VegetariRango e testes em animais

No último dia 11 de março, Flávio Giusti, vlogueiro do canal VegetariRANGO, declarou num vídeo: ele “não boicota a Unilever”. Não considera boicotar empresas que testam em animais como parte do modo de vida vegano.

Ao longo dos 12 minutos e meio de seu vídeo, ele discorre por que não só se nega a boicotar produtos vegetarianos (aos quais ele sempre se referem como “veganos”) de empresas envolvidas com testes em animais, como também defende que mais pessoas consumam marcas vegetarianas de grandes corporações que não anunciaram qualquer política de abolição desse tipo de exploração animal.

Mas será mesmo que o que ele diz faz sentido? O veganismo realmente deve ser, como ele defende, flexibilizado de modo a incluir mais pessoas e aumentar a diversidade de objetos livres de ingredientes de origem animal à venda no mercado?

E aliás, que consequências discursos como o dele, em defesa dessa flexibilização e do consumo de grandes empresas – mesmo quando há opções viáveis -, têm para os animais?

Convido você a descobrir, neste artigo que escrevo em resposta a Flávio – a quem me refiro como “o VR” ao longo do texto.

Respondendo aos argumentos defensores do “veganismo flexível” do VR

Argumento falso sobre testes em animais

O tempo todo o VR usa de um discurso pró-capitalista, conformista em relação ao aético império do mercado e até mesmo utilitarista, lançando mão de argumentos que se pensava terem sido superados desde o começo da ascensão do abolicionismo animal e da ética vegana.

Respondo aqui a cada um dos argumentos que ele usa para defender sua posição, inclusive as diversas falácias do espantalho atiradas contra quem defende o boicote a empresas que testam em animais:

 

“O VegetariRango boicota produtos, e não marcas. O veganismo é assim no mundo todo e não sei por que no Brasil está sendo diferente”

O VR afirma que “boicota produtos”, mas não revela, em momento nenhum do seu vídeo, como ele supostamente faz para saber que aquele item específico foi total ou parcialmente testado em animais ou não pelo seu fabricante.

Aliás, em diversos momentos de seu discurso ele deixa subentendido que um produto de uma empresa envolvida com testes em animais “pode” e até “precisa” ser consumido independente de ele ter sido ou não individualmente testado em animais, por motivos como a companhia buscar evitar ser condenada em processos judiciais.

Quem bate nesse ponto fraco do argumento do VR é Fabio Chaves do Vista-se, que, em seu vídeo-resposta a Flávio, revela que não são só os produtos acabados que são testados, mas também os ingredientes. Ou seja, se o VR tentar boicotar só aqueles produtos que são testados em animais e selecionar os que não foram, não vai conseguir.

Além disso, percebamos que o argumento de que “o veganismo é assim no mundo todo, logo no Brasil não precisa ser diferente” é uma outra falácia: o apelo à geografia, que consiste em considerar um costume eticamente aceitável só porque é praticado num grande número de países.

Curiosamente é uma falácia muito usada por antiveganos, que alegam que “não há por que ser contra a pecuária” e outras formas de uso de animais se elas são praticadas em todos os países do mundo.

E pior: além de ser falaciosa, essa alegação é falsa. A prova está em listas cruelty-free como a da Leaping Bunny e a da famigerada PETA: elas exibem empresas e suas marcas, nunca produtos individuais.

E um outro problema que precisamos levar em conta quando ele fala isso é que, contrariamente ao seu discurso de “simplificar” o consumo “vegano”, ele não está facilitando, mas sim complicando mais a vida dos veganos quando tenta trazer um novo critério para se consumir ou não um produto.

Antes estava estabelecido que o boicote era dirigido a empresas ou pelo menos marcas, e agora, segundo o VR, passaria a ser para produtos específicos. Só que atualmente não existem na internet listas de produtos individualizados que se comprovou que nenhum de seus ingredientes foi testado em cobaias.

E pelo motivo já citado de tanto os componentes quanto a fórmula pronta serem submetidos a testes cruéis por essas companhias, é virtualmente impossível saber se, por exemplo, aquele xampu de jaborandi da L’Oréal ou da Pantene/P&G, ou o creme dental Colgate Tripla Ação comercializado no Brasil, foi ou não testado em animais e teve ou não parte de seus ingredientes injetados em cobaias.

