Resposta ao posicionamento antivegano de Anderson França

comentário antivegano de Anderson França

Essa é a atitude dele perante quem tenta conscientizá-lo sobre a importância do veganismo e de sua deselitização

Ao longo deste ano, o ativista social e escritor Anderson França tem feito, em sua página no Facebook, diversas colocações no mínimo controversas sobre o veganismo e sua suposta qualidade de “privilégio de branco de classe média”.

Em março – nos dias seguintes à deflagração da Operação Carne Fraca pela Polícia Federal – e no final de julho de 2017, ele se posicionou praticamente contra o veganismo, mostrando-se incomodado com o alcance e volume que a voz dos veganos tem ganhado nos últimos tempos. Em seus posicionamentos, houve vários argumentos bastante preconceituosos, falaciosos e também estereotipadores do modo de vida vegano e dos seus adeptos.

Por conta disso, ele recebeu muitas críticas – às quais simplesmente não deu ouvidos, quando não as apagou sumariamente. Nesse contexto, tem sido fortemente necessário um esforço de conscientização e formação de opinião que rebata o preconceito antivegano de França.

Por isso, trago aqui uma resposta às quatro principais postagens da página dele que fazem pouco caso do veganismo, de sua verdadeira natureza sociopolítica e da sua afinidade e ligação com diversos problemas sociais humanos.

Resposta à postagem de 18 de março (dia seguinte à deflagração da Operação Carne Fraca)

Anderson França sobre vegans, 18-03-2017

Trecho inicial de postagem de Anderson França de 18 de março de 2017

Nesse texto, França critica fortemente aqueles veganos que supostamente zombaram dos consumidores de carne comuns com piadas envolvendo “carne com papelão”, e expõe, talvez pela primeira vez, uma parte do que acredita sobre o veganismo.

Posso dizer, com firmeza, que a premissa que fica visível do artigo dele é que “Os veganos em geral são conservadores naturebas de classe média que zombam, sem nenhuma empatia, de pessoas pobres que, por falta de condições de optar por uma alimentação melhor, comem carne de baixa qualidade”. E tenho a satisfação de revelar que é uma comprida falácia do espantalho.

Essa premissa é falsa porque as piadas envolvendo “comer papelão” geralmente não eram dirigidas a pessoas pobres que comem carne ruim, envenenada e deteriorada por imposição da pecuária, da indústria frigorífica e das desigualdades sociais, mas sim aos antiveganos de classe média.

Eram respostas àqueles que, mesmo sabendo da existência do veganismo e da defesa dos Direitos Animais e tendo plenas condições de ler pelo menos o básico sobre essa causa, declaram-lhe hostilidade, zombaria e até ódio, além de promoverem intolerância e preconceito contra vegans, desprezo aos animais não humanos e apoio à agroindústria da exploração animal.

Afinal, enfim havia chegado o esperado dia em que os veganos poderiam “devolver” piadinhas e zombarias como a provocação de que “minha comida caga na sua”, as fanáticas apologias ao bacon e xingamentos como “desnutridos” e “cultuadores de alface”.

Pelo contrário, algo que aconteceu bastante foram esforços de esclarecimento, por muitos dos mesmos que fizeram piadinhas de carne com papelão, para quem ainda não tinha ideia das violações de direitos (humanos e animais) e de leis pela agroindústria de alimentos de origem animal.

Ao contrário do que França deixa a entender em seu texto, havia muita preocupação, muita mesmo, por parte de nós vegans com a saúde de quem estava comendo carne adulterada e estragada.

E nesse contexto, adivinha quem zombou e fez pouco caso da panfletagem vegana, inclusive defendendo o status quo em que pessoas pobres continuam consumindo carne ruim e não tendo acesso à conscientização vegana: os antiveganos “de esquerda”, pessoas que pensam parecido com França sobre o veganismo e os Direitos Animais.

