Uma reflexão sobre a diferença entre ser realmente vegano, por ética, e ser apenas adepto do consumo vegano

Essa imagem, do vegano como pessoa intrinsecamente mais pura do que os não veganos, não faz tanto sentido quanto se acredita

Essa imagem, do vegano como pessoa intrinsecamente mais pura do que os não veganos, não faz tanto sentido quanto se acredita

Editado em 16/05/2017 às 09h46

Veganos sendo antiéticos – você já deve tê-los visto com certa frequência por aí.

Gente que prefere tratar com hostilidade e intolerância quem quer apenas aprender mais sobre o veganismo e os Direitos Animais.

Que dedica ódio e violência verbal a quem problematiza incoerências que atrapalham o progresso da luta pela libertação animal.

Que é grosseira e autoritária com quem queria apenas trocar uma ideia e tratar gargalos das teses de teóricos animalistas famosos.

Pessoas que, no mesmo dia, fazem panfletagem em defesa do veganismo e vão para a internet vociferar machismo, heterossexismo, xenofobia, intolerância religiosa, gordofobia e outros ódios.

Adeptos de um empreendedorismo “vegano” corrupto, de posturas tirânicas e do assédio moral.

É por causa da frequência de momentos assim que convido você para uma reflexão muito importante.

Precisamos pensar sobre os tantos veganos que não estendem sua compaixão e empatia pelos animais não humanos à sua maneira de tratar outros seres humanos. Que são adeptos de um comportamento de ética seletiva que só faz mal à causa que dizem defender. Que são exemplos do que não ser.

Em outras palavras, reflitamos sobre a diferença entre ser vegano e ser um vegano ético.

 

Conscientes e éticos no consumo vegano, mas abusivos e antiéticos nas relações humanas

Grrrr!

Infelizmente o meio vegano, no Brasil e em outros países, está cheio de pessoas malcriadas que não têm noção de civilidade no trato de outras pessoas.

Elas são a prova viva de que, ao contrário do que o senso comum defende, o veganismo, quando adotado isoladamente e como um mero hábito de consumo, não torna as pessoas verdadeiramente mais éticas. Faz elas serem apenas um pouco mais respeitosas com os animais não humanos, e só.

Isso acontece quando o indivíduo acredita que basta apenas assumir o rótulo de vegano para ser automaticamente uma “pessoa melhor”. Ele ignora que, para sermos realmente mais éticos, humanitários e contribuintes para um mundo melhor do que éramos antes, precisamos ser muito mais do que apenas adeptos do modo de vida vegano.

É nisso que dá essa postura: gente que, ao mesmo tempo, é carinhosamente ética pelos animais explorados pelos humanos e completamente estúpida nas relações humanas.

Vejo isso com uma assustadora frequência em grupos sociais como o Veganismo, no Facebook. É comum aparecerem veganos lá, dos mais novatos que creem já saber de tudo até uns que acumulam décadas de veteranidade, sendo gratuitamente grosseiros com quem vem apenas tirar dúvidas sinceras e aprender mais com seus iguais.

É o exemplo de gente autodenominada vegana que, ao lidar com novatos ou protovegetarianos em transição que querem saber se é ético comer ovos da galinha “de estimação” da avó, responde com uma desnecessária boçalidade, como se estivesse rechaçando e botando para correr um troll mal-intencionado.

Esse mau comportamento também é bem comum em debates de temas mais polêmicos dentro do nosso meio. Diversas questões, como a intersecção do veganismo com lutas sociais humanas, o dilema de criminalizar ou conscientizar os adeptos de sacrifícios animais no candomblé e a obrigação moral de vegans respeitarem os Direitos Humanos, não raramente descambam em agressões verbais, inimizades e até ameaças.

Também já presenciei cenas lamentáveis de destrato, inclusive de caráter machista, em eventos presenciais. Lembro, por exemplo, de rodas de conversa em que algumas mulheres, que discordavam de algum argumento usado por alguns homens presentes, tiveram sua fala atropelada e seus contra-argumentos menosprezados. E foram praticamente impedidas de responder de volta.

Homens aliados delas que tinham o mesmo ponto de vista contestador, pelo contrário, puderam falar sem ser incomodados e foram respeitados em sua posição.

A cereja desse bolo – que, por carecer de ética, não é propriamente vegano – é o caso da conduta de intelectuais abolicionistas como Gary Francione. De vez em quando aparecem pessoas relatando que tentaram dialogar ou debater com ele, sobre limitações e pontos polêmicos da teoria dele, e foram tratadas com uma absurda e completamente desnecessária hostilidade e muito autoritarismo.

É como se Francione se sentisse pessoalmente atacado e ofendido toda vez que alguém que não tenha muita fama ou grande prestígio acadêmico questionasse ou problematizasse algum detalhe de suas teses.

Convido você a ler alguns relatos, sobre o nada agradável comportamento dele:

Seria muito bom se a forma dele de tratar outros seres humanos correspondesse à respeitabilidade de sua contribuição histórica para a causa animal mundial. Mas infelizmente ele não é menos truculento e bruto do que um antivegano intolerante que ama bacon e churrasco.

 

Sobre aqueles que, além de mal-educados e rudes com o seu próximo, aderem a discursos de ódio

Charge do comentador de portais de notícias cheio de ódio, de Vitor Teixeira

Acredite: há muitos autorrotulados veganos que agem parecido com isso

Outra faceta do problema que eu abordo aqui é a aderência de muitos desses veganos socialmente tóxicos a discursos de ódio sociopolítico.