 

Falácia do espantalho: “Vegano de verdade não come junk-food! Tem que comer comida saudável e orgânica”

Há aquela minoria de vegans que evitam consumir junk-food e são adeptos, por exemplo, de uma alimentação crudívora ou frugívora. Mas, se você procurar por alguma definição de veganismo em sites que defendem essas opções alimentares, você não encontrará nenhum conteúdo falando que o veganismo, por exemplo, “também consiste em evitar alimentos de efeitos nocivos ou duvidosos à saúde humana”.

 

Falácia do espantalho: “Todo vegano tem que ser feminista e apoiar a [luta contra a] desigualdade social e o racismo”

Uma coisa é deixar claro que o atributo de vegan compartilha os mesmos princípios éticos de ser feminista ou pró-feminista, lutar contra o racismo, defender o fim das desigualdades sociais etc. e que um “vegano” racista e machista é tão antiético quanto um antivegano que idolatra o bacon.

Outra é definir oficialmente o veganismo como algo que, além da contribuição para a abolição do especismo, “exige” participação ativa e assídua em movimentos sociais. E isso eu garanto que ninguém no ativismo vegano-animalista faz, nem os veganos interseccionais.

Além disso, se o VR “concorda” que um vegano não deve ser machista e racista nem apoiar exclusão social, então foi desnecessário ter mencionado esse argumento da mesma maneira, com uma entonação negativa e estereotipada, que os supostos argumentos aos quais ele “responde” em discordância.

 

Sobre a definição da Vegan Society que ele parafraseia

A Vegan Society enfatiza sim que o veganismo deve ser vivido na medida do possível e praticável. E boicotar empresas que testam em animais na maioria das situações é algo muito viável para os veganos.

Afinal, já há muitas empresas por aí declarando que abandonaram a prática de testes em animais graças à pressão popular, ou que nunca os promoveram nem os subsidiaram. Só em alguns casos, em parte das cidades brasileiras, é que alguns produtos não possuem opções veganas (ou seja, livres de ingredientes de origem animal e feitos por empresas que não realizam testes em animais) localmente à venda e os veganos mais pobres não podem se dar o luxo de comprá-las de outros estados via internet.

Em outras palavras, se você pode substituir ou abrir mão do salgadinho daquela grande corporação que se recusa a parar de financiar testes em animais, então não há razões válidas para evitar fazer isso. Consumir um produto especista como esse sem que haja uma necessidade urgente acaba sendo uma violação da ética vegana.

 

“Veganismo é algo prático, não teórico. Pros animais não adianta nada esse discurso teórico perfeito, e sim na prática o que você faz por eles.”

O VR cai em outra falácia do espantalho, ao presumir que o discurso de quem é contra empresas que testam em animais defende um veganismo “perfeito” e “viável apenas na teoria”.  E trata indevidamente como um monstro de sete cabeças o simples e fácil hábito de evitar comprar daquelas empresas que testam em animais que podem ser boicotadas no dia-a-dia.

 

“Nenhuma empresa tem ideologia. Nem as veganas. Não se iluda. A ideologia de uma empresa é o lucro, senão seria ONG. Empresas pensam em ganhar dinheiro, quem pensa em ajudar bicho é ONG. Não sei como a galera acha que uma coisa tem a ver com a outra. […] As empresas estão pensando em lucro! Elas não estão nem aí pra mim, pra você, pro meio ambiente ou pros animais.”

Por meio de seu vídeo, ele vem nos dizer que, já que as empresas nunca vão aderir a políticas de responsabilidade socioambiental e começar a respeitar os animais mesmo, então só nos resta “salvar” aquela fração de animais que seria viável salvar, ou seja, aqueles criados ou pescados para virar ingredientes de produtos industrializados.

E para isso, “deveríamos” aceitar o sacrifício de coelhos, porquinhos-da-índia, camundongos etc. em laboratórios para livrar bovinos, porcos, frangos e galinhas, peixes etc. de nascerem numa criação e serem abatidos.

Lamento em informar ao VR, mas esse argumento cai no utilitarismo de gente como Peter Singer e Jeremy Bentham, uma vertente de “defesa animal” que se opõe ao abolicionismo e se conforma apenas em salvar um número maior de animais mesmo que alguns outros seres sejam sacrificados.

