
Editado em 22/12/2022
Aviso de conteúdo: Este artigo contém referências a discursos capacitistas contra autistas. Leia-o apenas se tiver segurança de que não sofrerá com gatilhos psicológicos.
No artigo anterior, em que denunciei o preconceito contra autistas no meio vegano, eu mencionei o livro Galactolatria: mau deleite, publicado em 2012 pela filósofa Sônia T. Felipe, como adepto e disseminador de argumentos antiautismo.
Essa obra, declarando ter o apoio de pesquisas médicas, argumenta que a beta-casomorfina, um peptídeo derivado da caseína, proteína do leite de vaca, poderia “agravar os sintomas” do autismo.
Além disso, repetidamente a condição é citada de maneira depreciativa e preconceituosa, como se fosse uma grave doença, ao invés de uma deficiência que faz parte da diversidade humana e possui tanto características neutras e positivas quanto negativas.
Num esforço em defesa da dignidade dos autistas e contra o capacitismo, publico este artigo respondendo, com o devido embasamento científico e ético, à lamentável abordagem feita pelo Galactolatria sobre (ou melhor, contra) o espectro autista.
O capacitismo do Galactolatria: patologização do autismo e desinformação
O preconceito contra o autismo – e, por tabela, contra autistas -, acompanhado de muita desinformação sobre a condição, aparece em várias partes do livro.
A primeira manifestação do discurso capacitista ocorre nas páginas 111 e 112, quando a autora diz que a zootecnista Temple Grandin seria “incapaz ela mesma, por sofrer (sic) de autismo, de sentir ou expressar emoções” – o que não é verdade, como mostro mais adiante.
Após algumas menções esparsas do autismo entre doenças diversas, as manifestações de capacitismo ganham força na página 171.
Nesse trecho, a antiga Síndrome de Asperger, hoje denominada autismo de nível 1 de suporte, é mencionada como se fosse uma condição distinta do autismo e é equiparada à violência juvenil.
Mas é nas páginas 181-184 que o teor antiautismo do livro pega ainda mais pesado. Uma lida nessas páginas nos revela que a autora, em sequência:
- chama o autismo de “doença neurológica e mental”;
- equipara-o à esquizofrenia, considerando ambos “doenças” agravadas pelo consumo de leite;
- apoia a dúvida de um dos autores que ela cita, Keith Woodford, sobre “se a betacaseína e o glúten causam as síndromes do autismo e da esquizofrenia ou apenas exacerbam seus sintomas”;
- Chama dietas sem laticínios e glúten, vastamente criticadas como carentes de comprovação científica tal como abordo mais adiante, de “terapia abolicionista”;
- Considera o autismo uma “doença neurológica” indicativa de “saúde mental pobre”;
- Chama mais uma vez o autismo de “doença neurológica”, e os autistas de “sofredores de autismo”;
- Refere-se a crianças autistas como “crianças sofrendo de autismo”;
- Diz que a bagagem genética dos autistas é “favorável ao surgimento (sic) de tais síndromes, analogamente ao que ocorre com o diabetes, as doenças vasculares e o câncer”;
- Afirma que “as doenças (sic) não se instalam a não ser quando o gatilho ambiental é acionado, nesse caso, o consumo de determinado alimento”, insinuando que o autismo teria uma origem externa.
Adiante, na página 186, a autora menciona “crianças com predisposição ao autismo”, em mais uma informação cientificamente incorreta sobre a natureza dessa neurodivergência.
E finalmente, entre as notas, a de número 475 descreve o autismo como se fosse uma aberração comportamental, e suas características fossem não manifestações de uma deficiência psicossocial, comunicacional e sensorial, mas sim sintomas patológicos que deveriam ser combatidos.
É bem possível que uma pessoa que não entenda de autismo e neurodiversidade [link afiliado], ao ler como o Galactolatria descreve a condição, comece a acreditar que o autismo é uma grave enfermidade, comparável a esquizofrenia, câncer, diabetes e delinquência juvenil.
Que ele seria causado ou teria seu start dado por fatores externos, em especial a ingestão de leite de vaca e derivados. Que faria seus “sofredores” terem comportamentos “bizarros” e não terem nenhuma capacidade de expressar emoções. Que seria “combatido” por uma “terapia abolicionista” baseada em alimentação vegetariana sem glúten.
