Resposta vegana a Alex Atala

Em 11 de abril passado, em entrevista à revista Época Negócios, o chef brasileiro Alex Atala, confesso apaixonado por alimentos de origem animal, inventou de dar opiniões sobre o veganismo e sua viabilidade ambiental.

Nisso ele acabou trazendo opiniões bastante preconceituosas e carentes de embasamento. Posso dizer que especuladas ou mesmo inventadas, considerando que ele não traz nenhuma fonte que embase seu ponto de vista.

Quero, neste artigo, responder às alegações antiveganas de Atala, em respeito à verdade e em defesa do veganismo e de seus adeptos. Numa época em que a ética dos Direitos Animais, a defesa vegana e vegetariana do meio ambiente e o modo de vida vegano crescem cada vez mais e conquistam um crescente respeito mesmo de grande parte dos não veganos, colocações preconceituosas contra essa tendência ética não têm mais vez, e as dele também não terão.

Os erros e a desinformação dos argumentos de Alex Atala contra o veganismo

Desmatamento amazônico e pecuária
Desmatamento na Amazônia para expansão de pasto. Foto: Greenpeace

O primeiro argumento antivegano de Atala na entrevista veio quando ele respondeu à pergunta “Como consumidores, estamos no caminho da alimentação mais responsável?”. Ele falou:

“O jovem, de maneira geral, tem um tremendo engajamento na questão alimentação versus sustentabilidade. Mas muitas vezes você vê discursos emotivos pouco embasados. Tem que dar conteúdo para esses caras. Esses são os caras do futuro, existe um crescimento de vegetarianismo e veganismo gigante entre eles, mas eles estão (nisso) muito mais pelo lado cool.”

Ele não menciona nenhuma pesquisa que lhe tenha trazido esse dado, nem mesmo menciona exemplos de vivência da parte dele que o tenham feito chegar a essa conclusão. Ou seja, a impressão que temos é que ele inventou essa opinião a partir de improviso, para ter algo a falar sobre o assunto.

Como vegano que observa o movimento vegano-animalista e participa de maneira independente dele, posso dizer que, apesar de algumas ONGs abusarem dos argumentos emocionais, bem-estaristas e individualistas para defender os animais e promover o consumo vegano, não dá para dizer que isso é uma tendência de todo o movimento, ou da maioria dele.

Há muita gente por aí, especialmente na internet, defendendo a ética dos Direitos Animais, algo que é um trabalho fortemente racional, filosófico. É essa, aliás, a forma de atuação predominante do abolicionismo animal, que visa, como seu nome diz, a abolição de todas as formas de exploração animal e da moral especista que as sustenta.

E como autor de blog e livros vegano-abolicionistas, posso assegurar sem nenhuma dúvida que o que definitivamente não falta entre os veganos abolicionistas é conteúdo, embasamento filosófico e desejo de mudar o mundo.

Mais adiante, Atala nos traz outra pérola. À questão “É mais pena do animal do que preocupação com sustentabilidade?” – pergunta essa que invisibiliza o abolicionismo animal -, ele responde:

“Um esbarra no outro. Vejo pouca gente questionando como a comida foi produzida. Ser vegetariano ou ser vegano por compaixão eu entendo, mas e as nossas áreas degradadas? E a nossa biodiversidade? E a preocupação com a emissão de agroquímicos no sul da Amazônia, que cobre todo o nosso Cerrado, que entra no sul-sudoeste da Argentina e vai para outros países? Existe uma forma de agricultura hoje que não mata animais, mas esteriliza ecossistemas, o que é muito mais grave. Por que o discurso só apaixonado pelos animais? Vamos discutir: como aquela soja foi produzida? Como aquela comida vegana foi produzida? E se todo mundo virar vegetariano? O que vai acontecer com o planeta? Tem condição?”

Curiosamente a frase “Vejo pouca gente questionando como a comida foi produzida” se aplica não aos veganos e vegetarianos, mas sim aos próprios não veganos e, com muito mais força, a antiveganos como ele.

Ele mesmo não se questiona, em momento nenhum da entrevista, como são violentos e cruéis os procedimentos por trás da produção da maior parte dos alimentos de origem animal que abastecem supermercados, açougues, hortifrútis e freezers de frios. Nem como o “bem-estar animal” pode acobertar e naturalizar muitas violências que, se fossem cometidas contra cães e gatos, seriam tidas como inaceitáveis.

Meme do Antivegano das Falácias

E quando finge estar sendo cético e questionador perante a produção do que os veganos e vegetarianos comem, novamente não traz aos leitores nenhuma fonte do que ele alega. Não nos diz de onde foi que ele tirou “informações” como as de que:

  • Poucos veganos e vegetarianos (quantos por cento deles?) questionam como os alimentos de consumo humano, em especial os vegetais que eles consomem, são produzidos;
  • O impacto ambiental da produção de um quilo da proteína vegetal consumida por vegetarianos é muito maior do que a de um quilo de proteína animal;
  • A produção de vegetais para consumo humano é o grande vetor de desmatamento e consumo de agrotóxicos nas terras agriculturáveis da Amazônia e do Cerrado;
  • Os hábitos de consumo alimentares veganos e vegetarianos dependem essencialmente da agricultura baseada em latifúndios, agrotóxicos, organismos geneticamente modificados e corporações de biotecnologia, não existindo sem esse modelo agrícola;
  • A soja dos vegetarianos é pior para o meio ambiente do que os alimentos de origem animal e a soja destinada a alimentar rebanhos;
  • O crescimento do veganismo coloca os ecossistemas da Terra sob insegurança e perigo, com consequências futuras potencialmente nocivas.

