeições da Semana Santa é mantida intocada e inquestionada.

E não é “apenas” nessa discrepância entre os abates promovidos pelas duas vertentes religiosas que há tendência discriminatória contra a cultura negra. Têm aparecido discursos de ódio racista explícito em muitas notícias sobre as leis de “combate” aos sacrifícios afrorreligiosos. O “amor” aos animais tem sido pretexto para cruéis ofensas contra os Orixás e seus devotos, muitas delas lançando mão de um criminoso etnocentrismo cristão fundamentalista que tacha de “demônios” as divindades de outras religiões.

Como forma de defender ao mesmo tempo a população negra alvo dessa discriminação racista mascarada de animalismo e os animais não humanos, tem-se defendido – e esta é a posição defendida por este artigo – que as pessoas mais qualificadas para discutir a questão ética do abate ritual em religiões afro são pessoas veganas afrorreligiosas. Já há uma ou mais tendências internas de se pregar a dispensa do sacrifício animal nesses rituais, como o Candomblé Verde.

Mas o que tem acontecido é que está sendo ignorado esse poder de pessoas adeptas da crença nos Orixás de modificar elas mesmas, internamente, a relação ético-moral de sua fé com os animais não humanos. Em outras palavras, muitos vegans brancos estão usando de ódio e ética seletiva para “defender os animais” e não estão confiando em pessoas negras afrorreligiosas veganas.

Essa ignorância se soma aos lamentáveis rompantes de ódio que mesclam racismo e intolerância religiosa. A soma disso tudo é que, sob o pretexto da defesa animal, estão promovendo opressão contra a população negra e a criminalização de sua fé.

E quando defensores dos Direitos Humanos – incluídos entre eles integrantes do Movimento Negro – exigem a interrupção desses ataques de intolerância e demandam a problematização dessa seletividade ético-moral que abomina o sacrifício afrorreligioso, ignora o abate de motivação cristã e trata religiões afro com preconceito, vêm as acusações de que estão “defendendo o sacrifício de animais”.

Os acusadores não percebem que estão presos numa errônea lógica dicotômica. É possível sim defender ao mesmo tempo os animais não humanos, a população negra e o direito da mesma a manifestar sua fé. Essa defesa não dilemática será possibilitada pelo diálogo intercultural entre a ética animal e a fé afrorreligiosa e pelo respeito aos afrorreligiosos veganos em seu atributo de pessoas mais capazes de fazer esse diálogo e influenciar uma reforma interna em sua religião.

Do lado branco, o que há a se fazer é reconhecer que parte daquelas pessoas que lutam contra o sacrifício animal nas religiões afro não promovem essa luta por respeito aos animais não humanos, mas sim por intolerância religiosa banhada de racismo. Nessa parcela, estão incluídos, por exemplo, evangélicos fundamentalistas que nunca tiveram uma Semana Santa sem peixe, nem um Natal sem peru ou carne de porco. Também se incluem pessoas que adoram vaquejadas ou rodeios, ou que adoram confraternizar em feriados e fins de ano com churrascos.

Elas não querem que a galinha que seria morta na encruzilhada seja poupada e continue vivendo, mas sim que ela, ao invés, vá para o abatedouro “virar” carne a ser servida na mesa de cristãos. O problema para elas não é que há animais morrendo dolorosamente, mas sim que há pessoas negras praticando uma religião herdada de culturas africanas, distinta do cristianismo ao qual brancos racistas e fundamentalistas gostariam de ver todos os brasileiros se submetendo.

Em poucas palavras, o que cabe aos brancos fazer é desmascarar as intenções racistas, cristocêntricas e não altruístas de muitos opositores dos sacrifícios rituais afrorreligiosos e deixar os vegans adeptos das religiões atacadas agirem.

 

A onda de ódio contra chineses como repercussão do caso da carne de cachorro apreendida no Rio de Janeiro

Dias atrás, uma pastelaria carioca que emprega chineses foi flagrada comercializando salgados com carne de cachorro. A notícia comoveu defensores e “amantes” de animais em todo o país, afinal, estava acontecendo um inadmissível absurdo para a moral interespécie brasileira vigente, o abate de cães para fins de consumo em pleno Brasil.

Seguiu-se, desde então, uma onda de xenofobia contra chineses. Entre os odientos desejos que podem ser flagrados em comentários de notícias sobre o caso da pastelaria carioca, estão desde a deportação dos matadores de cães até a proibição da imigração de chineses.