Ou seja, o poderá ter uma noção completamente errada, cientificamente falando, e preconceituosa sobre os autistas e a natureza do autismo.
Pois em respeito tanto à comunidade autista quanto a quem leu o livro e acreditou no que ele fala sobre o espectro autista, respondo a seguir os argumentos antiautismo ali presentes.
Refutando as alegações do Galactolatria sobre autismo, beta-casomorfina e dietas sem laticínios e glúten

Uma séria falha nas citações do livro referentes à questão
Antes de partir para a refutação em si, preciso falar de algo que chamou minha atenção quanto às fontes da argumentação antiautismo usada pela autora.
Se você o leu e tentou checar as fontes, pode ter reparado que toda essa abordagem tem como fontes dois livros: Devil in the Milk: Illness, Health and Politics: A1 and A2 Milk (“O diabo no leite: doença, saúde e política: leites A1 e A2”, em tradução livre), de Keith Woodford, publicado em 2007; e Whitewash: The Disturbing Truth About Cow’s Milk and Your Health (“Lavagem branca: a perturbadora verdade sobre o leite de vaca e a sua saúde”), de Joseph Keon, publicado em 2010.
Todos os autores que a filósofa cita foram originalmente citados nesses dois livros. Ou seja, ela não revelou o título, autoria, ano de publicação, nome do periódico, URL para consulta etc. de nenhuma das pesquisas que corroboram com o posicionamento dela sobre o autismo.
Quem eventualmente deseja saber dessas informações acaba tendo que fazer um percurso relativamente complicado.
Precisa checar cada número de notas das informações, consultar as notas, depois procurar por Woodford e Keon nas referências bibliográficas e, finalmente, consultar seus livros no Google Livros (acesse lá o de Woodford e o de Keon), no qual nem todas as páginas sobre autismo estão disponíveis para visualização.
Isso acaba colocando um desnecessário obstáculo para os pesquisadores que querem conferir se os argumentos sobre o autismo são confiáveis ou foram respondidos por pesquisas posteriores.
Em se tratando de um livro que disponibiliza informações de teor científico, é um erro sério que dá a impressão de ele ter um embasamento fraco.
O que eu fiz, então, foi conferir os pontos centrais, como a suposta relação entre beta-casomorfina e autismo e a divulgação da dieta sem laticínios e sem glúten como “terapêutica”, e procurar fontes confiáveis que confirmassem ou rebatessem esses argumentos, como você poderá ler a seguir.
É comprovado mesmo que a beta-casomorfina “aciona” ou “agrava os sintomas” do autismo?
A teoria de que beta-casomorfina “agrava o autismo” é baseada numa mais abrangente, a da “síndrome do intestino permeável” (leaky gut syndrome, em inglês).
Essa suposta síndrome é caracterizada, segundo seus teorizadores, pela transmissão de toxinas e proteínas nocivas a partir do intestino à corrente sanguínea e subsequentemente ao sistema nervoso.
Não deve ser confundida com a hiperpermeabilidade intestinal, uma condição comprovada pela medicina que às vezes também é chamada de “intestino permeável” ou “poroso”.
É comumente tachada de mito ou carente de evidências por sites como o do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (versão arquivada), o da Sociedade Canadense de Pesquisa Intestinal, o CBHS Fund e o Abby Langer Nutrition.
E não só é considerada um mito pseudomedicinal, como também é frequentemente associada ao infame movimento antivacina, como o professor Steven Salzberg revelou ao site da Forbes.
Além disso, a teoria defendida pelo Galactolatria que associa beta-casomorfina, “síndrome do intestino permeável” e autismo recebe uma refutação de pouco mais de uma página num estudo de 2009 da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar.
Intitulado Review of the potential health impact of β-casomorphins and related peptides (“Revisão do impacto potencial à saúde das beta-casomorfinas e peptídeos relacionados”), ele explica (tradução minha):
[…] o conceito de “intestino permeável” atraiu muita atenção. Esse conceito também está frequentemente associado a outra causa hipotética, que é a vacinação. Por exemplo, houve preocupações sobre o papel potencial da vacina contra o sarampo-caxumba-rubéola (MMR) na causa do autismo. Essa teoria sugere que a vacina MMR produz enterocolite, causando ou aumentando um “intestino permeável”. Enquanto isso, estudos epidemiológicos falharam em mostrar uma associação entre a vacina MMR e o autismo.
