Reportagem pró-leite respondida

A revista Superinteressante se prepara para publicar, na sua edição de fevereiro, uma reportagem – já disponível no seu site desde 24 de janeiro – que, sob a máscara de “desmitificar” o temor das pessoas de ingerir lactose, incentiva abertamente o consumo de leite.

Suspeita de ter sido escrita sob demanda de criadores de vacas “leiteiras” e de parte da indústria de laticínios – e coincidindo com o lançamento dos leites de coco prontos para beber da marca Do Bem -, trata-se de um verdadeiro publieditorial mascarado de matéria informativa.

E embora diga estar “desfazendo mitos” sobre o consumo de leite e lactose, está na verdade reafirmando como “verdades” argumentos claramente falsos sobre a alegada “necessidade” de os seres humanos beberem leite de vaca e consumirem seus derivados.

Se você leu a matéria da Super no site ou na revista, recomendo enfaticamente que leia também esta resposta vegana, que esclarecerá se realmente precisamos consumir esse líquido cuja extração acarreta consequências absurdas para vacas, os bezerros e o meio ambiente.

Respondendo aos mitos pró-leite da Superinteressante

Couve-manteiga, couve folha
Couve-manteiga, uma ótima fonte vegetal de cálcio que substitui o leite animal

A reportagem inicialmente narra a história da criação de vacas “leiteiras” e da produção e consumo de leite não humano e traz informações sobre por que existem tantos seres humanos com intolerância à lactose.

O ponto problemático é quando traz argumentos que defendem explicitamente o consumo de leite e laticínios – e são eles que este artigo enfoca ao responder a matéria. Respondo, a seguir, cada trecho que os exibe:

 

Não é a mesma coisa: substituir o leite [de vaca] por leites vegetais não tem o mesmo efeito.
Coco: 7g de carboidratos, menos de 1g de proteína, sem fósforo, 45% [porcentagem que não se revela ao que se refere] de cálcio, 25% de vitamina D, preço R$18.
Amêndoa: 8g de carboidratos, 1g de proteína, sem fósforo, 45% de cálcio, 25% de vitamina D, R$27.
Soja: 9g de carboidratos, 8g de proteína, 25% de fósforo, 45% de cálcio, 30% de vitamina D, R$9.
Vaca: 12g de carboidratos, 8g de proteína, 25% de fósforo, 30% de cálcio, 25% de vitamina D, R$3.

Essa tabela traz omissões que comprometem a confiabilidade de seus dados. Não revela ao que essas porcentagens se referem (presume-se que seja a porcentagem das necessidades diárias humanas de cada nutriente), nem a que medida os dados correspondem (não se sabe se a 100g ou 200ml de cada tipo de leite), nem quais são as marcas de cada bebida que têm esses preços. Dadas assim, soltas e sem legenda, não é possível confiar nessa tabela.

Além disso, ela parte, falaciosamente, da falsa pressuposição de que os vegetarianos, veganos e outras pessoas que não consomem leite animal tomam leites vegetais como substitutos nutricionais do de vaca.

Na verdade, a substituição é muito mais de caráter culinário e gustativo, uma vez que os nutrientes que antes se ingeria através do leite bovino passam a ser obtidos a partir do consumo de diversas fontes vegetais ou extra-alimentícias, como folhas verdes-escuras, leguminosas e, no caso da vitamina D, de banhos regulares de sol, e as bebidas vegetais são apenas uma das fontes dessas substâncias.

 

Ao contrário da alergia à proteína do leite – que atinge apenas 3,5% dos adultos e que, essa sim, pode gerar sintomas perigosos, como choques anafiláticos ou sangue nas fezes – a intolerância não é fatal. É incômoda, mas não perigosa. Por isso, há quem defenda que o leite não deve ser eliminado da dieta sem critério. Justamente por ser um alimento tão rico e insubstituível, cientistas alertam que cortá-lo pode fazer mais mal do que bem.

Esse trecho se refere especificamente a quem tem algum grau de intolerância à lactose, mas faz um elogio superestimado ao consumo de leite de vaca. Refere-se a ele como “alimento rico e insubstituível”, o que é um argumento comprovadamente falso.

Afinal, vegans, vegetarianos e outras pessoas que não consomem leite animal obtêm todos os nutrientes desse produto a partir de fontes alternativas – que, como já foi dito mais acima, são diversificadas e se complementam umas às outras.

E é necessário informar: não estamos tendo notícia de nenhuma epidemia de subnutrição por causa do abandono “sem critério” do consumo de leite e derivados.

Muito pelo contrário: diversas instituições públicas de saúde e Nutrição, como o Ministério da Saúde brasileiro, o Conselho Regional de Nutrição da 3ªRegião (também brasileiro), a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, consideram saudável o vegetarianismo bem planejado, que rejeita todo e qualquer alimento de origem animal e usufrui de fontes não animais muito boas de cada nutriente.

Diante desses fatos, o único critério que é preciso se ter para banir de vez o leite animal das refeições é saber de onde obter os nutrientes que até então se ingeria por meio desse líquido.

E, finalmente, é importante ressaltar que a menção aos “cientistas” que “alertam que cortá-lo [o leite da alimentação] pode fazer mais mal do que bem” não os nomeia, nem traz qualquer fonte científica na qual haja pesquisadores defendendo essa posição. Portanto, é uma falácia de apelo à autoridade anônima.

