Resposta ao texto anti-interseccional “Manifesto pelos animais”

Levar a sério os elos entre a libertação animal e a libertação humana não é nenhuma divagação "pós-moderna", tampouco relativização do especismo

Levar a sério os elos entre a libertação animal e a libertação humana não é nenhuma divagação “pós-moderna”, tampouco relativização do especismo

Editado em 06/01/2016 às 15h23

Inaugurando sua coluna na ANDA, uma autora escreveu um texto que tenta justificar a posição dela contra o veganismo interseccional (identificado nesta resposta com a sigla VI). Lendo-o atentamente, percebo que o artigo não consegue explicar objetivamente por que a interseccionalidade nos Direitos Animais seria algo prejudicial à causa, e ainda cai em graves contradições que fazem os opositores declarados do VI provarem do próprio veneno.

Digo isso, em primeiro lugar, porque ela sequer define o que é o VI, nem o que é a pós-modernidade – a qual, segundo o texto, pauta o pensamento vegano interseccional. E, pelo que fica evidente, ela sequer sabe conceituá-los. Utiliza, ao invés, uma ideia confusa e falaciosa do que seria esse ideário que ela tanto detesta e tenta derrubar pela força bruta da intolerância.

Ela esquece um elemento crucial da arte do debate: sem definir objetivamente aquilo que está sendo criticado, a crítica se torna inacessível ao público leigo que não está a par do debate, fica sujeita a manipulações diversas – as quais abordo mais adiante – e acaba, por meramente “pregar aos convertidos”, nada mais do que agradando a um público-alvo muito restrito, aquele que já tem opinião formada sobre o assunto (mesmo sendo essa opinião mal fundamentada).

 

O que é, afinal de contas, o veganismo interseccional?

Procuro, então, para fins de esclarecer o leitorado, o que realmente é e em que consiste o veganismo interseccional. A saber, me sinto seguro em delinear essa definição por ter um convívio próximo com vegans interseccionais, ter hoje quase três anos de experiência em interseccionar libertação animal com libertação humana em meus textos, ser uma pessoa curiosa e entusiasta do tema e, sobretudo, me identificar com essa corrente. Mas desde já peço que, caso pessoas mais versadas do meio achem que a definição pecou por alguma omissão ou distorção, por favor, me corrijam que farei a devida alteração.

O VI é uma corrente de pensamento no meio vegano-abolicionista que defende que a luta pelos Direitos Animais só se torna realmente eficaz e dotada da possibilidade real de libertar os animais não humanos se não negligenciar as lutas pela libertação humana. Ao contrário do que alguns autores anti-interseccionais tentam fazer parecer, não defende que o abolicionismo animal defenda direta, conceitual e principalmente as minorias políticas humanas “em detrimento” do foco nos animais não humanos. Mas sim que a libertação animal tenha um diálogo e intercâmbio permanente com as causas de libertação humana e o ambientalismo libertário.

É por esse contato que se promove um rico diálogo de saberes que fortalece tanto a luta pelos animais não humanos como os diversos movimentos opositores de opressões humanas e ambientais, mutuamente dando-lhes mais lógica e coerência. O VI reconhece que os Direitos Animais e os emancipacionismos humanos lutam igualmente, especificidades à parte, pela libertação de seres sencientes, interessados individual e socialmente (do âmbito familiar ao da cultura-sociedade inteira) na preservação de sua vida e sua integridade física e psicológica e na conquista da liberdade.

E assim sendo, busca esse intercâmbio com outros movimentos sociais, de modo a fortalecer o sentido dos dois ramos da luta por libertação e lhes dirimir contradições que limitam as chances de haver ora a libertação animal ora a humana. Reconhece também, porém, que esse diálogo inicialmente precisa resolver pacificamente conflitos e discordâncias, como no caso do litígio entre os Direitos Animais e o sacrifício animal em parte das religiões de matriz africana.

