Uma reflexão sobre a surpreendente reação de parte da esquerda brasileira à Operação Carne Fraca

Esquerda e Operação Carne Fraca

Como uma certa parte da esquerda reagiu à Operação Carne Fraca? Foto: CTB

Boa parte da esquerda brasileira, incluindo diversos formadores de opinião, causou surpresa no país nesses últimos dias.

Diante do escândalo dos frigoríficos, desencadeado pelas denúncias e prisões feitas pela Operação Carne Fraca desde o último dia 17, muitos autorrotulados progressistas têm se mobilizado com uma certa força.

Mas se mobilizado com que propósito?

Vamos refletir sobre a surpreendente atitude deles, e o que ela tem a nos ensinar sobre a necessidade urgente de se interligar o movimento vegano-abolicionista com as lutas sociopolíticas humanas, e vice-versa.

 

Como foi essa reação?

Print do site do PCO

Print de matéria do site do Partido da Causa Operária

Antes de tudo, vamos responder à pergunta maior: como essa parte da esquerda reagiu diante da Carne Fraca?

Talvez você tenha inicialmente pensado: enfim a esquerda não vegana está percebendo como a indústria frigorífica e a pecuária são cruéis tanto contra os animais e o meio ambiente quanto contra os seres humanos, e partir daí passou a exigir, por meio de mobilizações, que:

  • Os empresários, executivos e políticos envolvidos nisso tudo sejam responsabilizados e punidos;
  • Haja logo uma reforma agrária que acabe com a farra dos pecuaristas e corte o abusivo poder político dos ruralistas;
  • O setor alimentício passe por fiscalizações mais rigorosas e as empresas envolvidas com corrupções dos tipos que foram descobertos pela operação sejam desapropriadas e passadas para os trabalhadores;
  • E o consumo de carnes – em especial as de qualidade duvidosa – e outros alimentos de origem animal seja cada vez mais desencorajado no Brasil em favor de uma alimentação mais ética, sustentável e saudável.

Pensou isso mesmo?

Se sim, então infelizmente errou.

A reação foi o exato contrário. Foi uma que revelou o quanto essa “esquerda” pode ser tão conservadora e defensora da injustiça e das desigualdades quanto os Movimentos Brasil “Livre” e os Institutos “Liberais” da vida.

O que “progressistas” do tipo fizeram foi:

Foi um dos mais significativos episódios da história política brasileira recente em que uma parte da esquerda que se diz progressista agiu muito à direita de seus próprios princípios sociais e político-ideológicos.

 

A esquerda conservadora e como despertar o comentarista de portal de notícias que dorme em muitos “progressistas”

Meme Especista de Esquerda 84

Essa reação deixou claro que, quando o questionamento vai de encontro a hábitos impensadamente antiéticos e crenças desigualitárias muito enraizadas, como o consumo de produtos de origem animal, muitos “esquerdistas” se tornam conservadores de carteirinha. Ou explicitam que, mesmo tendo eventualmente saído da direita no passado, a direita nunca saiu de dentro deles.

É só falar de exploração animal, que os animais não humanos devem ser tratados como nossos iguais, que a pecuária explora e mata seres sencientes, que consumir alimentos de origem animal é desnecessário e que a massificação do veganismo é uma das únicas soluções, senão a única, de salvar o planeta do colapso ambiental, que eles começam a revelar isso.

Questionados e acuados, tentam defender a todo custo seu hábito de consumo, proteger-se do peso na consciência e da inconveniente conclusão de que chegou a hora de abandonar um estilo de alimentação que tem marcado todos os anos de sua vida.

A partir daí, abundam as falácias, os argumentos preconceituosos e/ou pseudocientíficos (leia aqui uma resposta a diversos deles), os discursos de ódio contra vegans e vegetarianos, as acusações de “arrogância moral” e “imposição da sua (nossa) verdade”, o apelo hipócrita às pessoas pobres que “não podem ser veganas” e, é claro, as declarações conservadoras sobre como é uma “tradição” e “natural” comermos carne e “todos os animais são especistas”.

Nesse meio, o que não falta são as baixarias explícitas, intolerantes, xingantes, de quem não aceita a liberdade de expressão dos veganos e vegetarianos nem a validade da causa vegano-abolicionista.