Tem sido comum flagrar, dentro ou fora da internet, vegans sem noção de respeito humano:

  • Promovendo cantadas machistas em postagens de mulheres no Facebook;
  • Declarando ódio homofóbico a um intelectual que havia falado mal de vegetarianos;
  • Defendendo a substituição das cobaias não humanas por presidiários humanos em testes cruéis de medicamentos;
  • Aplaudindo abusos de autoridade, de caráter racista e pauperofóbico, promovidos por policiais;
  • Sendo xenófobos contra chineses, espanhóis, sul-asiáticos, muçulmanos do Oriente Médio, nepaleses, refugiados de países como Haiti e Síria etc.;
  • Repudiando os sacrifícios de animais no candomblé por meio de declarações racistas e intolerância religiosa explícita;
  • Reagindo com xingamentos misóginos contra feministas que criticam imagens de “conscientização” que evocam violências sexuais contra mulheres;
  • Sendo aberta e explicitamente machistas e homofóbicos em seus perfis pessoais e páginas sociais;
  • Clamando por golpe militar contra a então presidenta Dilma Rousseff;
  • Defendendo os ditadores do regime civil-militar de 1964-85;
  • Declarando intolerância política explícita e incitação à perseguição contra estudantes universitários de esquerda;
  • entre muitos outros abusos.

São atitudes vindas de quem não entendeu nada sobre os princípios éticos e os objetivos políticos do veganismo e do ativismo pela libertação animal. De gente que viola ambos de maneira integral, apoia ou mesmo causa mal e sofrimento a seres sencientes e, por tabela, atrapalha e atrasa a luta contra o especismo e suas raízes morais.

 

Quando os valores e ações morais pessoais também são foco de violações éticas

Assédio moral é crime. Denuncie

Ocorrem ainda, ocasionalmente, outros flagelos de falta de noção ética no meio vegano-abolicionista.

De vez em quando, acontecem atitudes como:

  • Tentativas de sabotar e intimidar empreendedores veganos concorrentes;
  • Venda de produtos com ingredientes de origem animal por empresas ditas “veganas”;
  • Maltrato de funcionários e assédio moral em empresas e entidades com suposto compromisso com a causa vegana;
  • Despotismo organizacional em grupos ativistas;
  • Uso do veganismo como mera “oportunidade de negócio”, um meio de enriquecer rapidamente, ao invés de um modo de vida de caráter ético e político;
  • Consumo às escondidas de alimentos de origem animal por pessoas que continuam se dizendo “veganas”;
  • Tentativas de flexibilizar o conceito de veganismo de modo a torná-lo tolerante a algumas formas de exploração e matança evitável de animais;
  • Puxadas de tapete de ativistas contra ativistas, por motivos não ligados à integridade da causa vegano-abolicionista.

Infelizmente posturas de desprezo à ética e à honestidade por parte de “vegans” são muito mais comuns do que se acredita. Muitos do nosso meio são tão maldosos quanto antiveganos fanáticos e empresários exploradores de animais.

 

O ideal de ser vegano por ser ético

Ética,o coração do veganismo e dos Direitos Animais

Infelizmente, ao contrário do que muito se acredita, não existe essa de vegans serem essencialmente pessoas “mais próximas da pureza ética” do que não vegans. Muitos de nós são furiosamente desprovidos de caráter, moralidade, respeito ao próximo, compaixão pela maioria dos seres humanos.

Nessa reflexão, espero ter deixado bem evidente que há uma diferença substancial entre ser um indivíduo vegano ético e ser “vegano e nada mais”. Que há pessoas realmente adeptas da ética fundamentadora do veganismo e indivíduos meramente adotantes de um hábito de consumo seletivo – mesmo que estes últimos, não raramente, se descrevam como os “únicos veganos de verdade”.

A mensagem deste artigo é para aquelas pessoas veganas que entendem verdadeiramente a ética vegano-abolicionista e suas implicações.

Que se esforçam, diuturnamente, em aperfeiçoar seu caráter, sua sabedoria, seu aprendizado ético-moral – ou seja, em serem pessoas melhores do que já são.

Que querem, assim como o propósito deste artigo, contribuir para o amadurecimento ético-moral da humanidade e a eliminação do máximo possível de sofrimento do mundo.

Se você é uma delas, dou meus sinceros parabéns e um muito obrigado.

Acredito que você perceba que o veganismo devidamente motivado pela ética é uma postura necessária na busca da retidão ético-moral. Embora seja essencial, não é a única característica a ser assumida na nossa autoedificação.

Precisamos ser muito mais do que só vegans. Além do respeito, compaixão e empatia pelos animais não humanos, precisamos também defender e praticar a justiça, o respeito, a amizade, o amor, o bem-querer e o bem-viver.

Isso requer outras atitudes além da adesão ao modo de vida vegano, como:

  • A defesa ativa, apoio ou respeito aos Direitos Humanos e às lutas pela justiça social;
  • O cuidado ambiental;
  • O bom trato nas relações humanas;
  • O tratamento de todos os seres sencientes (humanos e não humanos) como nossos iguais;
  • A rejeição à ganância e ao “viver pelo ter”;
  • A valorização da solidariedade e da cooperação;
  • O espírito democrático;
  • A comunicação não violenta;
  • Entre outras posturas virtuosas e conscienciosas.

Só sendo pessoas realmente éticas, tendo nosso veganismo motivado por se levar a sério os princípios de justiça, igualdade e bem-viver para todos, é que teremos chances reais de cumprirmos o grande objetivo do vegano-abolicionismo: o fim do especismo e a libertação dos animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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5 Comments on “Uma reflexão sobre a diferença entre ser realmente vegano, por ética, e ser apenas adepto do consumo vegano

  1. Eu tinha pensado apenas em vegano que chifra a namorada, faz fofoca ou dá calote no comércio mesmo.

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