Além disso, ao longo do seu post, ele promove o mais cru preconceito contra os veganos, como se todos nós pertencêssemos a um perfil estereotipado que englobaria todas essas características:

  • Brancos de classe média-alta ou ricos, moradores de bairros nobres como os da zona sul do Rio de Janeiro;
  • Conservadores, neoliberais e alienados;
  • Insensíveis às necessidades e privações dos mais pobres e das minorias políticas em geral;
  • Naturebas gourmet, consumidores assíduos de pratos caros e vegetais orgânicos colhidos em permacultura;
  • Buscadores da longevidade e da iluminação espiritual não cristã;
  • Adeptos da Nova Era e de religiões orientais;
  • Gente cuja única “preocupação social” é uma pena desprezante de quem passa necessidades.

Quem realmente conhece os veganos pode perceber, mesmo de longe, que a crítica de França a esse perfil espantalhoso de vegans é puro preconceito. Um preconceito proferido, curiosamente, por alguém que se revolta com os estereótipos racistas e elitistas que a classe média branca brasileira faz dos negros da periferia do Rio.

É assim que França trata como um ninguém toda uma crescente categoria de pessoas que, assim como ele, têm orgulho de ser da periferia, são de minorias políticas, atuam em movimentos sociais e lutam contra as injustiças e violências que vitimam a maioria dos seres humanos. Pessoas cuja única diferença em relação a ele é a posição ética sobre os animais não humanos.

Ele ignora totalmente a existência dos veganos interseccionais, que dominam a arte de defender simultaneamente os seres humanos e os animais não humanos e reconhecem que o especismo é casado com todas as opressões que fustigam as minorias políticas humanas.

Pois foi em resposta a isso que centenas de veganos têm protestado no Facebook contra discursos antiveganos desse tipo, comumente revestidos com “cosplay de pobre”.

Nos indigna essa atitude que, apesar de apelar para as privações de quem não tem a plena capacidade econômica de escolher o que comer, acaba sendo utilizada apenas para “justificar” falaciosamente o não veganismo de quem já tem acesso ao conhecimento sobre o modo de vida vegano e os Direitos Animais.

Também percebemos que ela acaba contribuindo para manter intactas, jamais combater, as diversas crueldades da pecuária e da indústria lacto-frigorífica contra humanos e não humanos, entre elas manter animais “de consumo” e trabalhadores humanos na miséria da privação de direitos básicos.

Uma das respostas a esse antiveganismo de França foi o fantástico – e muito bem repercutido – artigo da ativista feminista negra vegana Thallita Flor, moradora da periferia de Niterói, intitulado Como é ser vegana e favelada. Ela quebra o véu de invisibilidade que França joga sobre os veganos interseccionais e periféricos.

E mostra que, apesar de o veganismo ainda tender a ser elitista pela informação sobre os Direitos Animais hoje praticamente não chegar nas periferias pobres e pela maneira gourmetizada com que ele costuma ser divulgado, ele de maneira nenhuma é um modo de vida restrito a quem tem dinheiro e inadaptável para quem tem baixa renda.

 

Resposta à postagem de 19 de março (ainda na repercussão da reação vegana à Operação Carne Fraca)

Anderson França sobre veganismo, 19-03-2017

Trecho do post de França de 19 de março sobre veganismo

O texto de 19 de março, que ele introduz relatando uma vez em que ele presenciou muitas pessoas comprando alcatra numa promoção de carnes, é uma amostra de como é possível um artigo, ao mesmo tempo, manifestar toda uma (aparente) solidariedade a pessoas pobres e oprimidas e ser conservador e esnobe perante um movimento que se propõe a questionar e quebrar as hierarquias sociais e morais.