Isso ficou muito claro nesses dias de repercussão da Carne Fraca, nos comentários de postagens como as que a página Anarcomiguxos V (Atualização 07/11/17: A página foi derrubada por denúncias em massa feitas por reacionários mal-intencionados, tendo sido sucedida pela Anarcomiguxos VI, que ainda não trouxe conteúdo  vegano) postou em parceria com o Veganagente:

  • O escancaramento do reacionarismo dos antiveganos “de esquerda”;
  • A denúncia do “cosplay de pobre” que eles costumam promover e os privilégios e hipocrisias que essa artimanha defende;
  • A minha resposta ao argumento de que o veganismo é “elitista por essência”;
  • A divulgação dos benefícios do veganismo a quem adere a esse modo de vida.

Nessas horas percebemos como tocar na carne, nos laticínios e nos ovos dessas pessoas opera estranhos fenômenos, como:

  • Tornar as caixas de comentários de páginas de esquerda, comumente cheias de comentadores de esquerda, inacreditavelmente parecidas com as de portais de notícias, marcantes por abrigar discursos de ódio e extremismo de direita;
  • Abrir o armário ideológico de parte da esquerda, revelar e acordar o conservador ou ultraconservador que dormia dentro dele;
  • Induzi-la a empreender uma campanha claramente de direita em defesa do status quo econômico, do capitalismo pouco regulado, da manutenção de empregos extremamente precários, dos latifundiários, das grandes corporações frigoríficas e dos interesses de quem corrompe o poder público “em nome da economia”.

Em poucas palavras: são pessoas “de esquerda” e “progressistas” até que a sagrada carne de seus pratos seja posta em xeque.

 

A oportunidade perdida de levantar ou estudar pautas muito importantes

Print do site do Vermelho, pró-carne

Ao defender os frigoríficos e o agronegócio ao invés de suas vítimas, essa parte da esquerda perdeu uma oportunidade dourada de fazer reivindicações clássicas

Nessa campanha conservadora em defesa do mais desumano e antiético setor econômico do Brasil, essa parcela da esquerda está deixando de lado, completamente, diversas pautas de alta importância para a sociedade, mesmo aquelas não concernentes ao especismo e à exploração animal.

A posição contrária é que está sendo tomada para cada uma delas, como listo a seguir:

  • Poderiam estar defendendo que a agropecuária latifundiária e os setores de alimentos de origem animal e vegetal passassem por uma grande auditoria para se descobrir fraudes na produção, crimes ambientais, quão frequentes são os procedimentos de crueldade extrema contra os animais, casos de corrupção de fiscais, uma investigação ainda mais profunda sobre há quanto tempo e em que magnitude esses setores promovem tais crimes etc. Em resumo, uma Operação Lava Jato dos Alimentos. Mas a postura adotada foi de relativizar esses delitos e apontar dedos contra quem foi lá investigar e indiciar os empresários, executivos e fiscais envolvidos;
  • Poderiam estar reivindicando uma investigação sobre quanto de impostos a indústria alimentícia (lacto-frigorífica, de bebidas, de industrializados de origem vegetal, de produtos declaradamente vegetarianos etc.) tem sonegado e o quanto se tem recusado a prover em direitos aos trabalhadores desses setores. Mas o que estão fazendo é deixar isso de lado em nome da “preservação dos empregos” e da “balança comercial”;
  • Poderiam estar escancarando o máximo possível de outros podres da indústria frigorífica, láctea, granjeira, de bebidas e de demais alimentos, mesmo aqueles com selo de vegetarianos, para revelar à população o quanto o capitalismo pode ser cruel com os consumidores e os trabalhadores além do que a Carne Fraca já revelou. Mas a postura está sendo de não fomentar esse tipo de denúncia e, muitas vezes, opor-se a ela, com pretextos econômicos completamente pró-status quo e acobertadores de crimes e injustiças;
  • Poderiam estar defendendo ou desenhando uma futura revolução alimentícia, na qual a perversa agroindústria atual daria lugar a uma agricultura e indústria de alimentos realmente saudável, sustentável, socialmente responsável, honesta e justa. Mas o que fazem é se pôr quase incondicionalmente a favor de um setor que existe fundamentado em violar animais humanos e não humanos;
  • Poderiam estar defendendo justiça pelos trabalhadores superexplorados pela mesma indústria frigorífica, reivindicando que eles tenham seus direitos trabalhistas assegurados ou fomentando empregos que os libertem das infames profissões desse setor. Mas, ao invés, optaram por defender os empresários e executivos, mesmo alegando que estão fazendo isso com “relutância”, e usando argumentos que poderiam ser muito bem utilizados para defender a contrarreforma trabalhista do Governo Temer, como a “manutenção (ou geração) de empregos” e a “melhoria da economia”;
  • Poderiam estar denunciando o quanto o agronegócio e a indústria alimentícia violam os Direitos Humanos dos trabalhadores, dos consumidores e também de indígenas, camponeses, ambientalistas e outras categorias. Mas viraram as costas para essas pessoas;
  • Poderiam estar demandando que a Carne Fraca se estenda à investigação de crimes ambientais promovidos pelo setor frigorífico e pelo agronegócio pecuarista. Mas não, optaram por tratar, silenciosa ou expressamente, o meio ambiente como um mero obstáculo para o desenvolvimento do “importante” mercado da carne;
  • Poderiam estar iniciando um trabalho de base entre os consumidores de carne e outros alimentos nocivos à saúde, procurando saber por que consomem tais produtos e mostrando-lhes como é possível comer comida muito mais saudável e ética a preços acessíveis. Mas o que fizeram foi lhes dedicar o mais puro desprezo e defender que continuem se virando e se envenenando com carnes processadas, lámen superindustrializado, enlatados, refrigerantes e “sucos” industrializados hiperaçucarados, cerveja à base de milho transgênico e outros alimentos potencialmente perigosos;
  • Poderiam estar defendendo e livrando do atual caráter elitista e pouco acessível as opções alimentares que sejam mais saudáveis, sem papelão, sem conservantes tóxicos, sem agrotóxicos, sem hormônios e antibióticos residuais etc. Ou melhor, uma alimentação livre de produtos animais, agrotóxicos e outros componentes indesejáveis. Mas a postura optada foi de esnobar arrogantemente os veganos e vegetarianos que fazem essa defesa e desqualificá-los chamando-os de “elitistas”;
  • Poderiam começar a ouvir mais os veganos e demais defensores dos animais, sobre como a pecuária, a indústria lacto-frigorífica e granjeira e o setor pesqueiro são cruéis e antiéticos, e como a sociedade pode derrubar esses setores em prol de uma produção alimentícia libertária, ética, democrática, socialmente justa, segura para a saúde e o meio ambiente e que deixe os animais em paz. Mas, ao invés, preferiram virar as costas e lhes dedicar uma reacionária e preconceituosa oposição.

 

Que lições esses acontecimentos dão a nós vegans

Solidariedade aos ruralistas?

Colunista de site “de esquerda” pede apoio a Kátia Abreu e solidariedade ao agronegócio: tá de brincadeira, né?

A repercussão no mínimo curiosa da Operação Carne Fraca na esquerda tem muito a nos ensinar:

  • Se a pessoa não sabe ou não quer interseccionar o veganismo e os Direitos Animais com as lutas humanas, ou vice-versa, ela será sempre incoerente em suas posições políticas, seja como especista de esquerda, seja como vegan de direita, e correrá um risco elevado de, em determinadas situações, violar os princípios éticos que diz defender;
  • O questionamento de privilégios, crenças morais e tradições incomoda energicamente, como uma pedra de gelo dentro do sapato, tanto gente de direita quanto de esquerda;
  • Aquela pessoa que você sempre viu como exemplarmente de esquerda e defensora da igualdade pode se tornar surpreendentemente direitista e defensora da desigualdade moral quando você for falar de veganismo X exploração animal com ela;
  • Diante do veganismo, antiveganos de direita e de esquerda são igualmente vitimistas, preconceituosos e hostis;
  • Os mesmos que tanto criticam a direita, e execram a centro-esquerda que se aliava a ela em nome da “governabilidade”, não perdem tempo em se aparceirar com a mesma direita quando o assunto da ameaça corrente ao status quo é a produção e consumo de carne e outros alimentos de origem animal. Não é à toa que essa parcela da esquerda tem se unido e feito coro com a bancada ruralista e o tão odiado Governo Temer na defesa do agronegócio e da indústria frigorífica e na desmoralização da Operação Carne Fraca;
  • Nosso trabalho de conscientização vegano-animalista precisa, sobretudo, de muita paciência. Continuemos divulgando nossos conteúdos pró-veganos. Mesmo que ninguém venha nos procurar imediatamente, estamos pouco a pouco erodindo a resistência psicológica de muitos e deixando-os cada vez mais impelidos a refletir se vale mesmo a pena continuar consumindo produtos animais numa época de expansão do veganismo;
  • Cedo ou tarde, percebemos que conscientizar as pessoas, mesmo em locais onde se esperava encontrar muitas pessoas éticas, questionadoras e sonhadoras, é mais trabalhoso do que se acreditava. Mas, apesar de toda a dificuldade e os desdéns e tentativas de atrapalhação por parte dos antiveganos, esse trabalho vale muito a pena;
  • A reação reacionária de parte da esquerda não quer dizer, apesar de tudo, que seja mais difícil conscientizar pessoas de esquerda do que de direita;
  • No meio de tanta gente que opta pelo caminho do conservadorismo especista, tem aquelas pessoas que, mesmo que tenham hoje um pé atrás com o modo de vida vegano, estão pouco a pouco acumulando conhecimento, sentindo-se desconfortáveis com suas velhas crenças sobre os animais e sua exploração e tendendo a migrar, a qualquer momento, da relutância à simpatia e curiosidade pela nossa causa;
  • Precisamos continuar com obstinada paciência, além de ter determinação, atitude pedagógica e diplomacia, para conquistar a sonhada futura aliança com os movimentos sociais e as correntes políticas progressistas, por mais que pessoas desse meio resistam. Uma evidência disso é que, depois de todos esses anos, enfim a página Anarcomiguxos manifestou apoio explícito à causa vegano-abolicionista e compartilhou conteúdo declaradamente pró-vegano, o que era pouco provável de acontecer até pouco tempo atrás.

 

Considerações finais

Meme Especista de Esquerda 22

Aproveitemos as lições, algumas mais duras, outras menos, da reação que muitos da esquerda têm empreendido à Operação Carne Fraca e à conscientização vegana, a qual aproveitou essa oportunidade de escancarar mais dos podres, literais ou metafóricos, da produção e consumo de alimentos de origem animal.

Das dificuldades e obstáculos, tiremos bons aprendizados para nos tornarmos cada vez mais fortes e sabermos melhor para quem e como precisamos falar de veganismo e Direitos Animais.

Ainda vamos ver muitas cenas esquisitas como a campanha conservadora de muitas pessoas “de esquerda” em defesa do capitalismo pecuário e frigorífico e consentindo suas perniciosas consequências para a vida humana e não humana. Mas não desanimemos por isso.

Pelo contrário, usemos isso para, de alguma maneira, mostrar o quão absurdo, em termos éticos e lógicos, é alguém defender a libertação humana de dia e a manutenção da exploração animal – e de seus efeitos destruidores na dignidade e vida dos próprios seres humanos – de noite.

 

A reação dessa parcela da esquerda brasileira à Operação Carne Fraca também deixou você sem acreditar no que viu? Comente logo abaixo o que achou disso.

Deseja mostrar para outras pessoas, inclusive aquelas de esquerda que não são veganas, o quanto a mais progressista esquerda pode se tornar tão reacionária e pró-opressão em temas como os Direitos Animais? Compartilhe este artigo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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One Comment on “Uma reflexão sobre a surpreendente reação de parte da esquerda brasileira à Operação Carne Fraca

  1. Sou de esquerda e sou obrigado a concordar.
    Seguimentos também podres da esquerda que não conseguem relacionar o neurônio tico com o teco estão apoiando pecuaristas.
    Pecuaristas que sempre tiveram financiamento do governo e que apoiaram o golpe dando um pé na bunda da Dilma.
    Matadores de índios, MST, quilombolas e de animais. Do trabalho escravo, da grilagem de terra, da “cultura” dos rodeios e vaquejadas. Golpistas do agronegócio. Os envenenadores de alimentos, das monoculturas de soja, milho (exportação para ração de animais de abate), queimadores e devastadores de florestas para pasto, poluidores do meio ambiente … Acobertados pela palavra “economia”, por chantagem de dinheiro a deputados e a mídia, eles estão certos? Pedala esquerda e pedala direita.
    Quando a pauta é direito dos animais todos os partidos são reaças.

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