Espaguete que pode conter traços de ovos: ele é vegetariano/vegano?
Espaguete que pode conter traços de ovos: ele é vegetariano/vegano?

Uma das polêmicas mais comuns no meio vegano de hoje são os tais dos traços de matérias-primas de origem animal em alimentos considerados vegetarianos (aqueles que não possuem nenhum ingrediente propriamente dito vindo de animais).

Provavelmente você já presenciou ou participou de debates sobre o assunto: consumir ou não consumir alimentos cujo rótulo aponta que “podem conter” resíduos superdiluídos de produtos animais?

Descubra a seguir a resposta objetiva a esse problema. E saiba como lidar com alguns questionamentos muitos comuns sobre ele.

Se você sente uma angústia por causa dessa questão e não é alérgico(a) a um ou mais alimentos de origem animal, certamente ela vai passar, ou aliviar muito.

 

O que são os tais traços

Máquina extrusora de fabricar biscoitos/bolachas
Máquina usada na fabricação de biscoitos/bolachas. Muitas vezes ela é usada, sem exclusividade, para produtos vegetarianos e não vegetarianos. Daí é que muitos alimentos vêm “podendo conter traços” de origem animal

É muito frequente, hoje em dia, alimentos industrializados dizerem em seu rótulo ou embalagem que “pode conter traços de…” ou “pode conter”, por exemplo, leite, ovos, soja, trigo, amendoim, crustáceos, castanha, nozes etc.

E o que são esses traços?

Eu explico: são matérias-primas com probabilidade de estarem presentes em quantidades muito minúsculas, residuais, em alimentos industrializados, por estes terem sido parcial ou totalmente fabricados nas mesmas máquinas usadas para produzir aqueles itens que as possuem como ingredientes propriamente ditos.

Ao contrário do que muitos acreditam, os traços não são ingredientes. Eles estão ali não por alguma intenção do fabricante de usá-los na produção, mas sim porque, por algum motivo, ele (ainda) não usa máquinas exclusivamente dedicadas a produtos vegetarianos e/ou adequados para pessoas com alergias alimentares.

É obrigatório, de acordo com a norma da ANVISA RDC 26/2015, a indústria alimentícia deixar explícito no rótulo que aquele produto “pode conter” determinados pseudocomponentes. Isso se deve ao motivo de que estes são alergênicos, ou seja, fazem mal a pessoas com alergia a uma ou mais daquelas matérias-primas.

Por exemplo, uma criança com alergia a ovos pode contrair sérios problemas de saúde, como choque anafilático, se consumir um macarrão que, em função de ter sido fabricado numa máquina que também processa massa com ovos, contém traços residuais dos mesmos.

É isso que os traços de origem animal são: resíduos vindos de máquinas que fabricam tanto produtos não vegetarianos (que contêm propriamente derivados de carne, leite, ovos, mel, corante carmim, gelatina etc.) como vegetarianos.

Ou seja, não compõem aquele alimento vegetariano. Em outras palavras, aquele pão que “pode conter (traços de) leite” não possui o ingrediente leite.

Pelo mesmo motivo, depois que você lava bem a panela na qual seu pai havia fervido leite de vaca, para reutilizá-la fazendo chá, esse chá poderá ainda conter traços minúsculos do leite, e não o possui como ingrediente.

 

Então os alimentos com traços são vegetarianos/veganos?

Nós não somos ingredientes!
Nós não somos ingredientes!

Uma vez que os traços não fazem parte da fórmula do alimento, a produção deste não demandou exploração animal. Não houve exploração de animais ditos “de consumo” para viabilizar o biscoito/bolacha que “pode conter (traços de) leite”, ou do pão de forma “integral” que “pode conter (traços de) ovos”.

Ou seja, esses alimentos em específico são vegetarianos. Se produzidos por uma empresa não envolvida com testes em animais ou outra forma de patrocínio à exploração animal, são veganos.

Mas atenção: nem todo produto que “pode conter traços” de algum alergênico de origem animal é realmente vegetariano. Em muitos casos, o alimento contém alguma outra matéria-prima suja como ingrediente não residual, que não consta no alerta exigido pela ANVISA.

Por exemplo:

  • Existem marcas de granola que “podem conter traços de leite” e, portanto, não têm leite em sua composição, mas contêm mel;
  • Há medicamentos que não avisam sobre “traços de leite”, mas possuem lactose – considerando que a RDC 26/2015 não abrange intolerâncias não alérgicas e demandas veganas, mas sim apenas alergênicos, muitos dos quais coincidentemente são boicotados por vegans;
  • Aquele docinho cuja embalagem diz que “pode conter leite” tem gelatina entre os ingredientes, e gelatina é feita a partir do tendão da carcaça do porco;
  • Algumas marcas de biscoito/bolacha com recheio de morango dizem no rótulo que ele(a) “pode conter leite” por causa dos traços, mas usam corante carmim-cochonilha, originado de insetos explorados e mortos por esmagamento, como ingrediente verdadeiro.