Esses “choques”, conforme defende o VI, jamais serão resolvidos pela força repressiva da lei ou de outras formas autoritárias e violentas de imposição moral. Não acreditamos, por exemplo, que a repressão legal, judicial e policial tenha a serventia de influenciar os aderentes do candomblé e da quimbanda a mancomunar com os Orixás o desejo de não haver mais demanda divina por sacrificar animais não humanos em rituais religiosos.

Sabemos também que prisão e multa, desprovidas dos devidos diálogo e provisão de alternativas empregatícias e logísticas (leia-se opções como o “cavalo de lata”), nem de longe são instrumentos suficientes para dissuadir carroceiros pobres de explorarem cavalos, burros e outros animais de quatro patas para tracionarem suas carroças.

Outros conflitos que o VI busca sanar são aqueles causados pela maneira inadequada, recheada de elitismo e falta de recorte de classe, com a qual o próprio veganismo tem sido difundido. Um dos problemas que mais criticamos, ao fazermos nossa abordagem problematizadora, é o foco prioritário, às vezes até exclusivo, dado por muitos divulgadores do veganismo às classes médias e à elite socioeconômica.

Como solução, defendemos – e estamos nos esforçando em promover – campanhas permanentes de conscientização vegano-abolicionista nas periferias, locais que comumente não são alcançados pelas iniciativas tradicionais de divulgação vegana. E o mais importante, com uma pedagogia dialógica que mostre que o veganismo é perfeitamente compatível com a vida das pessoas humildes.

Isso inclui também, por meio da intersecção com movimentos como o feminista, o negro e o LGBT, que pessoas veganas daquele meio (por exemplo, mulheres negras, homossexuais etc.) ajudem as pessoas que estão sendo conscientizadas a se empoderar e se libertar dos obstáculos sociais que eventualmente lhes impedem a veganização, como sofrer imposições machistas ou violências homo-lesbofóbicas em casa.

E por ser um movimento relativamente recente, o VI pode sofrer de vez em quando com discordâncias internas – sobre, por exemplo, como lidar com pessoas que têm preconceito contra a interseccionalidade mas têm um mínimo de abertura ao entendimento –, mas isso é parte do seu processo histórico de amadurecimento. Deve-se ter em mente que, quando se critica o veganismo interseccional como ele é hoje, está-se criticando o seu estado atual de coisas, ou mesmo apenas comportamentos de indivíduos específicos do meio, e não o movimento como um todo e em sua essência.

 

E o que é esse negócio de pós-modernidade?

Assim como não define o veganismo interseccional, o texto em questão também não conceitua a tão mencionada e criticada ideologia pós-moderna. Faço então esse trabalho que não foi feito ali.

Vinicius Siqueira, autor do blog Colunas Tortas, explica conceitualmente a pós-modernidade e sua carga ideológica, tomando como base a explanação do professor Juremir Machado:

“A pós-modernidade é esse desencantamento em relação à ideia de um futuro garantido, certo, promovido pelas leis da história, necessariamente melhor, redentor. Ela [a pós-modernidade] é a construção de um presente possível”.

Nesta palestra, o professor Juremir Machado tenta explicar o conceito de pós-modernidade. O que é pós-modernidade? Pós-modernidade, segundo o professor, pode ser descrita como o momento em que (tomando Lyotard como influência) todas as grandes narrativas entram em crise.

As grandes narrativas são as grandes explicações sobre o mundo, sobre a história, sobre a vida e sobre o futuro, entre as mais influentes: o marxismo, o cristianismo (e as religiões em geral), o iluminismo com o sonho da sociedade racional e etc e etc. Essas narrativas só podem ser chamadas de narrativas na percepção da pós-modernidade, pois para si, elas são o fundamento do mundo, a estrutura última da realidade – a teoria da história marxista não é somente uma narrativa, mas uma tentativa de explicação universal da história, da mesma forma, o projeto iluminista visava a universalização da razão e o cristianismo a universalização de seu próprio Deus.

Desta forma, segundo Juremir Machado, o núcleo da pós-modernidade (em resumo) é a negação de qualquer fundação. Não há um “real realmente real”, mas unicamente narrativas que estruturam a realidade. Sendo assim, toda e qualquer visão de mundo, quando tenta ser verdade, se coloca em uma posição totalitária em relação àqueles que estão sendo sujeitados por ela.

