Sacrifícios religiosos de animais e leis de proibição: algumas considerações

terreiro

Como era de se esperar, o artigo sobre ser uma má ideia o apoio a leis de proibição de sacrifícios de animais em rituais religiosos rendeu uma enorme polêmica. E houve muitos mal-entendidos sobre minha posição acerca da existência e perpetuação desse tipo de rito. Por isso trago este texto para esclarecer muito do que foi mal compreendido.

Eu defendo sacrifícios de animais?

Não defendo. Sou totalmente contra. E foi por defender o fim desse tipo de costume que escrevi aquele texto, que este aqui vem complementar. Se fosse a favor de matar animais em nome de crenças religiosas, das duas uma: ou não teria escrito nada, ou teria feito um defendendo a tradição de sacrificar animais nesses rituais, sua perpetuação e a exclusão moral dos animais “de sacrifício”.

O artigo que escrevi vem enriquecer os debates sobre a questão, sobre qual maneira de abolir esse tipo de ritual realmente funciona e se proibi-lo por lei dá certo ou não. Em momento nenhum vem conclamar o leitorado a aceitar a permanência dessa maneira de matar animais e que ninguém faça nada para relegá-la ao passado.

Ao contrário do que muitos explicitaram, ser contra o uso da força legal e policial para reprimir o sacrifício não significa ser contra toda e qualquer iniciativa de aboli-lo. Tampouco é o mesmo que defendê-lo.

No caso do meu texto, ele vem questionar uma “solução” que, além de não dar certo – por mais que as emoções venham tentar nos convencer do contrário -, só traz como consequência uma espiral de violência que perpetua a matança de animais não humanos, na clandestinidade, e flagela seres humanos com racismo, intolerância religiosa e perseguição policial. Trago uma sugestão de solução melhor – e, até o momento, é a única conhecida que tem chances reais de dar certo, ainda que dentro de certo prazo, a não ser que apareça uma terceira via.

 

Como eu, afinal de contas, quero que os sacrifícios sejam tratados pelos Direitos Animais?

Na minha opinião, a defesa dos Direitos Animais precisa dar voz ampla – ou melhor, o protagonismo no ativismo contra os sacrifícios – às pessoas negras veganas que estão diretamente envolvidas na cultura afrorreligiosa. Elas têm muito mais condições do que brancos de fora desse círculo religioso (cristãos, ateus, espíritas etc.) de intervir em seu meio e questionar, entre seus pares, a vontade dos Orixás de ver animais serem mortos em seu nome.

O processo de conscientização interna, para que afrorreligiosos não veganos deixem de sacrificar animais, é muito semelhante ao que está em andamento na sociedade em geral para que a tradição de consumir alimentos e outros produtos de origem animal também seja superada e relegada ao passado. Ou seja, há tanta disposição e dificuldade entre vegans do meio para conscientizarem candomblecistas e quimbandistas, para que suas crenças religiosas passem a respeitar os animais, quanto entre nós todos para fazermos com que pessoas não veganas abandonem o consumo de produtos animais e adiram ao veganismo.

E acreditem, tanto tem dado certo que, segundo relatos que li após a publicação do outro texto, vários terreiros já abandonaram os sacrifícios animais e os substituíram, por exemplo, por cerimônias envolvendo ervas sagradas. Por outro lado, a resistência de algumas casas mais conservadoras tende a levar à fundação de novos terreiros, que não matam animais, e à gradual desacreditação moral, entre os próprios religiosos do meio, dos que insistem em sacrificar animais.

Percebamos, aliás, que curiosamente não há, com o mesmo vigor de quem exige para já leis contra sacrifícios, a mesma pressão para tornar crime a pecuária e a pesca, por mais que ambas assassinem milhões de vezes mais animais do que os rituais religiosos. A necessidade de não serem violentamente mortos é a mesma tanto para animais “de consumo” como para os “de sacrifício”, mas não se vê uma união de forças para a proibição por lei da exploração animal com fins econômicos e de consumo.

 

As analogias

Foram feitas várias analogias, nas diversas frentes de debate que se abriram nos diversos grupos de veganismo no Facebook, entre leis proibicionistas antissacrifícios e legislações com outros temas. Listo e comento cada uma abaixo, algumas das quais eu ainda não ouvi, mas prevejo que apareçam em breve:

– Comparações com leis que proíbem sacrifícios humanos: Não há, entre nós – e talvez em lugar nenhum do mundo -, um contexto sociocultural em que haja uma cultura marginalizada por racismo e xenofobia professando uma ou mais religiões que incluem sacrifícios humanos, e a cultura dominante esteja usando o absurdo ético de sacrificar seres humanos como pretexto para perseguir a que está sob marginalização.

