Síndrome de Asperger, caça-palavras

Em 04/12/2017, em postagem no Consciencia.blog.br, me declarei um autista leve, com Síndrome de Asperger – e fiz uma descrição introdutória sobre algumas características de ser aspie.

Desde então, assumi uma postura de, de vez em quando, defender a causa da neurodiversidade e do combate ao capacitismo.

Como segundo passo nessa minha mais nova luta social, quero mostrar como o Asperger acaba aumentando a probabilidade de o indivíduo se tornar vegano e defensor dos Direitos Animais. Não é que todo aspie tenha a mesma propensão a se tornar vegan, mas sim que, dependendo de ter certos sinais dessa condição, ele acaba tendo uma maior tendência a considerar moralmente os animais não humanos.

7 características do Asperger que aproximam o indivíduo do veganismo e da defesa dos Direitos Animais

Descrição Síndrome de Asperger

Como aspie, tenho a propriedade de dizer que algumas das características que tenho associadas à Síndrome de Asperger facilitaram minha adesão ao vegetarianismo, ao veganismo e à luta pelos Direitos Animais por vias intelectuais a partir de 2007.

Tenho uma forte convicção de que pelo menos essas sete manifestações do Asperger proporcionaram essa propensão:

1. Empatia elevada

Ao contrário do que o senso comum acredita, o autismo muitas vezes faz com que a pessoa tenha ainda mais empatia, não menos, do que os neurotípicos.

No meu caso, tenho essa empatia muito forte desde pequeno: na infância, já tinha um vigoroso espírito ambientalista, chorava desesperadamente se alguma árvore perto de minha casa era derrubada, me opunha abertamente ao uso de espingarda de chumbinho por vizinhos meus para matar passarinhos e lagartixas, amava (e amo ainda mais hoje) a Natureza como poucos adultos na sociedade moderna.

Era apenas questão de conscientização e assimilação da ética animal para que, aos vinte anos, eu abandonasse de vez os alimentos de origem animal.

2. Hiperfoco em uma quantidade restrita de temas e áreas de conhecimento

Um dos meus hiperfocos, desde 2007, são os Direitos Animais, o veganismo e o vegetarianismo. Já naquele ano eu sonhava em escrever e publicar livros – e na época até me arrisquei em escrever uma ficção meia-boca, que acabei descartando -, sonho esse que tornei realidade dez anos depois.

Lembro que, nos primeiros anos em que eu tive contato com vegetarianos, veganos e defensores dos Direitos Animais, fui pouco a pouco me familiarizando com a causa, até que, em agosto de 2007, mergulhei de cabeça nela e a adotei como um poderoso hiperfoco já a partir de um dos primeiros artigos que escrevi.

Isso me faz acreditar que muitos aspies veganos de hoje ou futuros também têm ou terão a defesa dos animais e do modo de vida vegano como seu hiperfoco.

3. Gosto quase obsessivo por diálogos intelectuais e pouco ou nenhum apreço por conversas sobre amenidades

Aspies costumam dedicar suas conversas presenciais e online prioritariamente a temas de importância enorme para a sociedade, como questões filosóficas, debates políticos, problemas sociais, Astronomia, Engenharia e a Ética Animal.

Assim sendo, não é de surpreender se um aspie tem como um de seus hiperfocos a causa vegano-animalista e adora conversar sobre ela de maneira quase obsessiva. Nem se ele prefere mil vezes mais falar frequentemente desse tema do que, por exemplo, comentar sobre o novo namorado de fulana, as novidades daquela celebridade que venceu o reality-show mais recente ou a desastrosa campanha daquele time de futebol no Campeonato Brasileiro.

Aspie com orgulho
“Eu sou aspie e tenho orgulho disso!”

4. Gostos e preferências políticas considerados excêntricos

A partir do momento em que um aspie declara seu gosto por comida vegetariana (ou seja, livre de componentes de origem animal) e seu ativismo pelos Direitos Animais, ele integra o clube dos aspies considerados excêntricos pela sociedade.

Nada estranho para os aspies, considerando que o Asperger costuma fazer o indivíduo ter uma propensão bem maior a gostos e interesses heterodoxos, divergentes daquilo que é popular, tradicional e comum, do que os neurotípicos.

Até porque, nesse contexto, o que é considerado “normal” e comum em sociedades como a brasileira é comer bastante carne, ingerir muito laticínio (queijo, pizza, manteiga, iogurte, leite in natura etc.) e abraçar como temas da maioria das conversas fofocas sobre conhecidos ou celebridades, discussões políticas superficiais, futebol etc.

5. Tendência a ter uma inteligência privilegiada naqueles temas e habilidades que fazem parte de seus hiperfocos

Existe uma crença, no senso comum, de que aspies são pessoas dotadas de enorme inteligência. Isso muitas vezes é verdade, já que muitos aspies são de fato superdotados, mas é preciso perceber que, via de regra, esse poder intelectual ou essa habilidade laboral se dá concentradamente nos hiperfocos do aspie.

Por exemplo, ele pode ser privilegiadamente inteligente em se tratando de História, Teologia, Zoologia, Física e/ou Engenharia Civil, mas ter uma habilidade precária nas artes manuais, nos esportes, no teatro, em dar aulas ou na administração de empresas.

Com isso, existe uma chance relativamente elevada de, a qualquer momento, surgir um aspie poderosamente versado em escrever, gravar vídeos e/ou palestrar sobre Direitos Animais e veganismo. Será um felizardo ajudado por sua privilegiada inteligência hiperfocada e seu talento em pensar e discorrer sobre essa temática.

Aspie com orgulho, Siara Hughes
“Pois essa é minha vida com ‘Transtorno’ do Espectro Autista. O lado bom… e o ruim. Eu posso encarar desafios extras porque sou autista. Mas eu não teria outro jeito de lidar com isso. Simplesmente é como eu sou. Aspie com orgulho!

6. Tendência a fazer amizades ou iniciar namoro com pessoas que compartilhem de sua mesma visão de mundo e de interesses semelhantes (e dificuldade de se aproximar de quem tem posicionamentos muito diferentes)

Para muitos aspies, é muito difícil fazer amizades com aquelas pessoas com quem eles têm poucos gostos e interesses em comum. Por outro lado, é relativamente fácil e delicioso fazer e manter uma amizade duradoura, fiel e profunda com alguém que compartilha de grande parte dessas preferências com o aspie – desde que se mostre um amigo de verdade ao invés de um manipulador ou um mentiroso.

O mesmo tende a acontecer com parcerias amorosas: acredito que, no caso dos aspies, não são os opostos que se atraem, mas sim os muito parecidos. Afinal, muitos de nós temos dificuldades de nos aproximar de pessoas que têm traços de personalidade, posições políticas e gostos muito diferentes e conflitantes com os nossos e manter um relacionamento estável com elas, o que nos faz voltar a atenção a quem se parece muito conosco.

E o que isso tem a ver com o veganismo? A resposta é que o aspie vegano tem uma probabilidade bem maior de fazer grandes amigos veganos (neurotípicos ou neurodiversos) do que conseguir a amizade e a fidelidade de um comedor de carne e queijo inveterado que tem preconceito contra o veganismo.

Isso será muito importante para reforçar e solidificar sua condição de vegano, já que o contato próximo – e às vezes íntimo – com outros veganos lhe provê aprendizados superimportantes sobre seu modo de vida e a Ética Animal.

7. Maior probabilidade de entender a importância de uma luta sociopolítica libertária como a defesa dos Direitos Animais, tendo em vista sua vivência como membro de minoria política

Acredito que um aspie, como pertencente à minoria política dos neurodiversos, tem uma chance maior de compreender os porquês de lutar por direitos fundamentais, por consideração moral igualitária, por uma cultura de paz e empatia e pelo fim da separação da sociedade entre privilegiados e excluídos. Se for uma mulher aspie então, essa consciência muito provavelmente virá em dobro. Se for mulher negra aspie, será ainda maior – e assim por diante.

Essa consideração ética e política cava um atalho para a defesa dos Direitos Animais. Afinal, os animais não humanos também são um exemplo muito forte de categoria moralmente excluída, considerada “inferior”, explorada e submetida a violências absurdas apenas por não terem as características dos privilegiados do contexto – nesse caso, os seres humanos.

Como alguém que tende a entender melhor dessa necessidade de lutar contra tradições de exclusão, opressão, exploração e violência, o aspie poderá ter até uma certa facilidade de assimilar o ideal interseccional da libertação animal e humana em sua consciência e sua vida.

Considerações finais

Aspie e vegano, veganismo e Asperger

Escrevi esta lista de características que ligam o Asperger à propensão a se tornar vegano abolicionista me baseando em mim mesmo como exemplo. Apesar de não existirem dois aspies iguais no mundo, tenho a segurança de que há muitos outros autistas leves ao redor do planeta que compartilham pelo menos essas sete características comigo e, assim, têm uma chance elevada de entender e contribuir fundamentalmente para a causa animal/vegana tão logo tenham contato com ela.

Por meio deste artigo, também quero mostrar para você, caso seja uma pessoa neurotípica, que os aspies não são “deficientes mentais”, pessoas “menos capazes” de prover contribuições muito importantes para causas políticas como a defesa dos animais não humanos. Pelo contrário, em muitos casos nossa condição neurológica nos permite ir ainda mais longe do que muitos neurotípicos em se tratando de lutar pela libertação animal e colaborar para um mundo melhor.

Então, desejo e luto para que o preconceito contra aspies e autistas clássicos seja derrubado, e que autistas e neurotípicos trabalhem juntos e em pé de igualdade em prol de um futuro melhor para os animais não humanos e os seres humanos – em especial os que são de minorias políticas, como os neurodiversos.

2 comments

  1. Tenho síndrome de asperger, e sofro diariamente as consequências disso. Umas das coisas que mais tem me ajudo é a alimentação. Respondo muito positivamente a uma alimentação rica em produtos animais como carne gordurosa e vísceras. Por outro lado tem tenho efeitos adversos muito ruins com leguminosas e glúten. Com essa situação o veganismo, para mim, é praticamente uma sentença de morte.

    1. Ricardo, nesse caso é um transtorno/doença, não a Síndrome de Asperger, que lhe causa esse problema. Recomendo vc, caso queira se tornar vegano algum dia, a procurar algum especialista nesse transtorno que faz você ter reações adversas a leguminosas e supostamente depender de alimentos de origem animal.

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