Sacrifícios animais em religiões de matriz africana: por que defender e forçar leis proibindo-os é uma péssima ideia

Atualizado em 13/02/2016 às 16h17.

Alerta de texto polêmico. Devo deixar claro, antes de você iniciar a leitura: eu sou contra sacrifícios de animais em rituais religiosos, e este texto reforça essa posição ao defender uma maneira mais eficaz e não violenta, do que as leis de proibição e repressão, de promover a abolição gradual dos rituais sacrificiais. Mais esclarecimentos sobre o que vier a ser mal entendido estão neste texto complementar, de 13/02/2016.

Recentemente o município de Valinhos/SP sancionou a proibição do sacrifício de animais em rituais religiosos, e muitos defensores animais comemoraram. Essa ocasião desperta mais uma vez um debate sempre polêmico: as leis que visam proibir ritos de sacrifício animal realmente intencionam e conseguem proteger os animais, ou são recheadas do interesse escuso de perseguir as religiões de matriz africana e as culturas negras como um todo? E é justo promover uma defesa animal violentamente divorciada das questões de dominação e discriminação contra determinadas categorias humanas?

Eu pessoalmente não sou a favor da perpetuação dos sacrifícios religiosos de animais, e acredito que um dia essa tradição será superada. “Mas” sou partidário da ideia de que essa superação jamais se dará por meio da violência do Estado, sob a forma da sanção legal-penal, tampouco por meio de uma imposição autoritária da ética vegano-abolicionista nos meios religiosos em que há o costume do sacrifício animal.

Ao meu ver, o questionamento das tradições religiosas se dá dentro do contexto cultural no qual elas existem. Ou seja, cabe aos candomblecistas e quimbandistas veganos (a umbanda não sacrifica animais) dialogarem com os não veganos de suas religiões, sobre como os Orixás encaram os Direitos Animais e como o candomblé e a quimbanda podem se adaptar ao pleno respeito pela vida e liberdade dos não humanos.

Tentativas de pessoas de fora – ou seja, cristãos, ateus e outros não afrorreligiosos – de impor a ética vegana dentro dos meios afrorreligiosos, mesmo quando a intenção é ou parece boa, sempre acabam desaguando em violência colonialista e racista. E por isso mesmo, são contraproducentes e fadadas ao fracasso.

Tendem a desprezar o diálogo de saberes entre as tradições religiosas afro-brasileiras e a ética secular animalista e colocar a visão de mundo originada dos brancos euro-americanos como “superior” às de outras identidades etnorraciais. E tiram da população negra adepta dessas fés o protagonismo da atuação ética dentro de seus círculos religiosos, deixando a entender que negros afrorreligiosos seriam “incapazes” de promover tal ativismo cultural interno e, portanto, precisariam da tutela, mesmo violenta, autoritária e impositiva, de cristãos e ateus brancos.

É necessário refletir sobre o caráter agressor, violento, opressor, de iniciativas que, supostamente bem intencionadas, tentam forçar que afrorreligiosos parem de sacrificar animais em rituais de suas fés, como as famigeradas leis proibicionistas. Promovem uma violência incompatível com a própria ética animal, uma vez que violam os princípios abolicionistas de promover a cultura de paz, a igualdade moral e o próprio antiespecismo, por abrir brecha à violência entre humanos, ao racismo e à intolerância religiosa e considerar alguns atos de exploração animal menos censuráveis que outros.

É falando no caráter violento do proibicionismo contra ritos sacrificiais que precisamos pensar nas implicações opressivas e na tendência de fracasso desse tipo de providência. Leis que visam proibir sacrifícios animais em cerimônias religiosas, ainda mais quando vindas de parlamentares cristãos fundamentalistas, geralmente não vêm com o propósito altruísta de proteger os animais, tampouco de fazer prevalecer o abolicionismo animal.

Pelo contrário, são permissivas a outras violências especistas, como o consumo de alimentos de origem animal nas refeições cotidianas, o uso de roupas e calçados de couro e a ida a rodeios e vaquejadas, pelas mesmas pessoas que passam a ser proibidas de sacrificar animais em rituais religiosos. E também não interferem em sacrifícios religiosos indiretos, como os abates kosher (judaico) e halal (islâmico) e a matança, em abatedouros e barcos pesqueiros, de perus para ceias de Natal e peixes a serem comidos na Semana Santa.