A alegação para tamanho ódio é que, na cultura brasileira, cães são “muito estimados” e sua morte com fins de consumo é inadmissível. E enquanto isso, em algumas regiões ou cidades da China, ainda é parte da tradição alimentar comê-los depois de eles serem torturados por métodos como espancamento e fervura viva. Portanto, chineses são vistos como “demônios na Terra”, já que consomem animais tão estimados por brasileiros.

Esquece-se, nessa raivosa – e criminosa – sinofobia, que a cultura brasileira não é nenhum exemplo de ética para com os animais. O Brasil é o país que mais mata bovinos e frangos no mundo, tem cruéis rodeios e vaquejadas entre suas tradições de entretenimento e é um dos países que mais capturam e traficam aves e outros animais silvestres – até por (ainda) ter vastas áreas de floresta –, sem que nada seja feito pelo seu Estado para se desconstruir a cultura de compra e posse literal de animais não humanos.

Ignora-se, nessas horas, que neste exato momento pode haver, por exemplo, estadunidenses “amantes” dos animais desejando que o Brasil seja destruído por um meteorito ou que brasileiros sejam deportados em massa por esses motivos. E da mesma maneira, desconhece-se a ação de vegans chineses contra o consumo de carne de cachorro em sua terra.

Mas isso tem sido negligenciado por muitos vegans, que vão na onda do que Sônia Felipe chama de xenoespecismo – a desigualdade de consideração moral pela qual, por exemplo, a morte de cães espancados e comidos por chineses é mais repudiada do que o abate de bovinos, frangos, peixes, porcos etc. mutilados, confinados e comidos por brasileiros. Deixam de lado princípios basilares do veganismo, como a construção de uma cultura de paz, o desejo convicto pela libertação dos animais de todas as espécies e o próprio combate ao especismo.

Visto isso, a onda xenofóbica tem despertado a necessidade do debate permanente sobre o combate às desigualdades de consideração moral entre seres humanos e entre todos os seres sencientes. Nesse debate, fica claro que a xenofobia é tão eticamente intolerável, destrutiva e opressora quanto o especismo, e que portanto não é nada ético promover ódio contra, por exemplo, seres humanos de outros países com o pretexto de se defender os animais não humanos.

 

Caçadores de animais não humanos e pessoas desejosas de caçar humanos agressores de não humanos: o alvorecer da misantropia

Em fóruns como o grupo facebookiano Veganismo, tem havido uma outra onda, paralela às duas já descritas acima: a misantropia, praticada e até defendida sob o pretexto de indignação contra as crueldades humanas contra os demais animais. Denúncias como a exposição de caçadores que expõem suas vítimas como troféus têm despertado reações de ódio à humanidade por parte de muitas pessoas.

Declaram ódio a caçadores como se eles fossem impossíveis de serem conscientizados e se arrependerem dos seus erros. Ódio a pecuaristas, pescadores e onívoros (quase) em geral como se eles não pudessem vivenciar uma mudança de mente e coração e reconhecer que os animais não são seres “escravizáveis”. Ódio a quem reluta em aderir ao veganismo. Defendem linchamento e morte contra essas pessoas, ao invés de imergi-las num processo de conscientização ética.

Já comentei, em um artigo de uns anos atrás, que o ódio misantrópico é uma ameaça ao vegano-abolicionismo, nunca uma contribuição positiva. Ele descarta a necessidade de se refutar a crença de que a “natureza humana” é cruel e maligna. Rejeita que o ser humano pode receber uma educação ético-moral e, a partir dela, desconstruir moralidades violentas e excludentes.

A partir dessa negação ao poder da educação, os misantropos acreditam que a humanidade “não tem jeito”, é um “câncer” para o planeta e por isso deveria desaparecer. Nas opiniões advindas dessa “consciência” anti-humanista, não são de surpreender a descrença na libertação humana e a recorrência de múltiplos preconceitos, como a xenofobia, o racismo, o machismo, a intolerância religiosa e o elitismo.