 

Respostas a questionamentos comuns

Questionamento e resposta

Apesar desses alimentos não implicarem exploração animal – quando produzidos por empresas vegan-friendly –, aparecem diversas indagações, como as seguintes:

  • Mas esses traços não deixam o alimento maculado com as marcas da exploração e sofrimento dos animais?
  • Não se está dando dinheiro para uma empresa que se beneficia do especismo para fazer seus produtos não vegetarianos? Isso não é contra o veganismo?
  • O certo não seria a empresa dedicar parte de suas máquinas apenas aos produtos vegetarianos, ou mesmo veganizar aqueles que ainda não são?
  • Não existe algum meio de eliminar os traços da linha de produção? Se sim, por que não eliminam logo?
  • Essas empresas não têm nenhum respeito pelos alérgicos?
  • Os veganos que consomem alimentos que podem conter traços estão favorecendo empresas que os ignoram como consumidores, não?
  • Não há, no mercado, alternativas livres de traços animais para esses alimentos?
  • Por que a maioria dos veganos não se posiciona ativamente contra os alimentos com traços?

Vou responder a cada uma, de modo a esclarecer mais a relação entre o veganismo e os alimentos com traços de origem animal.

 

Mas esses traços não deixam o alimento maculado com as marcas da exploração e sofrimento animal?

O conceitos e os princípios do veganismo não trabalham com esse tipo de simbolização. É indiferente ao modo de vida vegano se aquele produto alegadamente possui “símbolos” ou “marcas” que remetam ao uso de animais. A não ser que, por exemplo, em seu rótulo esteja estampada uma apologia ao rodeio.

O que realmente importa é se ele é de fato trazido à existência pela exploração animal. Ou seja, se ele contém ingredientes de origem animal em sua fórmula e é de empresa que testa em animais ou patrocina outras formas de exploração animal (rodeios, rinhas, zoológicos, tração animal etc.).

Se a resposta a essas duas questões é negativa, então o produto é vegano.

 

Não se está dando dinheiro para uma empresa que se beneficia do especismo para fazer seus produtos não vegetarianos? Isso não é contra o veganismo?

O problema é que, atualmente, a gigantesca maioria das empresas alimentícias no Brasil fabrica e comercializa algum produto não vegetariano. Os veganos ainda compõem uma parcela pequena demais da população para ter força suficiente para pressioná-las a se tornarem companhias veganas.

Como há muito poucos fabricantes propriamente veganos – e boa parte deles é dedicada a alimentos gourmet -, hoje é inviável boicotar toda e qualquer empresa que comercializa algum produto não vegetariano.

Aliás, algo pertinente a se notar é que, à medida que as empresas (as que não promovem testes em animais e outras formas de violência especista) têm um público consumidor vegano cada vez maior, a tendência é que elas, de fato, aumentem a produção e variedade de alimentos vegetarianos.

E, por tabela, se o crescimento da população vegana é acompanhado pelo declínio da não vegana, a tendência a longo prazo é que os alimentos com ingredientes de origem animal comecem a ser gradativamente menos produzidos e mais substituídos por versões vegetarianas.

É possível, inclusive, que, a partir desse progresso, as empresas passem a assumir posições veganas e abandonem de vez o uso de matérias-primas animais.

E lembremo-nos que o veganismo é praticado na medida do possível e praticável. Ou seja, se é impossível boicotar todas as empresas não veganas, então consumir as opções veganas fabricadas por elas não o transgride.

 

O certo não seria a empresa dedicar parte de suas máquinas apenas aos produtos vegetarianos, ou mesmo veganizar aqueles que ainda não são?

Eu concordo que algo mais próximo do ideal seria isso mesmo. Só que não vamos conseguir influenciar as empresas a tomarem essa medida por meio de simplesmente evitar seus produtos.

Afinal, se a companhia não tem demanda vegetariana suficiente, dificilmente ela vai, de pura boa vontade, comprar máquinas exclusivas para marcas vegetarianas livres de traços de origem animal.

Eu acredito que o melhor a se fazer é o contrário: buscar consumi-los (caso não tenha alergia aos traços nem objeção à ingestão de alimentos industrializados) e, paralelamente, enviar feedbacks.

É pedirmos para que mais produtos tenham seus ingredientes de origem animal substituídos por alternativas vegetais (excluindo aquelas que fazem mal ao meio ambiente e aos Direitos Humanos, como o óleo de palma indonésio e o cacau da Costa do Marfim) ou sintéticas, e que o público alérgico seja considerado e incluído.

Somado à demanda dos clientes com alergias alimentares que ainda não são vegetarianos, a tendência é que as empresas comprem maquinário exclusivo para produtos vegetarianos livres de traços.

 

Não existe algum meio de eliminar os traços da linha de produção? Se sim, por que não eliminam logo?

O meio mais provável e eficaz de eliminar os traços, ou pelo menos diminuir imensamente a probabilidade de sua presença, é adquirir máquinas exclusivamente dedicadas aos alimentos vegetarianos.