Deixam a entender que, por exemplo, abater um peru num matadouro para ser comido no Natal cristão ou matá-lo pelo método judaico kosher é menos inaceitável – a ponto de não ensejar uma proibição urgente por via da lei – do que sacrificar uma galinha num ritual de candomblé. Ou então que é menos errado um quimbandista mandar seu porco “de estimação” para um matadouro, para obter a carne dele e comê-la, do que matar uma galinha no ritual religioso e comer a carne dela depois. Em outras palavras, reforça a crença especista de que há maneiras mais aceitáveis e “corretas” de explorar e matar animais do que outras, mesmo no contexto das religiões diversas, a ponto de ser enfatizada a urgência de algumas proibições mas não a de tantas outras.

É absurdo também acreditar que afrorreligiosos adeptos do sacrifício ritual serão ensinados pela pura força da lei e da repressão a compreender plenamente a ética animal e a respeitar veganamente os animais não humanos. Como ficou claro acima, alguns podem até parar de promover tais ritos por medo de serem presos, agredidos pela polícia ou multados, mas não irão parar de consumir carne, leite, ovos e mel. Nem de usar couro, gordura animal, glicerina não vegana, lã e produtos com lanolina. Nem de frequentar entretenimentos baseados em explorar animais. Nunca na História humana a violência estatal ou privada ensinou seres humanos, bem-sucedidamente, a serem mais éticos para com outros seres sencientes, humanos ou não. Pelo contrário, só gerou mais e mais violência e violações da ética.

Fica claro que, por não proibir a matança de animais em outros contextos religiosos e não religiosos, o foco desse tipo de projeto de lei é impor a repressão policial contra as religiões de matriz africana. E isso não é nenhuma novidade no Brasil, já que a história brasileira pós-1888 é permeada de atos de perseguição por parte do Estado contra a população negra, como as leis contra a “vadiagem” na primeira metade do século 20, a proibição da imigração africana na mesma época, a criminalização da capoeira e da maconha e a demora de mais de 100 anos em tornar crimes a discriminação racial e o discurso de ódio racista (algo que só aconteceu em 1989).

Leis desse tipo não visam proteger os animais, mas sim proibir que candomblecistas e quimbandistas não veganos levem adiante sua tradição religiosa. E por serem baseadas no puro exercício da violência repressora estatal, não promovem nenhum diálogo entre os defensores animais e os adeptos de sacrifícios. Nem influenciam no questionamento interno da tradição desse tipo de rito. Tampouco estimulam que os fiéis dialoguem com seus Orixás sobre a alegada necessidade de matar animais.

Pelo contrário, estimula que os afrorreligiosos promovam uma valente resistência em defesa de suas tradições. E, longe de diminuir o número de rituais de sacrifício e de animais mortos neles, faz com que essas cerimônias passem a ser realizadas na clandestinidade – tal como suas religiões eram inteiramente praticadas durante os longos séculos de perseguição institucionalizada contra as culturas negras no Brasil.

E considerando que os adeptos desses rituais comem a carne dos animais nas refeições após os sacrifícios e supondo que a lei seja bem-sucedida em diminuir o número de animais mortos no contexto religioso, a proibição destes tende a favorecer um aumento nas vendas por parte dos frigoríficos e açougues. Afinal, a carne que teoricamente deixaria de vir dos rituais para a mesa dos seus adeptos passará a ser comprada nesses locais.

E vale lembrar um detalhe imprescindível nessas campanhas proibicionistas: elas costumam vir, quase sempre, acompanhadas de discursos de ódio religioso e racista vindos de pessoas que dizem estar defendendo os animais. Elas não hesitam em chamar o candomblé e a quimbanda de “religiões do mal”, “cultos de demônios”, “seitas demoníacas”, entre outros impropérios criminosos. Nem em dizer que sacrificar animais “não é de Deus”, que os adeptos dessas fés são “pecadores” e “serão castigados”, que irão “queimar no inferno”, que “devem se arrepender e se voltar ao verdadeiro (sic) deus”. Também não é raro aparecerem ofensas racistas contra os adeptos dessas religiões.

Esses problemas todos levam a uma conclusão difícil de rebater: defender ou aplicar leis de proibição a sacrifícios de animais em religiões de matriz africana não é uma maneira eficaz, nem mesmo ética, de proteger os animais não humanos. Pelo contrário, eles continuarão sendo mortos na clandestinidade, nenhuma mudança interna nas tradições religiosas será promovida, os comerciantes de carne serão beneficiados, e o racismo e a intolerância religiosa triunfarão.

Entre favorecer o diálogo interno na cultura negra, deixando os vegans negros do meio afrorreligioso agirem por conta própria e influenciarem a tradição em que vivem, sem a “tutela” dos brancos de fora, e invocar cadeia, multa, violência policial e insultos criminosos, sejamos sensatos em refletir qual dessas opções terá melhores resultados no objetivo de conciliar as religiões e suas divindades com a vida dos animais não humanos.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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18 Comments on “Sacrifícios animais em religiões de matriz africana: por que defender e forçar leis proibindo-os é uma péssima ideia

  1. Bom, então é assim. Em alguns países lá em África, existem religiões que fazem sacrifício com crianças HUMANAS. E não, isso não é mito, não é lenda urbana! Estão tentando acabar com isso, mas ainda continua. Então eu pergunto: Se praticantes dessa religião, passarem a viver no Brasil, como é que vai ser? Liberdade religiosa tem mais peso do que vidas não é mesmo? Ou então, é para dar liberdade total religiosa apenas para alguns, mas não para todos?
    Outra coisa é “adeptos desses rituais comem a carne dos animais nas refeições após os sacrifícios ” Sério mesmo? Ande em qualquer rua no Brasil e provavelmente vc encotrará um animal morto em sacrificio, numa encruzilhada. Por favor, poderia explicar como foi que ele foi comido?
    Sinceramente, ler essas coisas de um vegano…

  2. Ainda bem que os abolicionistas não pensavam como vc, caso contrário a escravatura teria acontecido somente décadas mais tarde. Pressinto que você deve ser de esquerda, socialista, e isso fala mais alto em vc na hora de avaliar essa questão. Pessoas como vc não acrescentam em nada à causa animal. Se dependessem de vcs, os animais estariam ferrados.

  3. Demasiadamente decepcionado. Já cheguei até a indicar o site para outras pessoas e agora dou-me de cara com um texto desse.

  4. (A) O respeito pelos direitos dos portadores de direitos deve ser imposto.
    (B) Os animais não-humanos possuem direitos.
    Conclusão: Logo o respeito pelos direitos dos animais não-humanos deve ser imposto.

    Se está conclusão é errada, ao menos uma das premissas tem que estar errada. Qual dessas premissas está errada?

    Proibir sacrificios religiosos é um tijolo na parede que se deve construir. Uma coisa de cada vez. O tijolo das rinhas foi colocado, o tijolo da farra do boi foi colocado. Estamos colocando o dos rodeios e vaquejadas, e seria absurdo sermos acusados de xenofobia por intervir em leis culturais alheias a nossa. O mesmo vale para os sacrificios religiosos. Vamos impedir um de cada vez.

  5. Robson, seja menos ingênuo. A crença religiosa não pode ser mudada por diálogo, simplesmente por ser do cunho do dogma, ou seja, do fanatismo e da fé – acreditar por acreditar.

    Defender que os animais têm direito à vida é algo construído pela razão, isto é, vai de encontro com o pensamento do sacrifício animal. Não existe diálogo com o dogma.

    Curiosamente, o Robson utiliza exatamente o mesmo argumento do carnista mais ferrenho, de que os veganos tentam “impor” qualquer espécie de crença. Irônico vindo de alguém que se diz “vegano”.

    Ora, um vegano que coloca os interesses religiosos acima dos interesses dos animais? Uma lei não deixa de ser válida simplesmente porque “não será cumprida” ou que será “violada”. Se o legislativo partir desse pressuposto, jogaremos 99% das nossas leis no lixo.

    Tomem cuidado com os humanistas especistas… Eles tentam trazer um discurso pseudointelectual para te convencer e fazer você se sentir culpado por defender o fim do sacrifício.

    Leis nada mais buscam do que impedir a canalhice humana. E matar um animal em nome de uma entidade invisível é uma das piores atitudes do ser humano.

