ONGs pragmáticas e veganismo nutella

O veganismo tem tido uma divisão cada vez mais evidente.

De um lado, o veganismo raiz, abolicionista por definição, motivado por uma convicção que mescla racionalidade ética e empatia, dotado do claro objetivo de erradicar o especismo do planeta.

Do outro, o “veganismo nutella”, que nada mais é do que um hábito de consumo parcialmente vegano de tendência bem-estarista, adotado sem uma noção muito nítida de Ética Animal, motivado centralmente por pena emocional de animais e tolerante a diversas formas de exploração animal.

Convido você a conhecer melhor essa tendência relativamente recente de desvio do veganismo e, também, descobrir como a expansão dela representa um notável risco para a bandeira da libertação animal.

O que diferencia o “veganismo nutella” do veganismo propriamente dito

campanha bem-estarista
Exemplo de campanha bem-estarista de ONG de “defesa animal pragmática”

Tradicionalmente o veganismo é um modo de vida adotado em defesa dos Direitos Animais e da extinção de todas as manifestações de especismo e formas de exploração animal. Ou seja, é uma prática abolicionista, que comumente passa não só pelo consumo seletivo, mas também pelo boicote completo, na medida do possível e praticável, a todas as atividades econômicas especistas, pelo ativismo em defesa da libertação animal e da expansão da população vegana e pelo ensino dos princípios éticos do veganismo.

Porém, de alguns anos para cá, determinadas ONGs de “defesa animal pragmática” de grande porte, como PETA, Mercy For Animals e Animal Equality, têm ganhado força e disseminado uma “versão de veganismo” mais controversa e desconectada de suas raízes éticas e políticas. Esse é o que eu chamo aqui de “veganismo nutella”.

Esse “novo” modo de vida consiste essencialmente num hábito de consumo seletivo, que foca em comprar e produzir produtos veganos – mas eventualmente aceita o consumo de produtos vegetarianos de empresas que testam em animais (página 19) – e evitar aqueles não vegetarianos, por uma motivação bem mais superficial e efêmera do que o veganismo tradicional.

Geralmente é adotado a partir de uma decisão emocional, de misericórdia – em outras palavras, por pena de animais em sofrimento -, depois do contato com materiais que promovem apelo à emoção, como vídeos de crueldades em granjas e fazendas industriais e fotos mostrando como certos animais são fofos – por exemplo, leitões que são mostrados como tão fofinhos quanto gatinhos – e amolecem o coração dos humanos quando vivem livres e felizes.

Como é algo influenciado por meios emocionais, geralmente o “veganismo nutella” é pobre em conhecimento de Ética Animal, ou seja, nos porquês racionais de os animais não humanos merecerem direitos e não deverem ser submetidos à dominação humana e nas razões filosóficas de o especismo ser um preconceito que precisa ser extinto.

Assim sendo, o “vegano nutella” fica bastante suscetível a apoiar iniciativas claramente bem-estaristas, como petições online “exigindo” que determinada grande corporação assuma um compromisso de obter matéria-prima animal apenas de criações que tenham adotado reformas e políticas institucionais de “bem-estar animal”. Isso mesmo que essa estratégia tenda a modernizar e fortalecer o mercado de produtos animais, ao invés de combatê-lo.

Além disso, é comum que utilizem para defender o fim das piores violências contra os animais um argumento também especista: o fato de que mamíferos, aves, peixes e crustáceos compartilham com os seres humanos diversas características de inteligência, como a socialização, o afeto, o reconhecimento de indivíduos, a memória e o desempenho de certos trabalhos.

Fazem isso mesmo havendo o risco de deixar a entender que:

  • O que motivaria essa misericórdia pelos animais seriam semelhanças entre os não humanos e os humanos, não a senciência e o desejo do animal de continuar vivo;
  • Seria “menos inaceitável” comer um inseto ou um camarão do que um mamífero ou uma ave pelos primeiros serem tidos como menos inteligentes e menos parecidos com o ser humano do que os últimos;
  • A defesa dos animais não precisaria desconstruir a visão de que há uma hierarquia moral “natural” que abrange, de baixo para cima, os animais não humanos menos inteligentes, os mais inteligentes e, no topo, os humanos.