Nesse contexto, quando ele escreve:

“Vocês, desses grupos, pensam o mundo, nesse assunto, a partir das suas visões como veganos. Eu, e outras pessoas, não sei se todas, não sei se muitas ou poucas, penso o mundo a partir do LUGAR e do CONTEXTO SOCIAL, POLÍTICO, ECONÔMICO e, em termos prioritários, raciais, onde me encontro.
[…]
O problema é a carne?
Vejo poucos veganos assumindo uma verdade: eles comem veneno também. Vendo poucos veganos compreendendo que a minha opção por vidas de jovens negros mortos diariamente na Zona Norte, como posicionamento público, é uma bandeira prioritária, a frente de vida de animais. E isso dói muito neles, mas se eles acompanhassem as ações de ativistas no Alemão, na Cidade de Deus, coletivos na Maré, movimentos contra desocupações, contra intolerância religiosa e racial, eles veriam que é uma possibilidade válida compreender o mundo a partir do LUGAR onde se vive.”

Está dando um atestado de que não conhece o veganismo em sua essência. Que tudo o que ouviu falar e acha que conhece sobre esse modo de vida veio da desinformação da mídia – que tem o triste costume de rebaixá-lo a um mero “estilo de vida natureba de gente endinheirada”.

Também exibe aqui um certificado de total desconhecimento sobre o veganismo interseccional, que, assim como ele mesmo afirma fazer, busca compreender o mundo a partir dos contextos sociais, econômicos, políticos e geográficos em que estão as pessoas que precisam ser conscientizadas e os veganos que precisam de plenas condições socioeconômicas para permanecerem veganos.

Reduz toda a razão do veganismo a meras crenças subjetivas análogas a uma religião – referidas por ele como “suas visões como veganos” – e coloca a posição antivegana dele como “superior” por ser supostamente baseada em contextos sociais enquanto a dos veganos “não é”.

Em relação a nós “come[rmos] veneno também”, todos nós já sabemos que a grande maioria do que comemos contém resquício de agrotóxicos e/ou aditivos químicos de efeitos duvidosos na saúde humana.

Mas sabemos também que o veganismo não é motivado por preocupação com a saúde e, mesmo assim, ingerimos menos substâncias tóxicas do que quem se posiciona contra nossa posição ética e modo de vida. Porque nos livramos de ingerir os antibióticos, hormônios, pus, tecido celular em deterioração e outros contaminantes que costumam vir impregnados nos alimentos de origem animal.

Outro trecho que me chama a atenção pela ignorância do autor sobre o que o veganismo defende é esse:

“O problema nunca foi a carne.
Eu fui vegetariano por 3 anos. Rejeitei carne. Era por motivos religiosos, quando eu estava na igreja adventista. Era muito difícil. E as motivações eram associadas a saúde.
O sistema está desenhado para que as pessoas comam carne.
Brigar comigo, ou gritar em comentário, surte o mesmo efeito que a polícia entrando no morro pra acabar com o tráfico, diz aí, Beltrame:
Nenhum.
A luta, real, é de DESMONTE de um sistema ESTRUTURAL, inteiro, complexo, global, do segmento agropecuário, que maltrata os animais que chegam nas mesas das pessoas, mesmo considerando que:
1.O capitalismo vai ser o primeiro a propor “carne com tratamento humanizado em fazendas onde os tratadores fazem massagem com óleo Séve da Natura no boi”;
2.As pessoas ainda continuarão comendo carne, no futuro. Lide com isso. O que no máximo, se todas as lutas vingarem, vai acontecer, é o fim da corrida industrial pela produção em massa.
Se não regulamenta entorpecentes, continua enxugando gelo.
S não extingue a bancada do boi, não ocorrem mudanças globais de ruptura com esse modelo econômico ABSURDAMENTE opressor, é enxugar gelo.”

Ao contrário do que ele acredita, o veganismo tem a característica essencial de desmontar o sistema estrutural alicerçado em desigualdades, já que se empenha em quebrar os pilares morais que sustentam o especismo, os mesmos também usados pelas sociedades de hoje para “justificar” pragas como o machismo, o racismo, a LGBTfobia, o elitismo, o capacitismo etc.

Além disso, ele diz se preocupar com o momento em que o capitalismo vai propor o bem-estarismo. Ele já faz isso, há décadas, e também temos a preocupação diuturna de desmascarar a “defesa animal” que promove crenças e políticas bem-estaristas.