Vale perceber, aliás, que esse ódio misantrópico é espertamente seletivo. O misantropo não declara a seus pais, filhos e amigos a aversão que manifesta contra a espécie humana que generaliza como “imprestável”. Tampouco considera a si mesmo um dos seres humanos a serem odiados pela misantropia e condenados à extinção. Como diz Sandro Friedland:

O misantropo é a pessoa que se divorciou da humanidade (e por consequência, de sua própria humanidade). Acredita que a humanidade está perdida, não tem jeito, é inerentemente má (com exceção dele, o misantropo, é claro). Por ele, a humanidade deveria ser extinta (com exceção dele próprio novamente, o que o torna na verdade um orgulhoso). A acredita que é o único “de bem”, defensor dos animais, contra todo o resto da humanidade que não coloca os animais dentro do círculo de preocupação exclusiva e máxima (nisso ele inclui também os veganos que se preocupam com a interseccionalidade – que para o misantropo, estão lá pra ‘manchar’ o veganismo com preocupações humanas mundanas.)

Por negar a possibilidade de educar, politizar e libertar os seres humanos da ideologia especista e carnista, a misantropia promove um grave desserviço ao vegano-abolicionismo. Aliena o veganismo de sua qualidade de consciência ética em expansão e dotada do objetivo de libertar os animais através de meios como a conscientização de seres humanos.

Engessa assim a expansão do vegano-abolicionismo e desencoraja ações políticas empreendidas por pessoas reconhecidamente éticas. Em resumo, perpetua a ordem moral de exploração animal e aumenta a carga de ódio, opressão e sofrimento no mundo.

 

Vai uma coxinha vegana? O reacionarismo de vegans que querem o fim da exploração animal mas não se importam com a opressão de humanos por humanos

Os três ódios acima mencionados andam de mãos dadas com o reacionarismo, a ideologia que mescla aspectos de várias correntes de “pensamento” de direita e os combina com ódio a minorias políticas e fanatização da convicção político-ideológica. Assim como os outros três, o reacionarismo tem ferido, com seus afiados e enormes espinhos, a consciência ética vegana e a luta abolicionista.

Tem sido manifestado quando, por exemplo, alguns vegans se submetem à credulidade em tudo o que formadores de opinião conservadores dizem sobre a esquerda brasileira, se opõem a políticas afirmativas de inclusão de minorias políticas, defendem o autoritarismo como “solução” para diversos problemas nacionais etc.

Um artigo escrito há alguns anos exemplifica como a convicção ideológica reacionária implode o veganismo como conjunto de práticas éticas. Na mentalidade do vegan reacionário, o especismo é substituído por racismo (velado ou explícito), elitismo, heterossexismo, machismo e misoginia, transfobia, intolerância contra minorias (ir)religiosas etc. O mesmo indivíduo acaba se limitando muito em sua defesa dos animais não humanos.

A partir daí surgem excrescências como a defesa da substituição de cobaias não humanas por presidiários humanos em testes cruéis de produtos industrializados – ao invés de se defender a abolição desse tipo de experimento –, frases como “Prefiro bicho a gente” – o que escancara o casamento entre reacionarismo e misantropia –, o apoio acrítico a um mercado “pró-vegano” que explora cruelmente seres humanos etc.

O que advém disso é um veganismo meramente de não agressão, pelo qual o indivíduo se preocupa apenas em não participar do sistema de exploração animal não humana, não se engajando suficientemente no enfrentamento e desmonte desse sistema.

É um veganismo incapaz de problematizar, por exemplo, a contribuição do capitalismo na radicalização da exploração animal, as íntimas ligações entre escravidão animal e submissão de humanos a trabalho degradante, elos igualmente íntimos entre a cultura rural do latifúndio opressor e o uso de animais como propriedade humana e a incapacidade do veganismo capitalista de transformar radicalmente a ética vigente.

É inábil também em alcançar a maioria pobre da população, já que defende um hábito de consumo acessível quase que somente às classes média a alta. Motiva, inclusive, os movimentos de esquerda a terem um pé atrás perante o veganismo, por seu suposto elitismo. E sobretudo, “prova” que um hipotético mundo vegano futuro não necessariamente seria um mundo livre de exploração, opressão e coisificação contra os mais vulneráveis.

Por isso tudo, fica evidente que juntar veganismo com mentalidade reacionária é estragar a ética vegana, torná-la inócua perante o ideal da libertação animal, retirar-lhe o atributo de corrente ético-política contrária à opressão e impedir seu crescimento nas camadas populares.