Uma outra característica muito importante do “veganismo nutella” é seu foco quase absoluto nas violências da pecuária e da pesca. Reserva uma relevância apenas marginal, quando não inexistente, a outras formas de exploração animal, como os testes em animais, a experimentação animal científica, os entretenimentos especistas e as criações de insetos para consumo.

É possível dizer, até mesmo, que alguns dos “veganos nutella”, começando das ONGs que defendem esse hábito de consumo, ignoram essas violências, tratando-as como “menos importantes” do que as crueldades da pecuária industrial.

Tanto é que, como já foi dito, em diversas ocasiões, não hesitam em recomendar o consumo de alimentos industrializados vegetarianos produzidos por empresas que realizam testes em animais, como a Nestlé e a Unilever.

E não menos importante é a aceitação acrítica da ordem capitalista e megacorporativa por parte dessa tendência. Seus adeptos dificilmente defendem a luta contra o capitalismo e a derrubada dos princípios morais que sustentam ao mesmo tempo esse sistema socioeconômico e a moral especista.

O contrário é que tende a ser muito mais fácil: eles encorajam as grandes corporações, entre elas muitas diretamente associadas à pecuária, para que atualizem suas políticas de “responsabilidade socioambiental” de modo a assimilar o bem-estarismo.

Afinal, isso não só aplacará a indignação dos consumidores que sofrem ao ver vídeos de animais sendo torturados em criações industriais, como também irá alavancar os lucros dessas empresas.

Inclusive até recomendam enfaticamente o consumo de produtos de empresas que veem o consumo vegano não como um imperativo ético, mas sim apenas uma nova tendência de mercado a prometer altos lucros.

É raro que ONGs grandes do tipo defendam enfaticamente a economia solidária, a compra de produtos veganos de pequenos produtores, a agricultura orgânica e ecológica, hábitos de consumo alternativos que ajudem a pessoa a se libertar da dependência das grandes corporações e ter um modo de vida vegano cada vez menos capitalista.

No final das contas, a pessoa está defendendo reformas bem-estaristas que mantêm os animais sob exploração, dando dinheiro para grandes empresas, abstendo-se de questionar a ordem social, econômica e moral em que vive e assim conservando o status quo de hierarquias capitalistas e especistas. E pior, acredita piamente que está “mudando o mundo” (página 4).

Como o “veganismo nutella” pode estar ameaçando o avanço da luta pelos Direitos Animais

Vai banir gaiolas? Não me diga

Muitas pessoas acharam “altamente positiva” a disseminação de ONGs de misericórdia animal em países como o Brasil. Afinal, essa chegada viria aumentar exponencialmente a população vegana no país e assim trazer mais para perto o sonho da libertação animal. Mas será que isso foi mesmo uma vitória para a defesa dos Direitos Animais?

Ou será que a expansão do “veganismo nutella” defendido por essas entidades corre o risco de trazer uma contribuição negativa à qual poucos se atentaram ainda?

As evidências que eu mostro a seguir nos alertam que essa tendência tem a oferecer mais problemas do que avanços para a luta pela libertação animal nos países em que atua.

Em primeiro lugar, a atuação dessas ONGs está enfraquecendo e flexibilizando o conceito de “ser vegan”. Sob a bênção do “veganismo nutella”, o indivíduo não precisa mais defender energicamente a abolição de toda e qualquer forma de exploração animal, entender os fundamentos dos Direitos Animais, embandeirar o direito de não ser propriedade de humanos, se opor ao especismo e incorporar práticas ativistas em sua vida.

Basta que seja, ao invés, um assinante e divulgador de abaixo-assinados reformistas, um consumidor fomentador do mercado “vegano” e uma pessoa que sente pena de ver animais tão fofos, inteligentes e parecidos conosco sendo violentados por humanos maus.

