
Com a atual epidemia de febre amarela no Brasil e a população indo atrás de vacinas, muitas pessoas iniciantes ou em transição ao veganismo se perguntam: como um vegano lida com medicamentos e vacinas?
Uma vez que vacinas são feitas usando-se ovos de galinha e tanto elas quanto os medicamentos são testados em animais, aparece aquela dúvida: como a ética vegana encara a necessidade de se medicar e se vacinar em situações de iminência de sofrimento ou risco à vida? Como uma situação específica a ser tolerada ou como uma violação?
Conheça neste artigo a ansiada resposta a essas dúvidas que, para muitos, acaba soando como um sério dilema a deixar muitos veganos entre a cruz e a espada.
O veganismo é vivido na medida do possível e praticável

A quem está aflito com essa questão, trago a resposta: não, não é considerado uma violação da ética vegana consumir remédios e vacinas.
Aí você se pergunta: mas por quê, se ambos dependem de um cruel uso de animais para serem viabilizados hoje em dia?
É preciso esclarecer aqui que o veganismo, desde sua mais básica definição, dada pela Vegan Society (a primeira entidade vegana do mundo), é vivido na medida do possível e praticável. Ou seja, se evitar determinado produto está além de suas possibilidades humanas ou individuais, usá-lo por uma necessidade muito forte não viola a ética animal, já que a atitude oposta é inviável e qualquer tentativa de assumi-la e defendê-la é prejudicial para a causa vegana.
É uma das situações em que o veganismo admite exceções. Também é o caso, por exemplo, de:
- Consumir produtos que recebem algum componente de origem animal ou são testados em animais mas não possuem uma alternativa vegana no momento, como combustíveis (testados em animais), os próprios medicamentos, os pneus (que geralmente levam ácido esteárico, de origem animal) e cremes dentais em muitas cidades;
- Consumir produtos que indiretamente acarretam exploração e/ou morte de animais, por ter, por exemplo, os seus efeitos à saúde testados em animais – como é o caso de praticamente todos os alimentos, a exemplo do tomate, da banana, dos chás de Camelia sinensis, de ervas medicinais, do arroz, do feijão carioca;
- Usar transporte público sobre pneus e andar de carona no carro de outra pessoa;
- Usufruir de eletricidade de usinas cujas turbinas fatalmente matam peixes ou cuja poluição atmosférica intoxica animais.
O veganismo não se propõe a ser uma solução para toda e qualquer forma de exploração animal, mas sim para aqueles itens de consumo e costumes (entretenimento, transporte etc.) que podem ser evitados e substituídos.
Como fazer então para combater a exploração animal nas pesquisas científicas

Essas limitações do veganismo não querem dizer que nós veganos somos obrigados a nos resignar a aceitar o uso e a morte de animais nesses contextos. Pelo contrário, nos incentiva a sermos mais do que apenas adeptos do hábito de consumo vegano: para que sejamos defensores ativos dos Direitos Animais.
Podemos defender os animais “de laboratório” de maneiras que transcendem o boicote vegano. É possível, a depender de sua habilidade, formação universitária e área de interesse profissional, você:
- Fazer manifestações e panfletagens nas ruas contra o uso de animais em pesquisas científicas;
- Escrever livros e artigos acadêmicos sobre Bioética que considerem plenamente os Direitos Animais, não simplesmente o “bem-estar animal”, nas práticas científicas;
- Desenvolver métodos de pesquisa científica e teste de produtos que dispensem o uso de animais e substituam os métodos que os exploram;
- Organizar e/ou participar de eventos que debatam, sob o ponto de vista da Ética Animal, a exploração animal em pesquisas científicas e na indústria;
- Apoiar ou participar ativamente de entidades confiáveis de Direitos Animais que incentivem e premiem pesquisadores e laboratórios que desenvolvam métodos substitutivos de pesquisa e experimentação científica bem-sucedidos;
- Pedir objeção de consciência para se eximir de qualquer obrigação de se matricular em disciplinas que fomentem ou pratiquem exploração animal em seu curso universitário.
Conclusão

O veganismo lida com a necessidade de consumir remédios e tomar vacinas com tolerância. Afinal, está além dos limites desse modo de vida, quando ele é adotado sem ativismo abolicionista, enfrentar o uso de animais em laboratórios.
Além disso, é muito melhor um vegano continuar vivo medicado e vacinado do que morrer dolorosamente de uma doença que poderia ser prevenida com vacinação e/ou curada com medicamentos.
Também é mais preferível vegans aceitando essa exceção – e defendendo animais “de pesquisa” por maneiras alternativas – do que morrendo e “inspirando”, na imprensa, notícias sensacionalistas e queimadoras de filme sobre vegans que morrem e ajudam a espalhar epidemias por boicotar a medicina.
Com essa dúvida respondida, agora você pode ficar com a consciência mais leve e seguro de que já faz o possível e praticável pelos direitos dos animais não humanos. E pode também responder à altura os antiveganos que vierem desmerecer seu veganismo por causa dessas situações excepcionais.






19 comments
Precisamos de mais médicos, cientistas e farmacêuticos veganos (ou minimamente sensíveis à causa animal) que ajudem a revolucionar o universo dos medicamentos e das vacinas. Li que nos Estados Unidos já há vacinas sem ingredientes de origem animal: pode não ser verdade, há mais mentiras e inverdades na Internet do que propriamente factos, mas se for real é um avanço positivo :)
Seu desejo foi atendido!! VEGAN PHARMA chegou no Brasil para revolucionar o mercado farmacêutico.
Se o veganismo é contra o teste de animais em laboratórios, o que vocês propoem? Não vejo nenhuma outra forma de se testar um medicamento a não ser essa… e mesmo que exista, ela seria tão precisa quanto? A falta de precisão de um teste de um medicamento pode fazer com que ele não tenha uma funcionalidade desejada e na pior das hipóteses essa disfuncionalidade pode matar uma pessoa…
Caio, essa pergunta só pesquisadores envolvidos no desenvolvimento de métodos substitutivos de pesquisa científica podem responder. Aos veganos, cabe apoiar o trabalho dessas pessoas.
Caio quando você tá com sede ou fome você manda outra pessoa beber ou comer por você?! Os animais não pedem para serem vacinados ou participar de testes!
Fora que também penso: até que ponto temos que sacrificar os animais para nos mantermos vivos? Sacrificamos umas espécies para a vida eterna humana, é tudo muito estranho e passíveis de reflexão, eu acho
Mesmo os testes feitos em animais não indicam que o medicamento vai ter a mesma reação e/ou efeitos colaterais num ser humano, temos organismos diferentes.
A solução ideal seria utilizar tecidos e órgãos sintéticos, o mais próximo possível de um real. Ou usar células tronco para “construir” um órgão. Ou alguma outra forma que a ciência vai descobrir.
Num cenário mais próximo da realidade atual, fazer testes controlados com volúntarios também é uma opção. Em vários países pessoas recebem dinheiro para participar desses testes e assim os efeitos do medicamento são observados de forma melhor.
Oi, Daniel, os testes controlados com voluntários já ocorrem. São os ensaios clínicos, realizados depois que o remédio é aprovado na fase pré-clínica (a que envolve exploração animal).
Daniel, isso é sério? Cobaias humanas? Pessoas que – em sua maioria – vem de países pobres e se submetem a isso para ter o que comer e o mínimo de recursos para se sustentar… Como se pode ter compaixão por um ratinho de laboratório e não demonstrar a mesma compaixão por um semelhante à sua espécia em situação de vulnerabilidade social? Que discurso elitista…
Por isso, coloquei como resposta que as indústrias farmacêuticas não vão querer formalizar isso. Então sem saber que são pessoas em situação de vulnerabilidade social que se submetem a isso, acabei acertando: não vão querer formalizar, vão continuar a exploração, ora de animais ora de humanos, Senhor
Mas será que a indústria farmacêutica vai querer formalizar essa prática? Digo, porque viraria uma profissão, acho eu, de pessoas como cobaias pra vacinas. Aos animais, não precisam pagar, né? Tomara que esse seja o futuro e não mais o sacrifício de animais!
Numa ética, não existem exceções. Ou é, ou não é. Se é na medida do possível, não é. Logo, a ética é contraditória e artificial, sem valor moral algum.
Já que ética não admite exceções, vc não faz exceção a comer animais e come carne de cães e gatos?
Muito explicativo esse post.
Não sou vegetariana e muito menos vegana.
Mas tenho amigos e conhecidos que são.
E devido a alguns canais no YouTube e páginas no Instagram, comecei a ver um lado diferente e conhecer mais a luta pela causa.
Aos poucos estou reduzindo meu consumo de origem animal.
E acredito que tudo é questão de escolha, os vegans não podem controlar ou mudar tudo e tbm não serão irresponsáveis.
Amei. Aprendi bastante
Sou transplantada de rim a 12 anos e estou desejando por amor e respeito aos animais me tornar vegana. Porém me peguei nesse dilema com relação aos medicamentos que faço e farei uso pelo resto da vida. E minha dúvida era essa, se podia ser vegana mesmo tomando medicamentos.
Fico feliz de ter tirado essa dúvida sua. =)
Pois é, a história de Sócrates que tomou cicuta para não ir contra os seus princípios, não se aplica o veganismo, rsrsrs. Como toda filosofia humana o veganismo é só mais uma, tendo em vista que os testes para medicamentos feitos em animais são terrivelmente cruéis. No final, o instinto de sobrevivência acaba falando mais alto. Eu já não curtia o veganismo desde que vi o programa troca de esposas da Record, pois a família vegana não respeitou o espaço e as idéias da mãe substituta. Ao contrário da família não vegana, que respeitou o veganismo com todo o carinho enquanto a mãe vegana esteve lá. Mas é isso aí, nós humanos somos todos farinha do mesmo saco.! Abraço a todos!
Muito conveniente proteger os animais contanto que. Se é para escolher entre o animal e eu… Afff…
Não entendi sua colocação. Qual seria a sua posição em relação a medicamentos e vacinas?