Essas narrativas – visões de mundo – que indicam um caminho para o futuro, um projeto utópico, é aquilo que é negado pela pós-modernidade. A falta da certeza nas grandes narrativas indica a impossibilidade de se prever o futuro com certeza filosófico-científica, portanto, o que nos resta é o presente. O presente precisa ser modificado e vivido, seja ele bom ou ruim.

Convido você que me lê, aliás, depois de ler essa conceituação, a refletir: o que há de “pós-moderno” no conceito e descrição dados de veganismo interseccional?

 

As omissões, falácias e contradições do “manifesto” anti-interseccional

Explicado o que são o veganismo interseccional e a pós-modernidade ideológica, me incumbo agora de apontar as falhas do texto aqui respondido, de modo a mostrar por que ele não consegue de fato problematizá-lo com seriedade. A razão desse fracasso são suas omissões e falácias.

Como já foi dito na introdução, ele já nasce fadado ao fracasso por não oferecer ao leitorado sequer o conceito objetivo daquilo que está sendo criticado. Diz que “o VI é ruim porque é pós-moderno”, mas não define nem o VI nem o pós-moderno. Oferece assim uma informação que um número muito restrito de pessoas, apenas aquelas poucas que mergulharam de cabeça, acadêmica ou autodidaticamente, na Filosofia e na Sociologia, entenderão – ou não, considerando que o texto como um todo é falacioso, confuso e cheio de omissões.

Depois dos três primeiros parágrafos, os quais não me interessou comentar aqui, o artigo traz uma pergunta e uma comprida frase de resposta, da qual eu extraio o seguinte trecho:

[…] enquanto as vítimas defendidas pelos direitos humanos estão em sua maioria entre nós, com plena capacidade de usar ativamente a sua voz (o papel dos movimentos, ao que me parece, é dar visibilidade a isso), os sujeitos do veganismo estão escravizados, confinados e torturados em espaços onde suas vozes não podem ser ouvidas e isso faz toda diferença na percepção da sociedade em relação às suas vítimas […]

Em primeiro lugar, a autora não revela o que nós interseccionais acreditamos que seja a intersecção entre as lutas pelos Direitos Animais e as pelos Direitos Humanos. Isso impossibilita a leitora e o leitor de realmente saber se ela está realmente rechaçando nossa crença sobre os pontos em comum entre as duas vertentes de luta ou apenas escrevendo uma crença pessoal.

Em segundo, ela parte da premissa de que todos os seres humanos defendidos pelas lutas de libertação humana já têm “plena capacidade de usar ativamente sua voz”. Ao contrário do que ela crê, nem todos têm hoje essa capacidade.

Por exemplo, nem toda mulher conhece o feminismo e seus fundamentos, a ponto de já ter a plena condição de embandeirá-lo para se libertar do patriarcado. Muitas delas, aliás, foram educadas e socializadas em ambientes muito conservadores, moralistas e dominadores, tendo “aprendido” que seu papel “natural” é o cuidado do lar e dos filhos e a submissão a um deus masculino e superintolerante e a um marido que pode agredi-la a qualquer momento. O fato de que há muitas feministas atuando junto a essas mulheres para ajudá-las pouco a pouco a se empoderar não implica que estas últimas já estão munidas do pleno poder de rebelião contra a ordem machista à qual viveram submetidas a vida inteira.

Muitos seres humanos não se reconhecem como sujeitos de sua própria História individual e social-coletiva. Foram ensinados – e ao mesmo tempo coagidos – a ceder seu poder político de decisão sobre seu próprio destino a um líder, como um político autoritário, um diretor escolar autocrata e um bispo “cristão” conservador.

Considerando-se que os movimentos humanos visam, entre outras providências, empoderar pessoas submetidas a regimes de dominação e o vegano-abolicionismo não tem condição de empoderar os animais não humanos para que se levantem autonomamente contra a ordem especista, constata-se que ambos têm suas especificidades e abordagens peculiares. Mas em momento nenhum essas diferenças tornam inconciliáveis as lutas pelos Direitos Animais e pela libertação humana. Especular que dessa diferença resultem incompatibilidades é extrapolar e distorcer a natureza de ambos os movimentos.

