Resposta à matéria da TV Jornal “Ovo: alimento considerado completo perdendo apenas para o leite materno”

manipulação ovos TV Jornal

Uma matéria da TV Jornal, emissora de televisão de Recife, tem seduzido pessoas não vegetarianas a comerem mais ovos.

Postada na tarde do último dia 11 (acesse o primeiro compartilhamento da página do NE10, da mesma empresa à qual a TV Jornal pertence), ela “informa” os leitores e telespectadores que o ovo de galinha é um alimento “completo” e que o “ideal” seria as pessoas comerem pelo menos um ovo por dia.

Considerando que é uma reportagem que incentiva a exploração animal e o consumo de produtos de origem nada ética e tem indícios de ter sido patrocinada por granjas de galinhas “poedeiras”, há a necessidade de lançar uma resposta vegana, que mostra os erros e omissões da matéria em questão.

Leia esta resposta e perceba que, ao contrário do que a mídia nos diz, comer ovos não é bom para os animais, nem é necessário para os seres humanos.

O que a matéria esconde de você

galinhas aprisionadas para produção de ovos

Exploração animal, um dos detalhes da produção (e posterior consumo de ovos) que a matéria esconde de você

Comento aqui os trechos mais importantes da reportagem, apontando a realidade que a matéria omite de você.

 

“O ovo é um alimento que é considerado rico em minerais, proteínas e vitaminas A, D e E […]”

O ovo pode ser rico em diversos nutrientes, mas isso não significa que seja a única ou melhor fonte deles. Existem diversas opções de fontes não animais desses mesmos nutrientes.

Em primeiro lugar, esses minerais incluem:

  • Cálcio, disponível em folhas verdes-escuras, soja, leguminosas, aveia, brócolis;
  • Selênio, que se obtém de castanha-do-pará (disparadamente melhor do que fontes de origem animal), farinha de trigo (consuma com moderação e prefira a integral), pão francês, arroz, feijão etc.;
  • Folato, que obtemos de fontes como folhas escuras, aspargos, brócolis, frutas cítricas, leguminosas, abacate, quiabo, couve-de-bruxelas, sementes e nozes, couve-flor, beterraba, milho, aipo, cenoura e abóbora;
  • Triptofano, que ingerimos com amendoim, castanha de caju, ervilha, amêndoa, abacate, couve-flor, batata, banana;
  • entre outros, todos os quais podem ser obtidos suficientemente em vegetais.

A proteína, por sua vez, pode ser obtida por completo em leguminosas, como feijão, soja, lentilha, grão-de-bico e fava. Melhor ainda se estas forem combinadas, ao longo de um dia, com cereais como arroz, aveia, quinoa e centeio.

Já a vitamina A pode ser obtida, em forma de carotenoides, por meio de vegetais como cenoura, batata-doce, espinafre, couve-manteiga, mamão, manga e tomate. A vitamina D, por sua vez, é produzida pela pele do nosso corpo quando está em contato com a luz do sol – sendo recomendado expor-se ao sol pelo menos 15 minutos por dia e três vezes por semana. E a vitamina E pode ser encontrada em fontes como gérmen de trigo, oleaginosas, amendoim, espinafre, brócolis, kiwi, manga e tomate.

 

“Por muito tempo se associou o consumo do ovo ao aumento do colesterol e por isso não era recomendado o consumo diário, mas pesquisas têm derrubado esse tabu. Os estudos revelam que o ovo é rico em colesterol, mas o bom. E o ovo agora é considerado um alimento completo, que só perde para o leite materno.”

O colesterol pode não ser hoje um perigo à saúde vindo dos ovos, mas existe um outro que a reportagem não revelou: a contaminação por salmonela.

Ovos crus ou malpassados são especialmente suscetíveis a transmitir essa bactéria causadora da salmonelose, que provoca sintomas como mal-estar, diarreia, vômitos, dor abdominal e de cabeça, calafrios, desidratação e febre.

Em relação ao ovo ser descrito como um “alimento completo”, essa informação pode acabar incentivando o nocivo hábito de dedicar a maior parte da dieta a um único alimento, cujo consumo em excesso geralmente tem péssimas consequências.

O mais saudável, ao invés de se escorar a obtenção de nutrientes de uma única opção de alimento, é diversificar ao máximo possível as fontes de vitaminas, proteínas, carboidratos, gorduras e minerais.