Conforme foi respondido à pergunta anterior, é muito mais provável que a demanda por essa providência venha de uma combinação de consumir os produtos, com traços mesmo (se a pessoa não tiver alergia a estes), para compor demanda, com enviar sugestões em massa para que sejam fabricados alimentos adequados para pessoas alérgicas.

A medida de manter uma linha de produção totalmente descontaminada de resíduos alérgicos e animais ainda não é comum porque o mercado consumidor composto por veganos, vegetarianos e pessoas com alergias ainda é considerado pouco expressivo e, portanto, muito arriscado a se investir.

Mas esse risco é cada vez menor, pelos motivos já citados. E aquelas pessoas que não podem ou não querem consumir alimentos com traços têm a opção de mandar feedbacks demandando sua inclusão no público-alvo das empresas e, também, consumir daquelas que já as incluem plenamente na clientela. E posso dizer, inclusive, que a norma da ANVISA já vem ajudar a forçar as empresas a se adaptarem a esse público que ainda ignoram.

 

Essas empresas não têm nenhum respeito pelos alérgicos?

A maioria ainda os ignora como demanda consumidora. Mas por muito tempo ainda era pior: era comum omitirem a presença de traços de alergênicos e, assim, fazerem mal a quem sofre de alergias alimentares.

Foi por conta de processos judiciais contra várias companhias e da pressão dos consumidores que a ANVISA sancionou a norma RDC 26/2015, para obrigá-las a mencionar a presença ou possibilidade de alergênicos nos rótulos e embalagens.

Levando isso em consideração, é de se reconhecer o mérito daqueles que boicotam empresas que excluem pessoas com alergias alimentares de seu público-alvo. Mas minha opinião é que o motivo mais válido desse boicote não é a presença de “vestígios do sofrimento animal”, mas sim a questão dos alergênicos mesmo.

 

Os veganos que consomem alimentos que podem conter traços estão favorecendo empresas que os ignoram como consumidores, não?

Estão sim, mas a nossa demanda tende a acabar com essa ignoração. É com a formação de um público consumidor cada vez mais populoso e engajado que as empresas não poderão mais agir como se não existíssemos, nem incorrer em atitudes que nos desagradem.

 

Não há, no mercado, alternativas livres de traços animais para esses alimentos?

Existem, mas ainda são poucas, e nem sempre acessíveis para a maioria dos consumidores.

É possível, por exemplo, substituir aquele biscoito/bolacha “maizena” que, segundo o rótulo, “pode conter leite” por um cookie livre de traços também vegano de empresa de alimentos ditos saudáveis. Mas nem sempre o custo do pacote desses cookies compensa para veganos e vegetarianos pobres e de classe média-baixa.

 

Por que a maioria dos veganos não se posiciona ativamente contra os alimentos com traços?

Porque:

  • A possibilidade de haver traços da matéria-prima não vegana X não implica conter o ingrediente X. Se o alimento não contém ingredientes animais em sua fórmula e se restringe aos traços, então é vegetariano. Se o produto em si não é vegano, isso se deve a outros motivos, como testes em animais e patrocínio de rodeios por parte da fabricante;
  • Estima-se que a maioria dos veganos não possui alergias alimentares que interditem o consumo desses produtos;
  • O veganismo e seus princípios éticos não têm relação com a demanda por alimentos livres de alergênicos e traços dos mesmos;
  • A oposição de muitos veganos aos produtos que podem conter traços animais é mais subjetiva, baseada em sentimentos pessoais sobre os “vestígios de sofrimento animal” nesses itens, do que dotada de razões realmente objetivas. É algo com similaridades a rejeitar imitações vegetais de carnes e queijos.

 

Considerações finais

Produto que não contém traços de origem animal. O ideal é que isso aconteça pela eliminação do uso de matéria-prima oriunda da exploração animal
Produto que não contém traços de origem animal. O ideal é que isso aconteça pela eliminação do uso de matéria-prima oriunda da exploração animal

Minha posição é que o consumo de alimentos que podem conter traços de alguma matéria-prima animal não transgride a ética vegana.

Isso não quer dizer, porém, que não há nada de mais em deixar a indústria livre e desimpedida para continuar produzindo aqueles itens que realmente usam ingredientes oriundos da exploração animal, cujos resíduos nas máquinas acabam “contaminando” os alimentos industrializados vegetarianos.

Apesar de não ser inaceitável consumir produtos veganos com traços, o ideal mesmo é que esses incômodos resquícios deixem de existir, por meio da abolição dos produtos não veganos e do seu uso de componentes antiéticos. Afinal, a defesa dos Direitos Animais está aí para acabar com o uso de animais como recursos.

Além disso, torço – e creio que você também – para que, no mais breve possível, tenhamos um mercado muito mais inclusivo para os alérgicos e que se livre, mesmo que paulatinamente, do uso de insumos de origem animal, dos testes em animais e do patrocínio de atividades especistas.

Isso falando-se especificamente do âmbito vegano-abolicionista, já que também precisamos exigir outras posturas éticas da indústria, como a eliminação da exploração trabalhista, o embargo às matérias-primas vindas de trabalho escravo e semiescravo e a assunção e cumprimento da responsabilidade socioambiental.

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