Mas curiosamente nós vegans temos dados que provam exatamente o contrário de cada uma dessas crenças subentendidas do discurso de Atala:

Além disso, quando ele diz que “ser vegetariano ou ser vegano por compaixão eu entendo”, não está dizendo a verdade. Sua resposta à primeira pergunta, já devidamente refutada, mostra que ele não entende coisa nenhuma do que nos motiva a ser veganos.

E finalmente, mais adiante, ele responde à pergunta “Nem sem carne?” assim:

“Até as alas mais conservadoras da alimentação, dos dois lados – as carnívoras e as veganistas – entendem que o melhor caminho vai ser o do meio, que é o maior consumo de vegetais, comer menos carne e comer todo o animal. Fazer maior uso. Esses dias, numa discussão, alguém disse: mas os pobres querem filé-mignon, os pobres querem picanha. É natural! É delicioso e não tem nada de errado com isso. E nós, ricos, temos de promover isso! Desculpe, nós ricos temos de comer diversidade. A gente é o exemplo, no fim das contas dividimos o mesmo planeta. É função de cada um de nós: um sete bilhões de avos é problema seu, é meu. Não é demonizando ingredientes que a gente vai achar a solução, é comendo um pouco de tudo.”

Só se forem as alas conservadoras mesmo, porque as progressistas, que querem libertar os animais do especismo e ajudar a prevenir o total colapso do meio ambiente, discordam completamente dessa que na verdade é uma falácia de falso meio-termo.

Afinal, não existe um meio-termo possível entre explorar e matar um animal e deixá-lo livre. Não existe “meia liberdade”, nem “meia exploração”, nem “meio especismo”. Ou o animal é explorado ou é livre. Ou o indivíduo é especista ou é vegano abolicionista.

Além disso, respondi a esse apelo à falsa moderação nesse artigo, esclarecendo:

Essa crença permite que a maioria das agressões contra os animais não humanos, como aquelas intrínsecas à produção de carnes brancas, leite, ovos, mel, couro, lã etc., continue existindo. Afinal, o bem-estarismo conserva violências necessárias para a manutenção dessa atividade econômica, como o abate de animais, o aprisionamento, o tratamento de seres sencientes como propriedade de humanos e a conservação de uma cultura de desigualdades morais.

E invisivelmente aos não veganos, proporciona que a exploração animal permaneça devastando o meio ambiente. A mera diminuição do consumo de carne vermelha deixa intocado o de carnes de animais aquáticos, laticínios, ovos, mel, lã, penas, seda, corante carmim etc. E assim conserva grande parte das demandas, da pecuária e da pesca, por grãos vindos de latifúndios, combustíveis fósseis e água, ainda que um pouco menos do que antes.

A consciência de ser errado explorar animais nos faz concluir que a crença de que basta “diminuir o consumo de carne vermelha” e “tratar melhor os animais ‘de produção’” não faz sentido. Apenas a luta contra o especismo, que passa pela massificação do veganismo, pode fazer com que a humanidade deixe de ser violenta contra os animais não humanos. E somente um mundo vegano pode ter condições éticas sólidas de eliminar as violências entre os seres humanos.

Considerações finais

abate de bovinos
Morte violenta de animais em abatedouros: uma das consequências do “meio-termo” leigamente defendido por Alex Atala

É possível perceber, com essas respostas, que Alex Atala se meteu a falar daquilo que não sabe. Ou melhor, que ele se opõe ao veganismo justamente porque não conhece verdadeiramente, nem tem a boa vontade e curiosidade de conhecer, esse modo de vida, seus fundamentos éticos e seus benefícios.

Como disse Fabio Chaves, o chef baseou-se em nada, no mais puro vácuo de conhecimento, para dar colocações tão preconceituosas, de senso comum e desinformativas sobre o modo de vida a que ele se opõe.

Então, se você ainda não é vegan e acreditou nas lorotas de Atala, espero que este artigo tenha lhe mostrado que nada do que ele fala faz sentido e encontra embasamento em fontes, e que o contrário é que é verdadeiro – ou seja, que o veganismo tem comprovadamente muitos benefícios para os animais, o mundo e os seres humanos e nenhum malefício.

E se você já é vegan e veio atrás de uma resposta vegana à altura, peço que compartilhe o artigo para mostrar o contraponto antiespecista para todos aqueles colegas e parentes que acreditaram no chef.

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Maior parte dos grãos vira ração, e não alimento humano – resposta da Sociedade Vegetariana Brasileira à entrevista de Alex Atala

 

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