Em seguida, o item número 2 desse trecho chama a atenção pelo seu caráter gritantemente conservador. Ele diz que “as pessoas continuarão comendo carne no futuro, [então] lide com isso”.

Não percebe que essa mesma linha de raciocínio é utilizada pela direita para afirmar que “as desigualdades e violências entre os seres humanos continuarão para sempre, pois são da natureza humana, então lide com isso”.

Faz assim um gol contra em termos de posicionamento político-ideológico, ao legitimar o discurso dos conservadores a quem ele tanto diz se opor. Aliás, ele mesmo se assume um conservador, ou mesmo reacionário, em se tratando de Direitos Animais X especismo.

Mais adiante, outro trecho que precisa ser respondido é:

“Quem pode CONHECER sobre veganismo e OPTAR por isso, quem tem ESCOLHAS, É PRIVILEGIADO.
E pare de achar que o mundo PODE, SE QUISER, com um estalar de dedos, ser melhor. E poderíamos cantar aquela canção.
Porque não.
Fucô
[o filósofo francês Michel Foucault] disse isso. O Almeida G. Vitor, escritor suburbano, me lembrou hoje cedo. O sistema mesmo vai criar inúmeras variantes dentro do próprio sistema, fazendo com quem, aplicando o conceito, opta comer vegetal, se sinta redimido, ou livre, dos males que retroalimenta no sistema. Não adianta ser vegano e andar de carro. Não adianta ser vegano e não separar o lixo. Caras, a lista é ENORME. Uso de cosméticos, uso de roupas, tudo, tudo, no sistema, tem mão de obra escrava, química nociva, impacto ambiental severo.”

Em primeiro lugar, milhares de vegans no Brasil e em outros países estão lutando, todos os dias, para que o acesso ao conhecimento sobre o veganismo e sobre como adaptá-lo para um orçamento baixo seja universalizado.

Ou seja, fazemos um esforço enorme para que o modo de vida vegano se dissemine em todas as classes e deixe de ter barreiras sociais, e França não reconhece esse trabalho, mesmo depois de dezenas ou centenas de comentários recomendando-lhe conhecer os veganos da periferia carioca.

Em segundo, ele descontextualiza a frase de Gary Francione “O mundo é vegano, se você quiser”, como se ela determinasse que a veganização do mundo dependeria apenas de uma vontade mágica ao melhor estilo “lei da atração”.

Ela se refere, na verdade, a quem já conhece os Direitos Animais, depositando fé no trabalho político, social e intelectual – ou seja, coletivo – dos já veganos. E já há críticas veganas à interpretação literal que alguns veganos liberais fazem dessa frase.

E em terceiro, ele usa uma falácia de exigência de perfeição, dizendo que “não adianta ser vegano” se não abrir mão também de outros hábitos de pegada ecológica grande. Tanto desconhece os grandes poderes do modo de vida vegano de combater as atividades de pior impacto ambiental no mundo – a pecuária e a pesca – como usa a falsa dicotomia de que, ou se pratica uma vida 100% sustentável, ou não se faz absolutamente nada pelos animais e pelo meio ambiente.

Mais adiante, ele profere:

“Sempre me pergunto, quando vou ao Leblon e vejo um branco, magro, bonito, vegano, yoga: quantos pretos e pobres por trás dele, para mantê-lo nessa redoma.
Essa é a hora de discutirmos classe e sistema. E não pitaya e maminha.
O mercado não pode ser sacralizado. Novos partidos e jovens liberais que pretendem fazer isso, trabalham pela perpetuação do sistema. O socialismo é uma resposta incrível para esses tempos, mas ele precisa se reconectar com os que estão fora da academia. E fazer isso urgentemente. Porque enquanto a esquerda disputa lugar de fala, a direita fala em todos os lugares.”

