Resenha e análise crítica sobre o livro “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas” e sua teoria do carnismo

Se em algum momento eu recomendei a leitura desse livro, hoje eu recomendo que ele seja lido com ceticismo e senso crítico, já que sua proposta é fraca demais para os Direitos Animais e a abolição da exploração animal

Se em algum momento eu recomendei a leitura desse livro, hoje eu recomendo que ele seja lido com ceticismo e senso crítico, já que sua proposta é fraca demais para os Direitos Animais e a abolição da exploração animal

Atualizado em 24/08/2016 às 09h47

Obs.: Quando falo do carnismo neste texto, falo da abordagem de Melanie Joy. Deixei de fora minha conceituação alternativa.

Pude ler recentemente o livro de Melanie Joy Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vaca: uma introdução ao carnismo. E depois de concluir a leitura, percebi que eu só utilizei o termo “carnismo/carnista” ao longo desses anos e tive esperanças de reciclá-lo conceitualmente porque não havia lido tal obra ainda.

Digo isso porque encontrei uma grande variedade de problemas no livro da psicóloga e socióloga estadunidense, a ponto de ele ser quase uma nulidade para os Direitos Animais e o veganismo.

Vi nesse livro diversas contradições de raciocínio, muito bem-estarismo, a negação de conceitos consagrados nos Direitos Animais e também uma inaceitável tentativa de reduzir a exploração animal para fins de consumo às crueldades explícitas na produção especificamente de carnes de alguns animais.

Ela invisibilizou quase que completamente a exploração animal “humanitária” e os problemas da produção de laticínios, ovos e mel.

 

As contradições e o “vegetarianismo” carnista de Melanie Joy

Joy traz uma definição de vegetarianismo fortemente permissiva à exploração animal, reduzindo-o ao não consumo de carne. Mas mesmo nisso ela entra em contradição: em um momento ela admite que pessoas que não comem carne simplesmente por saúde seriam “vegetarianas”, mas em outro coloca o vegetarianismo como algo essencialmente ideológico, baseado num respeito aos animais que – conforme a própria visão moral de Joy – acaba se revelando contraditório e seletivo.

Ela define o carnismo de maneira muito simples: “o sistema de crenças que nos condiciona a comer certos animais”. Mas ao longo do livro, cai em diversas contradições que acabam por não deixar muito clara sua ideia.

Em primeiro lugar, coloca o carnismo como uma ideologia “invisível”, mas mais adiante mostra que há sim manifestações carnistas explícitas, como as propagandas de fast-food, a pressão familiar na infância e os aconselhamentos prestados por nutricionistas desinformados que não respeitam quem optou por não comer carne – questões essas, aliás, que foram abordadas sem a profundidade desejada. Ou seja, não deixou evidente o que é essa alegada invisibilidade do carnismo.

Aliás, em um momento ela diz que o carnismo é “invisível”, mas em outros evidencia que o que é invisível não é bem a doutrinação ideológica carnista – já que ela revela que o carnismo se manifesta frequentemente como doutrina alimentar conservadora -, mas sim as violências da produção de carne, mantidas ocultas por ela.

Ou então afirma que as pessoas não conseguem perceber que o que dita suas preferências pela continuidade do consumo de carne é uma ideologia, sendo isso o que pode ser a tal invisibilidade do carnismo, o que, porém, não foi deixado muito claro.

Em outras palavras, ela parece não saber definir objetivamente o que seria uma ideologia invisível, deixando para o leitorado o trabalho de tentar interpretar o que é a concepção dela de invisibilidade ideológica.

E falando em ideológica, percebi que Joy também não foi hábil em definir ideologia. Ela a conceitua como “um conjunto compartilhado de crenças [e] as práticas que refletem essas crenças”. Mas não conceitua o que é uma crença.

Nisso ela faz uma abordagem confusa e despolitizante da ideologia e das crenças. Por meio da categorização do carnismo, concluímos que a ideologia vem com crenças que podem ser verdadeiras ou não.

E vemos-na considerar o feminismo e o vegetarianismo como algo tão ideológico quanto o carnismo, ou seja, igualmente como conjuntos de crenças que têm a possibilidade de serem erradas.

Sobre a abordagem de Joy sobre o feminismo, achei muito problemática, mas convém não entrar a fundo sobre isso neste texto. Prefiro deixar que mulheres feministas que tenham lido o livro dela falem sobre os problemas de como ela aborda o feminismo e o patriarcado.

No meio de tantas contradições, a socióloga revela que o carnismo se refere especificamente ao consumo de carne. Mas é possível, por meio de um esforço interpretativo, deduzir que ela própria é uma carnista, ocultadora de uma ideologia violenta e suas implicações para os animais, quando se trata de laticínios, ovos e outros produtos de origem animal.

Isso se dá porque ela dedica menos de quatro páginas, de todo o capítulo referente às violências escondidas pelo carnismo, às crueldades em confinamentos de vacas “leiteiras” e galinhas “poedeiras”. Esconde o fato de que a produção de leite e ovos é ainda mais exploradora, cruel e violenta do que a de carne.

E não expressa uma condenação enfática ao consumo de leite e ovos enquanto alimentos originados de animais tratados como propriedade de seres humanos, tanto que, na nota de rodapé da página 126, ela diz que “é possível conseguir ovos e laticínios sem violência”.

Revela-se, ao mesmo tempo, bem-estarista e carnista de leite e ovos. Mostra-se tolerante ao ato de explorar animais em criações animais de “tratamento humanitário” voltadas à produção desses dois alimentos.

E vale perceber também que ela oculta os problemas éticos das fazendas e granjas bem-estaristas, assim como dos abates “humanitários”. Pelo que ela deixa a entender, haveria menos problema em comer “carne feliz”, com selo de certificação de “bem-estar animal”, do que as carnes vindas de criações intensivas, de confinamento.

E também é digno de menção o material recomendado na seção Recursos, subseção IV. Organizações que promovem o vegetarianismo e o bem-estar de animais de criação (sic). O título chama a atenção, assim como a recomendação dos sites da The Humane Farming Association e a Humane Society dos Estados Unidos, ambas ONGs bem-estaristas.

Vale também notar que Joy recomendou, na subseção V. Leituras e vídeos recomendados, o livro Dominion, de Matthew Scully, que tenta conciliar o conservadorismo estadunidense com o “bem-estar animal”, numa postura de flexibilização e despolitização do que deveria ser a defesa dos animais.

Nisso a própria Melanie Joy, autodenominada pioneira da desconstrução e combate ao carnismo, é uma carnista, por esconder as violações éticas das formas bem-estaristas de exploração de animais “de produção”, aquelas que não são explícita e chocantemente cruéis e também por sua conivência perante a maioria das violências da produção de leite e ovos. Isso sem falar na produção de mel, completamente omitida no livro.

 

O que ela chama de carnismo e jura que “não era nomeado até então” já tinha sim um nome

Diz Joy que a ideologia violenta que tenta justificar e naturalizar o consumo de carne não tinha um nome até ela tomar a atitude de nomeá-lo de “carnismo”. Mas uma leitura atenta mostra que já tinha sim um nome: especismo.

Ela ignorou o fato de que o especismo também se manifesta por meio de selecionar aqueles animais que serão “respeitados” e aqueles que serão sistematicamente explorados e consumidos. A mesma hierarquia que põe o ser humano no topo e todas as demais espécies animais embaixo coloca os animais mais estimados – cães, gatos e animais selvagens carismáticos, nas culturas ocidentais – na segunda camada da pirâmide moral, abaixo dos humanos, e os “consumíveis” e “matáveis” na terceira e última.

Ou seja, o que ela conceitua como carnismo – o sistema de crenças que nos condiciona a comer certos animais – é basicamente um tentáculo do especismo. É aquilo que também faz a maioria das pessoas tomar leite de vaca, cabra e búfala mas não de cadela, gata, chimpanzé fêmea e orca fêmea; comer ovo de galinha e codorna mas não de papagaia, bem-te-vi fêmea e canária; explorar touros e não cães em vaquejadas; usar casacos de peles de martas, chinchilas e raposas mas não de peles de gatos etc.

Acredito que seja sintomático Joy não mencionar o especismo no conteúdo principal de seu livro. Afinal, ela foi especista em diversos aspectos, como seu bem-estarismo, sua pouquíssima atenção à exploração em prol dos laticínios e ovos, seu desconhecimento sobre a apicultura e sua falta de interesse em um mundo sem exploração animal – e, por tabela, na abolição do carnismo e da pecuária e pesca associadas.

Também pude ver como sintoma dessa postura a total ausência de citações ou mesmo menções a teóricos dos Direitos Animais, sejam eles assumidamente abolicionistas, como Gary Francione, ou adeptos de correntes menos avançadas, como Tom Regan e o controverso Peter Singer

Quem recebeu citações, ao invés, foram pessoas e entidades do quilate de Michael Pollan (defensor do consumo de “carne feliz” orgânica e antivegano assumido), PETA e Humane Society (ONGs irmãs no bem-estarismo e na “defesa animal” flexível).

Isso revela o quanto é prejudicial tentar abordar com alguma profundidade a questão animalista sem ter um conhecimento teórico ético-filosófico razoável.

E uma outra manifestação, não menos importante, do especismo no qual peca a abordagem de Joy é argumentar que vacas, galinhas, porcos, peixes etc. devem ser respeitados não só por sofrerem quando submetidos à violência, mas também por serem animais inteligentes, com capacidades avançadas de socialização e cognição.

Ou seja, acaba dizendo que esses animais merecem não ser torturados e mortos simplesmente por causa de uma característica que os deixa um pouco semelhantes aos humanos. É um argumento antropocêntrico que, em última análise, deixa a entender que, por exemplo, seria mais aceitável matar e comer camarões, caracóis e insetos do que consumir carne de animais vertebrados, já que se acredita que os primeiros possuem uma inteligência menos complexa do que os últimos. E acaba deixando margem a legitimar discriminações:

  • capacitistas, por deixar a entender que seres humanos com completo domínio sobre suas cognições e capacidade maior de aprender e fixar novos conhecimentos seriam mais dignos de compaixão e consideração moral do que pessoas com alguma deficiência intelectual ou dificuldade crônica de aprendizado;
  • etaristas, por deixar parecer que os adultos, por terem um domínio e controle maior de suas emoções e expressá-las com mais complexidade, seriam mais moralmente dignos do que crianças;
  • e elitistas, por transparecer que pessoas que se tornaram mais inteligentes e detentores de conhecimentos e habilidades graças a estudos acadêmicos e autodidáticos – muitas vezes por terem tido tempo e dinheiro para investir nisso – seriam mais respeitáveis do que quem não teve o privilégio de estudar na universidade ou fazer cursos profissionalizantes avançados.

 

Testemunho individual como a grande solução para a exploração animal?

Outro problema da teoria do carnismo de Melanie Joy é a falta de propostas fortes para que a ideologia carnista e os interessados nela sejam derrubados mediante atuação política coletiva.

Ela se restringe a argumentar que a solução maior seria de cunho individual: o “testemunho”, no sentido de se deixar saber das crueldades contra animais na indústria da carne e tomar alguma postura também individual, como financiar grupos de “defesa animal” (que na verdade se tratam de grupos nem sempre pró-veganos e muitas vezes bem-estaristas), divulgar esse testemunho a outras pessoas e eliminar ou reduzir (sic) o consumo de alimentos de origem animal.

Nisso é perceptível que Joy não considera a luta contra o carnismo e o sistema carnista algo tão político e profundo assim, a ponto de mobilizar movimentos sociais e coletividades unidas e motivar a defesa radical e enérgica da abolição da exploração animal.

Parece ser algo de cunho mais individual, vide a providência do testemunho pessoal, e, quando implica associação em grupos, se dirige a meramente combater as consequências mais escandalosas do especismo – o qual, como foi dito anteriormente, ela parece conhecer muito pouco.

Talvez ela acredite que a pecuária “de corte” e a indústria frigorífica irão morrer de inanição depois que o número de pessoas despertas da “matriz carnista” se torne o suficiente para comprometer os lucros desse setor e inviabilizá-lo economicamente. Mas ela não fala isso explicitamente.