– Com leis que proveram direitos às mulheres, como o voto e a licença-maternidade: Leis pró-feministas não promoveram perseguição étnica. Tampouco a negação de direitos a mulheres era uma característica típica de culturas discriminadas. Nem o feminismo promove(u) discriminação contra minorias raciais. Portanto, essas leis que beneficiaram as mulheres nada têm a ver com o fundo racista e intolerante de grande parte das iniciativas de proibicionismo legal contra sacrifícios em religiões afro.

– Com as leis penais que preveem cadeia contra homicidas, estupradores, assaltantes etc.: Leis contra esses tipos de crime não foram feitas tendo como plano de fundo intenções de perseguição religiosa e racial, nem a discrepância entre a urgência de criminalizar algumas mortes e a não urgência de penalizar outras. Portanto, é uma falsa analogia achar que argumentar que o proibicionismo legal contra sacrifícios não dá certo abre margem a ser contra leis penais contra crimes contra seres humanos por não terem sido suficientes para abolir a agressão criminosa contra humanos.

– Com as leis que proíbem o uso de tração animal em carroças: Essas leis, quando formuladas de maneira socialmente responsável, fomentam a adoção de veículos alternativos que substituem as carroças de tração animal, como os chamados “cavalos de lata” e as bicicletas com minicaçambas. As que proíbem o sacrifício animal, por sua vez, não trazem nenhuma alternativa. Tampouco tendem a funcionar no que concerne a influenciar as mães e pais de santo a reformarem suas religiões de modo que não haja mais difundida a crença de que os Orixás demandam esse tipo de ritual. Com isso, essa analogia também não faz sentido.

Outras analogias eu irei acrescentando, caso me lembre de mais alguma.

 

A discrepância entre a alegada urgência de proibir sacrifícios e a falta de demanda por leis contra a exploração de animais para consumo e os abates rituais judaicos e islâmicos

Nesse contexto de comparar leis ou violações éticas, percebamos que curiosamente não há, com o mesmo vigor de quem exige para já leis contra sacrifícios, a mesma pressão legal e política para tornar crime a pecuária, a pesca e a apicultura, por mais que essas atividades assassinem, com requintes de crueldade, milhões de vezes mais animais do que os rituais religiosos. A necessidade individual de não serem violentamente mortos é a mesma tanto para animais “de consumo” como para os “de sacrifício”, mas não se vê uma união de forças para a proibição por lei da exploração animal com fins econômicos e de consumo.

O especismo de considerar alguns animais como “para consumir” e outros como “para viver” é o mesmo, não menos inaceitável, do que o de tachar animais como “para sacrificar” ou “para deixar vivos”. Mas curiosamente o vigor não é semelhante entre os mesmos.

O mesmo se vê quando temos diante de nós abates rituais kosher e halal, respectivamente judaicos e islâmicos. Muitas das mesmas pessoas que exigem a proibição penal e punição dos sacrifícios afrorreligiosos não dedicam forças semelhantes para criminalizar os abates citados das religiões monoteístas abraâmicas.

Fica a impressão de que escolheram os sacrificios especificamente das religiões afro para criminalizar porque é mais fácil regular uma religião minoritária como o candomblé do que as monoteístas. Já há uma tendência de preconceito e discriminação contra afrorreligiosos, e a proibição legal dos sacrifícios dessas religiões vem pegar carona nesse contexto, o que não acontece no caso dos abates halal e kosher.

Ou seja, fica evidente que o que move os legisladores não é um sentimento de urgência em proteger os animais da morte violenta em rituais nas mãos de todo e qualquer religioso. Mas sim outras coisas. E essas outras coisas cabe a você pensar o que são – as pistas já foram dadas.

 

“Será que você não reconhece a urgência de se tomar alguma providência? Há animais sendo mortos por aí cruelmente!”

Eu nunca neguei que é preciso fazer algo em relação aos animais vítimas de sacrifícios – tanto que eu defendo a conscientização como maneira de abolir gradualmente esse tipo de ritual. Mas tenho minhas reservas sobre os alertas de que “é preciso fazer alguma coisa logo”.

É preciso sim, mas os alertas insistem em defender algo que já é provado que não dá certo e que, pelo contrário, só piora as coisas. O texto anterior inteiro mostrou que proibir por lei os sacrifícios não vai pará-los e fazer com que não aconteçam mais, mas sim proporcionar que ocorram na clandestinidade. Além disso, vai aumentar os já fortes esforços de racistas e intolerantes-religiosos de perseguir e destruir terreiros.

Precisa-se fazer algo sim. E já se está fazendo. Quem o está são os candomblecistas e quimbandistas contrários aos sacrifícios. Eles já empreendem um esforço louvável em reformar os terreiros que atendem, no sentido de fazê-los abandonar os rituais de sacrifício e substituí-los por ritos alternativos, como no caso mencionado de um terreiro em que a matança foi substituída pelo uso de ervas sagradas.