O próprio conceito de “intestino permeável” foi alimentado em particular pela publicação de Cade et al. (2000), que se baseia no aumento de picos contendo peptídeos em amostras de urina de pacientes autistas e esquizofrênicos. No entanto, esses picos foram apenas parcialmente caracterizados. Além disso, a intervenção alimentar que aparentemente levou a melhorias foi a livre de glúten e caseína. No entanto, o conceito de “intestino permeável” recebeu apoio considerável e tornou-se a base de dietas que excluem glúten e caseína em pacientes com TEA.
Reichelt e Knivsberg (2003), que apresentaram um “modelo de autismo”, sugerem que os moduladores de captação de exorfinas e serotonina são mediadores-chave no desenvolvimento do autismo. Eles especularam que isso se deve a uma deficiência de peptidase geneticamente baseada em pelo menos duas ou mais peptidases e/ou proteínas reguladoras da peptidase.
Desde então, porém, esse modelo tem sido questionado por muitos autores. Em estudos subsequentes usando métodos analíticos mais sensíveis e específicos baseados em LC/MS, os peptídeos não puderam ser detectados. Hunter et al. (2003) tentaram confirmar a presença de peptídeos opioides na urina de crianças autistas e determinar se a dipeptidil-peptidase-IV é defeituosa em crianças autistas. No entanto, eles não foram capazes de detectar peptídeos opioides nem encontraram nenhuma prova de deficiência de dipeptidil-peptidase-IV nessas crianças.
Recentemente, Cass et al. (2008), usando o MALDI-TOF MS para analisar peptídeos derivados de opioides, concluíram que não havia evidências de peptidúria opioide em crianças autistas. Eles afirmam que “peptídeos opioides não podem servir como um marcador biomédico para o autismo, nem podem ser empregados para prever ou monitorar a resposta a uma dieta sem caseína e sem glúten”.
Christison e Ivany (2006) revisaram as dietas de eliminação de glúten e caseína, concluindo que os dados atualmente disponíveis são inadequados para orientar as recomendações de tratamento e que as dietas que eliminam glúten e caseína (em vez de isoladamente) devem ser estudadas primeiro e as medidas de resultado devem incluir avaliações da cognição não verbal.
Dettmer et al. (2007) também não foram capazes de detectar gliadinomorfina, BCMs, deltorfina-1 ou deltorfina-2 na urina de crianças com TEA. Uma recente revisão da Chochrane (Millward et al., 2008) também concluiu que, apesar das altas taxas de uso de terapias complementares e alternativas (CAM) para crianças autistas, incluindo dietas com exclusão de glúten e/ou caseína, as evidências atuais da eficácia dessas dietas são fracas. Em conclusão, dados recentes não fornecem nenhum suporte para vincular a ingestão de caseína ou peptídeos derivados dela ao TEA.
O relatório da entidade conclui:
Com base na presente revisão da literatura científica disponível, não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre a ingestão oral de BCM7 (beta-casomorfina-7) ou peptídeos relacionados e a etiologia ou o curso de qualquer doença (sic) não transmissível sugerida.
Ou seja, a teoria de Woodford e Keon que a autora usa como fonte não é apoiada pela comunidade científica. É considerada, no mínimo, carente de evidências suficientes.
A dieta livre de laticínios e glúten pode mesmo “melhorar os sintomas” da condição?
Outra teoria que a ciência não apoia tão efusivamente quanto o livro é a de que dietas que cortam os laticínios e o glúten poderiam ajudar a “melhorar os sintomas” do autismo.
O que a autora chama de “terapia abolicionista” é considerado carente de evidências e baseado em pesquisas com sérias falhas metodológicas.
Como falei no artigo sobre preconceito contra autistas no meio vegano, artigos como os seguintes atestam que essa alegação não tem comprovação sólida:
- Management of Children With Autism Spectrum Disorders (2007, reafirmada em 2010 e 2014);
- Elimination Diets in Autism Spectrum Disorders: Any Wheat Amidst the Chaff? (2006);
- Evidence of the gluten-free and casein-free diet in autism spectrum disorders: a systematic review (2014);
- Gluten- and casein-free diet and autism spectrum disorders in children: a systematic review (2018).
Outras refutações
Outras três afirmações falsas sobre o autismo presentes no Galactolatria precisam ser respondidas:
1. Temple Grandin é mesmo incapaz de manifestar emoções por ser autista?
Não. Grandin afirma, em uma entrevista concedida ao Globo Repórter em 2010, que pode sim sentir emoções, ainda que simples, como raiva, tristeza, alegria e medo.
Além disso, quando o livro diz que Grandin seria “incapaz” de ter emoções por “sofrer de autismo”, insinua que nenhum autista, em virtude de sua neurodivergência, seria capaz de manifestar sentimentos.
Isso também é falso. Afinal existem desde os autistas com capacidade reduzida de expressá-los, como Grandin, até os que sentem emoções demasiadamente, passando pelos que possuem expressividade emocional semelhante à dos neurotípicos.
2. O autismo pode ser causado ou “acionado” por algum fator externo?
Essa alegação, insinuada na página 182, também contradiz a ciência, que diz que a condição é essencialmente genética e, na maioria dos casos, hereditária, segundo esse artigo de Gupta e State de 2006.
3. Crianças não nasceriam autistas, mas sim “predispostas ao autismo”?
Essa é outra alegação falsa, presente na página 186. Autistas nascem, crescem e morrem autistas. Muitos manifestam sinais da condição já nos primeiros meses de vida, quando ainda estão exclusiva ou predominantemente amamentando – portanto, não consumindo leite de vaca.
Aliás, o argumento de que crianças que nascem sem autismo “viram” autistas por causas externas é constrangedoramente comum com o argumento largamente refutado de que vacinas fariam crianças originalmente neurotípicas “pegarem autismo”.
A abordagem igualmente lamentável de Woodford e Keon sobre o autismo

Os dois livros que servem de fonte para a aversão ao autismo manifestado no Galactolatria são igualmente intolerantes e desinformativos, conforme podemos descobrir no Google Livros.
O livro Devil in the Milk comete vários atos capacitistas, sendo alguns deles:
- Abordar o autismo como se fosse uma doença;
- Chamar o autismo, juntamente com a esquizofrenia, de “nova doença” (página 125);
- Chamar autista de “sofredores de autismo” (autism sufferers) (p. 129 e 130);
- Usar um relato de um pai de autista que patologiza a condição do filho e diz que, “a partir dos 18 meses, ele começou a desaparecer diante de nós”, como se o autismo tivesse “destruído” uma criança até então neurotípica (p. 132).
Para além dessa obra, Woodford demonstra ter uma visão bem intolerante sobre a condição numa entrevista dada em 2009 ao Acres U.S.A.:
- Coloca o autismo num balaio de doenças no qual estão diabetes e doenças cardíacas;
- Concorda sutilmente quando o entrevistador diz que a quantidade de pessoas autistas “está subindo, subindo, subindo, ninguém sabe o porquê e os pais estão loucos de preocupação”;
- Chama a condição de doença repetidas vezes, inclusive descrevendo-a como “uma doença muito complexa”;
- Fala que a betacaseína A1 “torna a doença (sic) muito pior”;
- Insulta com capacitismo crianças autistas que bebem leite comum, ao relatar que tinha “exemplos aqui na Nova Zelândia de crianças autistas que podem beber leite A2, mas comportamentalmente se tornam totalmente estúpidas ao ingerir leite comum”.
O livro de Keon, Whitewash, rico em conteúdo antiautismo e antivacina, traz outros absurdos sobre a condição, como:
- Diz que o leite de vaca tem um papel na “ocorrência do autismo em certas crianças” (p. 8);
- Dizer ter “histórias animadoras de pais que reverteram com sucesso a condição dos seus filhos com mudanças na alimentação”, defendendo assim a infame e charlatã “cura do autismo” (p. 8);
- Utiliza o relato de mães que teriam “curado” o autismo dos filhos com uma alimentação livre de laticínios e de glúten (p. 127 e 129);
- Chama o autismo de “condição devastadora” (p. 128);
- Usa como uma das suas referências um hoje revogado protocolo antiautismo charlatão chamado Defeat Autism Now! (“Derrote o autismo já!”), cujos adeptos acreditavam que vacinas causam autismo e promoviam falsas e prejudiciais “curas” a crianças autistas, como a quelação e o uso de oxigênio hiperbárico (p. 130 e 273);
- Usa a falsa tese de que o aumento das estatísticas de pessoas diagnosticadas como autistas se deveria a uma “epidemia” de autismo e não teria suas razões conhecidas (p. 122);
- Diz que o autismo representa um “ônus econômico” para os pais de autistas e a economia dos Estados Unidos como um todo, insinuando que os autistas seriam um duro fardo para sua família e seu país (p. 123) – uma opinião com a qual o regime nazista alemão concordava sobre as pessoas com deficiência em geral;
- Diz que uma teoria de que o autismo seria causado por vacinas e alimentação é a que tem “o maior número de evidências científicas em seu apoio”, alegação totalmente falsa (p. 123);
- Apoia o famigerado estudo fraudulento do hoje ex-médico Andrew Wakefield, aquele que dizia que a vacina MMR “causa autismo” e originou a rápida disseminação do movimento antivacina pelo mundo, como uma de suas fontes (p. 130);
- Diz que pais de autistas “perderam seus filhos para um mundo interno misterioso” (p. 127);
- Dedica várias páginas ao endosso das mentiras do movimento antivacina, entre elas as de que vacinas e metais pesados causariam o autismo (p. 129-133).
