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Na cauda de cometa da ação direta libertadora no Instituto Royal, aumentou enormemente a divulgação de informações sobre como é antiético testar produtos, incluindo seus ingredientes, em animais e como devemos nos esquivar do máximo possível de empresas que continuem fazendo testes in vivo. Como reação, também vem sendo divulgado conteúdo em defesa das pesquisas em animais não humanos, e entre esse conteúdo está um texto do blog East To West Skin Care, que vem sendo exaustivamente reproduzido. E uma resposta abolicionista a esse artigo se faz necessária.

O texto em questão, intitulado “Sobre os testes em animais realizados pela indústria cosmética”, no ar desde janeiro de 2012, argumenta por que muitos testes específicos em animais ainda são alegadamente necessários e atualmente impossíveis de serem substituídos por completo, colocando para talvez daqui a algumas décadas a perspectiva de que seja anunciada a sua substituição total. Muitos aspectos técnicos são abordados ali, mas não vemos ali, nem em sua atualização mais recente, de outubro de 2013, nem uma vírgula sobre a questão ética sobre por que é “certo” e “aceitável” tratar animais como coisas a serem usadas pelos humanos quando estes dizem ter alguma necessidade específica.

O artigo infelizmente fala algumas verdades que ainda passam despercebidas por grande parte dos defensores animais, como o fato de tudo aquilo que usamos ou até mesmo comemos e bebemos ter tido algum ingrediente ou componente químico testado em animais em alguma ocasião nas últimas décadas, mesmo que não tenha sido pelas empresas que hoje não fazem nem subsidiam testes in vivo. Outra verdade ali é que, como foi citado, alguns tipos específicos de testes cruéis ainda não tiveram métodos substitutivos completamente desenvolvidos e internacionalmente aprovados. E outro fato é que diversas outras indústrias, como as químicas, também testam tortuosamente seus produtos ou ingredientes em cobaias.

Porém, é de se perceber o tom fatalista, conformista e, por que não, conservador do texto. Em certo momento, ele afirma que não adiantaria praticamente nada boicotar empresas que continuam testando em animais. E num outro determinado trecho, fala:

7 – Quero contribuir para que surjam mais testes alternativos. O que posso fazer?

[…] Aceitar que sejam feitos testes em animais (quando não há alternativas). Para que pesquisas sobre métodos alternativos sejam feitas, é necessário usar animais. Se é desenvolvido um método alternativo, o resultado deste método terá de ser comparado com o resultado de um teste feito em animais…

Ou seja, para quem o escreveu, devemos nos conformar, aceitar que animais não humanos continuem sendo tratados como coisas, como instrumentos pertencentes a pessoas ou empresas; aprisionados em biotérios; torturados e mortos em nome da indústria e, alegadamente, da segurança humana e voltar a consumir produtos de empresas que torturam animais em laboratórios de testes de segurança, deixando absolutamente tudo nas mãos das grandes indústrias.

Não vimos um “A” sobre a questão ética em si de objetificar, possuir, aprisionar, torturar e matar animais não humanos em nome de interesses humanos. Ali só se discutiu a questão técnica, numa reprodução do foco tecnicista e nada (supra-)humanista da exploração animal, algo muito comum entre aqueles que só usam parâmetros técnicos para tentar justificar a escravidão e tortura de cobaias em laboratórios de pesquisas farmacológicas.

Já que a pessoa que escreveu o texto coloca a questão técnica e a segurança humana quilômetros acima dos totalmente omitidos direitos merecidos pelos animais não humanos, é de se perguntar: ela aceitaria, da mesma forma que tem aceitado os testes em cobaias não humanas, que fosse realizado sem impedimentos éticos algum hipotético teste altamente doloroso e de caráter “roleta russa” que, por motivos relacionados a diferenças biológicas intransponíveis entre os organismos das cobaias não humanas e os humanos, só pudesse ser testado em seres humanos?

Se não, o que argumentaria? Defenderia a urgência emergencial de que esse teste específico fosse substituído por alguma alternativa que não prejudicasse organismos humanos nem não humanos – estes que, como foi dito, não poderiam receber esse tipo de teste? Se sim, frisaria que a dor e o sofrimento de algumas dezenas de humanos seria necessária para o bem-estar de milhares ou milhões de outros seres humanos? No mais, iria se conformar com a tortura de seres humanos?

E em relação ao fato de que hoje um sem-número de produtos praticamente imboicotáveis são parcial ou totalmente produzidos na China, sob um regime de opressão política e trabalhista? A autoria do texto nos aconselha a nos conformar e aceitar o sofrimento e a privação de direitos dos chineses, já que não podemos mais boicotar 100% dos produtos made in China? Adota o discurso de que explorar trabalhadores chineses “ainda é necessário” e “vai demorar décadas” para que haja alternativas de produção que iniciem uma “deschinização” do mercado? Ou que devemos esperar tática e passivamente que a China vivencie uma abertura democrática ou as grandes empresas concedam direitos trabalhistas por vontade própria, esquecendo que direitos são sempre conquistados, nunca concedidos de graça?

Há também uma outra questão análoga: se quase tudo o que existe hoje na sociedade é fruto do capitalismo e este depende da exploração e das desigualdades sociais e não tem hoje alternativas igualitárias viáveis de sistema socioeconômico, devemos por isso nos conformar com o capitalismo, aceitá-lo integralmente em nossas vidas e parar de reivindicar um mundo justo, igualitário e sem exploração?