 

Os benefícios vão além do óbvio. A caseína, a proteína do coalho, transporta vitaminas e sais minerais dentro do sangue, e o soro ajuda a matar bactérias, fungos e vírus. Já as proteínas do leite liberam hormônios que aumentam a massa muscular e saciam a fome – ou seja, até ajudam a controlar o peso. “O leite é um alimento que traz mais benefícios que riscos. Até a versão integral traz vantagens: por ter gordura, é uma fonte de vitaminas lipossolúveis, como a A, a D, a E e a K. O leite desnatado tem menos dessas vitaminas”, diz Anna Carolina di Creddo Alves, nutricionista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Aqui temos uma outra falácia: o argumento desconexo (mais conhecido pela expressão non sequitur), no qual a premissa não tem conexão lógica com a conclusão. Temos neste trecho a seguinte linha de raciocínio defeituosa: “O leite e seus nutrientes proveem esses benefícios, logo você só pode desfrutar deles a partir do consumo de leite”.

Além disso, nenhuma fonte que confirme essas informações é revelada. A única “referência” a uma parte delas é a tal nutricionista, que sozinha não pode ser considerada uma fonte confiável, já que não cita estudos nos quais se teve o devido cuidado com a metodologia. É preciso saber, nesse momento, que usar pessoas, sem a referência do que elas falam, como fontes de dados científicos por elas serem vistas como “autoridades” no assunto é uma falácia de apelo à autoridade.

 

Mas o maior argumento a favor do leite está no cálcio. Ele é o mineral mais abundante do corpo, e funciona como um combustível para as células. Quem não ingere a quantidade recomendada (1,2 grama/dia) pode sofrer de osteoporose, insuficiência cardíaca, depressão, demência – e 98% dos brasileiros não consomem esse valor. Além disso, o cálcio do leite é quase insubstituível: um prato cheio de espinafre ou brócolis não tem o mesmo efeito no corpo que tomar um copo de leite, porque enquanto a lactose e as proteínas do leite ajudam na absorção do mineral no intestino, o ácido fítico presente em vegetais a diminui.

É preciso saber que não há um consenso global sobre quanto de cálcio o ser humano adulto antes da menopausa ou andropausa precisa ingerir por dia. A matéria diz que é 1,2 grama por dia, mas outras fontes discordam. Na Austrália, a recomendação diária de cálcio para adultos é de 800 mg, no Reino Unido é de 700 mg, e segundo a Organização Mundial de Saúde, 1 grama, segundo esse estudo. E mais: essa taxa varia de acordo com a idade, e também se a pessoa está gestante ou dando de mamar.

Além do mais, novamente não é revelada nenhuma fonte de que “enquanto a lactose e as proteínas do leite ajudam na absorção do mineral no intestino, o ácido fítico presente em vegetais a diminui”. E deixa-se a entender que só seria possível obter cálcio vegetal de “um prato cheio de espinafre ou brócolis”, ignorando a presença suficiente desse nutriente em uma variedade muito maior de folhas verdes-escuras, leguminosas e oleaginosas.

 

Considerações finais

Diga não ao leite e aos derivados

Apesar de declarar o objetivo de “acalmar” os intolerantes a lactose para que saibam que “podem tomar leite com moderação”, a matéria da Superinteressante é uma demonstração da reação conservadora dos exploradores de animais que patrocinam a mídia no Brasil e em outros países.

Como maneira de promover o respeito aos animais não humanos e aos leitores da revista em questão, esta resposta desmente o mito de que o leite seria um “alimento indispensável”, revelando o quanto esse argumento é baseado em falácias e dados desprovidos de fontes.

Portanto, se você começou a considerar voltar a consumir laticínios por causa do “conselho” da revista, repense isso. Ou melhor, saiba o que é feito com os animais para que haja leite, queijo, manteiga e outros produtos lácteos na geladeira dos não vegetarianos.

4 comments

  1. Excelente resposta meu amigo! Virou moda agora criarem matérias sem fontes e artigos científicos comprovando tais “verdades” que não passam de mentiras por interesse de mercado, sem se importarem com os animais bovinos e muito menos com as condições de saúde da população brasileira. Fico é feliz de perceber cada vez mais desse desespero das indústrias de laticínios, porque a procura pelo leite de vaca está diminuindo, novos produtos veganos/vegetarianos que dispensam a inclusão de laticínio estão surgindo, porém, é triste ver sites como a superinteressante que presa tanto pela ciência, ignorar fatos que estão mais do que claros no mundo da ciência.

    1. Valeu, Ederson =) Perceba inclusive que, como a minha resposta revela, essa reportoscagem vem coincidindo com o lançamento dos leites de coco prontos pra beber da marca Do Bem.

  2. Perfeito! Eu fiquei decepcionadissimo quando vi isso na Super, teoricamente uma revista que incentive a curiosidade e tudo mais. É como se todo mundo lá dentro tivesse morrido ou se vendido pra deixar isso passar.

    1. Valeu, Lucio =) Essa revista já tem pelo menos 15 anos de histórico de incentivar a exploração animal. Lá em 2007 ela reprisava, na edição de 20 anos, uma matéria defensora dos rodeios. E em 2003 publicava artigos contra o vegetarianismo.

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