Em segundo, essa tendência também tem amolecido aquilo que se percebe como “defesa dos animais pelos veganos”. O universo vegano está deixando de ser um grupo de pessoas convictamente contrárias ao especismo e defensoras da inegociável libertação dos animais de toda e qualquer forma de exploração e dominação por humanos.

Está se tornando, ao invés, uma categoria de pessoas que aceitam uma simples mudança na forma de explorar, objetificar e matar animais. A exigência de que a pecuária seja combatida está dando lugar a petições para que o mercado capitalista a influencie a adotar novos procedimentos que, longe de enfraquecê-la, irão renovar seu público-alvo, otimizar seu orçamento agroindustrial, trazer mais lucro e, portanto, aumentar o número de animais explorados e abatidos.

Em terceiro, está-se desencorajando que os veganos ensinem conceitos que à primeira vista parecem complexos, como o especismo, a senciência animal e por que o tratamento de animais como propriedade humana sempre é um problema.

Nesse contexto, dá-se lugar a métodos mais simplistas, emocionais e carentes de base racional e ético-filosófica, como mostrar animais sendo torturados em granjas industriais e vídeos de animais fofos e inteligentes.

Com isso, tende a diminuir o crescimento da população vegana abolicionista e aumentar o de uma população que se acha “vegana” porque tem pena de animais fofos – tal como pintava a caricatura antivegana que até então podíamos tachar como totalmente falsa -, odeia a maldade dos pecuaristas não bem-estaristas e consome determinado nicho de produtos.

E aqui entramos no último, mas não menos importante, problema: uma população que tem um laço tão frágil, baseado em emoções que podem ser ou não passageiras, com o consumo de produtos veganos e vegetarianos tende a abandoná-lo com muito mais facilidade do que veganos abolicionistas, que defendem os Direitos Animais e entendem mesmo basicamente a Ética Animal.

Afinal, à medida que as fazendas e granjas modificam e atualizam suas práticas de “manejo animal” e as grandes empresas se adaptam ao mercado tornando-se mais seletivas na escolha de seus fornecedores de matéria-prima animal, a maior parte dos argumentos defendidos por ONGs “pragmáticas” perderão todo, ou quase todo, o seu efeito.

E boa parte dos “veganos nutella” de hoje acabarão fatalmente abandonando esse hábito de consumo e substituindo-o pela compra e ingestão de alimentos de origem animal produzidos sob condições bem-estaristas, que “não torturam” animais “fofos e inteligentes”.

Considerações finais

pílulas difíceis de engolir - bem-estarismo
É difícil de engolir, mas ONGs de “defesa animal pragmática” são bem-estaristas e não combatem o especismo

É preciso ficarmos alerta em relação ao crescimento da famigerada tendência do “veganismo nutella” fomentada pelas grandes ONGs bem-estaristas e “pragmáticas”. Elas estão atrapalhando bastante, não ajudando, a luta pelos Direitos Animais, sobrepujando-a com crenças e práticas especistas e tornando “nutella” um público que, com a devida conscientização, poderia estar defendendo a libertação animal propriamente dita.

Sejamos mais céticos e questionadores perante a atuação dessas entidades, que poderá ter consequências nada favoráveis para a bandeira vegano-abolicionista. Deixemos claro que a luta pela libertação animal demanda o fim da pecuária, da pesca e de todas as demais formas de exploração animal e hierarquização moral, não sua aceitação, regulação e otimização.

Com isso, tornemos nossa luta pelos Direitos Animais e contra o especismo uma luta também contra as reivindicações e atitudes especistas defendidas e empreendidas pelas grandes ONGs de “defesa animal pragmática”.