Em outras palavras, ele, mesmo sem querer, jogou a toalha no objetivo de forçar as empresas a pararem de explorar animais. Desistiu da libertação animal.

E agora tenta convencer seus telespectadores a desistirem também e adotarem uma perspectiva de trocar um procedimento especista por outro que usa e mata um número menor de indivíduos.

Além disso, mesmo que ele venha responder dizendo que “é contra produtos testados em animais”, ele não conseguirá sustentar seu ponto sem cair em contradição com seu conformismo perante a falta de senso ético no capitalismo.

Afinal, se uma empresa “não tem ideologia” e não liga para o veganismo, então absolutamente nada a impede de começar a testar em animais aquele produto individual que até então não era. E aí aquelas pessoas que pensam como ele ou estarão vulneráveis a perder cada vez mais produtos, ou se resignarão a começar consumir produtos testados em cobaias.

E mais: ele dá às empresas total respaldo para que descartem qualquer possibilidade de abandonar o uso de cobaias. Afinal, para ele elas estão desobrigadas de assumir qualquer compromisso do tipo, já que são companhias capitalistas e “capitalismo é isso”.

 

“As empresas fazem testes em animais porque, principalmente lá fora, qualquer coisa dá processo. Nego tomou um café no McDonald’s, queimou a boca, tacou um processo de 3 milhões de dólares no McDonald’s e ganhou. Porque a Justiça lá não é como aqui no Brasil, ela funciona. […] Os testes em animais são só pra tirar o … deles da reta caso tenha processo, porque eles não vão botar milhões a perder por causa de um jabuzinho(?) de bosta.”

O que ele sugere para mudar essa realidade e fazer com que as empresas não precisem mais usar laudos de testes em cobaias para se livrarem de processos? Nada!

Ele nos diz, nas entrelinhas, para nos conformarmos com o fato de que as empresas continuarão testando parte de seus produtos e ingredientes em animais, que elas precisam fazer isso para sobreviver.

Lembremos que defender que uma determinada atividade de exploração animal é “necessária” e portanto devemos aceitá-la e deixar que se perpetue tem um nome. Se chama especismo.

 

Falácia do espantalho: “Mas eu só compro de empresas veganas. Eu não vou dar apoio pra essas empresas que exploram animaizinhos.”

O VR confunde o hábito de não comprar produtos de empresas que testam em animais com não comprar nada de empresas que não sejam absolutamente veganas. Uma absurda distorção de fato misturada com falácia do espantalho.

 

Sobre a frase de Francione: “Se você for boicotar todas as empresas que exploram animais diretamente ou indiretamente, então você terá que boicotar todas as empresas do mundo!” e a alegação do VR de que “essa frase é de um dos maiores ativistas do mundo, Gary Francione”

Essa frase, apesar de fazer sentido quando se debate a (im)possibilidade de se ter um consumo 100% vegano, foi descontextualizada pelo VR, de maneira que passa a soar como se Francione estivesse se colocando contra o ato de boicotar empresas que testam em animais e pressioná-las a abandonar esse cruel tipo de procedimento.

Além do mais, a forma como o VR usa essa frase é falaciosa: ele usa a autoridade de Francione para “legitimar” sua própria colocação a favor de empresas que testam em animais. Ou seja, usa de apelo à autoridade misturada com distorção de fato.

 

“Todo estabelecimento comercial precisa fazer dedetização pra [matar] insetos, pra [matar] ratos; usar produtos de limpeza conforme as normas da Vigilância Sanitária… E nem sempre são produtos veganos, porque senão você não consegue o alvará de funcionamento.”

Em momento nenhum os veganos contrários aos testes em animais exigem de si mesmos e dos outros que boicotem supermercados e mercearias que fazem dedetização. Aliás, como não é viável deixar animais transmissores de doenças vivos dentro desses estabelecimentos – já que ainda não foi criado um repelente vegano perfeito que impeça a presença deles nesses lugares -, então estamos diante de um limite do veganismo.