Em seguida, o texto comete um sério erro, ao dizer que “o veganismo não luta por expansão de direitos, como os demais movimentos, mas pela abolição da escravidão animal”. A autora desconsidera que o abolicionismo animal tem como um de seus princípios defender que os animais passem, saindo de uma situação na qual contam apenas com um falso direito ao bem-estar, a desfrutar de diversos direitos fundamentais, como o direito à vida, à liberdade e a não ser tratado como propriedade humana.

Em outras palavras, esvazia de sentido a própria expressão Direitos Animais. E ignora que o estado de submissão do indivíduo ao estatuto de propriedade de um dominador é uma situação de zero direitos. A quebra dessa ordem submissiva resulta numa nova ordem na qual existem de fato direitos fundamentais que protegem os indivíduos de serem submetidos novamente a esse regime de exploração, mas isso não parece fazer muito sentido para a autora.

Adiante, no mesmo parágrafo, ela afirma que os vegans em geral têm muita dificuldade de debater com defensores dos Direitos Humanos que não são veganos, “já que sua base [a dos defensores dos DH] de argumentação em relação ao veganismo em geral é o racionalismo antropocêntrico”. Cai indiretamente numa falácia de falsa dicotomia, por pressupor que a defesa dos Direitos Humanos seria irremediavelmente atrelada ao antropocentrismo e assim, de alguma maneira, os movimentos sociais humanos e a defesa dos Direitos Animais seriam mutuamente excludentes.

Nada, nada mesmo, nos fundamentos dos Direitos Humanos o torna incompatível com a luta pelos Direitos Animais. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, aliás, conversa com os Direitos Animais em seus primeiros nove artigos, perfeitamente adaptáveis aos animais não humanos.

Além disso, o veganismo interseccional vem justamente para convencer, por meio do diálogo e do entendimento, pessoas não veganas de outros movimentos sociais que não há incompatibilidades insanáveis em essência entre suas bandeiras e a libertação animal. Vem defender que mesmo tradições marcadas pelo uso de animais como propriedade de humanos, como religiões adotantes do sacrifício animal, podem eventualmente vivenciar uma transformação interna para o pleno respeito aos animais não humanos, com o auxílio intermediador de pessoas de seu meio que já aderiram ao veganismo.

No parágrafo seguinte, o texto diz que:

[…] a interseccionalidade como é proposta hoje está claramente alinhada à visão pós-moderna da realidade, onde diluem-se todos os conflitos e relativizam-se todas as verdades. Por isso, não adianta esperarmos que compreendam que direitos animais não é questão de jornada pessoal, de consciência individual, de respeito ao tempo de cada um se nos alinhamos à visão pós-moderna dos movimentos: é esperar dos indivíduos uma postura não condizente com a ideologia que os rege. A relativização da verdade, a queda da noção de poder, hegemonia, ideologia, realidade como condição material concreta para a mudança são característicos da pós-modernidade, base ideológica do discurso interseccional.

Como eu mostrei, a autora sequer define a interseccionalidade e a “visão pós-moderna da realidade”. Assim sendo, esses termos ficam submetidos aos caprichos de uma visão politicamente enviesada. É algo semelhante ao que especistas fazem quando usam de maneira manipuladora termos como “respeito aos animais”, “direitos dos animais” (o que a ONG bem-estarista PETA faz ao fazer parecer que negociar “reformas de bem-estar animal” é “defender os Direitos Animais”) e “abate humanitário”.

Tom Regan fala dessa manipulação ideológica de termos desprovidos de definição prévia, ao mencionar a falácia de Humpty Dumpty no livro Jaulas Vazias. Segundo Regan aborda, Dumpty, personagem do livro Alice através do espelho, arroga que determinadas palavras significam aquilo que ele quer que signifiquem. Esse raciocínio, no caso das acusações da autora do texto contra o veganismo interseccional, é essencialmente uma falácia do espantalho, que consiste em atribuir ao ponto de vista opositor supostas falhas criticáveis que ele na verdade não possui.