4 comments

  1. Não concordo com sua crítica ao trabalho de certas ONGs, sou voluntária de uma delas, e me parece que você não entendeu bem o trabalho sério que estamos fazendo. Radicalidade total não será favorável à causa animal, na verdade eu acredito que atrapalha, a maioria das pessoas não virou vegano da noite pro dia.
    Está mal colocada a afirmação de que é aceito o consumo de produtos vegetarianos mas que testam em animais. A minha opinião: é uma crítica destrutiva, que não acrescenta, esse tipo de comportamento não agrega ou une o nosso propósito, repense ao escrever! O movimento precisa de união de forças e não rótulos e mais rótulos pejorativos.

    1. Maria, respeito que vc não concorde com alguns aspectos do texto, vc tem o direito de discordar. E lamento que você não esteja respeitando meu direito de discordar da postura dessas ONGs, sob o pretexto de que estou fazendo “crítica destrutiva” e promovendo “desunião”.

      Sobre a “não radicalidade”, eu deixo de compactuar com ela a partir do momento em que a moderação defendida se torna condescendência e flexibilidade a atos de violação dos Direitos Animais, como quando as ONGs “pragmáticas” defendem reformas bem-estaristas que perpetuam a exploração animal e alienam o veganismo de sua natureza filosófica e política, tornando-a um mero impulso emocional de pena de animais.

      E sobre os produtos de empresas que testam em animais, o texto tem o link de um guia vegetariano que sugere, na página 19, o consumo de guloseimas da Nestlé, muito conhecida por insistir nos seus testes em animais.

      E sobre essa dicotomia união X críticas, lamento por quem a usa pra tentar calar críticas internas do movimento vegano-animalista. Se não houver críticas do tipo, não demorará muito pro veganismo perder todo o seu sentido de existência. E algo que definitivamente não quero ver no futuro é “veganismo” ser definido como “uma dieta motivada por pena de animais e defesa do bem-estar animal”.

  2. Eu concordo com a crítica e não a achei destrutiva. O veganismo é um movimento pelos animais, pelo que justificar o consumo de produtos da Unilever como forma de tornar o veganismo “mais acessível” é desonestidade intelectual, tanto porque distancia-se do real objectivo do veganismo como por ser antropocentrista. Rejeitar a Unilever é praticável e como veganos devemos partilhar alternativas mais conscientes e, deste modo, mostrar que podemos continuar a comer o que gostamos sem que isso envolva sofrimento animal. Aceitar produtos vegetais da Unilever é atirar a toalha para o chão e ser conformista, sem contar que se está a cometer uma falha grave e oposta ao veganismo: hierarquizar a vida dos animais por valores, priorizando uns (os de consumo) em detrimento de outros (os usados em testes). O veganismo defende todos os animais equitativamente. Só isso faz com que apoiar uma empresa que testa em animais, só porque tem gelado sem leite e maionese sem ovos, seja uma contradição.

    A questão dos ovos também é outra que, particularmente, me irrita: primeiro, porque o veganismo não é sobre bem-estar animal e sim sobre acabar com a exploração em si; segundo, porque o consumo de ovos aumentará com essa política, já que as pessoas sentir-se-ão conscientemente mais aliviadas. Em suma, mais exploração. O bem-estarismo perpetua o que o veganismo pretende erradicar.

    Por último, só quero referir que não compreendo a comparação que alguns veganos bem-estaristas fazem entre empresas que exploram animais com supermercados, por causa dos supermercados também terem produtos de origem animal. O veganismo insere-se na medida do possível e é totalmente exequível boicotar empresas que exploram animais, contrariamente aos supermercados. Não faz sentido nenhum equiparar um com o outro.

    O veganismo é um princípio radical. Radical significa, basicamente, que pretende solucionar um problema pela raiz. O abolicionismo é radicalismo e é, quer queiramos quer não, a única solução. Pode parecer que atrapalha, mas existem umas coisas chamadas militância, sensibilização e conscientização que existem precisamente para explicar o porquê da abolição ser a única forma de libertação animal. Suavizar o abolicionismo com o bem-estarismo só ajuda seres humanos e não animais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*