    • Marcos, me senti muito contemplada com a sua posição. Acrescento algumas observações: muitas cidades estão proibindo o rodeio, o que nos ensina isso?! Estamos perseguindo os sertanejos? Os cristão estão aí no poder junto aos ruralistas tentando tirar por exemplo ideologia de gênero, educação sexual… fico pensando… as crianças são abusadas física e emocionalmente, mas por causa de motivos religiosos sobre os direitos de seres mais vulneráveis, elas não irão aprender que penetrar sua vagina ou ânus é errado, mas conversando com eles, irão mudar de opinião… isso podemos observar nos planos de educação do ano passado. Apoiamos e difundimos campanhas de um dia sem carne, uma semana sem carne, isso não é passar a mão na cabeça do carnista. O catolicismo trucidou muitas vidas em nome de deus e mulheres mais ainda. Não é pelo motivo do racismo, preconceito, discriminação e criminalização dos negros que vamos fingir não ver o especismo. Acho ótimo haver diversas religiões para quem quer uma. Mas não! sacrifício não!
      Concordo com o autor quando ele aponta a maioria que apoia a proibição dos sacrifícios, realmente, não são veganos, muito menos veganos esquerdista (parece que alguém não aceita veganos, opa, acho q não aceita esquerdista.. enfim).
      Existe uma política de extermínio dos negros em diversas frentes, sou branca, nunca vou saber o q é passar por isso por mais que eu apoie a luta. Sinto vergonha pelos brancos por tudo que já foi feito com os negros na história desse pais. E não precisa me falar que eu como branca me beneficiei disso, eu sou consciente. Só que minha posição com relação ao tema é permanente. No meu entendimento é muito difícil realmente banir os sacrifícios sem lesar a religião, o rito. E é aí q devemos trabalhar mais. Infelizmente, esperar que os veganos da religião façam essa mudança, construam alternativa para isso, é ser cúmplice da morte desses seres. Aliás, eu não consigo visualizar um vegano de acordo com isso. Também não consigo visualizar um defensor de animais de companhia como gato e cachorro que culturalmente não são consumidos como alimentos assistir permissivamente alguém matando um desses.
      E é aí que o apoio a proibição de sacrifícios ganha mais peso. Um peso hipócrita, mas ganha. São os que comem a vaca, galinha, porco… branco, cristão mas não vão aceitar encontrar gatos mortos em ofertas aos orixás.
      Meu compromisso depois desse texto é pesquisar e aprender sobre religiões de matrizes africanas, talvez assim eu consiga pontuar o q repudio dentro dos rituais e não os rituais.

  6. Ótimo texto!!! Me dá é ânsia de certos comentários dos leitores que não entenderam que o racismo é o motivador dessa lei de proibir a morte de animais em rituais religiosos. O autor do texto não demonstra ser contra a extinção da morte de animais em ritos, mas defende que isto se faça pelo diálogo e não por uma imposição cruelmente parcial, racista e violenta. Será que esta lei valerá para as ceias natalinas? É um rito religioso, não é? Certamente haverão terreiros criminalizados, mas não famílias cristãs no 25 de dezembro! Que mundo o veganismo pretenderia construir se utilizando do racismo como forma de libertação animal?

    • Valeu, Nois, pela apreciação e pelo bom entendimento do texto (que destoa da grande maioria dos comentários discordantes que vi aqui e no Facebook) =) Abs

  7. Sou do candomblé e já faz pelo menos uns 8 anos, que a nossa casa de Santo, não realiza mas sacrifício animal e sim ervas sagradas,para consagração dos ritos de iniciações e obrigações…

    • Excelente saber disso, Gil =) Seria muito da hora se houvesse uma divulgação (caso isso não atente contra a cultura em torno do candomblé) de rituais que substituem os sacrifícios de animais.

  8. Não sou de origem negra, nem vegana e nem tampouco pertenço a alguma religião afro. Mas entendi perfeitamente o que o Robson quis dizer. Eu, que me choco em saber que existem animais assassinados para serem usados em rituais, acho normal comer peru para comemorar o Natal e ter em minha mesa todos os dias algum tipo de carne.
    O texto me fez refletir sobre como é difícil mudar os hábitos, como é fácil julgar e ainda, que a mudança só vem mesmo a partir da reflexão e posterior compreensão.
    Entendi que os adeptos de tais religiões além de todo preconceito que sofrem, serão perseguidos por parte de nós carnívoros que fazemos exatamente a mesma coisa, só que garantidos por lei e ainda incentivados pela mídia patrocinada pela indústria da pecuária e dos grandes abatedouros.
    Excelente texto, sai do senso comum, da lógica medíocre. Faz com que percebamos como estamos sendo manipulados todo o tempo. Abre nossos olhos, para vermos que por trás dessa máscara de bons moços dos nossos políticos, existem interesses maiores. Além de que, deixa claro o quanto é cruel qualquer sacrifício animal. Me senti igualada aos praticantes desses rituais. Talvez agora consiga mudar um costume, que trago de berço e tão arraigado em nossa cultura. Mas sem ódios, porque tudo que levou tanto tempo para se construir não será num piscar de olhos ou numa lei imposta que será desconstruído.

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