É trazer para as refeições alimentos que, embora pareçam “incompletos” se consumidos isoladamente, têm sua nutritividade completada com a ingestão de outros itens. Por exemplo, fontes vegetais de ferro não heme são complementadas com uma fonte de vitamina C, como sumo de limão espremido no almoço ou suco de alguma fruta cítrica.

 

“O estado de Pernambuco é o maior produtor de ovos do Nordeste e o quarto do Brasil. Por dia são produzidos 10 milhões de ovos em duas mil granjas, a maioria delas localizada na região Agreste.”

Este trecho deixa evidente a razão de existir da matéria. Ela não foi redigida pensando na saúde das pessoas, mas sim no lucro dos pecuaristas granjeiros que exploram e matam galinhas em Pernambuco.

Convido você a conhecer como as granjas costumam explorar as galinhas, lendo artigos como esse. Você descobrirá que, ao contrário do que muitos acreditam, a produção de ovos é essencialmente violenta e demanda muitas mortes.

Mata desde os pintinhos machos, comumente jogados vivos em grandes trituradores por não serem “aproveitáveis” pelas granjas de ovos nem pelas “de corte”, até as próprias galinhas “poedeiras”, mandadas para o abatedouro depois que sua “vida útil” se encerra e convertidas em matéria-prima de nuggets e concentrados de sopa.

Além disso, só existe produção de ovos porque há pessoas que acreditam que os animais não humanos, entre eles as galinhas, são “inferiores” a nós humanos e, portanto, “menos merecedores” de respeito.

Em função dessa inferiorização moral, donos de fazendas e granjas sentem-se autorizados pelos costumes morais vigentes a tratá-las como objetos sob sua propriedade, como máquinas cuja única “função” neste mundo é servir aos humanos produzindo matérias-primas como ovos e carne branca.

É diante do crescimento da consciência vegana e vegetariana que os pecuaristas têm reagido e negociado com a imprensa a publicação de reportagens que parecem informativos úteis para a saúde humana, mas na verdade são publieditoriais mascarados cujo objetivo é proteger o negócio de quem vive de tratar animais como objetos.

 

“Apesar dos benefícios, o consumo dos ovos no Brasil é quase a metade do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “O Brasil tem uma média de consumo de 200 ovos por ano. O ideal seria o brasileiro consumir um por dia”, ressaltou **** da Associação dos Avicultores de Pernambuco (Avipe).”

Essa informação de que há uma recomendação da OMS favorável ao consumo de ovos muito provavelmente é falsa. Não foi encontrada no site internacional da organização nenhuma matéria ou relatório que indique a “necessidade” de se consumir um ou mais ovos diariamente. E nem o representante da associação de avicultores, nem a matéria indica qualquer fonte da OMS sobre isso.

Além disso, como já foi respondido mais acima, não existe nenhuma necessidade inerente ao corpo humano de consumir especificamente ovos, mas sim os nutrientes que esse “alimento” fornece. E esses nutrientes podem ser encontrados em diversas outras fontes, muito mais éticas e saudáveis do que o ovo tomado de galinhas.

 

Considerações finais

Comentário consumo de ovos

Infelizmente algumas pessoas se convenceram, pela matéria em questão, a dar ovos para seus filhos, como mostra esse comentário ao primeiro compartilhamento da reportagem na página do NE10 no Facebook

Matérias como essa da TV Jornal não vêm para informar as pessoas e trazer-lhes bem-estar. Pelo contrário, não raro trazem informações duvidosas, ou mesmo falsas, com o único objetivo verdadeiro de fazer valer o patrocínio de pecuaristas, pescadores e outros exploradores de animais.

É algo semelhante à propaganda de brinquedos direcionada a crianças: ela parece trazer alegria, mas não vem fazê-las mais felizes, mas sim pressioná-las a desejá-los – e até mesmo insinuar que elas serão menos felizes se não os possuírem -, em nome do lucro da indústria desses produtos.

É nessa lógica que a imprensa brasileira e de outros países está se aliando aos setores econômicos interessados na inferiorização moral dos animais, para ambos, em conjunto, tentarem convencer as pessoas a não pararem de consumir alimentos de origem animal.

Afinal, se o veganismo e o vegetarianismo continuarem crescendo, os exploradores de animais irão falir, e lhes interessa mais ganhar dinheiro do que respeitar os animais não humanos e reconhecer que esses seres merecem direitos e respeito.

Não se deixe enganar pela mídia incentivadora do consumo de produtos animais. Ao lê-las, pense em quem vai sair perdendo com essa desinformação: os animais não humanos e provavelmente você próprio.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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