Você tem um restaurante “vegetariano”, mas, em crise, pensa em começar a vender pratos com carne? Este texto pode salvar seu negócio

Clássica foto de restaurante "vegetariano" que dizia servir carnes. Isso é um exemplo de atitude administrativa que comento neste artigo

Clássica foto de restaurante “vegetariano” que dizia servir carnes. Isso é um exemplo de atitude administrativa que comento neste artigo

Será mesmo que desistir do protovegetarianismo de seu restaurante é uma ideia razoável para remediar os efeitos crise nele? Seus clientes vão receber isso bem?

Restaurante protovegetariano = que não vende nada com carne, mas oferece alguns pratos ou opções que são ou contêm laticínios, ovos e mel

Seu restaurante protovegetariano (ainda muito conhecido como “vegetariano”) está em crise por conta da queda da clientela? Se sim, isso está fazendo você começar a vender pratos com carne, “ainda que” inicialmente branca? Se você está com essa ideia em mente, recomendo enfaticamente que leia este texto, porque ele pode salvar o seu negócio da bancarrota.

A crise e o suposto fracasso da comida “vegetariana”

Prato de algum restaurante vegetariano ou protovegetariano brasileiro

Neste ano de 2016, a economia brasileira está sofrendo uma crise, a mais séria desde a da Rússia de 1998. E ela tem vindo acompanhada de inflação acentuada para os padrões do real. Com isso, as pessoas estão com menos dinheiro reservado para gastar em lazeres custosos e alimentações opcionais, como em restaurantes onde só é possível para a maioria almoçar de vez em quando.

Ou seja, esses estabelecimentos, pelo menos aqueles que não usaram de inovação e criatividade elevada para dar um atrativo a mais para o seu negócio nestes tempos difíceis, estão enfrentando uma queda na quantidade de pessoas que vão lá comer. E, por tabela, ganhando menos dinheiro e lucrando menos.

E nessa situação, alguns restaurantes “vegetarianos” (na verdade protovegetarianos) estão no desespero. Parte de seus donos têm tido a impressão de que ser uma comedoria protovegetariana “não está dando certo”.

Com isso, eles têm começado a ter a ideia de desistir do rótulo de “restaurante vegetariano” e começar a oferecer carne com o intuito de conquistar alguns clientes a mais e, assim, recuperar o lucro perdido com a crise.

Mas dou um alerta: essa ideia pode ser um tiro a sair pela culatra – e ainda de quebra ferir gravemente, senão mortalmente, seu negócio.

 

Por que é uma má ideia começar a vender pratos com carne

Gráfico de queda e crise

A atitude de começar a vender pratos ou opções com carne – mesmo que mantendo o oferecimento de opções vegetarianas (mais conhecidas como opções veganas) ou sem carne – reflete algo que a provável maioria dos seus atuais e antigos clientes – vegans, vegetarianos e protovegetarianos* – repudia do fundo do coração: a aceitação e apologia do consumo de carne como algo “normal e natural”.

Acredite também: os veganos e vegetarianos desejavam e esperavam muito que o seu estabelecimento tomasse um rumo totalmente diferente: que abandonasse de vez os derivados de origem animal. Muitos consumiam lá tendo isso como condição de continuar sendo seus clientes fiéis. E odiarão se você, ao invés, aumentar ainda mais a variedade de produtos animais à disposição.

Essa postura de trair a expectativa e confiança deles significará que seu restaurante não tem como princípio o respeito pelos animais. Ficará claro que você não se importa nem um pouco em financiar a exploração animal, o sofrimento e a morte de seres sencientes em nome do lucro.

Aliás, mesmo quando era um restaurante protovegetariano, considerando os anos que passou comercializando opções baseadas em leite, mel e/ou ovos, era duvidoso para muitos que você intencionasse respeitar os animais por meio de seu restaurante.

Mas boa parte dos clientes tinha a esperança de que você desse uma guinada vegetariana/vegana e declarasse, de uma vez por todas, seu negócio como “amigo dos animais”. E agora você está prestes a trair a eles e aos animais não humanos.

E sabe no que isso vai resultar? Em coisa boa? Não.

O que vai acontecer é que esses clientes indignados vão simplesmente deixar de comer em seu restaurante. Vão boicotá-lo enquanto não desistir de vender carne – ou mesmo enquanto não assumir o respeito aos animais como princípio ético e deixar para trás também a venda de pratos com outros ingredientes de origem animal.