Quando ela diz que “o VI é pós-moderno” sem definir nem o VI nem o pós-moderno, o leitorado tende ou a não entender o que o texto quer expressar, ou a assimilar de maneira acrítica o que ele diz, ou – em talvez poucos casos – a investigar o que realmente significam tais temos. E já se tem muitos especistas e carnistas por aí tentando induzir a opinião pública a crenças não pensadas e não questionadas, daí não é nada desejável que isso também aconteça vindo de pessoas que, armadas de sectarismo, desejam, como diz outro articulista também respondido por mim, “combater” a corrente vegana da qual simplesmente discordam.

Diante dessa crença no suposto caráter pós-moderno do VI, convido você que me lê a novamente ler as definições dadas anteriormente a cada um dos dois termos, e tirar suas conclusões sobre o que há realmente de “pós-moderno” no VI. Mas gostaria de subsidiar o pensamento de quem for ler com um esclarecimento – ou melhor, um desmonte de uma acusação falsa.

Defender o intercâmbio entre a libertação animal e a libertação humana não tem nada a ver com “jornada pessoal, de consciência individual, de respeito ao tempo de cada um”. Induzir mudanças culturais internas em culturas perseguidas não tem o que ver com “esperar passivamente que do nada indivíduos especistas convictos virem vegans”.

Pelo contrário, é o debate interno que se busca estimular, é o diálogo que pretende transformar as convicções especistas de ativistas sociais que ainda não compreendem o que vêm a ser veganismo e Direitos Animais. Não é algo tão diferente assim do que, por exemplo, se faz nas campanhas tradicionais de conscientização vegana na Avenida Paulista, no centro de São Paulo: são pessoas veganas conversando com seus iguais não veganos e buscando o entendimento.

A acusação atira que “a relativização da verdade, a queda da noção de poder, hegemonia, ideologia, realidade como condição material concreta para a mudança são característicos da pós-modernidade, base ideológica do discurso interseccional”. Afirmar isso é confessar desconhecimento sobre o modo de atuação dos vegans interseccionais e, ao mesmo tempo, não saber que desconhece.

Sabemos bem que quem detém, no sistema socioeconômico em que vivemos, o poder, a hegemonia e a tutela ideológica especista e carnista sobre os animais e a consciência coletiva não são o carroceiro, nem o jovem humilde candomblecista da periferia que assiste a um ritual de sacrifício animal, nem o sertanejo faminto que caça tatu por não ter outra opção para comer naquele dia. Mas sim os pecuaristas, os políticos da bancada ruralista, os empresários e altos-executivos da indústria de carnes, ovos e laticínios.

O poder hegemônico desses sujeitos de dominação sobre os animais não humanos e de tutela ideológica sobre seres humanos jamais foi negado por vegans interseccionais. Muito pelo contrário, a intersecção entre a luta anticapitalista e o vegano-abolicionismo nos permite fazer esse recorte socioeconômico da exploração animal e atacar as reais fontes centrais da cultura de especismo e exploração animal que rege a sociedade moderna.

Com isso, quem está sendo incoerente a ponto de não saber “abranger noções como realidade concreta, direitos coletivos, conflitos ideológicos, necessários para compreensão de uma abordagem crítica e abolicionista dos direitos animais”, não somos nós vegans interseccionais. Mas sim quem pensa como a autora do texto, que ignora e parece virar as costas para os recortes sociopolíticos que fazemos da luta pela abolição da inferiorização de seres humanos e não humanos.

No parágrafo posterior, diz ela:

Parece, diante disso, ficar fácil notar que os animais não ganham absolutamente nada em adotarmos no veganismo uma postura interseccional, especialmente por suas características ideológicas deletérias para a conquista de direitos de primeira geração (vida, liberdade, integridade, dignidade).