E não considera que mesmo essa crença, levando em conta a linha de raciocínio do livro, é falha, já que a pecuária e os frigoríficos poderiam se adaptar às pressões dos bem-estaristas, reformar suas “linhas de produção”, dar condições de trabalho melhores aos seus funcionários e investir em laticínios e ovos “produzidos” em criações sem gaiolas ou baias, assim mantendo ou mesmo aumentando seus lucros e mostrando que não seria preciso abolir a pecuária para se “respeitar os animais”.

A conscientização é inegavelmente importante, e disso a maioria dos veganos – não incluindo os misantropos que declaram ódio a quem ainda não superou o especismo – sabe muito bem.

Mas Joy a promove muito incompletamente, focando-se nas crueldades combatidas pelo bem-estarismo na produção especificamente de carne (tendo dado atenção de menos à produção de leite e ovos e omitido totalmente a de mel) e falando muito pouco, sem profundidade suficiente, do tratamento de animais como coisas pelo Estado e pela sociedade.

E falando em pouca profundidade, foi notável o fato de ela, na época da produção do livro, considerar o veganismo algo praticamente de outro mundo. Ela menciona os vegans apenas duas vezes (exceto na seção do guia para discussão em grupo), como “vegetarianos ‘puros’ que não consomem nenhum produto animal”.

Essa é uma definição muito rasa e leiga que mostra que ela não cogita o combate à raiz moral do próprio sistema carnista – o especismo, aquilo que o veganismo e os Direitos Animais visam enfrentar cara a cara -, nem o desencorajamento enfático do consumo de laticínios, ovos e mel.

Apenas no guia para discussão em grupo do livro ela mencionou questões esquecidas ou subestimadas ao longo de sua obra, como o especismo, os problemas éticos do “ovolactovegetarianismo” e a aplicação do carnismo a fazendas e granjas bem-estaristas

Isso deixou muito evidente que o livro de Joy pecou pela incompletude e trouxe uma teoria do carnismo cheia de lacunas e pouco aprofundada, que no final das contas foi deixado para o leitorado preencher com estudos próprios.

Os problemas do livro deixam claro que Melanie Joy precisará escrever um segundo livro sobre o carnismo, de modo a:

  • tentar aprofundá-lo;
  • estendê-lo ao consumo de todos os demais produtos de origem animal, inclusos os não alimentícios;
  • substituir sua essência bem-estarista por uma inspiração vegana abolicionista e antiespecista;
  • reconhecer a ligação entre o seu conceito de carnismo e o especismo;
  • fazer ligações entre sua teoria de carnismo e alguma teoria de Direitos Animais;
  • e defender enfaticamente, por meios de ativismo sociopolítico, a demolição do sistema carnista (e especista) que ela tanto afirma denunciar.

Por que amamos cachorros… acaba sendo uma obra que pode a princípio convencer aquela pessoa onívora a abandonar o consumo de carne por motivos de misericórdia e compaixão, mas será considerada ultrapassada tão logo o indivíduo conheça o veganismo e os Direitos Animais propriamente ditos.

 

Como ficará o uso dos termos “carnismo” e “carnistas” no Veganagente e outros locais

Confesso que, por todos esses anos, tentei reciclar os termos “carnismo” e “carnista” porque não havia lido o livro. Havia conhecido a tal teoria do carnismo de Melanie Joy por meios indiretos e superficiais. Agora que o li completamente, percebo por que tantas pessoas discordam do uso, mesmo com um conceito alternativo mais radical, dessas palavras.

Os termos ficaram demasiadamente marcados pelo bem-estarismo, pelo foco exclusivo na carne e pelas confusões e contradições em sua caracterização.

Mesmo que eu tivesse tentado lhes dar uma nova roupagem – politizada e explicitada como ideologia reacionária de direita, casada com o especismo, observada sob as lentes do abolicionismo -, essas palavras estão viciadas, ou melhor, já nasceram condenadas ao atrelamento ao bem-estarismo carnocêntrico e aos demais equívocos éticos do livro de Joy.

Por isso eu substituí o meu uso alternativo de “carnismo” e “carnista” pelo termo antiveganismo, que se refere tanto à oposição declarada ao veganismo como à defesa do consumo de produtos de origem animal e à distorção proposital do conceito de veganismo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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