Só que esse fato é indevidamente usado como se justificasse o ato de comprar de empresas que testam em animais. Ou seja, é uma falácia de argumento desconexo, ou non sequitur, já que cria uma falsa conexão entre uma premissa (“Estabelecimentos comerciais não podem prescindir de matar insetos e ratos com dedetização”) e uma conclusão (“Logo, não é justificável boicotar empresas que testam seus produtos em animais”) que não se batem uma com a outra.

 

“Na maioria das empresas veganas que você conhece, os donos não são veganos. E todos os funcionários e parceiros da empresa também não são veganos.”

Essa alegação se baseia na já mencionada falácia do espantalho de que vegans que boicotam empresas que testam em animais estariam exigindo um veganismo perfeito e total desconexão de empresas e pessoas não veganas.

 

“O que eu acho engraçado desses veganos chatos que boicotam a Unilever é que, todo final de semana, eu cruzo com eles lá no Prime Dog, […] uma lanchonete daqui de São Paulo que tem muitos lanches veganos, só que serve carne [em outros lanches].”

Uma coisa é boicotar empresas que testam em animais – que atualmente é algo que pode ser abolido sem grandes esforços pelas empresas. Outra é boicotar empreendimentos que usam ingredientes de origem animal em parte de seus produtos – aqueles que os veganos não consomem.

Nós vegans até gostaríamos de ter condições de eliminar de nossa lista de compras toda e qualquer empresa que fabrique e/ou comercialize produtos com ingredientes de origem animal. Mas isso só vai ser viável num futuro em que haja um número enorme de indústrias e estabelecimentos comerciais declaradamente veganos, que afirmam e comprovam não testar nada em animais nem usar insumos de origem animal em nenhum de seus produtos.

Afinal, há toda uma tradição econômica aprovada pela maioria da população – a qual nós vegans combatemos todos os dias por meio da conscientização e do ativismo – envolvendo criação de animais para consumo. E já foi comprovado que atualmente é ineficaz boicotar empresas que possuem produtos não vegetarianos, já que qualquer tentativa disso irá privar o vegano de pelo menos 95% de suas opções de locais de compra.

 

“Se você boicotar tudo que não é vegano, você vai ter que boicotar então a sua mãe, o seu pai, sua avó, seu vizinho, sua namorada, seu marido…”

Outra falácia: a redução ao absurdo, que consiste em especular consequências absurdas e falsas de um determinado ato ou ideia. Curiosamente uma linha de raciocínio muito usada por antiveganos, quando, por exemplo, alegam que “os veganos terão futuramente que parar de matar plantas e bactérias e comer só frutas que caem da árvore”.

 

“O veganismo tem que ser inclusivo, do jeito que essas … estão fazendo, só vai espantar a galera. Em vez de estender a mão pra apontar o dedo na cara e julgar, por que não estendem a mão pra ajudar o amiguinho?”

Aqui ele curiosamente discursa contra o ato de “apontar o dedo na cara e julgar” logo depois de fazer um julgamento pesado e ofensivo de quem discorda dele – que eu suprimi da citação e substituí por reticências.

E deixa a entender que defender o boicote a empresas que testam em animais implicaria ser “excludente” e “dificultar as coisas”. Trata algo relativamente simples de se fazer no dia-a-dia como se fosse uma enorme dificuldade.

Além disso, podemos muito bem interpretar a palavra “inclusivo”, que ele usa nessa citação, como “flexível”, “tolerante aos testes em animais” e seletivo, que só defende alguns animais não humanos.

 

“Tinha um único chocolate branco [‘vegano’] no Brasil e parou de fabricar. Sabe por quê? Porque ninguém tava comprando. A mesma coisa aconteceu com aquela gelatina ‘vegana’ Meu Lanchinho da Dr. Oetker, parou de fabricar. Ou seja, esses veganos querem boicotar todo mundo!”

Em primeiro lugar, há diversas marcas de chocolate branco realmente vegano em cidades brasileiras, como a Chocosoy da Olvebra e a Tri-Gostoso.

Em segundo, as empresas precisam entender que veganismo não é um nicho de mercado, algo a ser explorado de maneira amoral, sem compromisso pelos animais. Não basta que o produto seja livre de ingredientes de origem animal. Para ser aceita pelos veganos, a empresa precisa abandonar os testes em animais e o patrocínio a atividades especistas, como os rodeios. Caso contrário, ficará claro que ela está tentando se aproveitar da causa vegana só para lucrar, não por uma política de responsabilidade socioambiental e ética legítima.

