Navio Nada, de "carga viva"
Navio “Nada”, que tem feito o transporte de “carga viva” do Brasil para a Turquia. Foto: Renan Fiuza/G1

Uma atividade recém-retomada pelo Porto de Santos está revoltando muita gente.

Desde dezembro de 2017, o estabelecimento voltou, depois de muitos anos, a embarcar rebanhos de animais em navios de “carga viva”, para exportá-los de modo a serem abatidos e comidos em outros países.

Neste momento em que este artigo foi escrito, ativistas dos Direitos Animais, incluindo advogados, estão lutando para cancelar o embarque de dezenas de milhares de bois e a partida do navio de nome Nada. E desde dezembro há toda uma luta para que o porto em questão pare novamente de tratar animais como coisas a serem transportadas e mandadas embora para a morte.

Muitos não vegetarianos estão se perguntando: por que isso tem revoltado tando essas pessoas? E por que não defendem, por exemplo, a melhoria das condições do transporte dos animais, para eles não sofrerem mais ao serem levados de caminhão ao porto, embarcados e levados mar adiante?

Se você também tem essas dúvidas, encontrará as respostas aqui.

A razão da revolta dos defensores animais contra o transporte de “carga viva”

Protesto do VEDDAS em Santos
Protesto do pessoal do VEDDAS no Porto de Santos, contra o embarque dos bois no navio “Nada”. Foto: VEDDAS

A indignação e a luta constante deles contra o embarque dos bois em navios de “carga viva” se dá por um motivo de grande importância: o transporte é o momento mais cruel, ao lado do próprio abate, da criação de animais não humanos para consumo. É o ápice dos diversos absurdos da pecuária.

É nesses momentos que eles sofrem ainda mais do que em qualquer outro momento de suas vidas. Forçados a ficar em pé, não têm espaço para se deitar, sofrem um indescritível estresse – sinônimo de sofrimento e agonia para os animais não humanos – com a trepidação do caminhão ou o balanço do navio.

Ficam ali em meio às suas próprias fezes e urinas. Sofrem um calor abafado escorchante e têm pouquíssimo ar para respirar. Se em algum momento alguns deles vão ao chão, é muito mais pela exaustão física, porque não aguentam mais aquele horror, do que pelo deliberado desejo de descansar. Perdem vários quilos, tamanho o estresse que sofrem.

Muitos desses animais travam pesadas brigas, tamanho o estresse que estão sofrendo. Contraem feridas, que em nenhum momento são tratadas. E no final, parte dos animais não aguenta e morre no caminho.

No caso dos bois que estão sendo forçados a embarcar no navio Nada, eles foram trazidos do interior rural, obrigados a viajar centenas ou mesmo milhares de quilômetros em caminhões de “carga viva” até o Porto de Santos. Naquele navio haverá uma longa continuação, por pelo menos duas semanas, do inferno que estão vivendo até serem desembarcados em países como a Turquia e mortos por lá.

 

“E por que não defendem então reformas para melhorar o bem-estar desses animais?”

Bem-estarismo é uma farsa
Fazer reforma de “bem-estar animal” nos caminhões de transporte e no navio não iria livrar os animais de serem tratados como objetos. Foto: Certified Humane (editada)

A resposta a essa pergunta é que o problema não está simplesmente nas condições sob as quais eles vivem, mas sim no próprio ato de criá-los para consumo.

A criação animal, seja na pecuária, na aquicultura ou na criação de insetos, parte imprescindivelmente do pressuposto de que os animais não humanos “pertencem” aos seres humanos – ou, melhor dizendo, aos seus “proprietários” criadores. Estes arrogam para si a liberdade de usar e abusar desses animais, tratá-los como bem entenderem.

Nesse contexto, o transporte é apenas um dos muitos detalhes da violência à qual os “donos” de rebanhos submetem esses seres.

Tudo na pecuária é baseado em ações de agressão ao corpo dos animais: mutilações diversas (castração, descorna, debicagem, caudectomia, corte de dentes, corte de asas), marcação a ferro em brasa ou a temperatura extremamente fria, confinamento, condução com picanas (aparelhos de choque elétrico) e, finalmente, o transporte e o abate.

O “bem-estar animal” é apenas uma maneira de tornar tudo isso mais palatável à opinião pública e “cuidar melhor” da “matéria-prima” que estão “produzindo” e que levarão de navio para outro país.

Não é pelos animais, por sua libertação e dignidade, mas sim pelos interesses do pecuarista, da indústria lacto-frigorífica e granjeira e dos consumidores de produtos animais.

Se houvesse realmente reformas do tipo, os animais não deixariam de estar sendo tratados como coisas e levados para uma morte violenta e inaceitável. Não deixaria de estar caracterizada a exploração animal.

Pelo contrário, iria se assegurar a “qualidade” da carne de seus corpos para os seus futuros consumidores, e isso aumentaria ainda mais o número de animais dados à luz, explorados e abatidos.

E outra é que, como o embarque já está acontecendo, não há mais tempo para nenhuma tentativa de amenizar com bem-estarismo suas violentas condições. Reformas de “bem-estar animal” demoram semanas ou mesmo meses para serem implementadas.

O ideal seria que esses animais sequer existissem, já que foram dados à luz unicamente para serem explorados e abatidos e terem seus corpos retalhados em pedaços de carne, ossos, gordura, pele e outras partes que são consideradas “comercialmente aproveitáveis”.

Agora que infelizmente estão existindo pelos piores motivos possíveis, o menos ruim para eles seria descerem do navio, serem recolocados nos caminhões e devolvidos às fazendas de onde vieram. Os protestos pressionam para que isso aconteça e o Porto de Santos elimine para sempre o transporte de “carga viva” de seus serviços.

 

O que você, caso não seja vegan, tem a ver com isso

Diga não ao abate de animais
Foto: Robson Ramos (editada)

“E o que eu tenho a ver com essa desgraça toda?”, você talvez pergunte depois de solucionadas as outras dúvidas.

A resposta é que sua participação para que isso aconteça é por meio do financiamento da exploração animal, através da compra de carnes, leites, ovos e produtos diversos – alimentícios ou não – que contêm ingredientes de origem animal.

No momento em que paga por algum desses produtos, você está fomentando que o supermercado e o açougue continuem comprando produtos animais de grandes empresas lacto-frigoríficas e/ou direto dos pecuaristas.

Assim os “donos” de rebanhos continuam faturando com a coisificação, exploração e abate de animais, e vão perpetuando o seu “plantel” com mais inseminações de vacas “matrizes” e o nascimento e crescimento de mais animais. E nisso todo o ciclo de exploração permanece funcionando e prosperando.

E na perspectiva de aumentar ainda mais o seu negócio, começam a investir no mercado estrangeiro. E aí entra a questão do transporte de animais em navios.

A boa notícia nisso tudo é que você tem muito mais poder de ajudar a parar esse ciclo de geração de dinheiro à base de violência contra animais do que acredita.

O segredo é relativamente simples: parar de comprar produtos total ou parcialmente de origem animal e substituí-los por alternativas veganas, ou seja, que não possuem ingredientes obtidos de animais, nem são feitos por empresas envolvidas com testes em animais.

Quando o consumidor deixa de adquirir produtos não veganos, os supermercados faturam menos com a venda dos mesmos, e assim os compram cada vez menos dos exploradores de animais. Paralelamente, a indústria e o comércio de produtos veganos cresce e tende a substituir o de não veganos.

Assim declina o número de animais são dados à luz para serem explorados e precocemente assassinados em matadouros. E a pecuária se torna cada vez menos lucrativa, e passa a fazer cada vez menos sentido criar e matar animais para vender suas carnes, vísceras, leite, couro etc.

“E se o comércio local de animais acabar, não tem o risco de os pecuaristas começarem a exportar animais vivos, ou seus restos mortais, para substituir a antiga demanda nacional?” – talvez alguém pergunte.

Aí eu respondo: o veganismo é algo que está sendo progressivamente adotado em praticamente todos os países do mundo. À medida que o modo de vida vegano e a defesa dos Direitos Animais crescem nas nações que hoje recebem os navios de “carga viva”, a razão de esse tipo de exportação acontecer vai se perdendo.

Além disso, o ativismo defensor dos Direitos Animais, caso vença a batalha para que os portos brasileiros parem de exportar animais vivos, conseguirá fazer com que os pecuaristas brasileiros deixem de mandar seus rebanhos para o exterior. Sem clientes dentro do país e sem condições de conseguir em outros países, serão obrigados a reduzir suas atividades até fecharem as portas.

E enfim os animais “de consumo” pararão de nascer para uma vida tão breve e tão cheia de violências e privações.

 

Conclusão

Fora, navio "Nada"!
Ajude os defensores animais a fazerem o navio “Nada” não fazer mais nada contra os animais.

Agora que compreende um pouco do porquê de os ativistas dos Direitos Animais estarem combatendo a exportação de animais vivos e seu transporte em navios de “carga viva”, você poderá começar a ajudá-los a acabar com essa violenta realidade. Mesmo que simplesmente evitando alimentar a agroindústria da exploração animal boicotando produtos de origem animal.

Caso você ainda tenha dúvidas sobre por que não é correto criar animais para consumo, conheça mais a fundo as razões que fazem o veganismo e os Direitos Animais serem tão defendidos em todo o planeta.

Contribua para um mundo de paz para os animais – incluindo os próprios seres humanos. Conheça e considere o veganismo, e ajude a acabar com a razão de existir de atividades econômicas como a pecuária.

 

Referências

Você pode encontrar essas informações sobre o transporte de animais para o abate no documentário A Carne É Fraca, nesse artigo do site Veggo e no capítulo 2 do livro Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança.

2 comments

  1. Ainda tem mais: o ponto de vista ambiental.
    Por exemplo: 27 mil bois num navio, produzindo cada um 50 kg de excrementos por dia, durante 20 dias… Segundo o Ministro dos Transportes, Maurício Quintella, em 2017 o Brasil exportou mais de 400 mil bois vivos. E aí vem outra parte também: durante o transporte terrestre, em caminhões. Cada animal viajando em média 500 km … O que é feito com os dejetos?

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