Matéria respondida Mundo Estranho

Resposta à matéria intitulada “E se todo mundo virasse vegano?”, divulgada no site da revista Mundo Estranho

No final de novembro de 2017, o site da revista Mundo Estranho divulgou uma resposta, em forma de reportagem, à pergunta “E se todo mundo virasse vegano?”. Nessa matéria, aparecem alguns duvidosos pontos positivos intercalados por supostos aspectos muito negativos, especulados para acontecer se o mundo todo se tornasse vegano “da noite para o dia”.

Só que essa matéria comete vários erros, falácias e omissões, na tentativa de descrever um futuro um tanto distópico. No final das contas, ela falha severamente e nada mais é do que uma especulação baseada num achismo, de alguém que não é vegano nem procura estudar como o mundo vai abraçar a ética dos Direitos Animais.

Se você é vegan e se assustou com essa matéria, ou não é e está achando que “o veganismo então não é algo tão bom assim para o mundo”, então convido você a ler esta resposta vegana à Mundo Estranho.

Respondendo a cada tópico da reportagem

Espantalho sobre veganismo

Quero, daqui em diante, responder tópico por tópico sobre onde foi que cada um deles errou e, em alguns casos, mostrar o que é muito mais provável de acontecer a partir do histórico dia da abolição da exploração animal.

 

“Volta o verde”

Esse tópico omite muitos detalhes importantes sobre o que acontecerá no meio ambiente quando a pecuária for abolida. Ele não revela, por exemplo:

  • Quanto de dinheiro é preciso investir para, por exemplo, converter um hectare de pasto em reflorestamento amazônico, de Mata Atlântica ou de cerrado, e de onde poderá vir essa verba. Sem esses detalhes, essa informação se torna no mínimo duvidosa;
  • Como a reforma ou revolução agrária, defendida pelo veganismo interseccional, irá tratar os pastos ociosos;
  • Que parte dos antigos pastos será convertida em santuários para os últimos animais remanescentes das criações da pecuária;
  • Como será feita a redistribuição das terras dos latifúndios de soja e milho, depois que os donos dessas terras perderem seus clientes pecuaristas e, por tabela, seus poderes políticos e econômicos.

 

Abre a porteira!

Todo esse parágrafo parte de um falso pressuposto: o de que seria possível o mundo virar vegano da noite para o dia, como num passe de mágica. Ignora que essa hipótese é simplesmente impossível e a adesão da humanidade ao respeito pleno aos animais será invariavelmente algo muito gradual – inclusive mais lento do que nós vegans gostaríamos.

Considerando que essa veganização generalizada instantânea nunca vai acontecer, o que ocorrerá é que, pouco a pouco, a pecuária irá reproduzir e abater um número cada vez menor de animais, já que sua demanda cairá com o tempo. No espaço de algumas décadas, a pecuária acabará se inviabilizando como atividade econômica, e os poucos animais que restarem nas fazendas e granjas serão remanejados para santuários e esterilizados.

 

Pobres com fome

O texto traz uma informação falsa ao dizer que a carne é uma proteína “barata”, pois os pecuaristas lidam com custos enormes para manter e expandir fazendas e granjas com dezenas, centenas ou milhares de animais. Entre essas despesas, estão:

  • Obtenção de grãos e outros vegetais para alimentar os rebanhos;
  • Manutenção das fazendas e granjas;
  • Compra de animais de outras criações;
  • Máquinas e mão-de-obra para derrubada de florestas e cerrados;
  • Mais mão-de-obra: peões, técnicos para manter as máquinas de ordenha, zootecnistas, veterinários, jagunços, assistentes administrativos, engenheiros e arquitetos para montar ou reformar confinamentos e estábulos etc.;
  • Maquinário para “manejo” dos animais – o que inclui armas como picanas, ferros aquecíveis para marcação, aparelhos de debicagem etc.;
  • Antibióticos, hormônios, suplementos nutricionais e demais medicamentos;
  • entre outros.

Lembremo-nos também que isso tem um enorme custo para o Estado e, por tabela, os cidadãos, por meio dos impostos utilizados para subsidiar essa atividade. Também há o impagável custo ambiental e sociopolítico para toda a humanidade, sob a forma de destruição de ecossistemas, poluição, propagação de doenças, piora das mudanças climáticas, políticas reacionárias apoiadas por ruralistas, corrupção, exploração trabalhista, manutenção das desigualdades sociais, expulsão e assassinato de ambientalistas, indígenas, quilombolas e camponeses…

Se não fosse o apoio do Estado à exploração animal, as carnes e outros produtos animais seriam muito mais caros, itens de luxo praticamente restritos à elite econômica e política, tal como eram em diversas civilizações antigas e medievais.

Em relação a estimular a produção de legumes e frutas, as dificuldades postas pelo texto só se aplicam num contexto de dominação quase absoluta dos latifúndios e pouco ou nenhum incentivo à agricultura familiar e comunitária. Mudanças como a proliferação de vegetais produzidos localmente não serão difíceis num contexto de disseminação das hortas urbanas e desconcentração e democratização do uso de terras agrícolas ao redor do mundo.