E em terceiro, se fôssemos seguir a lógica desse pensamento de que “esses veganos querem boicotar todo mundo”, não demoraria muito para considerarmos “absurdo” boicotar produtos que contivessem quantidades pequenas de ingredientes de origem animal – por exemplo, um chocolate sem lactose com um pouquinho de caseína, ou um biscoito/bolacha levemente colorizado com corante carmim. Afinal, precisamos “ser flexíveis”, “não dificultar as coisas para quem está entrando”, “tornar o veganismo inclusivo” e “aceitar que o mercado não tem ideologia e só pensa em lucro”.

 

“[…] o dilema das empresas 100% veganas: são pequenas, não têm subsídios do governo, altos custos de produção… Resultado: um produto mais caro. Aí vem uma Unilever da vida, com alta produção, subsíduo bagaraio do governo, tem a r… mais grossa, e aí ela consegue entregar um produto mais barato pro mercado.”

Nessa citação o VR defende que as grandes corporações não só continuem abusando do rótulo de “vegano” em marcas testadas em animais, mas também que tratorem as micro e pequenas empresas com práticas de concorrência desleal, como oferecer produtos artificialmente baratos e promover marketing abusivo, e convençam os consumidores de que aceitar sua política de permanecer testando em animais em troca de alguns produtos vegetarianos a mais nas prateleiras é um “mal menor” para o Reino Animal.

Essa fala, além de incorrer no discurso machista de tratar a posse (mesmo metafórica) de um pênis grande como se fosse uma virtude, é um enorme desserviço para quem luta para democratizar e popularizar o empreendedorismo vegano socialmente comprometido.

Me parece que o “mercado vegano” desejado pelo VR é um mercado dominado por grandes corporações, com as pequenas empresas veganas falindo ou sendo engolidas pelas gigantes que testam em animais, sem mais nenhum objetivo, por parte dos consumidores, de abolir os testes em animais e outras práticas especistas e antiéticas apoiadas por essas companhias.

É um mercado no qual o veganismo se torna uma palavra vazia, alienada de seu sentido ético e político, associada não mais à luta pela libertação animal, mas sim ao oportunismo corporativo e a um consumo que não leva mais em consideração o fim do especismo e a promoção de transformações sociais e econômicas positivas.

 

“A matemática é simples, minha gente: mais um produto vegano na gôndola, menos milhares de animais mortos. As empresas estão se ligando nesse crescimento do mercado. […] os caras se baseiam em fatos concretos, estatísticos.”

Essa “matemática” pode parecer simples – ou melhor, é simplista. Mas por outro lado é algo que descamba no mais resignado utilitarismo, na já comentada crença conformista de que, já que “não é possível” libertar todos os animais, então vamos libertar só aqueles que podemos, mesmo se isso implicar sacrificar outros.

 

“Aí que é f… Chega você, que tá chegando nesse mundo agora, e começa a ver […] e começa a achar que o veganismo é impossível. Cara, eu te digo: se eu sou, e milhões são, você também pode ser. […] Não vai na onda desses …”

Pela enésima vez, e novamente apontando o dedo julgador e insultador para quem tem uma visão diferente da dele, o vlogueiro deixa a entender que boicotar empresas que testam em animais tornaria o modo de vida vegano “impossível”. E se declara “vegano” mesmo consentindo e defendendo implicitamente que as empresas que testam em animais não recebam mais a oposição dos veganos.

Ou seja, é um “vegano” que tolera e relativiza algumas formas de exploração animal para que outras sejam diminuídas. É tão “vegano” quanto aquele ex-atleta que arrogava para si esse rótulo enquanto comia peixe no seu retiro florestal.

 

“Agora se você quer mesmo ajudar os animais, na prática, cada produto ‘vegano’ que uma empresa não vegana lançar, ou ela readaptar, divulgue pros seus amigos, divulgue pra sua família, mande um e-mail ou ligue pro SAC parabenizando… A cada produto novo ‘vegano’ que entra no mercado, menos animais deixam de sofrer. Essa é a matemática.”