Ele parte da falsa pressuposição de que todo vegano, ou quase todo, corresponde a esse padrão estereotipado e ainda por cima é também economicamente liberal e pró-capitalista. Comete o grave erro de invisibilizar os veganos anticapitalistas, que consideram que os pilares morais que sustentam o especismo são os mesmos que seguram a ordem capitalista, e também todos aqueles veganos negros, de fora do padrão de beleza e/ou pobres.

A seguir, mais um trecho revela o quanto ele desconhece a natureza política do veganismo:

“E sim, existem movimentos veganistas nas regiões populares. Mas não. Não são significativos a ponto de impactar a alimentação de um bairro inteiro. Precisam ser apoiados, sim. Mas a luta é outra.
Quem pode escolher o que comer, está em condição de privilégio.
Se você é branco, é negro, é gay, é mulher e pode fazer isso, você está com mais privilégios que MILHÕES de pessoas. Não é sobre conhecer apenas. É sobre conseguir manter, escolher, e viver isso.
Você precisa considerar os outros. Mães que trabalham e tem filhos, mães solteiras. Caras: há muitas vertentes. Não digam que “porque sou pobre e sou vegano” que as pessoas suas vizinhas vão entender – eu disse: ENTENDER e, entendendo, vão conseguir escolher isso, e se manter. Não sejam a exceção mala. Se percebam no Brasil. E veneno não sai com água. E ninguém fiscaliza. Please.
É meritocracia. Meritocracia alimentar.
O problema, amigo, é o sistema.
O problema é o sistema.
O sistema que facilita esse nível de produção de carne. Que impede alimentação humanizada, que oprime pequenos produtores. Um sistema que emprega Bolsonaro, num Congresso comprado, num Estado comprado. Petróleo, carne, álcool, arma, moda. Grandes setores, para os quais o Estado trabalha. O mercado não pode ser deixado por sua conta e risco. Porque o mercado não ética. O capitalismo não tem ética. Eles socam podre na sua boca. Eles preferem vender arma que regular entorpecente. Eles preferem vender medicamentos baratos que incentivar alimentação que combata a diabetes.”

Ele pela primeira vez admite a existência de vegans nas periferias pobres, mas logo em seguida os esnoba, chamando o seu esforço de difusão local do veganismo de “insignificante”. E coloca mulheres negras pobres veganas quase no mesmo saco de privilegiados em que estão os homens brancos de classe média.

Além disso, ele tanto discursa que a opção de escolher o que comer é um “privilégio”, mas não fala um piu sobre a necessidade de esse “privilégio” ser derrubado e convertido em algo universalmente acessível. Parece que ele não se importa que a maioria das pessoas pobres continue privada da conscientização sobre o veganismo e os Direitos Animais.

É um discurso que, por fora, aparenta ser um petardo contra as desigualdades e injustiças sociais, mas por dentro é voltado a expressar uma aceitação e concordância de que essa ordem permaneça existindo. Afinal, tudo o que o autor faz em relação ao “privilégio vegano” é discursar o quanto isso seria uma realidade “insuperável” e que ele não liga em vê-lo continuar ao alcance de poucos.

E curiosamente cita uma ordem que a atuação política dos vegano-abolicionistas já combate: “O sistema que facilita esse nível de produção de carne. Que impede alimentação humanizada, que oprime pequenos produtores.” Ele fala como se os veganos não dessem a mínima para as atrocidades que a pecuária e a indústria frigorífica cometem contra os próprios seres humanos.

No final, ele clama:

“E: incluam as pautas raciais nisso. Branquitude, ao terem suas grandes ideias sobre o mundo, e ao desfrutar das grandes descobertas sobre a lichia, pensem qual é o lugar do negro nisso. E depois, o nordestino, o pobre. E não um lugar secundário. Um lugar como o teu. Senão, voltamos à estaca zero.”

Reduz o universo de vegans a um conjunto de brancos sudestinos de classe média. Faz justamente aquilo que seu discurso aparenta repudiar: apagar a significância da atuação política de pessoas negras, pobres e nordestinas nas lutas éticas e políticas – nesse caso a atuação vegano-animalista – e silenciar as frequentes discussões sobre racismo, elitismo, intolerância religiosa e xenofobia no meio vegano.