 

Choque cultural

Esse trecho superestima enormemente a importância da carne em culturas como a brasileira, a estadunidense e a japonesa. E ignora irresponsavelmente que culturas mudam, se adaptam à passagem do tempo e das eras históricas.

Além disso, sua menção aos povos nômades utiliza de um outro falso pressuposto: o de que a tal veganização do mundo se daria em todas as culturas de todo o planeta no mesmo instante super-rápido. O que acontecerá na verdade é uma transformação gradual das culturas ao redor do mundo, a começar pelas modernas.

E ainda é uma incógnita se povos tradicionais que resistem em assimilar o modo de vida euro-americano de fato adotarão a ética dos Direitos Animais e o veganismo nas próximas décadas ou daqui a muito mais tempo. O diálogo cultural poderá permitir a essas culturas que compreendam a necessidade do respeito pleno aos animais não humanos, tal como tem acontecido em relação aos Direitos Humanos, mas ainda não se sabe muito bem como isso acontecerá.

Mas uma coisa é praticamente certa: forçar esses povos a se tornarem veganos por meio da coerção vai totalmente contra os próprios princípios éticos vegano-animalistas.

 

Ar limpo

A matéria é confusa ao falar da alegada diminuição da poluição após a abolição da pecuária. Confunde emissão de gases-estufa como metano com poluição atmosférica urbana. E não fornece dados como em quantos por cento a pecuária é responsável pela piora do efeito-estufa ou se a mudança na alimentação influenciará diretamente uma mudança na qualidade do ar nas cidades.

 

Adeus, computadores

Aqui temos o terceiro falso pressuposto da matéria: o de que “não existem atualmente” ingredientes para substituir componentes de origem animal em roupas, sacos plásticos, cremes dentais, preservativos e computadores.

Não só esses substitutos em sua grande maioria já existem como é perfeitamente possível descobrir-se, em não muito tempo, como substituir todo e qualquer uso de matéria-prima de origem animal na indústria.

 

Mais terra

Esse trecho é confuso, por não discernir áreas de pasto de plantações predominantemente dedicadas a produzir forragem animal. Não se sabe aqui se a “porção de terra equivalente à África inteira” – algo que, por si só, é um dado duvidoso e desprovido da devida fonte – é referente aos pastos que deixarão de ser ocupados por rebanhos, aos latifúndios que deixarão de fornecer grãos e outros vegetais a criações animais ou a ambos somados.

Outro dado vago é que “gastamos […] só 300 litros para produzir 1kg de vegetais”. Não é informado que espécie de vegetal cultivável demanda apenas 300 litros para produzir um quilo de produto comestível. Supuseram um número muito inferior ao que é usado para plantar e colher, por exemplo, trigo, soja, milho e arroz (página 16). De fato existem vegetais com uma demanda baixa por água, como batata, mas não se especifica nesse trecho quais são.

 

Todo mundo na rua

O trecho menciona a “palavra proibida” do processo de veganização do mundo: “subitamente”, repetindo o falso pressuposto de que seria possível a humanidade inteira se tornar magicamente 100% vegana num único segundo.

Considerando que o argumento desse tópico tem um ponto de partida inválido, é preciso responder: à medida que a pecuária e o especismo forem declinando e as lutas sociais avançando, os empregos perdidos nesse e em outros setores da exploração animal serão substituídos por outros trabalhos na agricultura – que tenderá a crescer enormemente numa realidade em que a pecuária e os latifúndios sejam combatidos pelos movimentos sociais – e em outros setores da economia.

E novamente fica expresso aqui que o autor ignora que culturas – e, por tabela, economias – têm a ampla capacidade de se transformar. Se não tivessem, até hoje o Brasil estaria dependendo quase unicamente de exportar pau-brasil, cana-de-açúcar, café e minérios, as matérias-primas apropriadas pelos colonizadores e pela elite do Brasil imperial.

Vida saudável

Aqui se omite de que fonte foram obtidas essas informações – o que as torna duvidosas e difíceis de serem postas à prova -, confunde-se veganismo com “alimentação sem carne” e não é informado se esse progresso na saúde da humanidade depende ou não de mudanças paralelas de estilo de vida, como o estímulo às atividades físicas e a diminuição também do consumo de carboidratos refinados e frituras.

 

Considerações finais

Batman Robin veganismo

De tão cheio de erros e omissões de informações importantes e fontes, o artigo do site da Mundo Estranho falha completamente em desenhar como será o mundo depois do triunfo dos Direitos Animais.

Soa muito mais como uma imaginação especulativa e achista de um não vegano sobre como seria o mundo caso um determinado espantalho de veganismo fosse disseminado de maneira instantânea e simultânea por todos os seres humanos. Nada mais do que isso.

Portanto, se você sentiu uma ponta de receio de que o veganismo “corre o risco de fracassar” por causa desse suposto futuro, relaxe. Ou, alternativamente, se você não é vegan e achou, por um instante, que esse modo de vida “no final das contas pode fazer mais mal do que bem”, repense, porque você pensou isso a partir de informações erradas ou no mínimo não confiáveis.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*