Ela está afirmando, mesmo sem perceber, que o enfrentamento prioritário de pecuaristas, políticos ruralistas, empresários lacto-frigoríficos e pesqueiros, empresários dos rodeios e vaquejadas etc.; o diálogo cultural de vegans afrorreligiosos com seus iguais não veganos; a busca incessante de soluções inteligentes para problemas complexos que têm travado a massificação do veganismo; a problematização do elitismo nas campanhas mais tradicionais de conscientização pró-vegana etc. não representam “nenhum” ganho para os animais não humanos.

Além disso, cai em contradição com o trecho em que diz que “o veganismo não luta por expansão de direitos, como os demais movimentos, mas pela abolição da escravidão animal”. O texto parece indeciso se o abolicionismo animal luta por direitos ou pelo combate a uma série de violências – lembrando essa segunda opção o bem-estarismo, que não dá direitos aos animais, mas sim tenta proibir atos de violência explícita e extrema.

Diz ela, adiante, que:

[…] a interseccionalidade contempla movimentos que pleiteiam a expansão de direitos de uma perspectiva pós-moderna, supostamente isenta de conflitos (condição impossível se observarmos na história sua constante correlação de forças) e […] o veganismo atua em função do fim da escravidão animal, situação que não ocorrerá sem embates com os privilégios impostos pelos humanos sobre as demais espécies, criando sobre elas suas tradições e culturas tão valorizadas por esses movimentos especistas de direitos humanos […]

Primeiro, ela repete que “o VI é pós-moderno”, mas não mostra conhecer nem uma coisa nem outra. E continua não querendo mostrar aos seus leitores em quais conceitos de interseccionalidade e pós-modernidade se baseia.

Segundo, usa a falácia do espantalho de que nós pregamos a “isenção de conflitos”. Deixa a entender, nas entrelinhas, que só haveria possibilidade de haver libertação animal quando, por exemplo, a lei criminalizasse os rituais de sacrifício nas religiões afro – e desse vazão a efeitos colaterais terríveis, como a consolidação do racismo institucional de proibir sacrifícios em uma religião negra ao mesmo tempo em que se mantém liberado o abate em massa de perus “de Natal” e a pesca de bacalhaus da Semana Santa.

É curioso perceber, aliás, que o texto defende o conflito aberto com culturas historicamente perseguidas que têm algum costume especista, mas não fala um pio em defesa do afrontamento das culturas especistas dominantes. O artigo dirige muitas indiretas contra interseccionais que defendem o respeito ao lugar de fala de vegans afrorreligiosos e o diálogo responsável entre estes e seus irmãos de crença. Mas não solta um “A” para defender em seu texto, por exemplo, a proibição por lei dos abates kosher (judaico) e halal (muçulmano), ou a criminalização legal das ceias de Natal não veganas com pena de multa e/ou prisão, ou a punição criminal a professores que promovem carnismo em sala de aula, ou a cassação do mandato de parlamentares e governantes por promoverem políticas especistas e pró-pecuária, ou o fechamento sumário de grandes fazendas de gado e empresas frigoríficas.

Em resumo, a autora tanto diz defender o conflito aberto, a “solução” autoritária, o combate violento aos “privilégios especistas das minorias opressoras de animais”, mas não fala uma vírgula sequer em defesa do enfrentamento direto, violento, conflitivo, judicial aos dominantes. Isso mesmo quando estes exploram e matam um número de animais literalmente milhões de vezes maior do que pessoas de minorias políticas.

A seguir, faz-se uma falsa analogia entre o VI e a suposta ação de uma mulher que está julgada como sendo uma “feminista interseccional pós-moderna”:

Em poucas palavras, faço uma metáfora do que ouço quando alguém me interpela sobre adotarmos o discurso interseccional: é como uma feminista chegar a uma mulher espancada e dizer a ela que deve sair daquela situação, mas antes deve educar o companheiro para se libertar também das opressões que sofre por ser machista, é dizer a essa mulher que ela só pode abandonar ou confrontar esse homem depois que ele aprender a fazer a própria comida, lavar a própria roupa e aprender a viver sóbrio, porque, né, ele sofre tanta opressão no mundo do trabalho ou por outro motivo qualquer que não é justo que a feminista se preocupe apenas com a mulher que ele espanca.