Ignorar o trabalho deles e tentar lhe passar por cima é um desrespeito enorme a essas pessoas e também às culturas negras. E além disso, ninguém quer que se ignore a conscientização promovida pelos vegans e a necessidade de se educar as pessoas para aderirem à ética animal, da mesma maneira que estão ignorando ou mesmo negando a importância do trabalho dos afrorreligiosos contra sacrifícios.

 

Eu dei a discussão por encerrada?

De jeito nenhum. Não quero, nem tenho o poder de encerrar discussões no meio animalista brasileiro. Pelo contrário, eu trouxe uma ideia que vem afrontar o senso comum vigente – o de crer que leis proibitivas, e não a conscientização entre vegans e não vegans do meio religioso, são a melhor maneira de proibir sacrifícios rituais. E isso pode ser qualquer coisa, menos passar corrente e cadeado numa discussão que, pelo contrário, deve continuar se queremos realmente ver as religiões do mundo passarem a respeitar plenamente os animais não humanos.

Repito mais uma vez, para não deixar margem a entendimentos errados: eu sou contra os sacrifícios religiosos. Quero que eles sejam superados e deixados no passado pelos religiosos. E minha contribuição no debate tem a intenção de colaborar com os afrorreligiosos que se esforçam diuturnamente em seus meios para fazer que seus terreiros parem de sacrificar animais.

Além disso, estou no aguardo de que alguém apresente terceiras vias, alternativas de ação que sejam eficazes a curto prazo em induzir os afrorreligiosos a reformarem suas religiões e não ter efeitos colaterais de racismo e perseguição religiosa. Serão muito bem vindas essas novas opções, e elas certamente irão enriquecer muito as discussões, que enfim poderão sair dessa dicotomia entre proibicionismo e conscientização.

Além disso, quem quer dar por encerrada a discussão é quem não tolera discordâncias ao proibicionismo legal e reage com ódio e insultos contra quem se posiciona contrário a esse tipo de medida.

 

Considerações finais

Espero ter deixado claro que, assim como todo mundo que defende leis proibicionistas, sou contra os sacrifícios de animais. E por isso mesmo me dispus a falar do tema e sugerir o respeito ao protagonismo dos afrorreligiosos veganos (e também dos não veganos que também são contra esse tipo de ritual) em ação como alternativa..

O que eu reivindico, ao final deste texto complementar, é que haja mais cabeça fria, uso da razão e, sobretudo, respeito ao próximo em se formular maneiras de combater a exploração animal. Algumas providências, por seu caráter de autoridade e energicidade, seduzem a quem quer que algo urgente seja feito, mas infelizmente não são as mais corretas – até por não darem certo. Precisamos ter, para as diversas formas de exploração animal, o mesmo senso estratégico e pró-conscientização ética que temos quando se fala de pecuária, pesca e apicultura, de modo a evitar cometer injustiças e cair em fracassos que só fazem acelerar a espiral de violência e violações éticas.

Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui




7 Comments on “Sacrifícios religiosos de animais e leis de proibição: algumas considerações

  1. Comentário desrespeitoso e agressivo apagado. Ao invés de distorcer o que falo e usar de agressividade pra rebater o que falo, o que acha de fazer um contraponto respeitoso e sem usar adjetivos ofensivos? RFS

  2. Muito bom Robson! Realmente, não acho que seja eficaz a proibição de sacrifícios de animais em rituais religiosos por lei sem a conscientização. Isso certamente só acabaria em mais problemas… Sobre a questão do protagonismo, então os veganos não religiosos ou de outras religiões devem somente manifestar apoio aos afrorreligiosos contra os sacrifícios desses animais e evitar debater com os afrorreligiosos?

    • Valeu, Victor =)

      Sobre debates entre afrorreligiosos e não afrorreligiosos, eu pessoalmente prefiro o diálogo de saberes. Evitaria tentar trazer a ideia de não sacrificar animais como uma imposição autoritária. Além disso, o conhecimento sobre as crenças afrorreligiosas (exceto a umbanda, que não pratica sacrifícios) é essencial pra se saber como os Orixás, de acordo com elas, lidariam com a ética animal e a atitude de buscar alternativas ao sacrifício.

      Abs

  3. Oi, você sabe (ou conhece alguém que saiba) quais são alguns terreiros que não praticam o sacrifício?

    • Olá, Adeniran. Não sei de nome, eu acho que algum candomblecista contra sacrifícios poderia ajudar vc. Abs

    • Não sei de terreiro que não pratica sacrifício, inclusive porque nem sigo a religião. Porém, como tenho alguns amigos candomblecistas, em conversa sobre o assunto já falaram que alguns mestres (desculpe, não sei as denominações exatas) quando indicam trabalhos para uma pessoa, se esta é vegana ou apenas contra sacrifício animal, são adaptados. Inclusive me disseram que essa tendência vem crescendo. Acho que é um começo, cultura é dinâmica e se modifica assim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *