Veganismo de não agressão e veganismo de libertação: qual é o seu tipo?

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Obs.: Se você acredita que existem mais de dois tipos de veganismo, incluindo um possível meio termo entre os dois mencionados aqui, comente como seriam esses terceiros tipos.

A maioria das pessoas não perceberam, mas existem dois tipos de veganismo pelos animais. E os dois têm uma clara distinção político-ideológica, atendendo a convicções e orientações políticas diferentes. Nisso, vale perguntar: de qual desses dois tipos o seu veganismo está mais próximo? Ele é realmente orientado à libertação animal? A quais interesses ele atende?

Este texto se refere ao veganismo de não agressão e ao veganismo de libertação, e ambos possuem características bem distintas, que no final das contas fazem toda a diferença no que se refere à contribuição do indivíduo vegano à causa dos Direitos Animais e também, conjuntamente com ela, às da libertação humana e da sustentabilidade.

 

Veganismo de não agressão

Esse tipo de veganismo é baseado na crença pessoal de que o indivíduo moralmente não deve compactuar com a exploração animal e o sofrimento que ela causa – em outras palavras, por uma convicção de não agressão. É um veganismo derivado das religiões de moral pró-vegetariana – budismo, jainismo, Igreja Adventista, Hare Krishna etc. –, e atende a códigos morais mais do que a princípios éticos libertários.

Pode vir ou não com a consciência de que o mundo seria melhor sem a exploração animal, mas a pessoa não opta por participar do ativismo vegano-abolicionista, a não ser quando é abordada por onívoros em dúvida sobre a alimentação vegetariana ou divulga um veganismo que foca mais a misericórdia pelos não humanos, a saúde e a paz de espírito pessoal do que os Direitos Animais.

Ideologicamente pode ser considerado uma posição de direita liberal e individualista. Isso porque o vegano está apenas se abstendo de participar do sistema de exploração animal e não faz questão de promover intervenções políticas para que esse sistema seja abolido.

Geralmente o veganismo de não agressão é motivado muito mais pela misericórdia e pela compaixão do que pela convicção ética de que a humanidade não tem o direito de tratar os animais não humanos como coisas sob sua posse. Daí a pessoa rejeita fazer aquilo que lhe parte o coração. E nele os benefícios pessoais – paz de espírito, saúde melhor, “boa forma”, acesso a um rico e diversificado mercado alimentício, prestígio perante determinados grupos de pessoas, socialização etc. – são tão apreciados que a pessoa passa a ter “orgulho de ser vegana”.

E esse orgulho é tamanho que, muitas vezes, fazem questão de comprar, por exemplo, colares e adesivos com o nome “Vegan”, de modo a ostentar seu veganismo e mostrar ao mundo como são compassivos para com os animais – muito embora essa compaixão termine no final das contas não servindo tanto para a libertação deles – e como seu estilo de vida é prazeroso.

Embora seja baseado centralmente em não agressão por compaixão, esse tipo de veganismo tem sim algum impacto na diminuição da exploração animal – o crescimento da população vegana, a potencial diminuição do número de onívoros e o consequente constrangimento da indústria dos produtos de origem animal. Mas é um impacto muito baixo e lento, já que o capitalismo dá recursos para as empresas compensarem a perda de clientes para o veganismo e o crescimento numérico dele está longe de ser suficiente para se contrapor ao crescimento também numérico da população onívora.

Esse é o “veganismo que pecuarista gosta”, aquele que é divulgado na mídia para os leigos. Cai bem para os exploradores de animais, porque vegans desse tipo não têm tanta iniciativa para intervir diretamente na realidade opressiva, e também porque o foco desse veganismo é o indivíduo vegano e suas emoções para com os animais, sendo assim algo não orientado à libertação animal. Também é aquele que os carnistas dizem ser o único veganismo a ser “respeitado” por eles, já que, por não implicar o engajamento ativista e a difusão do questionamento ético do consumo de produtos de origem animal, não os incomoda nem lhes ameaça a arrogada liberdade de “comer o que quiserem”.

Além disso, é muito afinado com o capitalismo, já que seus adeptos das classes da média para cima engrossam as fileiras do nicho de consumo de produtos veganos caros e os consomem com muita satisfação, sem muita preocupação com a exploração humana e ambiental por trás de tais itens de consumo. Não se importariam muito caso empresas muito conhecidas por promoverem exploração trabalhista e/ou crimes ambientais lançassem produtos veganos. Afinal, se não estão pagando pela exploração e morte de animais na pecuária e na pesca, já seria o bastante.

 

Veganismo de libertação, ou de abolição

Esse tipo de veganismo é o realmente abolicionista, baseado na ética dos Direitos Animais e ideologicamente guiado pela bandeira da libertação animal. Deriva da ética animal secular, e prioriza o respeito racionalizado, o princípio ético, a alteridade, ao invés do mero sentimento despolitizado da compaixão. Seus adeptos fazem toda questão de, cada um à sua maneira e numa frequência e regularidade que dependem dos talentos individuais, da sociabilidade e do tempo livre de cada pessoa, divulgar o veganismo com o fim de promover a abolição da exploração animal.

Politicamente é uma bandeira da esquerda libertária, associando-se direta e indiretamente com os Direitos Humanos, o socioambientalismo, o campesinato, a luta pela reforma/revolução agrária etc. Tem preocupação constante com o ativismo, em promover a conscientização ética de toda a sociedade, em fazer com que cada vez mais pessoas deixem de consumir produtos não veganos e a população não vegana diminua ao longo dos anos até zero.

Por ser um veganismo baseado na alteridade, no respeito racional e na posição política pró-libertação muito mais do que na misericórdia e nos ganhos individuais em saúde e limpeza de consciência, ele não inspira em seus adeptos o “orgulho de ser vegano”, tampouco a “necessidade” de ostentar perante a sociedade como são “pessoas legais” por terem determinado estilo de vida. Pelo contrário, os vegans abolicionistas são convictos de que, ao estarem boicotando produtos não veganos boicotáveis, estão fazendo apenas o mínimo pelos animais, e que é necessário muito mais do que um hábito de consumo para acabar com a exploração animal no planeta.

E o impacto do ativismo desses vegans tende a ser gigantemente maior do que o do veganismo de não agressão, já que promovem uma luta política, divulgam em alto e bom som (por) que não é ético consumir alimentos e outros produtos frutos de exploração animal, chamam para o veganismo um número muito maior de pessoas do que os vegans de não agressão e se esforçam em derrubar, de variadas maneiras, os interesses político-econômicos de grandes empresários dos setores lacto-frigorífico e granjeiro, de pecuaristas, de latifundiários e outras pessoas envolvidas com a exploração animal.

Esse tipo de veganismo é comumente boicotado pela mídia, que sequer admite sua existência, e tentativamente rechaçado pelos carnistas, que demonstram explícito incômodo com a perspectiva de, graças a ele, verem seu hábito alimentar ser considerado imoral e inaceitável num futuro não muito distante. Lhes é motivo de perturbação a atitude dos vegans de libertação de induzir cada vez mais gente a considerar antiética e inaceitável a perpetuação do consumo de produtos não veganos.

E os vegans adeptos dessa vertente tendem a apreciar menos a ideia do nicho de mercado vegano. Não lhes agrada a possibilidade de abdução da consciência vegana pelo capitalismo – pelo contrário, muitos deles têm consciência de que a libertação animal só vai ser possível quando for promovida em conjunto com a libertação humana e ambiental e, por tabela, com a abolição do capitalismo –, e tendem a boicotar aquelas empresas que são flagradas incidindo em crimes trabalhistas ou ambientais. Muitos deles, aliás, preferem não dar qualquer receita a quem quer usar o veganismo como mote capitalista, recorrendo a hábitos de consumo econômicos como o crudivorismo, o frugivorismo, a confecção de receitas artesanais de produtos de limpeza e higiene e o consumo prioritário ou exclusivo de alimentos orgânicos produzidos localmente.

Conhecendo-se os dois tipos de veganismo pelos animais, vale pensar: de qual desses dois tipos de veganismo você é adepto? Ou melhor, de qual dos dois suas posturas e atitudes são mais próximas, caso você não se identifique estritamente com um dos lados da dicotomia? E sobre qual deles você conversa com as pessoas? Ou melhor, você pratica e divulga um veganismo baseado mais em moral pessoal, misericórdia, compaixão e nicho de mercado, ou um baseado mais em ética, respeito com alteridade e luta pela libertação?

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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15 Comments on “Veganismo de não agressão e veganismo de libertação: qual é o seu tipo?

  1. Eu trocaria “libertação” por “abolição”.

    Me preocupa, se as pessoas começarem a usar em demasia mais essas duas definições, além das outras no meio vegetariano, que infelizmente existem, porém o conteúdo do texto está excelente e retrata uma verdade do meio vegano.

    Abraços.

  2. Por falar nisso, Robson, eu postei em alguns grupos no Facebook um assunto parecido, mas ninguém quis discutir. Talvez você poderia desenvolver algum artigo futuro sobre o tema. Refiro-me sobre esse veganismo elitista que discrimina as pessoas e dissemina estereótipos. Modelos de corpos ideais para mulheres e homens. Nessa concepção, o veganismo é apenas uma dieta. Aqui vai o uma pequena tradução e o link do artigo:

    «Muitas vezes, o veganismo é apresentado como um meio para alcançar tipos idealizados de corpos. Estes livros (sobre veganismo) são voltados, sobretudo a um público feminino (…) onde mulheres têm internalizado estas normas de gênero. Muitos destes livros perpetuam um privilégio fino, sizeismo (preconceito contra pessoas gordas) e estereótipos sobre [a] competição feminina por atenção masculina»

    http://thesocietypages.org/socimages/2014/05/08/the-sexual-politics-of-veganism/

    Um abraço e boa semana.

    • Na verdade isso é impossível no contexto de hoje. Mas posso dizer que os veganos de libertação têm uma preocupação em evitar mais empresas do que os de não agressão. Não tanto porque produzem produtos não veganos, mas sim por causa de outras violações que promovem, como ambientais e de Direitos Humanos.

      • Impossível em que sentído Robson? Em alguns contextos eu acredito que seja possível não consumir nenhum produto industrializado, logo, não se consumiria de nenhuma empresa (seja ou não uma empresa que se beneficía da exploraçao animal).

        • Lucas, é impossível no contexto de sociedade moderna industrializada. E quais seriam esses contextos nos quais seria possível não consumir nada industrializado?

  3. “Não agressão” passa a idéia de algo novo… Preferia “Não Violência”… Fica mais fácil de entender.. Tem mais referências… E bastante história.. :)

    • Amom, essa renomeação deixaria a entender que o veganismo de libertação é violento. E a não violência não é o foco do artigo.

      E peço que leia o texto pra realmente entender o que eu quero dizer por “veganismo de não agressão”.

      Abs

  4. Na minha perspectiva, a única distinção é a que há quem queira ser ativista e há quem não queira. Nem tudo é pra todo mundo, cada um contribui da forma que pode.

  5. Veganismo abolicionista! Gostei muito do texto, me fez pensar sobre essa história de “mercado vegano”, nunca tinha pensado que isso apenas separe do mercado onívoro, um ‘respeitando’ o espaço do outro… devemos respeitar a crueldade?
    Agora com relação a política ideológica eu já estou me distanciando da esquerdopatia (rs). O capitalismo é uma realidade sem saída, a esquerda e os direitos humanos são picaretas isso sim! Achei um pouco ingênuo e tendenciosinho essa parte. É bem mentalidade dos latinos (América Latina), atrasada. Outras localidades do mundo já viveram muito bem o terror de qualquer ideologia ao extremo, e o socialismo é distribuição de miséria. Vide a adaptação da China. Terrível, porém é a realidade. Abolicionista na direita, uma luta maior!

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