Artigo de Alberto Giubilini respondido

No último dia 24, o site da Folha de S. Paulo publicou, na seção Ilustríssima, um controverso artigo do pesquisador Alberto Giubilini, que trabalha na Universidade de Oxford.

Segundo ele, aquelas pessoas que não comem carne – erroneamente chamadas de “vegetarianas” – deveriam “flexibilizar” sua ética de respeito aos animais e passar a comer carne em momentos como reunião com amigos e parentes onívoros, já que o “vegetarianismo flexível” seria mais atraente para essas pessoas considerarem aderir do que o “rígido que não aceita exceções”.

Será que o que ele diz faz algum sentido para a ética dos Direitos Animais? É o que vamos ver nesta resposta do Veganagente ao artigo do pesquisador.

Os erros do artigo de Giubilini

Vegetarianos não são bem-estaristas
Foto: Certified Humane (editada)

Antes de trazer uma resposta argumentativa, considero necessário apontar onde foi que Giubilini errou em seu artigo. E acredite, ele errou muito.

Em primeiro lugar, o tempo todo ele fala apenas de carne. Pensa no vegetarianismo como uma opção alimentar que exclui unicamente as carnes das refeições – o que é uma definição para lá de ultrapassada. Ignora completamente os demais alimentos de origem animal – laticínios, ovos e mel -, cuja produção é tão cruel e violenta ou ainda mais do que a da própria carne.

Em segundo, ele encara a alimentação ética como algo que depende sobretudo da opinião e dos costumes de cada pessoa. Ou seja, como algo que, incapaz de se firmar baseado em verdades éticas, precisa da aprovação moral e subjetiva alheia para ser considerado ou esnobado.

O terceiro erro é ele se referir ao problema ético da produção de carne como algo concernente apenas a maus tratos chocantes, violências explícitas que poderiam ser “remediadas” com reformas de “bem-estar animal”. Ele coloca carinhosamente a “produção humanitária” de carne e o “carnivorismo benigno” como antíteses à pecuária de corte industrializada e cheia de cenas de crueldade.

Invisibiliza os verdadeiros problemas éticos da exploração animal: a crença de que os animais não humanos são “inferiores” a nós humanos, a naturalização (que ele mesmo promove) do consumo de animais como algo “não tão negativo”, o uso de animais não humanos como objetos sob propriedade de humanos.

E a quarta – e não menos importante – falha da argumentação dele é considerar o não consumo de carne como algo que pode ser flexibilizado aos caprichos da conveniência individual. Para Giubilini, é como se a exploração e morte do animal a cujo corpo pertencia aquele naco de carne que o “vegetariano (sic) flexível” comeria na visita aos tios fosse “justificável por um bem maior”.

Ele trata a impressão leiga – de extremo senso comum e carente de consciência, diga-se de passagem – dos comedores de carne sobre a necessidade ética de não consumir animais como se fosse moralmente superior e mais importante em comparação à empatia pelos animais. Em outra palavra, para ele importa menos a vida e a integridade do animal abatido do que o que aquele primo frequentador de churrascaria vai achar da alimentação do (proto)vegetariano.

Nesse meio, tem um erro bônus: confundir a recusa do indivíduo de se render a caprichos amorais pessoais com a “intolerância a exceções” no consumo ético. Ele não percebe que o reais casos excepcionais no contexto de não consumir animais são aqueles nos quais o indivíduo precisa ingerir algo de origem animal para sobreviver ou escapar de uma situação de sofrimento e não tem alternativas, como quando precisa tomar comprimidos que contêm lactose ou um remédio em cápsula com revestimento de gelatina para curar uma doença ou uma dor forte.

 

Por que o vegetarianismo ético não é isso que Giubilini mostra em seu texto

Prato realmente vegetariano
A alimentação vegetariana não abre nenhuma exceção para se comer carne em eventos familiares. Foto: Vegano Pelo Mundo

Percebidos os erros da argumentação do pesquisador de Oxford, vamos agora ao contraponto ético abolicionista. Se o autor erra em sua visão pessoal do que são o vegetarianismo e suas razões, qual é a forma mais adequada de pensar a alimentação livre de crueldade?

O vegetariano ético e o vegano evitam todo e qualquer alimento de origem animal não como maneira de demandar um suposto – e totalmente falso – “tratamento mais ético” na criação de animais, mas sim para erradicar do planeta toda e qualquer forma de uso de animais para interesses humanos.

Ou seja, o vegetarianismo ético é baseado numa preocupação ética, objetiva, baseada em fatos – como o fato biológico de que os animais não humanos são seres sencientes, que gostariam de estar vivendo em liberdade, e o de que são tratados como propriedade pelos humanos e submetidos às mais diversas e graves violências -, não em crenças morais que variam de indivíduo para indivíduo.

Por esse motivo, a ética dos vegetarianos está muito acima de qualquer tentativa de agradar a opinião conservadora alheia. Não é porque têm um tio antivegano que eles vão se curvar ao posicionamento preconceituoso dele e aceitar pagar pelo sacrifício de alguns animais em fazendas, granjas e tanques aquícolas só para “soar agradáveis” na hora do almoço em família e convencê-lo a comer menos carne. Há muitas maneiras muito melhores de se promover o consumo ético em situações como essa.

 

Considerações finais

Animais não são comida
Animais não são comida. Nem no dia-a-dia, nem em jantares de família para “não chatear” parentes onívoros. Imagem: Michelson Borges

Apesar de ser um pós-doutorando em Ética, Giubilini, ao escrever sobre esse espantalho de vegetarianismo que só evita carne, é motivado por moral subjetiva e aceita numa boa flexibilizações, mostra não entender bem os fundamentos éticos do assunto sobre o qual discorre.

Na aparente tentativa de fazer menos animais morrerem, ele acaba legitimando que continuem existindo animais aprisionados em criações e passando a ideia equivocada de que é possível, ao mesmo tempo, defender os direitos dos animais não humanos e desfrutar dos restos mortais de alguns deles.

Portanto, se você acreditou que o artigo dele “convida à reflexão”, repense isso, e compreenda a verdadeira razão de ser dos vegetarianos éticos.

6 comments

  1. Muito bem colocado Robson, e é impressionante que não é somente aqui no Brasil essa confusão de que os vegetarianos apenas eliminam a carne animal de sua dieta, o que é um engano como mencionou na resposta, ainda mais se tratando de um estudioso de pós-doutorado, ele deveria ter levado mais a sério as pesquisas e compreendido melhor a ética por trás do vegetarianismo, que não é um status social e sim uma escolha importante para o mínimo a se fazer pelos animais e por todos os problemas presentes no meio-ambiente.

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