Em outras palavras, o Galactolatria usa como autores de referência dois indivíduos cruelmente capacitistas, que consideram o autismo uma “séria” e “devastadora” “doença” e um dos quais é assumidamente antivacina e defensor de tratamentos fraudulentos para a “cura” do autismo.
Conclusão
Lamento sinceramente que o livro aqui respondido tenha usado um recurso tão antiético e preconceituoso como a patologização e demonização do autismo com o intuito de combater a exploração e abate de vacas “leiteiras” e seus filhotes.
Também repudio que ele tenha chegado ao ponto de utilizar com uma de suas principais fontes um livro repleto de conteúdo contrário à vacinação e apoiador do charlatanismo antiautismo.
Também fico triste, e me sinto desrespeitado como autista, ao ver que há pessoas veganas disseminando argumentos que insinuam que o veganismo e o vegetarianismo não servem apenas para libertar os animais.
Que serviriam também para nos “consertar” e “normalizar”, tornando este mundo cada vez mais neurotípico e “livre” do nosso jeito de ser e nossas potenciais contribuições como autistas.
Além disso, me preocupa ver conteúdos como o desse livro disseminando informações carentes de evidências confiáveis ou comprovadamente falsas. Já não bastava Gary Yourofsky e a sua falácia do “ser humano biologicamente herbívoro”.
Espero de coração que, ao longo dos próximos anos, o discurso de ódio capacitista seja combatido, desconstruído e desencorajado no meio vegano, assim como o veganismo popular já repreende o racismo, a misoginia, a LGBTfobia, a xenofobia, a aporofobia e outros preconceitos.
Que paremos de dar de cara com pessoas que não nos aceitam do jeito que somos e tentam usar o veganismo, algo que deveria ser sempre pela ética e contra a opressão e a inferiorização do outro, para “corrigir” os nossos cérebros que, para elas, são “defeituosos” e “doentes”.
Que, ao invés de nos tratarem mal, os veganos neurotípicos passem a nos aceitar e respeitar integralmente com o nosso jeitinho de ser, nos acolher, entender nossas necessidades específicas, nos incluir.
Espero que, com a incorporação da bandeira da neurodiversidade ao veganismo popular, o movimento vegano-libertacionista se torne cada vez mais ético e pare de promover preconceito, discriminação e opressão contra humanos na tentativa de libertar os animais.
6 comments
Adorei a sua resenha, eu sou vegana e queria ler o livro, mas perdi o interesse totalmente já! Uma pena essa abordagem em um livro que diz trabalhar com a ciência /:
Estava pesquisando sobre o livro e após a leitura de sua resenha perdi o interesse. Obrigada pelos esclarecimentos ❤️
Obrigado, Simone e Barbara :)
Comentário capacitista e defensor de terapias ineficazes removido. Aliás, a pessoa que o escreveu parece não ter lido o artigo com a atenção devida a ponto de perceber todo o trabalho de fact-checking feito durante sua elaboração. RFS
Espero que:
1)Essas críticas não invalidem o livro como um todo nem deem argumentos a carnistas para validar o consumo de laticínios.
2)A autora leia essas críticas e faça um “pronunciamento à nação”. Avisei-a hoje da existência deste artigo.
Não invalidam, apesar de tornarem o livro suspeito por trazer informações falsas (não bastasse a de que o corante caramelo seria originado do leite). E agradeço por avisar a autora, mesmo ela já tendo me bloqueado por causa de denúncia anterior sobre o capacitismo do livro dela.