Resposta vegana a uma imagem que compara consumo de carne com racismo, nazismo e misoginia

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Aviso de conteúdo: A imagem aqui criticada contém menções pesadas a racismo, nazismo/antissemitismo, misoginia e violência contra a mulher

Descrição da imagem para pessoas cegas ou com visão reduzida: A imagem começa dizendo “Quando você diz: ‘Tudo bem se você quer ser vegano, mas respeite meu direito de comer carne’, soa assim…”, seguido por fotos da Ku-Klux Klan, de Hitler acompanhado da suástica nazista e de uma mulher com hematoma no olho esquerdo sendo beijada na bochecha por um homem que é seu agressor. Abaixo da foto da Ku-Klux Klan está escrito “Está bem se você quer liberar seus escravos, mas respeite o meu direito em [sic] tê-los”. Abaixo da de Hitler, diz “Está bem se você quer ter amigos judeus, mas deveria respeitar meu direito de matá-los”. Abaixo da da mulher agredida, diz “Está bem se quer respeitar as mulheres, mas deveria respeitar meu direito de bater nelas”. A imagem conclui na base dizendo “Os animais NÃO são SEUS”.

Tem viralizado entre os veganos, nas últimas semanas, uma imagem que faz uma comparação explícita entre a declaração de quem reivindica o “direito de comer carne” com hipotéticos clamores de “direitos” de escravizar pessoas negras, assassinar judeus e agredir mulheres.

Diversas páginas e centenas de vegans têm compartilhado a figura, sem perceber o quanto ela mais atenta contra a causa vegana e os Direitos Humanos do que ajuda a conscientizar pessoas que consomem produtos animais.

Quero mostrar a você os porquês de se evitar compartilhar tal imagem. Longe de assimilar o especismo ou reconhecer algum “direito” de se comer carne, você perceberá que ela só prejudica o veganismo e semeia preconceito e intolerância mútuos.

O lado sombrio de se comparar exploração animal e consumo de carne com violências entre humanos

A figura em questão põe em prática um costume muito comum no meio vegano: tentar sensibilizar as pessoas por meio de comparar as violências contra os animais não humanos com flagelos que castigaram ou castigam a humanidade, como a escravidão de pessoas negras, a violência contra a mulher e o Holocausto nazista.

Tenta-se, com esse tipo de estratégia, convidar as pessoas a terem empatia pelos animais não humanos tal como, em muitos casos, já possuem por seres humanos que sofrem violências.

Só que esse tiro tende a sair pela culatra. Afinal, acaba promovendo a famigerada animalização de pessoas de minorias políticas que já costumam ser historicamente comparadas com animais não humanos para serem inferiorizadas.

Mesmo que a intenção seja nivelar por cima a consideração moral entre seres humanos e não humanos e assim desprover de sentido o ato de inferiorizar humanos pela comparação com animais, a mensagem acaba recebida como se fosse um nivelamento para baixo.

Muitas vezes é interpretada pelos não veganos que veem imagens desse tipo como se os veganos estivessem lhes dizendo “Olhem como nós gostamos de comparar vocês com animais!” e, assim, fazendo algo muito parecido com o que racistas, antissemitas e misóginos costumam fazer contra eles.

Não é à toa que essa estratégia e seus adeptos sejam acusados de racismo, misoginia e antissemitismo e de “menosprezar” a violência que respectivamente negros, mulheres e judeus sofreram e sofrem. É portanto um desastre na tentativa de estabelecer um diálogo conscientizador com não vegans dessas minorias políticas.

A falsa analogia da imagem

Além de tender a ser recebida por não vegans como uma ofensiva animalização, precisamos perceber também que essa figura, assim como outras que promovem a mesma estratégia, cai na falácia de falsa analogia.

Ela desconsidera que atitudes odiosas como escravizar seres humanos, massacrar judeus e violentar mulheres possuem toda uma carga de ódio e maldade, todo um desejo de ser cruel, dominar pela força, torturar e assassinar.

Já o ato de comer carne não envolve esse tipo de atitude maligna por parte do consumidor. O que costuma estar por trás do consumo de produtos animais é, muitas vezes, o desconhecimento do modus operandi da exploração animal e a reprodução da crença de que os animais “existem para nos servir”, sob as “bênçãos” de uma educação especista e da intensa e cotidiana publicidade de alimentos de origem animal.

Só em alguns poucos casos – o dos antiveganos que já sabem de toda a violência da pecuária e da pesca e, ao invés de repudiá-la, a defendem expressamente com fins egoístas – o ato de comer carne é imbuído de uma postura consciente de crueldade e sede de sangue.

É verdade que há um contexto sociopolítico de dominação especista e consequências humanitárias perniciosas na pecuária e na pesca, mas daí para comparar o comedor de carne comum a um nazista, um racista escravista e um misógino agressor de mulheres é uma enorme distância. Acaba-se, nesse contexto, botando toda a culpa no consumidor e retirando-a, mesmo sem intenção, do explorador de animais.

 

Por que a imagem é mais ofensiva do que convidativa à reflexão

O que uma imagem que, na cara dura, faz uma comparação crua e irrefletida – sem ensinar nada sobre especismo – de mulheres, negros e judeus com animais não humanos e insinua que o comedor de carne comum é tão perigoso para a sociedade quanto um nazista, um assassino da KKK e um feminicida tem maior probabilidade de fazer?

Abrir a mente do não vegano que tem o desprazer de visualizá-la e trazê-lo para o diálogo conscientizador? Ou fazê-lo acreditar que veganos costumam tratar não veganos como criminosos assassinos comparáveis a nazistas e animalizam seres humanos de maneira parecida com o que racistas, antissemitas e misóginos fazem contra seus alvos?

Pense qual é a resposta mais provável nesse sentido, e aí perceberá o quanto é nocivo fazer imagens tão irresponsáveis e ofensivas.

 

Conclusão

A figura em questão atrapalha muito mais do que ajuda. Comete o efeito colateral de nivelar moralmente por baixo, não por cima, minorias políticas humanas e animais não humanos, xinga gratuitamente não veganos e declara que veganos podem ser tão intolerantes contra eles quanto são contra quem defende o extermínio ou a escravização de judeus, negros e mulheres.

Então, o mais lógico é não compartilhar essa imagem. Ou, se compartilhou, apagá-la e pedir desculpas a quem possa ter se sentido ofendido com ela.

Precisamos ser muito mais responsáveis em promover conteúdo que traga as pessoas para o veganismo. Insultá-las de “assassinas nazistas” e dizer com dedo em riste o quanto minorias políticas “podem” ser animalizadas sem o mínimo de cuidado, didática e empatia não vai ajudar em nada, pelo contrário.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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4 Comments on “Resposta vegana a uma imagem que compara consumo de carne com racismo, nazismo e misoginia

  1. Muito bom!! Apesar de não concordar com a imagem, eu não tinha como expressar em palavras o por quê. Esse texto abriu minha mente.

  2. Para veganos e aos que dizem ser , não há o menor sentido comparar problemas de relacionamento social entre humanos com o que estes fazem para alimentar-se em todo o globo . A palavra “CARNISTA” deveria também não ser mais utilizada , pois não é instrutiva se não agressiva : esta não convida ao diálogo e sim a briga …e a perda de TEMPO.

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