Essas questões mostram algo já falado por mim em outras ocasiões: que a postura fatalista e conformista dos defensores dos testes – sejam de cosméticos, de medicamentos ou de qualquer outro produtos – em animais não humanos é muito conservadora, e muitas vezes parte às raias do reacionarismo. E o que o vegano-abolicionismo mais repudia são o conservadorismo e a aceitação de nos deitarmos confortavelmente num colchão sustentado por animais mortos ou agonizantes.

E algo mais que deve ser esclarecido é que o veganismo prega o boicote a empresas que continuam realizando ou subsidiando testes em animais, até que os substituam por completo, nem que isso dure algumas décadas como o texto do East To West argumenta. Não inclui o evitamento de produtos que tiveram ingredientes testados em animais em algum momento do passado, já que não tem efeito retroativo e não pode desfazer o estrago feito à vida animal pelos testes já realizados.

Seu objetivo é desencorajar e abolir as pesquisas antiéticas que serão realizadas no futuro. E as empresas que nunca testaram em animais ou que pararam de fazê-lo não podem ser penalizadas por algo que não fazem ou já abandonaram, até porque nossa pressão é justamente para que aquelas empresas que ainda insistem nos testes in vivo os abandonem e os substituam totalmente por modelos éticos de teste de segurança de ingredientes e de produtos acabados.

Assim como no caso da indústria farmacêutica, nossa luta contra a exploração animal também serve para que todas as demais indústrias, incluindo a de cosméticos, que ainda explorem e torturem animais em laboratórios para fins de avaliação de segurança abandonem esse tipo de procedimento, mesmo que essa luta tenha que durar várias décadas mais.

Deve-se esclarecer, inclusive, que é graças a décadas passadas de pressão que as empresas mencionadas pelo artigo já estão se esforçando para substituir algum dia todos os testes tortuosos. Se não fosse por isso, se os defensores animais das gerações passadas e atuais tivessem feito o que o texto recomenda – aceitar resignadamente que os testes antiéticos continuem –, não teria havido quase nenhum avanço na busca de alternativas de pesquisas.

Se o governo não investe em ciência e tecnologia nem encoraja a pesquisa de modelos substitutivos de testes em animais, vamos exigir dele que invista e encoraje. Se as empresas estão muito lentas em seus investimentos em testes alternativos, vamos demandar delas que se apressem e os tornem prioridade caso queiram voltar a nos ter como clientes. Se o sistema não favorece a igualdade e a ética, vamos lutar contra ele.

Posturas resignadas, conformistas, fatalistas e liberais-econômicas como a do blog East To West Skin Care são o ingrediente-chave para a perpetuação dos testes em animais, já que desencorajam a demanda e pressão populares por avanços tecnológicos e mantêm o empresariado livre para manter a ética de respeito aos seres sencientes em geral jogada no lixo.

Atitudes assim naturalizam que os animais continuem sendo usados como objetos em nome de interesses humanos e sejam considerados inerentemente inferiores aos seres humanos em termos de consideração moral e respeito aos seus interesses próprios. Deixam claro que “os fins justificam os meios”, mesmo que os meios sejam tão exploradores e cruéis, e, na ausência de uma alternativa ética, os procedimentos antiéticos não só estão autorizados a continuarem como devem ser conformistamente aceitos por todos.

E essa postura o vegano-abolicionismo recusa por completo. Parar os testes em animais, mesmo que isso demande um trabalho que ainda vá durar algumas décadas mais, é uma demanda nossa e continuará sendo. Nunca iremos aceitar o que texto aqui respondido recomenda – que os animais continuem sendo tratados como moralmente inferiores a nós. Portanto a demanda pelo fim dos testes de segurança in vivo continua, é não é por motivos tecnicistas, alheados da justificação ética, que ela vai ser aplastada.

O texto do East To West pode até dizer algumas verdades, mas não quer dizer que, por algum “bom senso”, devemos abdicar da luta pela libertação animal, aceitar que animais continuem sendo torturados em laboratórios e deixar tudo, tudo mesmo, nas mãos exclusivamente das grandes indústrias, nos alheando de pressioná-las até o fim dos testes exploradores de produtos e seus ingredientes.

1 comment

  1. Quer dizer que os veganos têm a obrigação de “aceitar os testes em animais”? Eu, hein… Onde está a imposição que eles tanto reclamam que nós praticamos?

    Impor a morte e tortura de animais em benefício humana nunca será moralmente aceitável.

    E, falando sério, para que alternativas sejam descobertas não é necessário continuar usando animais. Isso é falácia pura. Se basear no modelo animal, que já é falho e improdutivo, é atrasar a ciência.

    Imagina se nos baseássemos nos resultados dos testes da penicilina em porquinhos-da-índia, que falharam? E a aspirina que é letal para gatos? Primatas não-humanos também são imunes à AIDS, hepatite B e malária.

    Não temos que nos basear em modelos animais. Temos que nos basear em ciência séria e Ética.

    “Eu não estou interessado em saber se os testes em animais produzem ou não resultados lucrativos para a espécie humana. A dor que eles causam já é o suficiente para rejeitá-los.”
    – Mark Twain

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