E recorrerão a outras opções locais ou municipais de restaurantes, deliveries ou lanchonetes que têm mais respeito pela vida animal, ou que pelo menos a desrespeitam menos. Aliás, caso não contem com tais opções, preferirão trazer marmita ou comer em casa a voltar a frequentar seu estabelecimento.

Consequentemente, você perderá ainda mais clientes.

E considerando que o restaurante e seus funcionários não têm experiência em preparar e oferecer pratos com carne, é provável que você também fracasse em conquistar clientes onívoros. Afinal, eles preferirão comedorias mais bem estabelecidas e experientes, ou que comercializem seus pratos a preços mais baratos.

Ou seja, ao invés de salvar o seu negócio, o que você fará, caso vá adiante com a infame ideia, é acender o estopim da banana de dinamite que vai demoli-lo de uma vez por todas. E mesmo esse estopim pode não ser uma cordinha tão comprida a ponto de dar a você tempo de repensar e voltar atrás.

 

A hora é essa de investir em culinária realmente vegetariana

Balcão de self-service de restaurante vegano de Roma

Balcão de self-service de restaurante vegano de Roma

Os negócios que investem em produtos veganos, em especial alimentos, são uns dos poucos que têm resistido à atual crise e vivenciado uma generosa alta em suas vendas. Estima-se que o crescimento de seus ganhos esteja em torno de elogiosos 40% ao ano.

Ou seja, a boa ideia é não expandir a variedade de produtos animais à venda, mas sim eliminá-los de vez dos balcões de comida e apostar todas as fichas no nicho de mercado vegetariano.

Ao assumir a ética animal como valor moral respeitado por seu estabelecimento, você conseguirá convencer muito mais pessoas do meio vegetariano e vegano a comer lá.

O que eles, cuja população cresce hoje exponencialmente, mais procuram, aliás, é ter um estabelecimento realmente vegetariano, onde se possa comer com prazer e sem nenhuma preocupação com ter que investigar e ficar perguntando o que leva ou não ingredientes de origem animal.

Além do mais, se você converter seu restaurante em vegetariano, estará provendo uma formidável ajuda para impulsionar o crescimento da porcentagem de vegans e vegetarianos no Brasil. E por tabela, poupará muitos animais de nascerem para uma vida de exploração, privação de direitos e violência – e salvará literalmente a vida de incontáveis peixes que seriam pescados nos rios, lagos e mares.

E aliás, a hora é essa também de você conhecer plenamente o veganismo e se tornar vegan também. Se você quer atender bem vegans e vegetarianos, você precisará também se tornar um(a) deles. E sobretudo, os animais precisam de você para aderir à causa vegano-abolicionista.

 

Considerações finais

Restaurante O Vegetariano, Recife

Restaurante O Vegetariano, de Recife, onde o buffet não tem produtos animais

Desistir do rótulo de “restaurante vegetariano” poderá ser a pior decisão de sua vida profissional. Isso fará você perder a maior parte de seus clientes veganos e vegetarianos e fracassar em substituir aqueles que você perdeu para a crise por consumidores onívoros. E, finalmente, fechar as portas.

Diz a tradição chinesa que a crise também é um momento de oportunidade. E em se tratando do mercado vegetariano de hoje, essa é uma verdade quase inquestionável.

Ou seja, o que você precisa é colocar a criatividade empreendedora para funcionar, dar uma renovada vegetariana no seu estabelecimento e fazê-lo ter mais atrativos, em especial algum ou alguns que nenhum outro restaurante de sua cidade ofereça hoje, para vegans, vegetarianos e pessoas abertas à possibilidade de aderir ao veganismo.

O negócio (em todos os sentidos da palavra) é inovar, fazer a diferença e assumir a dianteira. Esse diferencial que você vier a adotar será aquilo que salvará sua comedoria e a fará se tornar ainda mais conhecida, frequentada e respeitada do que sempre foi.

Experimente isso, ao invés de promover o retrocesso ético. Muita gente sairá ganhando: você, seus funcionários, seu negócio, seus clientes, o veganismo no Brasil e, sobretudo, os animais não humanos.

 

*Pessoas protovegetarianas são aquelas que, apesar de terem deixado de comer carne, ainda consomem outros alimentos de origem animal, mas intencionam transicionar para o vegetarianismo (alimentação sem nenhum componente animal) ou já estão em transição para o mesmo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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