cura-milagrosa

Atualizado em 18/12/2013

Vêm se multiplicando as denúncias de que grande parte da indústria farmacêutica, senão a maioria, é movida por interesses de lucro e se empenha não em curar, mas em manter pacientes crônicos sob tratamentos perpétuos e desencorajar iniciativas de cura. Também tem crescido a reação contra a reprovação dada pela biologia positivista a diversos ramos da medicina alternativa. Esse crescente alerta, que faz sentido, tem feito muitos dos veganos mais naturalistas serem céticos para com a medicina moderna convencional, mas, paralelamente a esse ceticismo, tem favorecido perigosamente o crescimento da credulidade perante promessas fraudulentas, ou no mínimo pouco confiáveis, de “cura milagrosa”.

Tenho percebido pessoas do meio vegano propagando “notícias promissoras” sobre, por exemplo, a cura do câncer e a suposta inocência do vírus HIV em causar a AIDS, entre outras alegações que estariam sendo alvo de repressão por parte da indústria farmacêutica. Casos assim têm sido denunciados por céticos científicos como pseudociência e fraude, e não se tem tido respostas convincentes a esse ceticismo fora acusações de conspiração vinda das empresas fabricantes de medicamentos e mais alegações duvidosas.

Nessa onda, tem retornado à circulação duas lendas urbanas atribuindo ao bicarbonato de sódio o poder de curar o câncer. Uma delas diz que um médico italiano estaria alegando que o câncer seria causado por um fungo ligado à afta bucal e curando portadores de câncer apenas com bicarbonato de sódio. E a outra diz que uma solução de água, suco de limão e bicarbonato seria incrivelmente mais potente do que a quimioterapia em tratar esse tipo de doença. Uma página do site Quatro Cantos refuta a primeira fraude, e o e-Farsas refuta a da mistura de bicarbonato, água e limão – e esta página complementa a refutação, desassociando o nome do médico alemão Dr. Otto Heinrich Warburg da farsa.

Outro nome que tem aparecido é o de Leonard Coldwell, que, em um vídeo, afirma que o câncer poderia ser curado em 16 semanas por meios de medicação “natural”. Tal vídeo, com legendas em espanhol ou em português, tem sido muito divulgado em blogs e fóruns conspiracionistas e apareceu recentemente no meio vegano brasileiro. Mas uma pesquisa na internet verá que ele falsifica suas credenciais médicas, sendo ele na verdade Bernd Klein, um fugitivo da Alemanha acusado de fraude e charlatanismo. Outras páginas em inglês (aqui, aqui, aqui e aqui) mostram como ele não é confiável, além de ele próprio divulgar informações duvidosas em seu blog, como a de que o sal de cozinha conteria vidro e areia além do cloreto de sódio.

Já o negacionismo do HIV como causa da AIDS, também presenciado nessa pequena mas preocupante onda de divulgações pseudo ou anticientíficas, é fortemente refutado pela comunidade científica e acusado de ter favorecido a morte de centenas de milhares de portadores da doença na África do Sul, conforme artigo da Wikipedia anglófona. Uma matéria do The Guardian de 2012 denuncia a fraude dos negacionistas, incluindo a morte de diversas pessoas que acreditaram e defenderam a negação do HIV. E um artigo do Rational Wiki refuta diversos argumentos que negam que esse vírus cause a AIDS.

Também em relação a esse “ceticismo”, é necessário destacar que a revista Superinteressante, que havia divulgado em 2000 uma entrevista com o negacionista Peter Duesberg, retratou-se em dezembro de 2013 depois que tal matéria foi “ressuscitada” e intensamente compartilhada nas redes sociais, divulgando a seguinte declaração:

A SUPER gostaria de fazer um esclarecimento. Em 2000, publicamos uma entrevista com o biólogo e químico Peter Duesberg, que defendia a tese de que a aids não era causada pelo vírus HIV. A entrevista foi conduzida por Flavio Dieguez, um dos maiores jornalistas científicos que já trabalhou conosco, e está fundamentalmente correta. Mas, ao longo dos últimos 13 anos, as teses de Duesberg caíram em descrédito e hoje temos muita clareza de que não deveríamos ter dado espaço a elas. Em parte esse descrédito se deve à tragédia de saúde pública que se abateu sobre a África do Sul, país que adotou as ideias de Duesberg em suas políticas de combate à aids. O resultado foi que o vírus se disseminou. Gostaríamos então de afirmar que, aqui na SUPER, não temos mais dúvidas de que a aids é causada pelo HIV e de que todo cuidado para evitar a transmissão desse vírus é fundamental para a saúde pública. Percebemos que esta entrevista foi redescoberta e está circulando nas redes sociais. Que fique claro que não concordamos com as ideias expressas nela.

Foram três presenciamentos recentes até a publicação deste artigo, mas é muito provável que apareçam em breve mais alegações suspeitas que prometam “curas milagrosas” e neguem de forma pouco confiável o que a ciência convencional afirma. Ressalta-se aqui a necessidade imperativa de que as pessoas tenham mais ceticismo e verifiquem se tais promessas pseudo ou anticientíficas são confiáveis. Divulgá-las pode acabar sendo, ao invés de uma esperança de alforria da medicina alopática, um perigo à saúde das pessoas.

A questão não é aceitar sem questionamento tudo o que a biologia experimental e a Medicina dizem, nem negar a priori todo e qualquer métodos de medicina alternativa. A ciência moderna tem suas falhas e muitos cientistas e empresas farmacêuticas são movidos por interesses escusos, mas isso não quer dizer que tudo o que as Ciências da Saúde dizem sobre tratamento ou cura medicamentosos deve ser negado, nem que devemos acreditar no primeiro conspiracionista antifarmacêutico que aparecer em vídeos encantadores diante de nós.

Devemos sim ter um ceticismo saudável, tanto para com a medicina alopática como para com a alternativa. Isso inclui tanto questionar os interesses da indústria farmacêutica e de muitos cientistas quanto evitar aclamar todo e qualquer divulgador de “curas milagrosas” que venha se dizer vítima de censura por parte da comunidade científica e dos produtores de remédios. Em outras palavras, não devemos ser nem negacionistas intransigentes de um lado ou do outro, nem crédulos.

3 comments

  1. E tens alguma refutacao sobre a terapia Gerson? Tudo o que vi até agora sobre ela fez muito sentido. E mesmo sendo cético, confesso que optaria por ela ao inves da quimio, onde ja presenciei muitos parentes e conhecidos morrerem sem respostas, sem esperança e tratados como mais um gerafor de recursos para o meio médico-farmacológico.

  2. Olá Robson,
    Parabéns. Me simpatizei perfeitamente sua posição e seus argumentos, pois já passei pelas mesmas dúvidas e questões. E justamente por esse motivo que resolvi escrever aqui e indicar um livro que gostei bastante. Achei que também pudesse gostar. Chama-se “Fitoterapia do Além”. http://www.candeia.com/fitoterapia-do-alem/p

    Forte abraço e fica com Deus!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*