O texto diz absurdamente que homens machistas sofrem opressão por serem machistas. E na analogia sobre hipotéticas feministas que obrigariam uma mulher vítima de agressão a educar o “companheiro” misógino e violento a certos hábitos, usa de falácia do espantalho para “exemplificar” a intersecção de bandeiras libertárias.

Em seguida, o penúltimo parágrafo traz um novo espantalho:

O fim da escravidão contra os negros não libertou as mulheres do patriarcado, a conquista de direitos pelas mulheres não derrubou o sistema capitalista e não porque esses movimentos fossem elitistas ou não se importassem com os demais, mas porque a condição de suas vítimas era tão urgente que não fazia sentido esperar que o mundo fosse um lugar mais justo para que elas parassem de sofrer.

Segundo essa linha de raciocínio confusa, o artigo diz que os vegans interseccionais estariam defendendo que os Direitos Animais “deveriam” adotar como objetivo principal a libertação de seres humanos de minorias políticas e deixar de lado os animais não humanos. Isso quando na verdade o que realmente se defende no veganismo interseccional é que as causas humanas e animais não humanas se interliguem e se intercambiem para promover, de maneira otimizada e coerente, a libertação de todos os seres submetidos a sistemas de dominação, sem que isso resulte numa anulação forçada dos focos originais e especificidades de cada bandeira.

O texto conclui dizendo:

Para mim, essa é a diretriz do veganismo, tolerar menos que isso é ser condescendente com o opressor e o especismo do qual se alimenta. Veganismo para os animais e pelos animais não humanos sempre, não faremos isso caindo na roda das relativizações tão aclamadas pelos interseccionais pós-modernos.

Assim sendo, eu convido a autora a parar de relativizar, com a omissão e inversão de focos as quais se pode perceber no texto, a exploração animal promovida nos meios cristãos conservadores, capitalistas, agroindustriais, pesqueiro-industriais, pecuaristas e políticos. Que perceba que esses setores exploram e matam, como já foi mencionado, um número milhões de vezes maior de animais do que, por exemplo, candomblecistas que sacrificam animais em rituais, carroceiros que não estão sendo assistidos pelas prefeituras de suas cidades de modo a libertarem “seus” animais, pessoas famintas que caçam pequenos animais por não terem o que comer no dia-a-dia, povos indígenas cuja única maneira de obter alimentos é pela caça, pesca e coleta etc.

 

Considerações finais

O texto como um todo cai em falácias do espantalho resultantes de um nítido desconhecimento sobre o que realmente é e defende o veganismo interseccional, manipulações conceituais – tal como o Humpty Dumpty mencionado por Tom Regan –, contradições e intolerâncias que, no final das contas, revelam que quem está relativizando o especismo dos exploradores de animais e obstaculizando a luta pela libertação animal são os próprios depreciadores do VI, e não nós.

Os animais não precisam desse sectarismo agressivo que se está tentando causar no movimento vegano-abolicionista brasileiro. Nós vegans interseccionais estamos tentando somar a ele, fazê-lo amadurecer e se tornar muito mais eficaz em libertar os animais, e não dividi-lo em facções que se odeiam mutuamente e dedicam muito mais tempo atacando-se uma à outra do que atuando pelo asseguramento e respeito aos direitos dos animais não humanos.

Ao leitorado que teve a oportunidade de ler o texto da articulista e em seguida esta minha resposta, reitero a conclusão e pedido que fiz no final da minha resposta a Bruno Müller: não somos esses monstros destruidores da ética. Se você ainda não conhece muito bem o veganismo interseccional, por favor, nos ouça – em especial, ouça as pessoas de minorias políticas que atuam no movimento. Pedimos que, por favor, traga dúvidas sinceras e realmente curiosas – e não retóricas –, e evite certezas precipitadas ou tentativas de ditar como nós nos deveríamos atuar. E sobretudo, saiba ouvir e seja compreensivo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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