Aqui ele repete a “matemática” utilitarista de “salvar” animais “de consumo” aceitando-se o sacrifício dos “de laboratório”. E tenta induzir os telespectadores não só a esquecer esses segundos, mas também a aplaudir e apoiar as empresas que exploram o “nicho de mercado vegano” de forma aética e oportunista e tentam corromper o objetivo do nosso modo de vida.

Em momento nenhum, aliás, ele diz para que os mesmos consumidores que mandarem e-mail para essas empresas parabenizando-as pressionem-nas para abandonar os testes em animais nos produtos que ainda são submetidos a esses procedimentos.

 

“E não precisa nem falar que, se você é vegano pelos animais, valorize cada passo que a humanidade está dando, que quem sai ganhando são eles, os animais.”

Ele fala de “passos que a humanidade está dando”, mas, pelo conteúdo do vídeo, nos “orienta” sem querer a aplaudir também os passos para trás do movimento vegano-animalista.

Afinal, ele tenta desempoderar a atuação dos veganos contra a cruel e inaceitável prática industrial dos testes em animais, traz um discurso que apoia que as gigantes alimentícias sobrepujem os pequenos negócios veganos, aceita explicitamente que as empresas não adotem o respeito aos Direitos Animais em sua política institucional e também defende expressamente que o capitalismo tome de assalto o conceito de veganismo moldando-o para o anseio de lucro a todo custo das grandes corporações.

 

“O mundo não é e nunca foi um lugar perfeito, e infelizmente nós também não somos. E não precisa nem falar que é óbvio que, se a gente tiver opções de empresas que tiverem uma proposta mais vegana, a gente vai comprar delas, é óbvio.”

Nessa lógica, se o mundo “não é perfeito e nunca vai ser” e as empresas “só pensam em lucro”, “não vão aderir” à ética animal e vão continuar explorando cobaias em laboratórios, então devemos “aceitar” isso, mesmo que a “imperfeição” específica desse contexto se trate de especismo.

Além do mais, ele diz que “é óbvio” que vai comprar de empresas com proposta vegana. Mas esquece suas próprias declarações anteriores, no mesmo vídeo, de que “o mercado só pensa em lucro”, “nem as próprias empresas veganas têm ideologia”, “as empresas testam em animais para se livrar de processos”, “se a Unilever oferece produtos ‘veganos’ a preços mais baixos do que os pequenos negócios, então vamos comprar dela” etc.

 

“O veganismo não é um título de pureza que você ganha pra massagear o seu ego. Escute mais seu coração, deixa fluir, p… Tudo que é muito rígido quebra. Por isso que tem aquela parábola budista lá de que a gente tem que ser flexível como um bambu. Foca na luta pelos animais que veganismo é isso aí.”

Sabe quem também usa esse tipo de argumento, o apelo à moderação – que também é uma falácia quando o debate é sobre adotar ou não um modo de vida ético? Sim, os especistas. Especialmente os defensores do bem-estarismo e da mera redução do consumo de alimentos de origem animal como “opção menos radical”.

Considerações finais

No que dá defender veganismo capitalista

Chegamos a um ponto em que pessoas autorrotuladas “veganas” – e supostamente com muita veteranidade no veganismo – estão defendendo que “devemos ser mais flexíveis”, que um modo de vida antiespecista realmente abrangente é algo “inalcançável” e “muito rígido”.

Estamos num estado de coisas em que supostos veganos usam tal discurso para defender o utilitarismo animal em detrimento do abolicionismo, exaltar grandes corporações dotadas de um amplo histórico de violação dos Direitos Animais – e também dos Direitos Humanos, em nenhum momento mencionados no vídeo, diga-se de passagem – e até mesmo apoiar sua supremacia sobre os pequenos empreendimentos.

Essa é uma das muitas consequências perniciosas de se permitir a apropriação do veganismo pelo capitalismo. Sua essência política e ética se perde. Um conceito tão bonito, abrangente e engajado se torna meramente um hábito de consumo falsamente engajado, tomado de assalto por empresas que só querem lucrar em cima do sofrimento animal não humano e humano.

Vira algo parecido com achar que tomar Coca-Cola com foto de Pabllo Vittar no rótulo é “defender a causa LGBT”, ou que comprar “carne verde” pode ajudar a preservar o meio ambiente.

Precisamos desmontar esse tipo de discurso, cujos autores, sem perceber, acabam nos alertando que valorizar demais o “capitalismo vegano” é diminuir o próprio conceito de veganismo e torná-lo permeável a cada vez mais formas de exploração animal e humana.

Façamos o que pessoas como Fabio Chaves fizeram: defendamos o boicote a empresas que testam em animais como parte essencial do modo de vida vegano. Esse hábito, adotado na medida do possível e praticável assim como todos os demais costumes veganos, não é nenhum demônio de sete cabeças.

E também importante: quando consumirmos algo, levemos em conta não só se ele tem ou não um impacto para os animais não humanos, mas também para o meio ambiente e os próprios seres humanos. Não aceitemos nenhuma tentativa de nos convencerem a tolerar essas violações ou uma parcela delas pelo capitalismo e pelo especismo.

4 comments

  1. EXCELENTE TEXTO!
    muiiito obrigada pela dedicação em analisar cada argumento falacioso.
    infelizmente o VR é um desserviço à causa, desde o desperdício de comida a uma posição que banaliza o machismo contido em expressões, “gifs”, memes… que ele faz uso.
    fazendo tudo isso pra passar a ideia de que é “cool”, “sem frescura”?
    se for assim, prefiro mesmo ser chamada de vegana chata! ou melhor, vegana feminista ecossocialista “chata”.
    abraço!

  2. Olá, obrigada pelo texto, ajudou a esclarecer várias coisas. Eu tinha visto o vídeo do VR e do F. Chaves, achei isso do VR, ele não dá uma saída, uma solução; que na minha cabeça tb é pressionar empresas para parar testes em animais. Porém não acho que ele seja um desserviço à causa, mas sim tem uma opinião questionável sobre esta questão. O que eu ainda tenho dificuldades para entender: por que comer numa lanchonete como Prime Dog é ok, mas comprar uma marca que testa não é ok? Lembro que no vídeo do Chaves ele fala que carne e derivados são uma demanda do mercado, mas que testes em animais não são. Não são diretamente, afinal, realmente ninguém defende testes em animais abertamente, como defendem carne; mas também poucos são a favor de que matem um animal na sua frente (ou querem matar o animal eles mesmos) para que o comam. Mas querem sim o hamburger pronto pra comer, assim como querem o produto testado pronto para usar.
    Concordo plenamente que o veganismo deve manter-se correto e crescer dessa forma; não flexibilizar-se para ser mais abrangente. Mas vejo, por exemplo, a frase do VR quando fala com pessoas que querem se tornar veganas, que o que ele quer dizer é que pode-se dar um passo de cada vez, e que a consciência vai aumentando ao longo do tempo, à medida que você vai se informando sobre o que é testado, o que é vegano, o que não é. Mas realmente ele fala isso daquele jeito que todo mundo sabe, grosseiro e talz, meio desnecessário.

    1. Oi, Sofia, obrigado tb por apreciar meu texto-resposta =)

      Sobre boicotar empresas que testam em animais mas não boicotar o Prime Dog, é porque hoje veganos não podem contar exclusivamente com lanchonetes totalmente vegetarianas/veganas. Em muitos municípios brasileiros sequer existem lanchonetes onívoras com alguma opção de sanduíche vegetariano/vegano. Com isso, não se pode ter o hábito de comer apenas em lanchonetes veganas/vegetarianas no Brasil. Isso só será possível num futuro em que o veganismo estiver mais disseminado, a população vegana e vegetariana for bem maior do que hoje e realmente valer a pena investir exclusivamente no público vegano, vegetariano, em transição e simpatizante da culinária vegana.

      Sobre “dar um passo de cada vez”, o VR na prática defende que as pessoas estacionem no patamar em que estarão boicotando produtos comprovadamente testados em animais. Ele defende não que as pessoas avancem e amadureçam pouco a pouco no modo de vida vegano, mas sim que o veganismo seja “flexibilizado” e retrocedido de modo a acolher alguns hábitos de consumo especistas.

      E concordo sim que ele se expresse de maneira grosseira. Inclusive ele fala constantemente de quem aponta o dedo e julga, mas o que ele mais faz no vídeo, fora defender a flexibilização do veganismo, é dedar e julgar quem discorda dele.

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