 

Resposta à postagem de 29 de julho

Anderson França: veganismo é privilégio

Postagem de França de 29/07 que diz que “veganismo é privilégio”

Essa curta postagem afirma:

“Eu venho de um lugar em que é preciso ter fé. Ateísmo é privilégio.
Eu venho de um lugar em que se come o que tem. Veganismo é privilégio.
Eu venho de um lugar onde o grito é o que se ouve. Meditação é privilégio.
Eu venho de um lugar onde o corpo morre na moenda do sistema. Yoga é privilégio.
Não me odeiem por isso. Reflitam num mundo onde todos possam ter os mesmos privilégios.”

Foi recebida no meio vegano como mais uma provocação de França aos veganos. Não podia ser mais justificável a recepção negativa à declaração dele.

Afinal, ele diz que “veganismo é privilégio”, mas não sugere nada para que deixe de ser. E no contexto dos seus posicionamentos sobre a causa, fica claro seu completo desinteresse pela difusão do modo de vida vegano nas periferias pobres e pela adoção de sistemas de solidariedade que dessem aos mais pobres amplo acesso ao consumo de vegetais baratos e os fizesse deixar de depender do consumo de alimentos de baixa qualidade.

Além disso, se formos nos deixar levar pela lógica dele, ser de esquerda no mundo de hoje também é um “privilégio” e, assim, não faria sentido defender posições progressistas e o “certo” seria ser de direita, seguidor dos pastores conservadores e dos formadores de opinião neoliberais.

Afinal, ser um esquerdista com amplo conhecimento intelectual do que reivindica demanda estudos aos quais só uma parcela restrita da sociedade hoje tem acesso – como livros e sites de Sociologia, Política, História, Filosofia e Economia -, além de um tempo livre indisponível para quem trabalha o dia todo, passa três ou quatro horas por dia no trânsito e ainda tem que arcar com as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos ao chegar em casa.

No mais, ao contrário do que ele argumenta, nós veganos somos imensamente interessados em derrubar as barreiras sociais que impedem ou limitam o acesso da maioria da população à informação sobre a causa vegano-animalista e o nosso modo de vida. Não ficamos relegados a nos queixar do quanto é difícil pessoas pobres serem veganas – nós facilitamos essa adesão das maneiras que nos são possíveis.

 

Resposta à postagem de 31 de julho

Anderson França sobre veganismo, 31-07-2017

Trecho de postagem de França de 31/07 sobre veganismo

Nesse texto, ele diz, em outras palavras, que “não é possível” lutar ao mesmo tempo contra o racismo e o especismo, e que se preocupar com as opressões nas periferias pobres necessariamente exclui a possibilidade de simultaneamente enfrentar a exploração animal.

Afirma ele:

“Que a História me julgue medíocre. Mas eu penso que este país precisa de um checklist de prioridades, não de primazias, mas de prioridades naquilo que pretende reparar, e na minha visão, como brasileiro, outros brasileiros, pretos e nativos, que fundaram este país, precisam fruir dos mesmos direitos que eu, como fator prioritário, e quando todos estivermos na mesma página, recebendo os mesmos salários, estudando nas mesmas instituições, comendo a mesma comida, vivendo a MESMA vida, então eu aceito falar sobre qualquer outra dor.”

Não percebe, mas lança mão de um discurso moralmente conservador e contrário a direitos muito parecido com o de muitos comunistas homens brancos heterossexuais neurotípicos do século 20, que diziam que seria “melhor” pensar em lutas como a feminista, a negra, a LGBT e a das pessoas neurodiversas e com deficiência só “depois da revolução”.

E a História nos ensinou, por meio de exemplos como os regimes de Stalin na União Soviética e de Fidel Castro em Cuba, que esse pensamento não traz bons frutos.

A revolução não trouxe a reboque a preocupação com outras lutas. Nesses casos, aliás, as desigualdades sociais e morais relativas a raça, gênero, orientação sexual, neurodiversidade e deficiências foram conservadas ou restauradas.

As mulheres permaneceram relegadas ao atributo de cidadãs de segunda classe, houve perseguição a LGBTs, a psiquiatria foi abusivamente utilizada para criminalizar dissidentes políticos, e pessoas com deficiência intelectual foram excluídas.

Da mesma maneira, uma sociedade que liberta as minorias políticas humanas e deixa a exploração animal em último lugar tenderá a conservar, nunca combater, o especismo. Até porque a própria atitude de deixar os animais não humanos por último reflete a força da moralidade especista vigente e o interesse de perpetuar a exploração animal o máximo possível.

E finalmente, considerando as ligações entre o especismo e a moralidade desigualitária entre os seres humanos, tende a haver uma situação em que, mesmo num futuro pós-revolucionário, pessoas empregadas em atividades como o abate de animais, o corte das carcaças, a derrubada de florestas para expandir pastos (de propriedade coletiva ou estatal) e a manutenção de granjas industriais permanecerão numa situação socioeconômica e de saúde mais degradada do que quem trabalha, por exemplo, nas indústrias de alta tecnologia.

Avanço esta quarta resposta me dirigindo ao trecho em que ele cita os veganos:

“Os veganos ficaram muito descontrolados com o texto em que digo que “de onde eu venho”, veganismo, ateísmo, e outros ismos são privilégios. Porque são derivados de escolhas, e escolhas feitas a partir de pensamento crítico, e isso, de onde eu venho, é privilégio.
Todos podem ser veganos. Comerem o que quiserem, isso, do ponto de vista de liberdade individual, pouco me mobiliza. O que considero medonho, é que qualquer bandeira, não apenas a vegana, tente escamotear transgressões históricas, anteriores mesmo do superconsumo de carne no mundo, transgressões que, para as quais, sequer nos encontramos para uma “adesão a empatia”, que Lázaro Ramos convocou, na FLIP, e tenta estabelecer primazia de opressão, como bem lembrou Angela Davis, semana passada.
Não há primazia em opressões, há pontos de vista, e perspectiva.
Mas veganos, e muitos outros privilegiados, precisam ressignificar suas vidas a partir das vidas de outras pessoas, que deixam de ter o direito de ver as coisas de onde elas vem. E isso é um tipo de silenciamento, quando não posso mais observar algo a partir do lugar de onde eu venho. E tornam o outro vilão, para que elas mergulhem em suas aventuras emocionais de heroísmo, sendo jocosas com o sangue derramado nas periferias.”

Ele diz que os veganos reagiram “muito descontrolados” ao post de 29 de julho, ignorando os muitos que comentaram educadamente e apontaram com honestidade os erros do argumento dele.

Em seguida, afirma que “todos podem ser veganos”, contradizendo frontalmente seu discurso de que veganismo é um “privilégio” que seria inacessível a quem tem uma vida sobrevivencialista nas periferias.

E discursa que o veganismo é uma das bandeiras que “escamoteiam transgressões históricas, anteriores mesmo do superconsumo de carne no mundo”, com direito a mencionar Angela Davis.

Desconhece que tanto o veganismo interseccional considera sim as diversas dominações e exclusões morais históricas de seres humanos quanto Angela, para o horror dele, é vegana interseccional e contra excluir moralmente os animais não humanos num contexto de luta urgente pela emancipação das minorias políticas humanas.

Também me chama a atenção quando ele acusa os veganos de fazer exatamente o que ele faz:

  • “Ressignificar” o discurso dele a partir do que outras pessoas (os veganos) falam, largando a coerência política e se tornando um conservador de carteirinha em relação aos animais;
  • Promover silenciamento, invisibilizando vegans interseccionais e de minorias políticas e esnobando convites educados a conversas e debates;
  • Tornar o outro “vilão”, fazendo uma estereotipação muito negativa e maliciosa dos veganos;
  • “Mergulhar em sua aventura emocional de heroísmo”, colocando-se como o “herói da periferia contra os veganos burgueses privilegiados histéricos”;
  • Ser jocoso com o sofrimento e o sangue derramado de quem está sendo massacrado – no seu caso, fazendo pouco caso do sangue dos animais não humanos derramado pela exploração animal.

E para fechar as quatro respostas, quero responder a esse trecho próximo do final:

“Todos deveriam buscar restaurar a ordem entre as pessoas, para que possam buscar restaurar a ordem na natureza. Pois a hierarquia negada por muitas pessoas fere a ciência: a espécie humana é a mais evoluída no planeta, em termos cognitivos. E sobre ela recaem maiores responsabilidades. Mas, se o humano não consegue reparar seus crimes com outro humano, como se pensa apto para, esquecendo-se de sua dívida, querer reparar a vida com o resto dos seres viventes?
Checklist e prioridades.
Cada coisa em seu lugar. Cada dia, por vez.
As vidas negras importam.”

Ele promove a mesma separação violenta entre Natureza e sociedade que os pensadores brancos dos séculos passados que moldaram o pensamento ocidental eurocêntrico e colonizador que ele tanto critica, como René Descartes e os iluministas. Incorre no mesmo antropocentrismo, na mesma crença pseudocientífica de que o ser humano é “a espécie mais evoluída, logo superior”.

E comete o grave erro de erguer uma muralha entre a luta pela libertação animal e a pela libertação humana – o mesmíssimo erro cometido pelo espantalho estereotípico de “vegano burguês liberal natureba namastê” no qual ele tenta socar toda a diversidade existente de vegans e que ele tanto critica. Pela enésima vez trata o veganismo interseccional e a luta das veganas e veganos da periferia como um nada.

 

Considerações finais

Antielitista - Dicio.com.br

O discurso de França sobre o “privilégio vegano” é mesmo antielitista, ou é conformista e aceitador desse aspecto elitista do veganismo? Tire suas conclusões

O discurso de Anderson França sobre o veganismo e nós vegans faz parecer que somos uma aberração surgida para piorar a exclusão social e inferiorizar pessoas pobres.

Que o “certo” a se fazer é debochar da luta pelos Direitos Animais, tachar o veganismo como um “eterno privilégio de brancos com dinheiro”, apagar da existência os veganos interseccionais – entre eles as mulheres veganas pobres e negras da periferia – e tratar os protestos de quem acha as colocações dele preconceituosas como “gritaria de brancos privilegiados desequilibrados”.

Mas uma análise cética nos permite perceber que, no final das contas, quem está defendendo a conservação de privilégios, promovendo conservadorismo, vilanizando uma categoria inteira de pessoas e bancando o herói que luta contra quem “não merece respeito” é ele próprio.

Nada esperemos do desfecho da linha de pensamento dele sobre o veganismo fora a perpetuação da exploração animal, a manutenção do desprivilégio da maioria de não poder escolher o que comer nem conhecer a origem do que consome e a manutenção de uma ordem social desigual e injusta.

Ele, como ativista social e escritor e dotado da oportunidade de investir parte do seu tempo escrevendo para um público amplo e estudando sobre as causas pelas quais luta, poderia muito bem ler sobre os Direitos Animais e a necessidade de se difundir o modo de vida vegano. E do alto de seu posicionamento (aparentemente) contrário à existência de privilégios, poderia nos ajudar a derrubar as barreiras elitistas que o veganismo hoje tem, disseminá-lo em sua localidade e tornar o “privilégio vegano” um direito universal.

Fica então essa sugestão: que ele utilize seu talento e tempo disponível não para fazer pouco caso da luta pelos Direitos Animais e ignorar e esnobar a existência quem luta ao mesmo tempo por seres humanos e animais não humanos, mas sim para nos ajudar a unir essas bandeiras e promover um mundo realmente livre de violências, opressões, dominações e hierarquias de privilegiados X despossuídos.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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