Mas nada disso é percebido pelos vegans reacionários. Alguns deles, aliás, têm criado ou aderido a fóruns que tentam girar para trás a roda da história política do veganismo. Tentam restaurar um conceito de veganismo que só pensa nos animais não humanos, desconsidera que seres humanos também são animais e não considera racismo, elitismo, machismo, transfobia, heterossexismo etc. opressões tão repudiosas quanto o especismo.

 

A derrota dos “quatro cavaleiros” é essencial para fazer o abolicionismo engrenar e a possibilidade da futura libertação animal ser real

Esses últimos tempos têm deixado muito claro que a luta contra o especismo precisa, imprescindivelmente, também ser uma luta contra ódios opressores dirigidos a seres humanos. A permanência de racismo, xenofobia, misantropia, reacionarismo e outros flagelos do tipo só tem feito mal à causa vegano-abolicionista.

O ideal desejado pelo veganismo é um mundo sem opressão, o triunfo da cultura de paz, a conversão da empatia e da alteridade em dois dos mais importantes princípios éticos existentes, a libertação daqueles que são inferiorizados e explorados. E isso só vai ser atingido quando se admitir que libertação animal não virá sem libertação humana.

A igualdade moral defendida deve ser levada a sério. Igual consideração moral não é considerar pessoas afrorreligiosas promotoras de sacrifício ritual inferiores a cristãos onívoros, nem os bois brasileiros inferiores aos cães chineses, nem humanos chineses inferiores aos humanos brasileiros, nem a espécie humana inferior às demais espécies animais, nem categorias humanas oprimidas inferiores às dominantes e privilegiadas.

Por isso os “quatro cavaleiros do apocalipse” precisam ser combatidos e abolidos com o mesmo vigor com o qual enfrentamos o especismo e a escravidão animal. Levemos realmente em conta o princípio de que não existe “meia libertação” – ou seja, lutemos pela abolição da inferiorização moral e exploração de toda e qualquer espécie animal, incluindo a humana.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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7 Comments on “Racismo, xenofobia, misantropia e reacionarismo: os “quatro cavaleiros do apocalipse” que tentam sabotar e imobilizar o veganismo

  1. Um dos melhores textos que li nos últimos anos.
    E o chapéu serve-me perfeitamente.
    Vou tentar digerir para poder evoluir um pouco mais – a tendência da gente é se defender quando algo toca fundo.
    Copiei para (re)ler outras vezes.
    Parabéns, cara!

  2. A página Candomblé Verde já fez postagem manifestando-se a favor da liberdade para realizar sacrifícios de animais em rituais religiosos. E agora, Robson? Perece que estás promovendo movimentos religiosos antropocêntricos/ecocêntricos e tentando outorgar-lhes preferência ou exclusividade para tratar de um tema que diz respeito, antes de mais nada, aos Direitos Animais. Há pessoas que se tornam extremamente manipuláveis com a preocupação em defender e construir sua imagem social. A polêmica do sacrifícios de animais revelou bastante tipos assim. Diante da mera menção à palavra “racismo”, por mais equivocada e inadequada que seja aplicada ao caso em questão, todas as “convicções veganas” vão pelos ares. “Que se danem os animais, vou relativizar e menosprezar sua dor e seus interesses, usar seu sangue para lavar minha culpa social e pagar de militante engajado nas pautas das minorias humanas”. Os líderes dos cultos que realizam imolação animal e os políticos sanguessuga que os exploram já perceberam esse calcanhar de aquíles egóico e medroso dos pseudoativistas, e estão aproveitando até não poder mais a situação… E vítimas continuam indefesas e relegadas.

    • Não é a mim que vc precisa perguntar “e agora” sobre a página em questão, mas sim a pessoas veganas adeptas de religiões afro que fazem sacrifícios.

      E vc comete falácia do espantalho quando diz que estou “promovendo” religiões com sacrifícios animais. O que estou promovendo é que o racismo e o cristocentrismo devem acabar na oposição ao sacrifício religioso de animais.

  3. Direito dos animais x sacrifício animal

    Permitam, antes de mais nada, que eu me apresente: Sou umbandista, vegetariana, graduada em Direito, ativista da causa animal, idealizadora do Centro Clínico Veterinário Valle di Assisi, estudante de Medicina Veterinária e fiz propaganda para a Regina Becker.

    Penso que eu estava devendo este texto pra muita gente, e por favor, me interpretem mesmo, como alguém que reúne contradições em si: Pensar e sentir é ter a capacidade de se trair.

    Sou umbandista. Nasci numa família de ateus e por muitos anos, talvez tenha sido um reflexo disso, até iniciarem fenômenos e eu assumir o mediunato. Recebi o chamado da Sagrada Corrente Astral de Umbanda, não foi de nenhum outro lugar, não foi de nenhuma outra morada – porque “(…) há muitas moradas”…
    Diferente de muitos umbandistas e cultuadores de outras religiões de matriz afro, apesar de ter frequentado terreiro, decidi ritualizar e estudar o culto por conta própria, num contato direto com as entidades. Cultuo a direita e a esquerda. Fica muito bonito isso escrito num texto, mas creio que o texto não será lido apenas por umbandistas. Ledo engano pensarem as pessoas que o umbandista “é branco”. Acho ridículo dentro da própria religião as pessoas tentando tornar a umbanda algo intelectual, espírita, esotérico, quando o trabalho da umbanda é mexer na lixeira. Trabalhamos no D.M.L.U., meus caros! Descemos as regiões umbralinas. E vivemos numa guerra entre dois mundos, o tempo todo. Não somos doutores, somos lixeiros! Assumam. Por isso, oramos e vigiamos mais, bem mais que o padre que faz exorcismo uma vez na vida e outra na morte. Quem lida com ocultismo precisa manter uma série de coisas ocultas – parece redundância – mas não é, e nem fui eu quem inventou isso. A lei do silêncio existe desde que os tempos são tempos e ela vale não só pra fala, mas também para a escrita. Nós conseguimos crucificar Cristo, conseguimos matar Jesus, que veio a terra para falar de amor. Amor – a única coisa que deveria nos reunir. Então, vou eu dar “uma de louca” e começar a retirar os véus? Vou eu, aqui neste texto, abrir a cortina?
    Algumas coisas dependem de fé para serem compreendidas e outras dependem, necessariamente de sair da posição confortável de sua própria crença e aceitar a do outro.

    Sou vegetariana e apanhava para comer carne, até um dia ficar anêmica aos oito anos e por um contexto familiar e cultural ser convencida da importância das proteínas. Dois anos antes de decidir que deveria cursar Medicina Veterinária parei de comer carne por uma objeção de consciência. Simplesmente, não devo comer animais, se devo salvá-los. Quer dizer que eu não mato no terreiro, mas na mesa estou liberada? Não.
    Sempre que reflito algo, sento primeiro na cadeira daquele que será julgado. Seria uma incongruência. Nessa encarnação nasci gaúcha e os gaúchos comem carne e muita carne, arrisco dizer que quase que vivem pra isso.
    Acredito mesmo que não comer carne seja uma questão de evolução humana, espiritual e mental, mas creio também que é da gênese do evoluído não fazer apologia da sua evolução, portanto aquele que de fato, é evoluído, respeita o outro. Repito: o verdadeiro evoluído, respeita o outro.

    Todo o Axé de corte que recebi em minhas mãos, recebi para a cura. Tenho outorga para salvar e por isso, não mato. Recebi uma tenda de cura de animais dentro da minha casa. Jamais, eu digo jamais, teriam dado tamanha responsabilidade para alguém, se eles não confiassem em mim. Para muitos magos, animais morrendo o tempo todo seria um prato cheio.

    Sou graduada em direito e no meio da faculdade, me tornei umbandista e isso refletiu demais no modo com o qual vejo e interpreto a lei, tanto que advogo para consumo interno, apenas. A Lei primeva é muito maior que o Direito. A Lei é aquilo que nos compele a estarmos presos a esta dimensão, submetidos a “ação e reação” e na saída, sujeitos a um julgamento, realizado pelo tribunal de nossas próprias consciências. Quando eu leio a lei dos homens, como justanaturalista que sou, me dá uma grande vontade de rir. A lei dos homens é apenas o reflexo de sua incapacidade de compreender algo que é a Lei Cósmica e Universal. Então, vocês acham que eu vou tentar explicar o que é Exu, num texto escrito para não iniciados? Vou tentar explicar porque o uso de plasma é importante? Jamais.
    Mas é importante frisar que das minhas incursões dentro do direito – e elas não me foram oferecidas pela universidade, mas lidando com almas perdidas na minha frente, digo:
    – Quem deve paga, quem merece recebe. É a lei.
    Portanto, aguardem porque haverá um julgamento e ninguém foge dele.

    Sou uma ativista, convicta do direito dos animais. Nasci num lar que virou ONG. Meus pais sempre viveram cercados de animais, ao estilo acumuladores. Tanto meu pai, quanto minha mãe optaram pela prodigalidade, numa nítida tomada de posição que determinou suas vidas e influenciou a todos na família. Meu pai é advogado e as sentenças a cerca de seus processos, e da defesa de sua causa, viram jurisprudência no assunto, direito dos animais.

    Sou idealizadora do Centro Clínico Veterinário Valle di Assisi. Minha clínica veterinária possui um grande índice de doações de animais e pratica caridade de forma reiterada, efetivando uma medicina veterinária acessível. Quando praticamos a medicina, então sim, trabalhamos para a grande Fraternidade Branca Universal, então sim, somos doutores. Na clínica, temos consciência absoluta que os animais são portadores de uma alma e são tão filhos quanto nós somos, são tão donos quanto nós, de tudo o que está a nossa volta. Escolhi nos chamar Assisi para homenagear São Francisco de Assis, um santo católico e um grande exemplo de ser humano. Em tempo, estampada na porta da clínica, ninguém vai encontrar, palavras ou anúncios promocionais, mas sim o nome dos maiores teóricos do direito dos animais, adesivados na vitrine. Vitrine coberta, porque medicina não é negócio – é sacerdócio!

    Sou estudante de Medicina Veterinária e como identifico magos negros, ligados à veterinária, seja estudando, lecionando ou exercendo a veterinária. Claro que identifico gente assim, em outros lugares, mas nunca com tanta profusão, quanto na veterinária. Nunca ouvi tanto falar de mercado, quanto no curso de veterinária. Nunca vi a morte de animais ser tão naturalizada e apregoada como comércio, como mercado. Nunca vi tanta gente que come carne e gosta de sangue, quanto na medicina veterinária. Nunca vi tanta gente que mata, quanto na medicina veterinária. Começa que nenhum abatedouro funciona sem que tenha um responsável técnico assinando e inspecionando o processo. E quem é esse profissional? É o mesmo que poderia estar salvando. O mesmo que tem a chancela de salvar pode acompanhar o assassinato e vocês “inocentes comedores de carne”, podem enxugar suas mãos de toda essa sangueira. Certamente, tivessem que fazer o trabalho sujo, não o fariam, porque vocês, assim como os espíritas, evangélicos e outros, são “brancos”.
    É mago negro todo aquele que vai pra abatedouro? Não. Claro que não. Eu não disse isso. Pelo contrário, comecei dizendo, lá no começo do texto “(…) alguém precisa descer, alguém precisa cuidar do trabalho sujo”. Existe demanda de carne, não existe? Então, os animais são mortos. Para que vocês comam. Eu não como animais.

    Fiz propaganda para a Regina Becker, apesar dos evangélicos não gostarem de umbandistas. Eu sou, antes de ser umbandista, uma universalista. Acredito na proto-síntese cósmica universal e planetária. Falei difícil? Simplifico: Somos os mesmos, somos irmãos e o amor é a única coisa que pode nos reunir e nos salvar. Admitir o outro como igual é a única salvação.
    Como sou médium, ali pelas tantas, passei a desconfiar da Regina Becker e suspeitar que assim que fosse eleita, ela se manifestaria contra as religiões de matriz africana e, para tanto usaria como subterfúgio os animais.
    Falar de matança de animais em religiões de origem africana é um pouco desconhecer a intimidade de um terreiro sério.
    Bem, pra começar, acho a Regina Becker, de fato talentosa e como toda a pessoa boa, quero crer que está sendo ingênua. Muito ingênua ao mexer com coisas sérias. Quando passei a suspeitar dela, simplesmente não tive coragem de digitar o seu número na urna, apesar de concordar que pelo o direito dos animais, desconheço alguém que tenha feito tanto por eles. No entanto, é bem verdade, que a Regina Becker sempre esteve em posições privilegiadas para que o fizesse. O que não invalida em nada, a sua benevolência, porém quanto maior é o nosso alcance, maior deve ser a nossa responsabilidade.
    Em um terreiro, os animais são abatidos em rituais muito sérios, que envolvem apenas pessoas, de fato preparadas. O sangue, vísceras e peças, como chifres, cabeça, dentes, patas e couro são utilizados para o ritual. O restante da carcaça é preparada como alimento e distribuído para os filhos de religião e para toda a comunidade ao redor da choupana.
    A umbanda e outras religiões de matriz africana reúne miseráveis ao redor, muitas vezes, dentro e fora do corpo mediúnico. Desculpa, mas Cristo andava com quem? Acho que não era com o Pilatos ou com o Gerdau Johanpeter. Jesus andava com mendigos, com leprosos, prostitutas, desvalidos. Ele sabia qual era o seu trabalho. Nós também sabemos qual é o nosso. Trabalhamos no submundo. Entendam: isso depende de fé.
    A dona Regina Becker é vegetariana? Pergunto isso, porque no submundo não estão os vegetarianos. Está lá, uma gente sedenta que incomoda muito e que porque respeitamos, nos respeitam – e sabem reconhecer o valor de uma amizade. Está difícil de entender? Façam amizade com um presidiário e não terão ninguém mais grato e reconhecido. Respeitem o próximo, tenham a inacreditável capacidade de perdoá-lo e verão o quanto o universo é interdependente. Não há distinção entre branco e preto, somos sempre um tom de cinza, com raras e honrosas exceções, tanto pra um lado, quanto pra outro.
    A dona Regina Becker casada com o senhor Fortunati nunca precisou dos votos do Povo de Santo? Nunca comeram um churrasquinho dentro de terreiro nenhum?
    Para algumas coisas nós servimos, pra outras não?
    Ah, mas que sem graça!
    Porque dona Regina Becker não ataca as sinagogas, praticantes de rito semelhante? Certamente, não ataca, porque sua proposta não teria nenhuma visibilidade nos meios de comunicação aqui no Estado. Não ataca, porque atacar as religiões de matriz africana é a simplificação das simplificações. Os judeus são mais bem organizados, são ricos e poderosos.
    Sinto muito por este posicionamento, ele demonstra a mediocridade oriunda de uma simplificação. Sabe o que é coisa de mago negro? Coisa de mago negro é mascarar, sob o pretexto de defender animais, argumentos que abarcam o direito dos mesmos quando esta discussão já tinha sido encerrada e quando tudo o que se pretende é apenas atingir o Povo de Santo.
    E a segurança jurídica, senhores juspositivistas? Pra mim todas as questões são abertas. Mas discutir morte de animais, no Estado do churrasco, é jocoso. Então dona Maria – nossa tia – lá no interior de Agudo está proibida de abater o porco, a cabra, a vaca?
    Certo que devem ter lugares que torturam animais… lugares que de fato, praticam o mal e que certamente, dão passagem para que o submundo opere, se manifeste. E será a lei que querem aprovar que vai compelir a prática da magia negra no Estado?
    Excelente! Vou descer com duas tábuas no umbral da próxima vez e ver o que o submundo me diz a respeito de obedecer a lei?
    Senhores, quanta ingenuidade. Quanta falta do que fazer… Criem fiscalização, admitam fiscais. O Conselho Regional de Medicina Veterinária deveria visitar terreiros e ver em que condições estão os animais em terreiros que praticam a matança.
    Sim. Praticam matança! Este é o termo pra frigorífico, pra algumas clínicas veterinárias, pra nossa tia Maria de Agudo. Só não serve o termo “matança” pra vocês que não se sujam de sangue, mas que recebem a carne morta no prato. Assim é no submundo, eles sofrem, mas se acham inocentes. Vocês sofrem com a própria culpa pelo que são capazes de fazer com os animais, mas precisam encontrar um culpado longe de vocês mesmos.
    Depois de todo o exposto, mas e o direito dos animais? Proponho um projeto de lei que acabe com a criação e produção de carne para alimentação. Então saltarão médicos e nutricionistas falando de aminoácidos essenciais. Sempre temos uma justificativa que nos importe o atraso e isso vale também para o Povo de Santé. Sabemos que o nosso trabalho pode ser feito de outra forma.
    Apesar de respeitar profundamente, as tradições ancestrais, na África, alguns lugares mutilam clitóris e isso, nos parece injustificável. Aproveitem as reuniões frequentes agora, e repensem, vocês também, “a velha opinião formada sobre tudo”.

    Eu, nesta encarnação, me chamo Silvia Mara,
    Axé, Saravá a todos…

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